sábado, 17 de abril de 2021

Noite

 


Agora a sentimos inesgotável
como um antigo vinho
e ninguém pode contemplá-la sem vertigem.”
(J. L. Borges – História da noite)

 

 

 


E uma voz dançava em meus olhos, estonteante,

Cabelos soltos em braços enérgicos, um fio de luz,

Aumentava nossa música, o corpo em movimento,

Os sonhos noite adentro, no balbucio em ritmo,

O desejo de cantar a relva das folhas nos abraços,

O outono joga teu cheiro que toma conta dos sentidos,

E o distanciamento que aproxima os opostos,

Da Terra e da água no perfume que se perde.

Dos prédios que nos separam, das ruas que nos unem,

A fonte de águas morredoras em lágrimas que escoam,

Teu olhar pegou o último voo, estás livre.

Não depender da nação, sentir saudades da infância,

Tudo é movido, move nossos sonhos.

 


segunda-feira, 15 de fevereiro de 2021

Passagens

      Paris - Sena  


“Somos uma barragem onde se acumula o tempo, que se precipita em nós mesmos quando surge aquela que esperamos.”

Walter Benjamin (Passagens)

 

 

Faz luz, faça chover, faça bolo, o café acorda antes de mim,

Faço rímel, risos dos olhos escuros,

Coração guarda um segredo, flanar do mal,

A dor expõe o silêncio da vida, a pele arrepia as cores.

O equilíbrio das pernas combinam mais com o movimento,

O tempo dos braços é tão longe, tão perto do coração,

Distante do vírus de uma modernidade em fuga,

O contentamento do corpo pela casa, pensamento pelo mundo.

Um convite, um gole, uma filosofia, um vão da alma,

O que escorre é o suor do medo, o tempo acalma,

As mãos tão distantes, o beijo atrás da vidraça,

A lágrima é pura intimidade, vives tão só.

Um Benjamin nos boulevards internos, à margem do rio,

O passante leva consigo o poema, retorno ao mar,

A passage de Montmartre é para além do medo,

O voltar da imagem que desaparece no nevoeiro,

Atravessas países, os limites da vida.

Nada descansa a alma enquanto a liberdade estiver sob ameaças.

 

domingo, 14 de fevereiro de 2021

Anjo tatuado

         Leviathan (2014) - Andrei Zvyagintsev

      

 

 

Então, o mundo parou, o toque se apoderou,

As mãos na pele, o toque da vida é parte do amor,

A vida contorna a solidão, o sorriso teu se expressa,

E a noite não descansa nos olho da sonhadora.

 

Se eu amo é porque a barra tá limpa, o dia findará,

E por estar no alto de um prédio a te ver um anjo,

O pisar nos telhados com vista para o mar,

É como morder e morrer no olhar da solidão.

 

Não faça da vida o que o amor te pertence,

Circularidade dos dedos na infância em liberdade,

O cuidar dos amores é signo até a tristeza,

E o teu riso, a vida em todos os sentidos.

 


sexta-feira, 5 de fevereiro de 2021

Mãe

Genealogia do Amor à Vida. Iolanda Paim Gomes, nascimento, 5 de fevereiro, 1925, Alegrete. 


 

“És para mim que nada mais

Na boca das manhãs.

Caetano Veloso

 

 

És mãe em todo sentido, a luz da vida,

Uma guia de luz e amor, ensina-me até hoje, 

Viver é seu imperativo, ser livre aprendi,

Uma força de mulher, translúcida em todos os meus dias.

 

És os dois lados do meu ser, Lua de luz da manhã,

Energia celeste brilha no coração vermelho,

Nas ideias sua voz desde a infância,

Minha canção, razão de minhas viagens,

Das águas acalentadas de saudade em mim.

 

Uma dor tão distante sinto envelhecer em tua força,

Meu coração de criança nunca deixará de lembrá-la,

Lá da velha casa, a morada do sonhos, teus olhos,

Tua força me acorda todos os dias.

 

 

quinta-feira, 31 de dezembro de 2020

Livro dos Dias

       David Lynch-Twin Peaks 1992
 


“...a recordação de certa imagem não é senão saudade de certo instante...”

Marcel Proust

 

O que resta desses dias, do ano que se extingue, como se simplesmente pudéssemos abrir mão da memória e deixar que o esquecimento decrete o fim? O que ainda existe para terminar, ainda é uma música a tocar, um dia mais, só mais alguns minutos para ir ao próximo ano. De ir acima no voo mais distante, depois voltar lá do alto para as profundezas, num mergulho de resgate, de captar o que de bom está no que já está para acabar, jogar tudo dentro da alma, depois voltar do fundo, na bagagem o peso, a leveza no voo para novamente subir ao próximo dia.

