quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

Auster e o Imaginário na Literatura



O Quarto 666 de Win Wenders. Godard em depoimento.

Deixei o último post de 2008 para o autor que é um dos que mais me influencia na maneira de pensar a literatura, ao Paul Auster. A literatura de Auster não tem a proposta de reparar a realidade impossível e não é o autor que irá compensar essa perda. A narrativa não lamenta, não chora o mundo que o autor gostaria que existisse e nem idealiza o melhor dos tempos perdidos. A metáfora não é para mostrar ao mundo o quanto a humanidade anda perdida, mas sim para perder o leitor na forma como o autor escolhe o acaso para passar com seus personagens no imaginário que encontra no cinema, na literatura, no pensamento uma forma de refletir a condição humana.

“O mínimo possível. Fico melhor se reservo meu pensamento e minha memória para o dia. Na maior parte do tempo, à noite, fico narrando uma história para mim mesmo. É isso que eu faço quando não consigo dormir. Fico deitado no escuro e conto histórias para mim mesmo.”
(p.153)

“O real e o imaginário são um só. Pensamentos são reais, mesmo os pensamentos sobre coisas irreais. Estrelas invisíveis, céu invisível. (...) Toque em mim, alguém, toque em mim. Ponha a mão no meu rosto e fale comigo...”
(p.162)

domingo, 21 de dezembro de 2008

Alguém invade o sonho sem bater à porta



Grandes órgão do amor humano pelo mar, com seu movimento inteiramente abstrato precipitando-se na cidade, pelo sol de meia-noite abrindo, ainda que apenas num casebre.....
André Breton




Esse amor, nada me impedirá de persistir em ver nele a verdadeira panacéia, por mais combatida que ela seja, depreciada e escarnecida com fins religiosos e outros.
André Breton

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

A Câmera que olha a vida





Sequência do Détective de Jean-Luc Godard

"O limite ou o interstício, o corte irracional passam eminentemente entre a imagem visual e a imagem sonora." G. Deleuze
Será que o tempo dos livros teóricos sobre cinema voltarão? Godard o que pensaria em ver as imagens lidas e escritas em outras línguas?
Novamente Deleuze: "Godard gosta de lembrar que, quando os futuros autores da nouvelle vague escreviam, não escreviam sobre o cinema, não faziam uma teoria dele - era, já, a sua maneira de fazerem filmes."
O céu fabricado pela filosofia existe para povoar a imagem: um cinema de conceitos que todos vêem de vários ângulos, por isso prefiro o vinho com o cinema, a música, a letra, as legandas em muitos idiomas e a impureza do signo. As pernas olham o dia, os olhos olham para dentro do quarto uma outra imagem.

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

O amor segundo Charles Baudelaire- A uma passante
















Capa de Danni Calixto




Reescandalizar Baudelaire,
ou como ser fielmente infiel


Esta tradução é uma homenagem e um diálogo com três
dos maiores e mais consagrados tradutores brasileiros de Charles Baudelaire: Jamil Almansur Haddad, Ivan Junqueira e Guilherme de Almeida. Os dois primeiros traduziram a totalidade de As Flores do Mal. O poeta Guilherme de Almeida escolheu as suas flores entre as Flores. Por que recomeçar o que outros já fizeram com talento e rigor? Antes de tudo, por paixão. O Baudelaire de Haddad aparece vertido na precisão da métrica e do ritmo, mas o tempo o “academicizou”. O poeta que escandalizou seu tempo, cuja obra, do ponto de vista vocabular, na língua de origem, mantém-se praticamente intemporal, o que lhe dá uma extraordinária sensação de atualidade, no português de Haddad tem a marca, possivelmente, dos anos 1950. (...)
Os critérios aqui são, exclusivamente, a paixão e o caos. Desta tradução, o mínimo que se pode dizer é que já nasce datada, com gírias e clichês da minha época. Pós-moderna, quer encontrar qualidades em seus defeitos, totalidade na sua absoluta parcialidade e permanência na sua efemeridade. Tradução “indefinitiva”, mais fascinada pelo vulgar do que pelo rebuscado, mais interessada nos bordéis do que nas academias, mas, ainda assim, elitista, pois voltada aos que seriam capazes de cometer atentados-suicida pela poesia. Anacrônico, Baudelaire era um homem-bomba poético. Eu continuo fazendo retoques e cometendo novas heresias, fiel à infidelidade de Baudelaire.

Juremir Machado da Silva
Porto Alegre, 2008.


À une passante

La rue assourdissante autour de moi hurlait.
Longue, mince, en grand deuil, douleur majestueuse ,
Une femme passa, d' une main fastueuse
Soulevant, balançant le feston et l'ourlet;
Agile et noble, avec sa jambe de stautue.
Moi, je buvais, crispé comme un extravagant,
Dans son oeil, ciel livide où germe l'ouragan,
La douceur qui fascine et le plaisir qui tue.
Un éclair...puis la nuit! - Fugitive beauté
Dont le regard m'a fait soudainement renaître,
Ne te verrai-je plus que dans l'eternité?
Ailleurs, bien loin d'ici! trop tard! "jamais" peut-être!
Car j'ignore où tu fuis, tu ne sais où je vais,
Ô toi que j'eusse aimée, ô toi qui le savais!

A UMA PASSANTE
Tradução de Juremir Machado da Silva


A rua ensurdecedora num alarido rugia em torno.
Alta, magra, toda de luto, dor majestosa,
Passou uma mulher, com a sua mão suntuosa
Levantando, balançando do vestido seu contorno.

Ágil e nobre, com as suas pernas de gata.
Eu bebia crispado e esquisito como um falcão
No olhar, céu lívido que germina um furacão,
A doçura que fascina e o prazer que mata.

Um relâmpago... a noite! – Fugidia beleza,
Cujo olhar me fez de repente nascer outra vez,
Só te reverei na eternidade com certeza?

Longe, bem longe: tarde demais! Nunca talvez!
Não sei para onde foges, não sabes aonde eu vou,
Ó você que eu teria amado, ó você que não ousou!



A Uma Passante
Tradução de Guilherme de Almeida


A rua, em torno, era ensurdecedora vaia.
Toda de luto, alta e sutil, dor majestosa,
Uma mulher passou, com sua mão vaidosa
Erguendo e balançando a barra alva da saia;

Pernas de estátua, era fidalga, ágil e fina.
Eu bebia, como um basbaque extravagante,
No tempestuoso céu do seu olhar distante,
A doçura que encanta e o prazer que assassina.

Brilho... e a noite depois! - Fugitiva beldade
De um olhar que me fez nascer segunda vez,
Não mais te hei de rever senão na eternidade?

Longe daquí! tarde demais! nunca talvez!
Pois não sabes de mim, não sei que fim levaste,
Tu que eu teria amado, ó tu que o adivinhaste!


A uma Passante
Tradução de Jamil Haddad


A rua em derredor era um ruído incomum,
Longa, magra, de luto e na dor majestosa,
Uma mulher passou e com a mão faustosa
Erguendo, balançando o festão e o debrum;
Nobre e ágil, tendo a perna assim de estátua exata.
Eu bebia perdido em minha crispação
No seu olhar, céu que germina o furacão,
A doçura que se embala e o frenesi que mata.
Um relâmpago, e após a noite! – Aérea beldade,
E cujo olhar me fez renascer de repente,
Só te verei um dia e já na eternidade?
Bem longe, tarde, além, "jamais" provavelmente!
Não sabes aonde vou, eu não sei aonde vais,
Tu que eu teria amado – e o sabias demais!

A uma passante
Tradução de Ivan Junqueira


A rua em torno era um frenético alarido.
Toda de luto, alta e sutil, dor majestosa,
Uma mulher passou, com sua mão suntuosa
Erguendo e sacudindo a barra do vestido.
Pernas de estátua, era-lhe a imagem nobre e fina.
Qual bizarro basbaque, afoito eu lhe bebia
No olhar, céu lívido onde aflora a ventania,
A doçura que envolve e o prazer que assassina.
Que luz... e a noite após! – Efêmera beldade
Cujos olhos me fazem nascer outra vez,
Não mais hei de te ver senão na eternidade?
Longe daqui! tarde demais! "nunca" talvez!
Pois de ti já me fui, de mim tu já fugiste,
Tu que eu teria amado, ó tu que bem o viste!

