Wikipedia

Resultados da pesquisa

sexta-feira, 14 de junho de 2019

Muros de Dublin







Atravessamos muros,
Invisíveis, voamos desde o sul,
Embarcados, voamos em olhos de tempestade.
Atravessamos a nado os oceanos,
Repetimos os cânticos de liberdade e fugas,
Nos refugiamos. Ilhas inexistentes e do nada,
Os abraços saciam nossa vontade de partir,
A dor é não dizer adeus.
Atravessamos todos os países até cair de cara em tuas ruas.
A velhice é mais lenta para quem não teme mudar.
Mudamos a cor de nossa dor.
Comemos o levain que o mal desperdiçou,
Estamos em Dublin pra te ouvir.

segunda-feira, 6 de maio de 2019

Sobrevivente


     By Igor Morski

“... Ouves chover
e achas que também agora
seria Deus.”
Paul Celan

Abre os braços, não espere um abraço, fuja logo deste lugar, aqui está tudo parecido com morte anunciada. A terra está tomada pela especulação financeira e de ideias alienígenas da ignorância pós-cérebro humano.
Não olhe para os lados, do lado direito só tem braços venenosos, do outro lado, os braços foram cortados, não irá querer ver o lado mais mutilado da vida. Um corpo já é todo em pedaços, então me diga, de que serviria te alimentar com o sangue dos mutilados?
Fuja antes de virar um deles, tua língua já sangra, teus dedos nem mais conseguem segurar um cigarro, a garrafa de água é tua salvação. Trêmulo, derrubas na terra o que existe de vida e o resto deste planeta é uma ameaça a tua iluminação. Fuja logo, o rio é logo ali.
Sei que tem fôlego para chegar até o porto, lá pegar uma embarcação, subir céu acima. Fuja para o lado mais verde da vida. Se tens braços rígidos, tente salvar o que pode dos mutilados. Digo mais uma vez, vá embora deste lugar, deste beco plano. Siga a nave, não volte mais. O veneno parece ser para todo o fim.

sábado, 4 de maio de 2019

Henry Miller em minha vida

     Henry Miller e Anaïs Nin

“O resto é falsificação. O resto é humano. O resto pertence à vida e à ausência de vida.”
Henry Miller





Esse é talvez o escritor que mais me faz pensar quando estou lendo outro livro, volto a pensar em Henry Miller quase todas às vezes que algo me reporta a outro lugar. Nunca tive nele de verdade, e minha leitura de paixão, a que mais me aproximou de alguns lugares vieram talvez de gente como Miller.  Quase nunca entreguei meu pensar ao marasmo daquele tempo quase pós-ditadura no país. Sempre estou a pensar em um tipo de Miller em vida.   
Está faltando Miller nesta literatura chamada Brasil, em todos os seus livros, os trópicos os sexus, nexus e todos os plexus, tudo sem nada ser obsceno é pura literatura errante. Autobiografia na veia. Como disse o Otto Maria Carpeaux que em Paris foi sua liberdade, todo o período vivido lá pagou "... o preço da pobreza, miséria e humilhações. Sua ambição foi a de dizer aquilo que os livros dos outros omitem."
Trópico de Câncer e o de Capricórnio me tiraram do lugar que eu vivia para nunca mais poder voltar a mesma condição. Fiquei sem lar desde aquela época. Tempos de cursinho e faculdade, o muro da PUCRS, as velhas discussões bem ao lado do quartel, e ali, todos unidos, falavam ao mesmo tempo sem parar, teses e teses mais estapafúrdias, uns viajando, outros todos sonhando. O contrário das desilusões, éramos poucos e muitos ao mesmo tempo capazes de inventar o tempo. Nunca me faltou fôlego, depois na UFRGS na Filosofia, lá tinha todas as tribos, mas entre professores, uns quase todos na maioria já conservadores. Faz parte da vida. O tempo nos ensina duas coisas, ou nós mudamos ou a vida nos mostra que não é preciso se entregar jamais. Esse era um mantra, jamais esqueci. Optei por ser um híbrido entre o céu e a terra. Um para cada lado. Tudo se fragmentou e agora procuramos juntar tudo novamente. A leitura é um bom começo aos esquecidos dos tempos de rebeldia. Meus irmãos permaneceram no coração.
“Era como se o planeta estivesse doente ou condenado. Um monde maudit. Não era de admirar que os brilhantes fossem os poetas, os loucos, como Blake e Rimbaud. Não era de admirar que tudo estivesse de pernas para o ar.” Henry Miller


domingo, 21 de abril de 2019

A Diferença, o Outro

     By Mat Hennek



O contraste entre o livro e o homem, entre o que é preconcebido e o que é dado pela natureza, entre a tangibilidade do livro e a incompreensibilidade do ser humano [...]
Elias Canetti