 

A noite será testemunha, o tempo ficou um pouco nebuloso, logo o sol voltará a brilhar, e voar ao desconhecido foi o que mais se fez durante esse tempo todo, entre sonhos, a viagem é poder sentir o som de tudo, do silêncio, o canto do pássaro que acorda junto do corpo que continua emergindo das águas ao alto, bem longe do alcance do mal que todo esse ano causou aos que não desistem de sonhar.

 

E as cores, elas todas distantes, elas todas dando o tom às reflexões, a vida anda determinada a não desistir, em águas profundas, o voo é sem perder a força, ver o ofuscar das sombras, no branco que não perde sua passagem na noite que vem na força da escuridão dar o caminho inevitável, dar continuidade às estações, enquanto a ciência distingue o que vem dentro, a impressão da letra tonitruante forma a história deste ano que se inicia. Em 2021 terá uma cor, a pura cor da superfície, dos objetos largados de lado, daquilo que esquecemos por muitos e longos anos, na procura da perfeição da cor... Então teremos a descoberta de uma obviedade de que não há pureza na extravagância das cores? Não sei bem o que dizer, vendo o que ela pinta, sinto que é de uma imensa peculiaridade em si mesma, diria Wittgenstein, “...pintar uma luz brilhante por meio de uma cor”. Todas as cores na sensação da velhice são tão reais quanto a busca da perfeição. Deixe-os pintar o que der na telha, é o mesmo que espero do próximo ano, deixemo-nos pintar o que vem do mesmo novo de cada sensação, e mais uma vez volto ao filósofo quando diz, lá onde os conceitos de cor tratam, lá também, “...trata-se de uma forma idêntica aos conceitos de sensações”. Por aí vai, entre o tempo que ficou em fibras, crostas de um vírus letal, sempre nascerá um novo olhar de pintar o novo tempo.

 


quinta-feira, 17 de dezembro de 2020

Cascas de sonho

                          By Nilson Lopes - Leitora urbana

 


 

“Nossos sentidos se desenvolveram de maneira diferente, e por isso precisamos usar a imaginação para ter uma vaga ideia do que acontece dentro das árvores.”
Peter Wohlleben

  

O coração teme, sobreleva-se, alcança a dor do pensamento. O exercício de dar vida e sentido às frases é a metáfora movendo o fora do lugar. A linguagem que gagueja, cresce em momentos de perplexidade, nos momentos da solidão se põe a fazer versos, à deriva.

Cria das histórias imaginárias, teorias no caminho, no andar em direção ao lado de lá, é este homem em páginas amarelecidas, em voz metalizada nas crostas de uma árvore secular. O melhor de tudo é quando o sonho é capturado logo no momento do acordar, anotações salvas, o sonho ganha uma vida. Meandros do inconsciente, tão real, um tipo de retomada de roteiro perdido. A adolescência está por trás da casca, no momento mais povoado do corpo, a solidão profunda adormece, acorda no sonhar de outro ontem.

Lá parado no tempo, toda juventude ainda suga seu vigor, passam próximo, adormecem no dorso quente deixado pelo sol da tarde, partem, noite a entrar como um sopro frio que vai dormir, que vai sonhar, que mais um dia morre na dor do que já amou. Bem cedo, conta as pratas a seus pés, bebe o sulco noturno, olha para o distante céu que jamais irá desaparecer, deixa novamente o sol bater em suas garras e folhas, rejuvenesce. Aguarda o dia todo passar devagar, no alto da sabedoria, sabe viver, despedidas são parte da troca de sonhos, como se novas folhas pudessem lhe dar a imortalidade.






 


sexta-feira, 4 de dezembro de 2020

Imagens do Lado

                                Robert Cornelius 




"pedaço de mar,
iça, onde moras,
sua capital, a
inocupável"
Paul Celan


O turbilhão de acontecimentos deixa meus pensamentos eletrizados, como fios desencapados. Não é mais a soma, é o estilhaço da realidade que exige do pensamento a força de todos os lados, da natureza, dos sentimentos, do medo, do amor, da compaixão, do humanismo que guardo aquecido durante anos e anos de vivencia ínfima diante da realidade. A razão é a máquina que move os filamentos da vida movente.

MORRO DE MEDO

Entre a dor e solidão surge a dúvida

O amor não tangível percorre a vida,

O corpo percorre a morte?

Entre o olho a imagem do sonho,

Caminha em passos da finitude,

Meus tremores são embuste da velhice.

A sagacidade do tocar imaginário,

Da velocidade da decepção,

Do abandono sem métrica, do soluço,

Da melodia que vence a palavra,

Um argumento gasto no soluço,

A recusa da doença,

A infinita música,

A longitude do romance,

A profundidade do poema,

A única saída.......

Noite

  “ Agora a sentimos inesgotável como um antigo vinho e ninguém pode contemplá-la sem vertigem.” (J. L. Borges – História da noite) ...