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Beijo




Minha boca em tua boca,
teus lábios em minha língua,
o retorno dos sentidos após a leitura
tem o instante em teus seios
que só revelam depois do beijo o gosto de noites do Sul.

domingo, 16 de novembro de 2008

O instante final da literatura


Guliette Greco



“Se o sexo só existe falado, discorrido, confessado, o que haveria antes que se falasse dele?” Jean Baudrillard



A literatura é como o poder por já não estar em lugar algum, está em todo lugar: na praça, no imaginário mais tacanho do leitor de auto-ajuda ao leitor de romances legitimados pela cultura da maioria elitizada. A literatura do Sul, do Brasil, essa literatura não está mais no plano do Real, porque se assim estivesse ela sucumbiria mais adiante no excesso das coisas que já não conseguem mais produzir o Real. Enfastiada de letras a praça se esvazia mas você continua no tempo, atirada, à espera da noite, do som, de beijos, do acordar em meio a tanto desprezo dos leitores que no tempo passam entre a beleza e o envelhecimento da juventude.

Crepúsculo da 54ª Feira do Livro de Porto Alegre


No cais do porto, onde os livros se banham ao fim da tarde.

domingo, 26 de outubro de 2008

As imagens, um livro e uma vida




“Pessoas morrem porque estão com o coração partido. Acontece todo dia e vai continuar a acontecer, até o fim dos tempos.” Paul Auster



Poucos sabem compreender um texto, quando ele poderá transcender sua legítima razão de existir, quando o autor que um dia deu por encerrado sua história entregando-a ao seu editor na intenção de dar continuidade à vida de outros textos ou, simplesmente, de se sentir vazio por um breve ou longo período da vida. Não importa. O ato de se desfazer do texto é um ato mais difícil do que o princípio de concebê-lo.
Um pouco parecida é a vida que ele leva quando percebe que a linguagem e suas formas perdem o viço em cada texto acabado. A vida não tem a finitude de espaço — é atonal em sua melodia — mesmo quando é simples no tempo dos que pensam e amam a esmo e na longitude da criação com a fluência do transpirar final do último corte.
A morte passa perto, mas o texto seguirá intacto. Mesmo que existam os defensores dos ditames que legitimam as narrativas, os textos, as criações e as imagens como linguagem para construção de uma boa história não dizimarão o autor, que, antes disso, se desfará do texto sem olhar para os que julgam o tempo depois de existido.
Assim vive o autor, o criador, atrás de sua história, correndo na escuridão em busca do momento certo de olhar a imagem, de pensar a linguagem para depois perdê-la ao leitor. Nem todo leitor é um nome real como o “crítico”, ele pode ser uma nascente desconhecida para o tempo do texto que continuará existindo. Minha dica é “Homem no Escuro” de Paul Auster, ao fundo tocando David Bowie, “Little Bombardier”.

terça-feira, 21 de outubro de 2008

Vitor Hugo e os Miseráveis (em memória ao amigo Turuga)


Antológico cartaz do primeiro show no Zelig Bar, com a banda que o Turuga criou. (Turuga é o primeiro da esquerda, lá por volta dos anos 80 do século XX)

Essa foi uma letra que o Vitor Hugo Turuga fez e dedicou a mim.

Cinema Cego
de Vitor Hugo Turuga

Entrei pelo corredor escuro
desse cinema cego
fundi a trama com meu ego.
Me afoguei numa piscina de absinto.
Confessei quase tudo o que sinto.
Me transfigurei,
fui o bicho preferido de Brigitte.

Eu afundei na poltrona
eu amei loucamente uma dona.
Denise, Isabel, Camille…

Perambulando pelo Sena
revi mil vezes a mesma cena,
e a vida estava toda ali.
Eu lambi o capacho do desprezo,
bebi na taça do desejo.
Como num filme de Jean Luc
revelei meu melhor truque.
Vi Paris depois morri.

Eu afundei na poltrona
eu amei loucamente uma dona.
Denise, Isabel, Camille…

Suei de frio no deserto,
tiritei sem ninguém por perto.
Me perdi por Alphaville.
Esqueci duas ou três coisas que eu sei dela
Fui com ela ao Circo de Paris.
Como num filme de Jean Luc
revelei meu melhor truque.

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

O elogios dos metralhas


Documentário sobre o Cartola
À memória do amigo Vitor Hugo Turuga



"Volto para casa exausto, cansado da face humana" Albert Camus


Não seja cruel com os garotos de pretos, com os críticos que silenciam. Seja algoz de uma vez por todas.
Reúna todo arsenal de pedras, de areia e dos ventos que sopram lá dos lados dos castelhanos, como se dizia na fronteira.
É uma questão de padrão de cultura mesmo. Um belo dia, um formador de opinião, um crítico legitimado pela academia, alguém importante diz: "Esse é o cara, olhem, prestem atenção, ele escreve diferente de todos. É o escritor do século XXI!!!!..."
Tudo é uma questão de ser bonito, ser alegre, um pouco entediado, bacana, egoísta sempre, mas um coração de esquerda. Gostar das coisas novas e ao mesmo tempo gostar de nada das coisas novas, apenas gostar do que os outros acham que todo mundo gosta. Nunca anarquizar como Artaud um dia fez e foi considerado louco, um perigo para o tecido social. Ser correto. Incorreto quando é conveniente e ser de esquerda sempre, a cultura é de esquerda, a cultura é de esquerda, nunca anárquica, porque aqui, e quase todo esse país, anarquismo é uma forma de socializar a arte, de levar para a rua e um belo dia mamar nas tetas do Estado. Conheço todos eles. Todos nós conhecemos. Então, ser de esquerda é o imperativo, esquerda racional com o poder. Que belo paradoxo para os filósofos dos plantões. Sei, quase ninguém tem mais bem claro o que venha a ser isso, ser de esquerda num país onde tudo é conveniente e desde que a fundação, que o projeto seja aprovado, que a vida seja legitimada pelos arautos que escrevem manifestos em nome dos que são considerados os “escolhidos”. Não és um escolhido. É a andragonia na cultura que vivemos sem saber bem mesmo o que vivemos, porque todo mundo é conservador, todo mundo tem medo daquilo que é o mesmo que a diferença causa no cotidiano, ou seja, ela se apresenta, mas as pessoas precisam dos que legitimam o que elas sentem, experimentam. Aí depois chegam nos dizendo da “doxa” da “episteme”, da puta que o pariu. Eles têm o gosto mais banal e tacanho que eu conheço. Como te falei, elas precisam sempre consagrar o consagrado. Quero ver consagrar o errado, o errado, o mesmo do diferente ou diferente no diferente. Quero ver esses putos, todos, todos, sendo comidos por suas ignorâncias e seus modelos modernos, e como esquecimento de tudo, eles serão lembrados pelos novos que irão perpetuar a cultura. Os que legitimam serão salvos. Nós somos de outra tribo, somos da derrisória gargalhada que olha a vida com desconfiança e lemos o que tem exatamente de diferente no novo e no velho. Nós, alguns poucos milhões espalhados pelo mundo, acho que não chegamos a fazer uma republiqueta de diferentes. Somos poucos e os melhores.

terça-feira, 14 de outubro de 2008

Enfim, um amor filme-livro


Evgen Bavcar (fotógrafo cego) "Há muitos cegos ao meu redor."