Eu não escrevo para leitores, escrevo porque leio o escrito do Outro. Ler o necessário é alimento, também, ler o que se consome na interpretação e o que se perde simplesmente no consumo diário. O cotidiano mata o leitor com tantos tiros possíveis que nem o mais sagaz testemunha consegue vivenciar essa perda sem se tornar agressivo. A agressividade remete-me à leitura.
Ler é ouvir a linguagem em sua simplicidade de signos. Não existe contradição neste pensamento. Não existe negação ao leitor, apenas decepção. Caso tenha sido a leitura perdida pelo lado mais significativo, a linguagem que não encontra espaço, este é um problema interno da ordem do esquecimento: o texto morrerá na última linha.
Pouco importa. Existe um confessional, uma reza pagã à transcriação, ao entrar na linguagem e não sair ileso de sua força. O que vem como força destruidora e impulsiona à transformação do ler e escrever é o que está próximo e distante. Paradoxos. Um tipo de revolta da vida sobre todas as coisas. O interno do Eu. O que se manifesta é dentre todas as certezas, não sair ileso.
O jogo das verdades absolutas com a dúvida é a única possibilidade de chegar ao texto sem a carga do irracionalismo acometido pelo esgotamento do pensamento moderno. Produção de sentidos. Ser convicto da verdade é o que leva à morte, mais cedo ou mais tarde, a outra via irracional contra o legado racional. O modo mais fácil é encontrar a redenção nas coisas que se assenta aos olhos ávidos por uma certeza. Vale para o dois lados.
Atualmente uma certeza, eliminar o Outro, o estrangeiro do pensamento nos localismos no cotidiano simplificador.  
Nunca sei se penso porque quero compreender ou penso porque quero a distinção deste pensamento.
Ir a três fontes desta reflexão: Alteridade – Diversidade – Diferença
Da alteridade à diferença, o tempo que vivemos é o mesmo que torna igual a si mesmo, a reflexão do mesmo, o que rechaça vem do interior. A estranheza que vem de fora. A alteridade é sufocada por seu ponto finito alcançado na diferença. É como pensar que a noite é “o outro do dia”, diria Jean Baudrillard.
Na diversidade é que repousa a possibilidade pensamento em ver no Outro não sua mesma resposta, não existe o pensar único na Alteridade, a menos que a negatividade seja substituída pelo excesso de forças pró-ativas em nome de uma diferença esvaziada pelo positivo das coisas.
O que Heidegger via no igual, o contraponto do Ser ao mesmo.
O mesmo na diversidade, em jogos em que a língua afiada permanece no ponto de partida além do binário pensar.
Se a diferença é o tornar-se estranho, a propriedade do Ser estará na mão de mãos de um único. Ainda bem que isso é especulação de um ensaio sem saída. O excesso dele mesmo, o não fragmento, mas na unidade expansiva, na mesmice do rechaçar por ser tão somente já por demais a mesma coisa, se escapa para a diferença, o elo entre o Consumo e o ser Consumido em si.
A ontologia prescinde tudo, mas não o todo, o mesmo dilema filosófico é que talvez escape aos olhos e aos pensantes atentos.

sábado, 13 de abril de 2019

Exilados

                                    William-Adolphe Bouguereau


“E ele esperava agora conduzir o cortejo de sua vida, como a locomotiva lidera o trem [...]”Paul Bowes (Que venha a tempestade)




Nem toda dor e solidão frequenta os sábados, nem toda noite é tolerante aos que vagueiam, é o lúgubre andar passante que mira o fim do dia que espanta o mal, se esconde da escuridão no noturno café dos exilados.

Conviver com o sonho dos que não dormem cedo, dos que não encostam a cabeça no colo da noite é privilégio dos solitários.

A Soturna passeia, ela dorme até mais tarde, permanece até depois do primeiro raio de sol escorrer o corpo estirado em um lugar qualquer do tempo.  

A noite é mais perto da vida que da morte, então, vamos pensar no que fazer da vida enquanto temos sonhos com a Soturna.

