quinta-feira, 11 de setembro de 2008

As vísceras de “Um cão Andaluz”


"Uma lâmina que corta a sangue frio o fascinante olho de uma mulher jovem e bela será justamente o objeto de admiração insana de um rapaz que, observado por um gatinho deitado e tendo por acaso uma colher de café na mão, tem um desejo súbito de apanhar o olho com ela."
Georges Bataille sobre o "Um cão andaluz"

Ainda quando pequeno via meu pai que gostava de comer os miúdos de gado, da ovelha, a cabeça e outras carnes. Minha mãe odiava isso tudo. Numa família sempre existe um olhar reparador, mais burguês, um sonho inatingível, um ideal que possa ver nos cortes apenas as partes nobres. Minha mãe era essa imagem. Sabia cuidar da vida. Em tempos de espírito “Farroupilha”, me lixo para isso tudo, porque como meu pai, aprendi a devorar as vísceras dos animais. Gosto da culinária campeira feita no Sul. Abomino a tradição tacanha inventada um dia por jovens burgueses de Porto Alegre, lá pela metado do século XX.
Volto à infância. Nasci ali, na educação mais simples de um caminhoneiro, de uma dona de casa, e sem ele saber, na sua descrença em relação à juventude que tinha perdido ainda cedo (nos anos 30 e 40 do século passado): os sonhos. Os filhos nasceram. Ele era um anarquista sem mesmo compreender o que isso significava. Nunca comentei com ele e nem com a minha mãe sobre o meu olhar em relação à família. Infelizmente. Mais tarde conheci os tipos de anarquismos existentes em leituras; o anarcosindicalimo, o individualismo, o cristão e todas as formas possíveis de ser o paradoxo de vida contra o estabelecido. Mas, o niilismo, esse era do meu pai, e inconscientemente ele viveu sua vida feliz entre os seus amores e trabalho. Sem saber também, diante dos horrores da vida que se impunha a toda uma família e principalmente ao seu último filho, Eu.
Depois, nos anos 80, eu conheci a literatura de verdade, a filosofia, o pensamento, o cinema. Um dos primeiro ciclos de filmes que assisti em Porto Alegre foi do Buñuel, “Um cão Andaluz”, “Tristana”, “O anjo exterminador” e todos os outros.
Agora recentemente num bar, na parte histórica de Montpellier, assisti “Um chien Andalou”, entre outros fragmentos de filmes, e de fundo, música e vinho. O pessoal que fumava, ficava num entra e sai do bar, todos felizes e tagarelas, para fumar na rua. A noite fria trouxe anotações minhas num bloco, e acabei por lembrar da infância. Hoje, ao terminar de ler Bataille, em sua ficção, ao escrever sobre seu pai, da miséria, da dor e das vísceras de uma vida sendo expostas ao mundo, me dei conta de quanto ainda tenho que olhar para dentro do olho do mundo, da alma para decifrar meu gosto pela vida.
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