“O cinema não é língua, universal ou primitiva, nem mesmo linguagem”.
Gilles Deleuze


Tenho vivido entre a porta do teu olhar e ao do tempo que Godard ainda dizia alguma coisa. Contrariando Schopenhauer esse amor vai mais longe. Não vamos preserva a espécie para sermos felizes. Se dissesse alguma coisa que pudesse lembrar o amor que sinto por ti. Ah, quem sabe Godard em filme não se esqueceria dos próprios amores se não os tivesse tidos. Foi a coisa mais forte que aconteceu comigo. Ela largou tudo e for morar no sul da França. Foi o que eu fiquei sabendo pelo o porteiro do prédio onde morava.
Pego o telefone e ligo para o celular dela no meio da noite. Chama, alguém atende, não fala nada, digo – Alô, Vitória, Vitória, diz algo. Só quero dizer que ainda não a esqueci, que o meu amor por ti não tem mais fim. É uma insolação eterna. Depois que a camada de ozônio foi pro espaço, eu não me curo mais. Nem um respiro. Eu olho para o teto com um tédio danado, daqueles que a gente tem nos primeiros encontros. Aliás, o primeiro encontro é tão fáustico aos casais que de tão embaraçoso até pode nascer algo dali. Duvido dos encontros primeiros quando tem hora marcada, mas as despedidas com hora marcada são de uma estupidez maravilhosa. Fico todo esse tempo filosofando sobre os encontros, esqueço que a Vitória está ouvindo minha respiração. Penso na babaquice que fazemos para nos tornarmos alegres diante de um primeiro encontro. Ninguém pode errar. Neste momento ainda não vale o lado material, se o cara tem grana, se é isso ou aquilo, se ela tem ou não tem onde cair morta. É tudo um momento da avaliação que o espírito nos prepara para depois, mais tarde, mais uma babaquice, se diz, “ah, que coisa linda, tem química, vai rolar”...Lá,lá, lá..e o tempo passando e eu esqueço da Vitória, de que ela possa estar me ouvindo, ouvindo meus pensamentos.
Eu telefonando a essa hora da manhã, lá já é dia. Deixei meu tempo de lado e ouvi no fundo um suspiro. Será ela? Retomo a carga:
-Sei que está me ouvindo. Tem a mania de se proteger sem a fala. O silêncio incomoda aos que crêem em Deus. Eu estou quase virando cristão novamente. Fale algo, por favor. Porra! Onde é que ficaram minhas coisas, passei lá, no horário combinado e não tinha nenhum um recado, mas eu queria apenas meu par de tênis. Sabe, os livros e os CDs pode levar, dar de presente, não me interessam. Um livro, uma canção lembra mais alguém que um par de tênis. Afinal de contas, ninguém mais morre por um amor, por uma música que toca em filme. Mata-se por um par de tênis nesse país, e afinal de contas, os crimes passionais são os mais babacas possíveis. Sim, acredito em ti, ninguém é de ninguém, mas não precisava pegar pesado. Logo agora que eu estava me acostumando acumular pontos em maldade humana, em mesquinharia romântica e você me deixa por uma simples viagem. Ta certo, vamos combinar, me diz onde ficou o par tênis, as roupas e eu não ligo mais? Fico novamente absorto nos pensamentos.
Pensei. Os livros, como no filme do Truffaut, no Fahrenheit 451, de Ray Bradbury. Me vem a passagem em que os leitores que armazenam as obras na cabeça, “O melhor é guardar os na cabeça, onde ninguém pode vê-los ou suspeitar deles”. Eu também, tenho tudo na memória, como pedaços da história é que sou, mas o tênis e as roupas custam dinheiro. La plata. Meu egoísmo é como uma despedida e não como um livro ou filme que chega ao fim. Diz aí para esse espanhol veado que eu tenho tudo na memória. Me ferrei com essa. Bem que a minha mãe dizia, não dê carinho, amor e cultura para quem só pensa em se salvar do inferno, um dia ela irá te deixar sem roupa. Sei lá, nem era isso que minha dizia. Desliguei o telefone e voltei a dormir. Amanhã eu procuro o que não perdi em mim.

domingo, 12 de outubro de 2008

Imaginário e Cotidiano


                                  De Jean-Luc Godard
Inumanidade  - As idéias claras são inumanas. Gide dizia esta noite (diante de mim): Valéry não é humano. Paul Valéry
Um belo dia, manhã, uma manhã cinza no dia de um homem, ele acorda. Os pensamentos são formados nas madrugadas, nos dias, no silêncio do sono. A sua formação não é uma enciclopédia, um compêndio, um quadro estático na parede sem cores nem relógios. O formato que se tem é que a vida é uma sucessão de acontecimentos, de teorias ao longo dos séculos.
Este homem atravessou parte do ocaso do século XX, vivendo intensamente as mudanças sofridas e impostas no Ocidente. O pensamento no mundo ocidental, uma parte viva do mundo, que está na Complexidade de Morin, já não serve mais como uma simples descrição de fenômenos, mas o é, também.
Nesse belo dia, o homem percebe que é o mesmo dessas alterações, que é parte de uma mesma coisa, de tudo no mundo. Não é a literatura; é a realidade esfacelando-se a partir do momento de cada manhã em que o homem coloca seus pés novamente no chão. As ideias sobrevivem, porque os homens as alimentam de novas roupas e novas informações, conforme as necessidades; os mesmos homens que as negaram tratarão de dar-lhes forma diante dos acontecimentos. É o contraditório também, é a ficção, é a pura linguagem de quem amanhece no limiar do tempo com o esquecimento.
As teorias sobrevivem porque os homens se espalham pela terra e, como diz Morin, o desconhecido não é apenas o mundo exterior e, sim, sobretudo, nós mesmos. As crenças nas verdades, na lógica ocidental, nos fatos e no Cotidiano da comunicação entre esse homem e todos pelo mundo afora e adentro, do Ocidente ao Oriente, da rua à casa, do real ao hiper-real, do conceito ao Imaginário, da linguagem à comunicação, e tudo na esfera do vivido, do jogo, permaneceu porque o visível passa do inteligível ao sensível e ao invisível. Apenas para lembrar Heidegger, que fala do “Ser” como a compreensão “indeterminada” e do mesmo modo “sumamente determinada”. Do homem que ao acordar personagem se dá conta de que ele compreende a palavra “imaginário” e com ela todas as derivações, as variações possíveis, ainda que essa compreensão pareça indeterminada.

domingo, 28 de setembro de 2008

Antes da Lua, entre Solo e o Homem no Escuro



“A comunicação é, deste modo, a superação da radical não-comunicabilidade da experiência vivida enquanto vivida.”
Paul Ricouer


Antes de tudo, antes de ler sua música preferida, sua canção que toca no fundo enquanto lê Baudelaire, antes mesmo de completar uma frase pensei na inverossimilhança da vida. A leitura que toma conta de nossas vidas pode ser crível, pode completar nosso sonho, na solidão de um lado ao outro sem tentarmos escapar definitivamente da vida, porque ela, ao mesmo tempo que salva, também nos joga no fundo dos desejos. Não penso na salvação através de um jogo de proposições pelo simples fato de que ele não nos tira do olhar a diferença como vemos o mundo. Ao entrar no cinismo de Solo, “A racionalidade absoluta significa a morte do imaginário e a asfixia do ser humano. Somos ricos porque somos pobres”, percorro a linguagem pela metáfora, “Existem muitas realidades. Não existe um único mundo. Existem muitos mundos, e todos seguem paralelos uns aos outros, mundos e antimundos, mundos e mundos-sombra, e cada mundo é sonhado ou imaginado ou escrito por alguém num outro mundo. Cada mundo é a criação de uma mente”. A linguagem de um e de outro se mescla entre o cinismo em potência, ao olhar romântico de um signo existencial. O cinismo é a pura poesia sem pele percorrendo o leitor enquanto a solidão do Outro é a perda dos significados que o existir encontra ao se deparar com o paradoxo da vida.

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

A ladra de sonhos



"O fato de contemplar tudo de maneira sempre idêntica reduz tudo à igualdade." Paul Nizan


Não use as minhas palavras para amar outro,
Não roube as receitas de cores de minha mesa para conspirar com os sonhos do além-mar.
A gramática fica mais pálida quando roubada do coração alheio.
Não pense que meus sonhos são os únicos e verdadeiros desta cidade.
A sentença pode parecer falsa, mas pouco importa a filosofia da linguagem:
Quero seguir seus olhos com o passo das palavras que proferes.
E mesmo assim se usar a linguagem na segunda pessoa do singular para é lembrar que uma sentença não pertence ao uso da linguagem com o propósito de dissolver os problemas de uma construção de vida confusa.
Tanto faz eu me despir do emprego das palavras, dos pronomes em correta consonância,
Se você ousa em roubar os sonhos que a insônia traz à palavra todos os dias que a encontro bebendo vinho num cálice de números impressos no fundo que determinam nossas vidas.
Será em vão!
A palavra não pertence aos que tratam de desvendá-las mas aos que se apoderam de suas possibilidades de encontrar a melhor forma para se continuar escrevendo.