Nunca esquecer a dor na escuridão de sonhos violados.
A vida é feita de fortuna passageira, de eternidade enganadora, é como a promessa das religiões, elas nunca sabem aproveitar os sábados de todos os gêneros, de todas as fomes, de todos os desejos. Soturna sabe disso.

Não existe fantasma nos sábados, existem espectros humanos perdidos. A capacidade de voar nas asas de ceras, de poder atravessar a escuridão da vida, nos sábados de todas as etnias é saber viver entre humanos. Soturna esconde seus segredos.

sábado, 6 de abril de 2019

O tempo das águas

     Rio Ibirapuitã



“[...] em virar a cabeça para ver as trilhas que foram percorridas; é um produto da reflexidade.”
Paul Veyne

Como já dizia o pensamento:
O dia nublado fecha os olhos dos que não sonham.
O dia abre a mente dos sonhadores.

Entregue ao tempo a recusa do medo atroz,
e o desejo desfaz a solidão do medo arrebatador.
O dizer nas águas que bate forte, o sopro do dia,
o vento que destrói a longa jornada do tempo.

Depois de tudo, o corpo em frente ao rio sem fim,
tal qual guerreiro no despertar da vida, mesmo sabendo da morte, enfrenta a escuridão do ódio contra o que se refugia no pátio abandonado dos tempos sombrios.

O corpo se mantém lá. Parado. O pensamento a voar, dor e o frio tocam a música da infância abandonada no rio de águas pesadas.
O corpo retesado, na vertical da vida, os braços em movimentos, frágeis e decididos.
A dor é o devaneio que toma conta de todos esses anos que aos poucos desfalecerá na idade.

Logo o pensar: eleva tudo e todo pensamento à deriva.
O corpo é uma legião de ideias,
Os caminhos do rio na infância são difíceis,
Cruzar a ponte, engolfado, levado pela correnteza.

Viver todas as idades a partir da viagem primeira.
Abaixo das águas quentes jogadas da usina,
Lá está o menino salvo.
Uma grande façanha, sua primeira aventura.
Atravessou de margem à margem em braceadas de uma vida.


terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

Sonhadores

     Rio Douro - by Dordio Gomes (1890-1976).


“Como se pudéssemos erguer um só alento
ante o término do alento.”
Paul Auster (poema No fim do Verão)

Gosto de brincar com as palavras, como se meu pensamento voasse da terra ao mais distante lugar, que nem o sentimento mais fraco alcançaria, pensar frágil na força do voar, como se lá pudesse penetrar palavras singrando o voo entre água e céu, um veleiro a sair da profundeza das águas escuras, aos poucos muda a cor, o límpido do pensar, a água se misturar com o olhar que sobe na distância a perder de vista. Como se juntasse o mar com o céu, o veleiro de um lado ao outro, serpenteando o tom de cores e textos, que ao subir sem jamais retornar à terra. No fundo o dia se pondo, o vermelho do sol, como o mar a transmutar no deserto ardente, na trajetória das fugas, no inventar dos lugares, existirá um pensamento eclíptico em consonância dos dias com o corpo. O fogo no coração, os olhos líquidos rumo ao escuro das águas. A noite alcança o corpo que descansa à deriva.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2019

Livros Nadam

     Henri Matisse



“Não beberemos lá da água da vida.
Não ficaremos curados.
Não veremos sinais.
Lá simplesmente teremos sido.”
Peter Handke


Um livro tem que ter textura,
folhas que cativam, páginas a iludir,
tempo de esquecer e lembrar.

O livro é o descanso da vida,
a evocação do desconhecido,
fonte suficiente para as ideias.

Espaço da linguagem e da dança,
as letras deslizando no pensar:
o livro é o mundo, um novo alimento ao Ser.

De todo o sentimento, o sentir é o caminho ao nada:
estar sob o domínio da palavra, a cobertura da vida,
um bolo cheio de ideias para se comer.

Da escrita nasce o poema, a dor morre junto,
no haver, a língua, a dobra do querer,
o fim do livro é o convite para o não esquecer.

A memória está salva, a nossa língua aprende nos livros,
na linguagem que desfaz a solidão,
o translucidar do conteúdo em forma.

Tudo é claro e oculto,
o tempo se fixa no ilimitado,
tem de existir, depois poder morrer nas páginas.

Existir sem o seu criador,
depois saber Ser,
Nadar nas águas do desconhecido.

