terça-feira, 8 de julho de 2008

O louco que veio do céu






Luxo, libertinagem das idéias e panfletos soltos do teco-teco pela cidade. Sua cruzada é contra o movimento de moralização e ele construiu sua crítica com palavra mas não através da rede de computadores mas do alto, do texto impresso em serigrafia e parte em impressão digital e off-set. Comandado por um lunático qualquer que garimpou em blogs e textos que pudessem ter ali sua leitura contra a indignação dos moralistas. Não sobrou nada. Pau para todo o lado. De fragmentos a textos mais longos foram jogados mais de um milhão e duzentos mil papéis na madrugada, num raio que abrange boa parte da cidade, é o que constava num dos panfletos no seu manifesto contra todo o estado de coisas que motivou esse louco. A população de cara nomeou-o de “O louco que veio do céu”. Me parece que ele fugiu abandonando o avião em Belém Novo, sul da cidade, em um campo qualquer. Logo depois foi encontrado outro avião no rio Jacuí, submerso com seu bico de fora. As versões mudaram, e mais outro avião. Estão achando que foram 3 aviões. E ninguém viu o louco que veio do céu depois disso.
O cara deve estar rindo de todos nessa manhã. As rádios moralistas com seus porta-vozes de plantão teceram discursos inflamados pedindo a prisão do louco de Porto Alegre. As rádios fms mais moderninhas, uma com espírito de preservação da natureza vociferou contra o louco, a outra politicamente correta também e algumas vozes perdidas até que ensaiaram um coro unissonante de seus locutores e ouvintes por breves segundos mas foram abafados. Os bêbados comentaram nas ruas, os motoristas sóbrios e os embriagados, os tristes e os desolados moradores de prédios espalhados por todos os lados da cidade não ficaram sem um comentário.
O conteúdo era diverso, desde poemas, manifestos, fragmentos de livros, letras de músicas ao esculacho contra os que produzem e pensam a cultura e a história desta cidade e Estado. Crítica ao marasmo criativo que paira sobre o país, as tendências da moda, sobre os que governam as vidas e sobre as tecnologias que difundem e confinam as idéias livres para depois se tornarem perdidas na web. Uma das marcas do louco. Tudo um pouco esquizo, o fato de vir do céu a crítica e não da terra ou da internet e os textos serem de uma seleção de extremo bom gosto. Quem será essa pessoa. Homem ou mulher? Alguns panfletos eu catei, um com uma frase de Nietzsche, “Nenhum artista suporta o real” e depois acompanhava um texto veemente de pura provocação contra a ordem e à estética instaurada deste tempo de democracia responsável. Um radialista de uma grande emissora de rádio e grupo de comunicação do Estado, a mais ouvida (segundo suas pesquisas), a que fala de futebol e de política, dos dois times da cidade, gritou, esperneou contra o louco que veio do céu – “Essa pessoa merece ser presa, morta, que venha a pena de morte. Que venha a pena de morte!”
Ainda não se sabe o paradeiro dele, mas sabe-se que ele disse não usar droga nenhuma e só toma vinho de Mendonza, para piorar seu cartaz em relação à população. Vinho argentino. A cidade parou numa manhã de inverno com os textos que vieram do céu.
E o mais estranho dos panfletos era um texto do Deleuze:

"Mas o fato, o fato pictural vindo da mão, e a constituição do terceiro olho, um olho háptico, uma visão háptica do olho, a nova claridade. É como se a dualidade do táctil e do ótico fosse ultrapassada visualmente, rumo à função háptica surgida do diagrama."

Trata-se do final do livro "Francis Bacon: Lógica da Sensação" de Gilles Deleuze.
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