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

As vísceras de “Um cão Andaluz”


"Uma lâmina que corta a sangue frio o fascinante olho de uma mulher jovem e bela será justamente o objeto de admiração insana de um rapaz que, observado por um gatinho deitado e tendo por acaso uma colher de café na mão, tem um desejo súbito de apanhar o olho com ela."
Georges Bataille sobre o "Um cão andaluz"

Ainda quando pequeno via meu pai que gostava de comer os miúdos de gado, da ovelha, a cabeça e outras carnes. Minha mãe odiava isso tudo. Numa família sempre existe um olhar reparador, mais burguês, um sonho inatingível, um ideal que possa ver nos cortes apenas as partes nobres. Minha mãe era essa imagem. Sabia cuidar da vida. Em tempos de espírito “Farroupilha”, me lixo para isso tudo, porque como meu pai, aprendi a devorar as vísceras dos animais. Gosto da culinária campeira feita no Sul. Abomino a tradição tacanha inventada um dia por jovens burgueses de Porto Alegre, lá pela metado do século XX.
Volto à infância. Nasci ali, na educação mais simples de um caminhoneiro, de uma dona de casa, e sem ele saber, na sua descrença em relação à juventude que tinha perdido ainda cedo (nos anos 30 e 40 do século passado): os sonhos. Os filhos nasceram. Ele era um anarquista sem mesmo compreender o que isso significava. Nunca comentei com ele e nem com a minha mãe sobre o meu olhar em relação à família. Infelizmente. Mais tarde conheci os tipos de anarquismos existentes em leituras; o anarcosindicalimo, o individualismo, o cristão e todas as formas possíveis de ser o paradoxo de vida contra o estabelecido. Mas, o niilismo, esse era do meu pai, e inconscientemente ele viveu sua vida feliz entre os seus amores e trabalho. Sem saber também, diante dos horrores da vida que se impunha a toda uma família e principalmente ao seu último filho, Eu.
Depois, nos anos 80, eu conheci a literatura de verdade, a filosofia, o pensamento, o cinema. Um dos primeiro ciclos de filmes que assisti em Porto Alegre foi do Buñuel, “Um cão Andaluz”, “Tristana”, “O anjo exterminador” e todos os outros.
Agora recentemente num bar, na parte histórica de Montpellier, assisti “Um chien Andalou”, entre outros fragmentos de filmes, e de fundo, música e vinho. O pessoal que fumava, ficava num entra e sai do bar, todos felizes e tagarelas, para fumar na rua. A noite fria trouxe anotações minhas num bloco, e acabei por lembrar da infância. Hoje, ao terminar de ler Bataille, em sua ficção, ao escrever sobre seu pai, da miséria, da dor e das vísceras de uma vida sendo expostas ao mundo, me dei conta de quanto ainda tenho que olhar para dentro do olho do mundo, da alma para decifrar meu gosto pela vida.

segunda-feira, 8 de setembro de 2008

Da linguagem "extraviada"



Poderia ter começado com Deleuze mas prefiro Barthes pensando Bataille. A metáfora é moderna? Sim, mas ela está extraviada, esparramada no texto de Sandra. Sou parte da obra apenas como editor-leitor dessa escrileitura.
Os Cantos de Fouror é a cartografia da diferença, é o livro que parte da escrileitura ao ato de educar através da filosofia livre de ideais. Temos um texto contundente que na rebelião das idéias contraria a lógica formal do pensamento. Um livro em que toca fundo o corpus do texto, da carne. Um livro que nasce para disseminar os cantos em nome de um educar sem as regras de um bom pensamento. Aqui o leitor irá encontrar a diferença nos autores, na literatura vista, olhada de dentro do olho que de leituras inovadoras não propõem um único caminho para se ler e cantar o pensamento contemporâneo. O maldizer aqui é banido por suas escolhas em nome de pensadores malditos — o caminho é da diferença — do encontro das leituras no que diria Barthes “uma literatura a céu aberto” quando pensou em Bataille e nisso Sandra encontra o signo das escrileituras.

terça-feira, 2 de setembro de 2008

O Signo de Saturno da Infância


Imagem do "História(s) do Cinema" de Jean-Luc Godar




“Na realidade, demasiadas possibilidades. Como o temperamento saturnino é vagoroso, propenso à indecisão, às vezes precisamos abrir caminho de faca na mão. Às vezes, acabamos virando a faca contra nós mesmos.” Susan Sontag



Eu era muito pequeno. Eu e minha mãe viajávamos de avião do interior do nada, do Erechim, nos Anos 60 do século XX, para outro distante nada, Porto Alegre. Depois a última parada seria Alegrete. Numa tempestade ao chegar na capital como diz a mãe, “aquela água turva lá embaixo, da cidade não se via nada, só água”. Porto Alegre vinha de uma enchente e aconteceu uma instabilidade no vôo quando o avião se preparava para o pouso e fez com que eu me agarrasse ao pescoço materno. Medo. Ela perdeu uma corrente de ouro, provavelmente um símbolo religioso. Foi o tempo perdido, o religioso nessa viagem. Eu tinha quase dois anos de idade e tinha ido visitar meu tio que era funcionário da Varig em Erechim. O Rio Grande do Sul era cortado pela Varig.
Minha avó tinha morrido não fazia meses, a vovó Morena e, eu antes mesmo de saber da vida, já sabia conviver com a morte. A mãe diz que eu brincava ao redor da cama da Morena que agonizava, morria aos poucos. Morreu em casa. Nasci na Santa Casa, já quase não se nascia em casa. A vida sempre começou para mim enquanto a dos outros desapareciam dos meus olhos. Foi assim com meu tio, irmão de meu pai. Foi assim, ultimamente, meu pai neste século. Morreu. Nasci. Morri um pouco e nasci mais um tanto de nada para a eternidade do pensar de uma finitude prazerosa. Ser filósofo é a dádiva mais vagabunda e exuberante que existe. Nascemos e morremos no final de um filme, de um livro, de um acaso olhar sobre as águas turvas da cidade que não lembro mais. Minha vida foi em torno das águas turvas do Guaíba. Nasci quase na fronteira do Brasil com a Argentina. Não sou de lugar nenhum e mesmo quando sinto falta, sinto falta é de andar ao redor dos olhos da infância sem cidade. Sempre sonhei ser todas as cidades do mundo. Benjamin via em Paris a cidade que “ensinou-me a arte de me perder” e eu senti isso no silêncio da solidão que me levou até lá. Quando leio Susan Sontag me lembro da leveza dos sonhos, a escritura nasce quando ela escreve sobre Benjamin ou sobre Barthes. Choro no fim ao perceber seu imenso voltar às palavras.
A filosofia, a literatura nos ensinou a ter um câncer e depois, ler com prazer deve ter sido a imaginação mais fantástica para Sontag um dia. Todos, um dia, qualquer dia da existência, pensam na vida com saudades dos esquecimentos da infância.