(Post scriptum: Só escrevo o que sinto. O Nada edificante, o poético lava a alma, ao nadar estou vivo, ao ler estou mergulhado.)

sexta-feira, 18 de janeiro de 2019

A pequena sinfonia da vida



A felicidade é a ideia de algo que não tem uma só forma. Um objeto não diz o que é a felicidade. Ela é aquilo que não podemos tocar, mas sempre que sonharmos e desejarmos poderemos alcançar. Um estado de espírito gasoso, uma névoa, um sol, uma lua que poderá durar muito tempo, o suficiente para nos sentirmos completos e realizados. A felicidade é a eternidade desmentida por nosso estado de espírito, a verdade reivindicada por nossos sonhos, dias vividos e coisas que jamais teremos definitivamente.
A felicidade não está apenas na nobreza de quem tem o dom de dizer que ela existe. É mais simples, muito mais simples. Pode ser lida, pode ser vivida, pode ser tocada com o céu da boca, com os olhos fixos na tela, com a audição de uma música, de uma voz, de um coral.
A felicidade é o gás que move a serotonina. É o propulsor para a vida e para a morte. Mas está oculta. Aqui, a felicidade está em passar de texto a texto escritos por Juremir Machado da Silva. É alçar voo nos temas que estão contidos nesta pequena obra-prima do cotidiano.
A felicidade é como um remédio inventado por criadores de histórias, por gente que usa o corpo para mostrar sua agilidade e destreza em ser quase um pássaro, por gente de todas as cores. Este livro é o exercício do pensamento em nome do próprio pensar. O estar junto da vida é a possibilidade de reescrever questões de forma pessoal.

A vida é feita de felicidades e experimentos do que temos, e não do que já perdemos. Sigamos no embalo da música. Reinventar a vida através de livros escritos por Juremir Machado da Silva. Nesta obra, em textos publicados no Correio do Povo, ele revisita 35 pensadores para falar da felicidade, de Sócrates e Platão a Michel Maffesoli.

domingo, 6 de janeiro de 2019

História(s) humanas 2



        Imagem: Cannes - France



“O que é explicado como ideia e não como definição.”
Werner Jaeger

Coisas do mundo existem, digo, as mais preciosas e estranhas estão aqui no Brasil. Vivemos no país digno de ficção, um prato cheio para a literatura. Alguém escreveu que este país está virando um hospício. Estou sentindo em mim pequenas transformações no humor, na paciência em lidar com os objetos, com imaginário e os mais palpáveis tipos de estranhamentos. Como ligar o mundo concreto, aquela construção da consciência de Herder, em que o acolhimento histórico ligava a vida ao futuro? Estamos no tempo das versões e superações dos apóstolos da decadência dos valores modernos, a história já não é um caminho inexorável, o retorno é uma versão idealizada do que já foi o concreto estar no mundo.

O mundo parece estar novamente no dilema entre o domínio das coisas, de um lado, no obscurantismo do que foi dado, e o retorno cego ao princípio das leis monoteístas sobre a vida. O que é de espantar, de ver os que um dia conheceram a história hoje se deixam levar aos princípios de crença religiosa para explicar a realidade. Vivemos o tempo de que melhor é ser obscurantista do que perder o controle absoluto sobre o Outro. Os dois sempre sonharam ter às rédeas da vida e da história.

Um exemplo de pragmatismo, da essência cega do conservadorismo, lidar, manipular dados com os serviços prestados por empresas aos seres pós-humanos, aos abjetos seres que povoam o planeta Terra. Estamos virando personagens de um mundo que o absurdo é simplesmente não mais uma digressão filosófica ou experiência existencial, mas para estarmos dentro da salvação e do núcleo onde o bem possa estar, devemos compartilhar esse tipo de terapia fundamentalista contemporânea das redes sociais aos templos em que seus guardiões estão galgando o poder da gestão dos povos.

Existe uma saída, em que possamos ver as coisas mais definidas em suas verdades e fragmentos? Retorno ao tempo da reflexão, da livre educação, de separar a vida do que é lei de princípios religiosos, existe sim, caminhos diversos, em que a consciência histórica, o legado da modernidade não se deixa morrer no desejo totalizante de dominar o Outro em nome de uma só Verdade. Convido a todos a tornar mais complexa a vida, voltar à leitura de tudo, do clássico ao contemporâneo. Não se trata da busca do Uno, escreveu Jaeger no ensinamento de Platão “A virtude é sempre a mesma”, e que podemos aprender é que ler nos abre a compreensão melhor do mundo.