terça-feira, 14 de outubro de 2008

Enfim, um amor filme-livro


Evgen Bavcar (fotógrafo cego) "Há muitos cegos ao meu redor."

“O cinema não é língua, universal ou primitiva, nem mesmo linguagem”.
Gilles Deleuze


Tenho vivido entre a porta do teu olhar e ao do tempo que Godard ainda dizia alguma coisa. Contrariando Schopenhauer esse amor vai mais longe. Não vamos preserva a espécie para sermos felizes. Se dissesse alguma coisa que pudesse lembrar o amor que sinto por ti. Ah, quem sabe Godard em filme não se esqueceria dos próprios amores se não os tivesse tidos. Foi a coisa mais forte que aconteceu comigo. Ela largou tudo e for morar no sul da França. Foi o que eu fiquei sabendo pelo o porteiro do prédio onde morava.
Pego o telefone e ligo para o celular dela no meio da noite. Chama, alguém atende, não fala nada, digo – Alô, Vitória, Vitória, diz algo. Só quero dizer que ainda não a esqueci, que o meu amor por ti não tem mais fim. É uma insolação eterna. Depois que a camada de ozônio foi pro espaço, eu não me curo mais. Nem um respiro. Eu olho para o teto com um tédio danado, daqueles que a gente tem nos primeiros encontros. Aliás, o primeiro encontro é tão fáustico aos casais que de tão embaraçoso até pode nascer algo dali. Duvido dos encontros primeiros quando tem hora marcada, mas as despedidas com hora marcada são de uma estupidez maravilhosa. Fico todo esse tempo filosofando sobre os encontros, esqueço que a Vitória está ouvindo minha respiração. Penso na babaquice que fazemos para nos tornarmos alegres diante de um primeiro encontro. Ninguém pode errar. Neste momento ainda não vale o lado material, se o cara tem grana, se é isso ou aquilo, se ela tem ou não tem onde cair morta. É tudo um momento da avaliação que o espírito nos prepara para depois, mais tarde, mais uma babaquice, se diz, “ah, que coisa linda, tem química, vai rolar”...Lá,lá, lá..e o tempo passando e eu esqueço da Vitória, de que ela possa estar me ouvindo, ouvindo meus pensamentos.
Eu telefonando a essa hora da manhã, lá já é dia. Deixei meu tempo de lado e ouvi no fundo um suspiro. Será ela? Retomo a carga:
-Sei que está me ouvindo. Tem a mania de se proteger sem a fala. O silêncio incomoda aos que crêem em Deus. Eu estou quase virando cristão novamente. Fale algo, por favor. Porra! Onde é que ficaram minhas coisas, passei lá, no horário combinado e não tinha nenhum um recado, mas eu queria apenas meu par de tênis. Sabe, os livros e os CDs pode levar, dar de presente, não me interessam. Um livro, uma canção lembra mais alguém que um par de tênis. Afinal de contas, ninguém mais morre por um amor, por uma música que toca em filme. Mata-se por um par de tênis nesse país, e afinal de contas, os crimes passionais são os mais babacas possíveis. Sim, acredito em ti, ninguém é de ninguém, mas não precisava pegar pesado. Logo agora que eu estava me acostumando acumular pontos em maldade humana, em mesquinharia romântica e você me deixa por uma simples viagem. Ta certo, vamos combinar, me diz onde ficou o par tênis, as roupas e eu não ligo mais? Fico novamente absorto nos pensamentos.
Pensei. Os livros, como no filme do Truffaut, no Fahrenheit 451, de Ray Bradbury. Me vem a passagem em que os leitores que armazenam as obras na cabeça, “O melhor é guardar os na cabeça, onde ninguém pode vê-los ou suspeitar deles”. Eu também, tenho tudo na memória, como pedaços da história é que sou, mas o tênis e as roupas custam dinheiro. La plata. Meu egoísmo é como uma despedida e não como um livro ou filme que chega ao fim. Diz aí para esse espanhol veado que eu tenho tudo na memória. Me ferrei com essa. Bem que a minha mãe dizia, não dê carinho, amor e cultura para quem só pensa em se salvar do inferno, um dia ela irá te deixar sem roupa. Sei lá, nem era isso que minha dizia. Desliguei o telefone e voltei a dormir. Amanhã eu procuro o que não perdi em mim.
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