“Um labirinto é um lugar onde as pessoas se perdem”
Walter Benjamin

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

História(s) do Cinema e o Editor de Romances



História(s)do Cinema de Jean-Luc Godard



“Beleza...jogo em si que o homem joga com seu próprio símbolo, pois é sua única chance de escapar, mesmo que simbolicamente, à sua angústia da solidão. Repetir do sempre auto-sugestão, a fuga na beleza. O jogo da fuga.” Jean-Luc Godard


Fiquei morto na cama até ao meio-dia. Não havia mais Lana para me fazer um pouco feliz. Olhando as paredes. Via com desprezo a foto dela ao lado do telefone. O que me deu ter pensado nela essa noite? Pensei em tomar uma xícara de café. Fui direto à cozinha. Tropecei em algo, olhei para baixo e eram uns cds esparramados ao chão. Pude ver o estrago causado por ela nessa casa, na cozinha, no meu corpo em fragmentos. As vísceras acesas como uma vela que queima silenciosa dentro da alma. O vidro de café vazio. Mais fios de cabelos sobre à mesa, e por onde ela passou ficou um pouco do desalinho desta história. Eu estava de volta ao apartamento depois de uma temporada na Espanha para divulgar meu livro. Aqui no Brasil eu era despachado até por bilhetinho e Lana partira assim como chegou, por mensagens.
Sentei em um canto da cozinha. Perplexo, com lágrimas nos olhos não conseguia tirar minhas mãos do vidro de café. Apertava com os dedos como se estivesse segurando as mãos na hora da despedida de um despenhadeiro. Era patético mas de uma irrealidade comovente para quem gosta do Gregory Peck quando salva Ava Gardner em “O Grande Pecador”. Lá eu estava em nesse jogo, no abismo do jogo, do penhasco olhando o fundo escuro da história.
Preso à idéia da compreensão de que tudo me afastava do ponto da cor perdida no teto mofo. Um vermelho lá no canto. Lembrei das “Anotações sobre as cores” do Wittgenstein. Aquele cara era um veado que quis pôr fim na filosofia e depois ficou nas cores. Pronto. Lá estava eu olhando para o teto. Onde teve um início era uma questão de ter existido o acontecimento. Minha vida. Se as palavras como diria Gadamer brotam da comunicação que o homem faz com do mundo, onde estaria minha compreensão naquele momento? A solidão tinha tomado conta de todo o ar. A cozinha estava ali, o cheiro de café, as lembranças de um cigarro queimando enquanto eu falava sobre as palavras ditas e silenciadas pelo tempo. Quem de nós dois pudera alcançar esse momento? Lana certamente voltaria para o seu nada, mas seu nada estaria repleto de vida. Enquanto o meu nada é repleto de nada de uma elegância assustadora que só serve para encher os bolsos do dono do boteco ou do psicanalista. O cigarro apagado e o batom vermelho sobre o cinzeiro.

“O desespero da arte e sua tentativa desesperada para criar o imperecível com coisas perecíveis, palavras, sons, pedras, cores para que o Espaço composto dure para sempre.” Jean-Luc Godard

continua

terça-feira, 26 de agosto de 2008

Acordar



“A estátua que se desterra e que se apresenta à admiração, nada espera, nada recebe, parece, antes, arrancada ao seu lugar. Mas o livro que se exuma, o manuscrito que sai do jarro para se expor à plena luz da leitura, não nasce de novo, por uma chance impressionante?” Maurice Blanchot


Quase todo mundo um dia acordou no meio da noite, de madrugada com a sensação de uma leitura, um livro, que essa leitura poderia estar ali, ao seu lado. Eu, de repente me vi conversando com esse sentimento, um misto de vigília com um acordar desgovernado ainda letárgico, em que a razão alcança o ponto suficiente apenas para lembrar que existem coisas a serem feita. Abro os olhos lentamente. Percebo a ausência absoluta de um corpo ao lado, vejo que ao lado, na sala, ainda tem uma música tocando. Não consigo lembrar-me de voz nenhuma nem cheiros humanos me fazem voltar deste acordar, entre a vigília e o estado de esquecimento diante do mundo, ou pelo menos, aquilo que a razão identifica como sendo mundo, cidade, casa, amor, noite e morte.
O sono desperta com Blanchot quando diz que um artista é “ignorar que já existe uma arte, ignorar que já existe um mundo”. Me sinto como o leitor de um livro, um leitor do meu acordar. Por isso corri à estante atrás do Blanchot, como se nada pudesse resolver esse enigma do se sentir lido por si mesmo, em estado de absoluto nevoeiro de idéias e ininteligibilidade das coisas.
Se o leitor está num profundo confronto contra o autor, porque sua compreensão que possa existir ao imaginário da obra é de um anonimato, de uma “afirmação violenta” que escapa do controle do autor. Uma obra em que os personagens não importam, uma obra em que os personagens são como esse meu sonho, em que o social não é nada mais que um esquecimento noturno, proporcionado pelo desapego ao cair no abandono dos pensamentos. Esses já sem as idéias, porque elas jazem com os sistemas filosóficos que um dia foram criadas das incertezas dos homens. O leitor venceu! A interpretação se sobrepôs aos fatos.

domingo, 24 de agosto de 2008

Homens sem qualidades



Um romance sem piedades. Ironia da perdição de um personagem que deixa de acreditar nos ideais da própria literatura.

“Alice vem dormir no meu apartamento. Nada lhe contei sobre o meu tortuoso caminho. Ela já me contou que fez amor com mulheres e gostou. Chega com um lindo buquê de rosas para enfeitar e perfumar a casa. Já me convenceu a ter um blog. Vou falar de mim. Sem pudor. Por que teria pudores? Sou um homem feliz com o que Deus tem me dado. Por exemplo, ela. Já temos um pequeno conflito sobre o conteúdo do blog: ela quer que eu faça literatura e não me prenda à estreiteza da verdade. Eu tento mostrar-lhe que filosoficamente a verdade é uma construção coletiva, um imaginário. Ela se irrita e garante que isso é conversa de mentiroso e de canalha. Acabamos sempre na cama”. (Solo, Record, 2008)



Um romance que não crê mais nas promessas da vida. O lúdico atravessa o tempo para encontrá-lo nas reminiscências.

“Talvez tenha começado quando Sonia morreu, não sei, o fim da vida conjugal, a solidão de tudo, a maldita solidão depois que perdi Sonia, e aí eu me arrebentei todo naquele carro alugado, destruí a perna, quase me matei nesse episódio, talvez isso também tenha ajudado: a indiferença, a sensação de que, depois de setenta e dois anos nesta Terra, que se importa que eu escreva sobre mim ou não? Nunca foi algo que eu me interessasse, nem mesmo quando eu era jovem, e sem dúvida nunca tive a menor ambição de escrever um livro.”
“Fugir para dentro de um filme não é como fugir para dentro de um livro. Os livros nos obrigam a lhes dar algo em troca, a exercitar a Inteligência e a imaginação, ao passo que podemos ver um filme — até gostar dele — num estado de passividade mecânica.” (Homem no Escuro, Companhia das Letras, 2008)

História(s) do Cinema



Quarto 666 de Win Wenders

Jean Luc-Godard no filme do Win Wenders fala sobre a morte do cinema, sobre o imaginário do cineasta e o viajante.
"Meu mundo é o imaginário que é uma viagem entre o futuro e o passado, entre o destino e a origem. Como Win, sou um grande viajante." Godard
No seu documentário sobre história(s) do cinema Godard diz:
"Oh que maravilha poder ver o que não exergamos! Oh doce milagre dos nossos olhos cegos."
Em "Janelas da Alma" também vemos a imagem indo além do alcance dos olhos. Além do Mito da Caverna como sugere Saramago. A imagem foge dos ideais para o vazio inebriante do presente. O real não existe por culpa da imagens. O real são as imagens que fragmentam na alma e pouco importa se elas existem demais. Não há do que temer diante do Acontecimento que escapa entre os olhos que vêem diferentemente.

domingo, 17 de agosto de 2008

Barroco do Vazio























"Pois a escrupulosidade de nossa razão nos força a uma terrível inescrupulosidade de sentimento". Robert Musil (O Homem Sem Qualidades)


Existem textos, livros que existirão em mim. Depois de lidos acabo um dia retornando às páginas destes livros, seja porque o livro está na memória, porque ele faz parte das preocupações do momento, ou pelo simples fato de ser um livro, um daqueles que você leu e nunca mais conseguiu esquecer e marcou para sempre em você a palavra na memória. Um dos tantos que já li, do alemão Robert Musil, “O Homem sem Qualidades”, que retomei esses dias e lendo pelo meio, vi que era melhor reler de um todo e já estou envolvido novamente. Percebo o quanto tem de coisas que me marcaram e não conseguia saber de onde eu tinha pensado. De onde eu tirei esse pensamento? Quem me autorizou pensar assim sobre os homens, sobre as relações, sobre o mundo que nos deixa no buraco, entre quatro paredes, só para lembra do novo Auster, do novo “Solo”, do Juremir, o romance da derrisão, dos esquartejamentos da alma e da cultura?
Leio novamente Musil por causa deles, da melancolia. Deixo de ler Saramago exatamente por causa disso. Não vejo nada nele, nem melancolia nem “Years of Solitude” e só a crítica ao homem que se perde nas crenças. Eu amo a crença do outro, desde que fique longe dos meus livros.

quinta-feira, 14 de agosto de 2008

Diálogo sobre o fracasso e a guerra dos Outros



"A vida está cheia de mistérios desses. Há alguma coisa diante da qual toda a razão é impotente." Robert Musil


Não contente com mais uma leitura de o “O Homem sem Qualidades” de Musil, meu amigo Ferdinand Seznec, autor de um só romance, “L’Evasion n’aura pas lieu”, sem edição em português. Conversou comigo ontem por e-mail. Ele ainda reluta outras formas de comunicação pela rede, pelo simples fato de não ter paciência de ficar “visível aos outros”, como prefere dizer. Falamos de nossas vidas, de quando nos encontramos pela primeira vez, nos Anos 90 do século XX. O tema em torno do fracasso, diante de tudo que está acontecendo, ou seja, de nossas forças estarem se esgotando assim como se esgota o amor. “Sem ressentimentos”, diz ele "porque o amor tem a sua duração assim como a glória de um escritor, de um compositor e por vezes". "Muitos de nós acabamos morrendo na mais absoluta consciência do silêncio e sem reconhecimento." Ele estava triste por ter perdido um amigo no ataque russo à Geórgia, na província da Ossétia do Sul. O amigo dele morreu com estilhaços de uma bomba enquanto escrevia mais um romance.

Ferdinand (sobre o fracasso e as perspectivas de um novo livro sair na França)
Sei lá. De nada adiantaria. Eu, você não temos aura. A gente se vira, dribla e se mantém fazendo coisas que não deveríamos, para horror de quem tem aura, mas isso não significa que se possa ir mais longe. Eu já bati no teto.(risos). Daqui não passa. Se eu escrever mais 20 romances o resultado será o mesmo. Cada vez mais eu penso em escrever e guardar, pois o que me dá prazer é escrever, não publicar. É muito provável que seja ruim mesmo, pois, salvo sendo paranóico, não há razão para o mundo estar contra mim. Já até recebi um daqueles elogios tradicionais de uma mulher que leu um ensaio meu que saiu numa revista de filosofia e literatura. Segundo ela, agora sim ficou bom, não ficou como os anteriores, onde o personagem, "eu", ficava se queixando de não ser compreendido como escritor e passava o tempo se masturbando. Ser é ser percebido. Eu sou percebido, nos meus romances, dessa maneira. Deve ter algo errado, pois quando eu penso estar sendo radical e maldito caio na graça das velhinhas de 90 anos. Fazer o quê? Escrever para passar o tempo.

Homem Nômade:
Isso porque você fez aquele texto em cita o Franz Ferdinand e talvez a velhinha adora ouvir essa garotada. Não temos aura porque não pensamos no simples fato, de antes enriquecermos para depois comprarmos a própria glória (risos) Comprando todo mundo e zombando da ignorância. Eu ainda tenho "fé" de enriquecer (risos) depois escreverei um livro com um toque austeriano e a crueldade de Bataille, ou simplesmente, continuarei sonhando e achando que sou melhor que os outros. No fundo nunca soubemos vender o peixe. No final, bem no final, creio que alguém se dará bem...e você quem sabe tenha um livro no Brasil e resenhado na Veja e na Folha de São Paulo (risos). Eu me tornarei um empresário na arte do entretenimento imaginário e um reconhecido acadêmico alternativo e compraremos a fama. Depois jogaremos na lata do lixo para os outros olharem de como é fácil ter glória.

Ferdinand:
Adorei, está muito bom, especialmente o "nunca soubemos vender o peixe". É verdade. Nem saberemos. Somos bons, sim, muito bons, mas como não sabemos vender o peixe, somos vistos de outra forma. Eu também vou continuar sonhando em ser escritor, pois, por personalidade, não sou de deixar de fazer o que gosto, mas cada vez mais tenho consciência de não ser percebido como escritor. No fundo, escrever romances e jogar futebol são equivalentes para mim: um hobby dos domingos à tarde aqui em Paris. Faz sentido. Os leitores que se encantam com os escritores reconhecidos certamente me vêem em relação a eles da mesma forma como me vêem em relação a um jogador de futebol. Aí está: eu sou tão bom escritor quanto jogador de futebol (risos). Vou lá, estou atrasado. Estou indo para a Geórgia visitar a família desse amigo meu. Tenho que ver um jeito de entrar naquela terra. Abraço, Ferdinand.

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

O óraculo da auto-ajuda




Passei anos e anos acompanhando os filmes do Lynch e eis que ele se mostra como a mais absoluta interpretação de sua obra. É só conferir no "Em águas profundas", recentemente traduzido no Brasil pela Gryphus. (David Lynch)

"Cultive a felicidade e a intuição. Seus amigos se sentirão felizes ao seu lado. E as pessoas lhe darão dinheiro!"

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

Mar das imagens


Imagem "História do Cinema" de Godard

O sertão virou mar, mar de angústias para os mais miseráveis. E o mar ao virar sertão, o sertão de idéias de uma época que hoje só consegue a aridez e a lembrança desse tempo, porque não produz, lamenta com idéias de uma classe pensante. Pensamento oblíquo esse que além de vesgo quer ser filme sem conceitos e agora, além de tudo, anda atrás das imagens como um louco correndo pelo deserto adentro em busca de água. Mate a sede com esta escritura! É o que resta para os que não vivem o nascimento do suposto cinema. Idéias? Não, não creio. Patrocínio mesmo.

quinta-feira, 31 de julho de 2008

A imagem


História do Cinema (Godard)


A lei da imagem surrealista que foi formulada por Reverdy e depois retomada por Breton
..."quanto mais distantes as relações entre duas realidades, mais forte será a imagem."

Godard dirá:
"O perfume. Histórias de beleza, em suma. A beleza, a maquiagem no fundo, o cinema não faz parte da indústria da comunicação, nem do espetáculo, mas da indústria dos cosméticos, da indústria das máscaras. Mera sucursal da indústria da mentira."

Como escreveu Deleuze, que uma imagem-movimento não nos dá uma imagem-tempo, mas nos dá muito mais porque o tempo nos é dado na imagem-movimento que se subordina ao tempo. Todas as imagens em nossas mentes através das leituras, dos olhos através da escuridão que buscam os signos, "tal qual o passado é um antigo presente, e o futuro, um presente por vir"(Deleuze).

segunda-feira, 28 de julho de 2008

La tierra es un lenguaje calcinado (Octavio Paz)


Na mão da Imagem o cinema no meu olho

O cinema no olho de Godard

Existiram, existirão, diz Godard em “História do Cinema”, se o cinema já existia ou se existirá, por enquanto, ele, na voz do narrador não existe. A imagem já existia mas o cinema fez da imagem a melhor idéia, a de ver o objeto como de um desejo ou como idéia que vem na construção do cotidiano.
Depois o retorno à imagem escrita de Octavio Paz
"Hay púas invisibles, hay espinas
En los ojos.
En un muro rosado
Tres buitres ahítos"

domingo, 27 de julho de 2008

"A transparência é o que resta ao fim de tudo" Octavio Paz


Jean-Luc Godard - História do Cinema

Pulso, impulso,
Ondada de sílabas úmidas.
Sem dizer palavra
Escurece-me a fronte
Um pressentir de linguagem (Octavio Paz-Blanco)


Cada exemplar de sentido é um exemplar atrás de outro sentido, porém, o transamba de Caetano é exemplar transfigurando e sendo significado em sentido duplo. O que fica é o mesmo que transcreve e transcrito na vida dá sentido e samba. Anamnésia do samba que transfigura em transamba é o que poderemos pensar sobre o que poderá dar ou não dar: um romance dá um romance? Depois, o samba dá samba? Prefiro a simulação do pensar para se chegar onde o samba chega. Não mais puro. A impureza é o acontecimento único de quem pensa além. O ato de simular leva o pensar sobre a transfiguração, e disso não tenho dúvidas sobre o acontecimento poético, o que desceu aqui no Brasil, na Itália, na Rússia, em qualquer lugar do mundo.

terça-feira, 22 de julho de 2008

A metáfora da Tela


A Tela e o homem

"a migração do Olho rumo a outros objetos (e, por conseguinte, rumo a outros usos que não o de 'ver')" Roland Barthes em ensaio sobre Bataille.

domingo, 20 de julho de 2008

A imagem-tempo


David Bowie em O Homem que Caiu na Terra


Artaud dentro do cinema


“Assim como eu, não tinha esgotado a tempestade evocada por sua nudez.”
Geroges Bataille, História do Olho

Uma questão a ser perguntada, pelo menos cada vez que o filme entra mente adentro, olhos, bocas, é possível sua linguagem ir além das imagens?
Deleuze via o espaço confundindo as direções, eu vejo o corte da palavra em imagens e o despertar do objeto, sugerido e por que não com Barthes quando escreve sobre a História do Olho — “Como um objeto pode ter uma história?”
Passo de imagem à imagem aos livros e atravesso noites aos teus pés.

É a imagem-tempo que pede um regime original das imagens e dos signos, antes que de a tecnologia estragá-la ou, ao contrário, incitá-lo
(Gilles Deleuze em A imagem-tempo-Cinema 2).

terça-feira, 8 de julho de 2008

O louco que veio do céu






Luxo, libertinagem das idéias e panfletos soltos do teco-teco pela cidade. Sua cruzada é contra o movimento de moralização e ele construiu sua crítica com palavra mas não através da rede de computadores mas do alto, do texto impresso em serigrafia e parte em impressão digital e off-set. Comandado por um lunático qualquer que garimpou em blogs e textos que pudessem ter ali sua leitura contra a indignação dos moralistas. Não sobrou nada. Pau para todo o lado. De fragmentos a textos mais longos foram jogados mais de um milhão e duzentos mil papéis na madrugada, num raio que abrange boa parte da cidade, é o que constava num dos panfletos no seu manifesto contra todo o estado de coisas que motivou esse louco. A população de cara nomeou-o de “O louco que veio do céu”. Me parece que ele fugiu abandonando o avião em Belém Novo, sul da cidade, em um campo qualquer. Logo depois foi encontrado outro avião no rio Jacuí, submerso com seu bico de fora. As versões mudaram, e mais outro avião. Estão achando que foram 3 aviões. E ninguém viu o louco que veio do céu depois disso.
O cara deve estar rindo de todos nessa manhã. As rádios moralistas com seus porta-vozes de plantão teceram discursos inflamados pedindo a prisão do louco de Porto Alegre. As rádios fms mais moderninhas, uma com espírito de preservação da natureza vociferou contra o louco, a outra politicamente correta também e algumas vozes perdidas até que ensaiaram um coro unissonante de seus locutores e ouvintes por breves segundos mas foram abafados. Os bêbados comentaram nas ruas, os motoristas sóbrios e os embriagados, os tristes e os desolados moradores de prédios espalhados por todos os lados da cidade não ficaram sem um comentário.
O conteúdo era diverso, desde poemas, manifestos, fragmentos de livros, letras de músicas ao esculacho contra os que produzem e pensam a cultura e a história desta cidade e Estado. Crítica ao marasmo criativo que paira sobre o país, as tendências da moda, sobre os que governam as vidas e sobre as tecnologias que difundem e confinam as idéias livres para depois se tornarem perdidas na web. Uma das marcas do louco. Tudo um pouco esquizo, o fato de vir do céu a crítica e não da terra ou da internet e os textos serem de uma seleção de extremo bom gosto. Quem será essa pessoa. Homem ou mulher? Alguns panfletos eu catei, um com uma frase de Nietzsche, “Nenhum artista suporta o real” e depois acompanhava um texto veemente de pura provocação contra a ordem e à estética instaurada deste tempo de democracia responsável. Um radialista de uma grande emissora de rádio e grupo de comunicação do Estado, a mais ouvida (segundo suas pesquisas), a que fala de futebol e de política, dos dois times da cidade, gritou, esperneou contra o louco que veio do céu – “Essa pessoa merece ser presa, morta, que venha a pena de morte. Que venha a pena de morte!”
Ainda não se sabe o paradeiro dele, mas sabe-se que ele disse não usar droga nenhuma e só toma vinho de Mendonza, para piorar seu cartaz em relação à população. Vinho argentino. A cidade parou numa manhã de inverno com os textos que vieram do céu.
E o mais estranho dos panfletos era um texto do Deleuze:

"Mas o fato, o fato pictural vindo da mão, e a constituição do terceiro olho, um olho háptico, uma visão háptica do olho, a nova claridade. É como se a dualidade do táctil e do ótico fosse ultrapassada visualmente, rumo à função háptica surgida do diagrama."

Trata-se do final do livro "Francis Bacon: Lógica da Sensação" de Gilles Deleuze.

sábado, 5 de julho de 2008

Sábado


Um sábado em Montpellier


O acordar no sábado. Primeiro vem a cerração e depois o preparo do espírito para o dia de sol que romperá as nuvens em poucos momentos. Não é pelo instante e brevidade da vida que nos faz feliz mas a certeza da não se ter certeza dos amanheceres.
Usar a mesma camiseta dormida, colocar o velho abrigo e sentar na bergère para ler umas páginas dos “Ensaios sobre Heidegger e Outros” do Rorty. Tomar um café a recém passado. Ouvir uma sinfonia, um concerto para cello ou violino antes que o sol apareça. Depois ler os jornais na rede, responder e-mails, conversar com os amigos distantes e pensar na frase quando ontem à noite assistia “Os Palhaços” de Fellini que anotei no escuro da sala para ler hoje. Faço isso sempre quando assisto um bom filme na liberdade de ver e ler a linguagem que me fascina e perturba:
— O provincianismo é uma miséria que diz respeito a tudo e a todos, menos a ele mesmo.
Pensei nos modernos da minha cidade. Rio do que escrevo para depois desenvolver no meu mais novo projeto que está mais enrolado que o tempo, mas sei que a certeza se dará pela reflexão diária. O amanhecer se mostra com uma surpresa que não diz respeito à meteorologia e nem à crença e à cultura dos que pensam mais sobre a província como sendo universal do que eu.

sábado, 28 de junho de 2008

O Amor, Maiakóvski, Morin, Caetano e Picasso


Picasso

Lembrei lendo Caetano Veloso sobre o que vê em Moscou, a arquitetura, o metrô, em que tudo parece “cafona” mas encanta e depois o museu Maiakóvski. Lembrei Gertrud Stein falando da influência russa em Picasso, isso em 1938, e lá estava a revolução em destroços, indo pelo tempo e ficando na cabeça de marxistas como se fosse o primeiro beijo. Ela escreveu quando Picasso dedicou seu tempo à escultura:

“A escultura negra era aos cubos, a escultura russa era redonda. Há ainda uma outra diferença muito importante: a escultura das pessoas, as suas feições, na escultura negra, têm uma dimensão normal; na escultura russa, a dimensão é anormal. Uma é pura, enquanto a outra é fantástica. Picasso, o espanhol é fantástico, A arte da Rússia é fantástica e pornográfica”.
Para depois ouvir Gal Costa cantando O Amor de Maiakóvski na música de Caetano
“Talvez, quem sabe, um dia
Por uma alameda do zoológico
Ela também chegará
Ela que também amava os animais
Entrará sorridente assim como está
Na foto sobre a mesa
Ela é tão bonita
Ela é tão bonita que na certa
eles a ressuscitarão
O século 30 vencerá
O coração destroçado já
Pelas mesquinharias...”


E depois Edgar Morin, quando escreve sobre o stalinismo, lembra Nietzsche: “Que o homem seja libertado da vingança”(Nietzsche). Daí apostar na incerteza mais do que as verdades que os homens nos impõem. É preciso ressuscitar todas as manhãs em Moscou, Porto Alegre, Tóquio, Paris ou qualquer vilarejo perdido da Terra-Pátria.

sexta-feira, 20 de junho de 2008

A solidão e os livros


Rodin


Ouvindo Solitude com Nina Simone e não com a Billie como sugere o Paul Auster para se ler O Livro da Memória em Invenção da Solidão. O inverno na vidraça. Um vinho, audição de Erik Satie depois e a leitura da solidão que os livros nos jogam e nos tiram sem piedade, porque quem ama a piedade não conhece a dor da escritura cortando o rosto com o frio do Sul.
“Todo livro é uma imagem da solidão. É um objeto tangível, que se pode levantar, baixar, abrir e fechar, e suas palavras representam muitos meses, quando não muitos anos, da solidão de um homem, de tal modo que, para cada palavra que lemos em um livro, podemos dizer a nós mesmos que estamos diante de uma partícula, daquela solidão. Um homem senta-se sozinho em quarto e escreve. Quer fale o livro de solidão, quer fale de companheirismo, é forçosamente um produto da solidão.” Paul Auster em Invenção da Solidão

sexta-feira, 13 de junho de 2008

Diálogos sobre a caligrafia




"Tudo aquilo que lhe era impossível pôr nos quadros realistas pôs com uma vitalidade extraordinária nas Duas mulheres caligrafadas.”
Gertrude Stein, 1938.


Quando tudo começa? Ao abrir seu notebook o diálogo se inicia. A psicanalista e o Homem Nômade.
Ela diz:
Bom dia
Ela diz:
Ontem estive lá na TV Comunitária da Província, Canal X, em um programa sobre as relações amorosas. Situação inusitada.

Ele diz:
Bom dia, isso é bom. O que era mesmo, uma entrevista?
Ele diz: Sim, sobre relações amorosas, como disse. A filha de um amigo que faz jornalismo e precisava de uma psicanalista e aí me convidou para participar.
Ele diz:
Aí é bom chegar com “Fragmentos de um discurso amoroso” do Barthes...Lindo o texto, para minha compreensão das relações amorosas mais um texto que contribui. O que você falou mesmo?

Ela:
Ah, gosto muito deste livro. Elas me perguntaram sobre as transformações no amor, no casamento, no papel do homem e da mulher...

Ele diz:
Transformações no amor, no papel do homem e da mulher?
Na minha compreensão não existe transformação nenhuma e sim um convívio em que as individualidades jamais se encontrarão e se isso acontecer, ótimo. Pronto, mesmo assim existirá o oculto, o que fica guardado em cada um, a não ser que se anule por completo para se chegar ao Outro, à completude das relações. Penso em coisa, a partilha. Compartilhar alimento e fundamentalmente o respeito na solidão do Outro...
Ele diz:
Não acredito e nenhuma forma idealizada das relações, talvez no acaso, no encontro de solidões e de extremos, desejo em relação ao mundo e aí caberá o Outro. Mas gosto de ver todos os lados. Atualmente ando na caligrafia de Picasso, na possibilidade, ou impossível que o pintor viu e pôs em duas mulheres num quadro. O vitalismo dele, tipo
"duas mulheres caligrafadas”, como sugeriu Gertrude Stein.
Ele diz:
Fui convidado para fazer um trabalho sobre o tema que perpassa as relações e pensei a partir dos olhares do pintor, do escritor, do cineasta e claro, o filósofo ficará de fora, porque ele suga tanto quanto eu (risos).
Ele diz: Mas não tenho nada para pensar agora e desenvolver esse trabalho.

Uma pausa e retorna:

Isso é o que tem de mais importante no momento, a morte das idéias me faz amar menos as coisas..

Ela diz:
Mas acho que para haver o encontro, o desencontro faz parte...sim é importante que a solidão se mantenha presente, não sei se necessariamente isto é ruim

Ele diz:
Mas sou de lua, com ascendente no caos cotidiano. Hoje à tarde ou amanhã aparecerão vários projetos (risos)
Ele diz:
A solidão é imprescindível para quem sabe lidar com ela, mas ela se aloja e busca muitas vezes preencher as outras partes deixadas pelo espaço do indeterminado, da falta do que se pode pôr lá. Talvez um filme, um livro, um poema de T.S. Eliot cairia bem, mas nunca sabemos o momento exato de preenchermos com a vitalidade das coisas. E aí, profundamente, afundamos na bergère.
“Elas eram na realidade cubismo, quer dizer, viviam sem qualquer necessidade de associação nem de emoção.” (Gertrude Stein)

Continua

segunda-feira, 26 de maio de 2008

A livraria no caminho entre o parque e o café



O tempo presente e o tempo passado
Estão ambos talvez presentes no tempo futuro
E o tempo futuro contido no tempo passado.
Se todo o tempo é eternamente presente
Todo tempo é irredimível
T.S.Eliot


No caminho entre o restaurante, café, a livraria do sebo, Ex Libris, e do meu trabalho paro quase sempre para olhar a vitrine. Abro a porta e falo com a moça que atende e pergunto: o que tem de interessante ou quanto custa esse aqui?
Já comprei muitos livros e o que mais impressiona são as dedicatórias, ou quando as pessoas resolvem sublinhar com lápis e canetas coloridas o mesmo livro. Foi hoje, três cores em um livro. Um senhor livro, um T.S. Eliot, Poesia (Collected Poems). Tradução de Ivan Junqueira, Nova Fronteira, 2 edição, 1981.
Livro que já tive, que ganhei um dia de aniversário nos anos 80. Perdi num bar quando estava viajando de férias. Sei lá. Li, reli os poemas depois na casa de uma namorada que me emprestara e tive o trabalho de devolver no final do romance. Nunca vendi um livro que amasse. Terminei os romances em minha vida.
A dedicatória é assim:
“Espero que “Poesia” seja mais um meio de fazer com que continues sempre inspirado. Não deixa morrer o poeta que mora em ti. Com carinho. Sylvia – 17/XII/81”
Isso aconteceu no século passado. Será que o poeta está morto? Cansou da poesia, talvez. Talvez tenha precisado vender para pegar uns trocados. O tempo passou e ninguém come livro nem se alimenta de poesia. Talvez. Quero dizer, não enche barriga. Será que a solidão tomou conta do poeta e ele para precisar comprar um remédio, uma bebida, teve que vender o T.S. Eliot? Eu não teria coragem de me desfazer de um livro como esse.
Sempre fico curioso quando entro nas livrarias de sebo e vou logo ver o que tem anotado em suas páginas amarelecidas. Eu mesmo já comprei um livro que era meu e tinha sido roubado anos antes. Isso quando ainda cursava Filosofia. Levaram o "Contra o Método", mas tempo depois trouxe de volta para casa com minha assinatura e tudo. Sem dedicatória, é claro, porque duvido muito que ganharia de alguém esse tipo de livro. Nele encontrei as páginas sublinhadas pelo gatuno intelectual. Sei quem foi. Um amigo que depois de ler viu que ser anarquista epistemológico era um perigo trabalhando no governo municipal idealista de esquerda de Porto Alegre e isso poderia ser um convite para cortar os pulsos de desilusão ideológica. Ele se desfez vendendo à livraria ou resolveu simplesmente trocar por algo mais voltado aos seus ideais. Sei lá. Não me interessa.

sexta-feira, 23 de maio de 2008


Pablo Picasso e Françoise Gilot


Pablo Picasso em 1910 fala à Gertrude Stein ao observar cabeça, rosto, as pessoas que preenchiam a vida: “Olhe aquele rosto, é tão velho como o mundo. Todos os rostos são tão velhos como o mundo.”
Isso antes da guerra, Gertrude Stein disse que era o tempo em que se podia ficar sentado em um banco vendo a vida passar.
Olhe por mim. Olhe o tempo que é tão jovem e velho como os olhos através do tempo.

segunda-feira, 19 de maio de 2008

Samuel Beckett escreve em apoio a Fernando Arrabal



Carta que Beckett escreveu em apoio à defesa de Fernando Arrabal quando não pode comparecer a testemunhar no julgamento do Arrabal. Típico intolerância das ditaduras, na época, 1967, Francisco Franco e sua polícia prendem o dramaturgo por ter dado o autógrafo do livro "Celebrando a Cerimônia da Confusão" a um jovem logo quando chegou em Madrid. Acusação da prisão na Espanha, dias depois foi preso na sua casa em Múrcia, por de ter escrito uma dedicatória sacrílega e antipatriótica, pela qual poderia ser condenado de seis a doze anos de reclusão.