sábado, 30 de julho de 2022

Tempo

                                        Toledo - Espanha 


 

“... de receber do tempo o sonho mais profundo.”

e. e. cummings

 

Deslocamento existencial. O caminho entre a juventude e a leitura, passando pela dor constante do tempo perdido, do amor, da guerra, da morte, o falso-dorso, entre páginas marcadas por cintilante tinta, o esquecido entre as estantes, livro empoeirado, leitura retomada, a lentidão do passo, o caminhar até a cozinha, o ir até a piscina, nadar para salvar a alma do cansaço, uma dose de esperança, coração, a mão e braços em movimento constante.

O aprendizado da vida, retilíneo de uma margem a outro lado do rio, olhar em viagem constante, o remédio em dose, a pressão arterial em sinfonia com violinos, abatimentos ocultos, o corpo em sincronia com o tempo de viver, o acordar antes que o tempo se apresse, o café ao sol, a fruta seca à janela, o pássaro que canta na palmeira. O primeiro dia da semana, o copo de vinho depois do expediente, a leitura final no começo da noite. A eterna solidão deste lugar sem futuro. Um país que envelhece os sonhos.

 

                                      



terça-feira, 24 de maio de 2022

Pôr dentro


 

“... nem vazios, nem tempos mortos
Os filmes avançam com trens à noite”
François Truffaut

 

Textura, armaduras de ideias, planta de grandes bibliotecas,

estantes em lugares vazios, entre livros, sem a luz natural.

Beijo beijo, o amor é ensejo, um lance na clareira, 

um par de pernas, o ar agradece o movimento dos corpos.

A alma padece de solidão, depois do adeus,

o último olhar é o que importa.

Mantenha as luzes acessas da sala, os fantasmas agradecem todo 

esse amor no mofo das paixões.

Uma livraria, amor dos olhos, de mãos a afagar livros, mortes a 

caminho, rugas que atravessam vidas.

E o sonho perdura até o fim, o tempo talvez não tenha sido mais 

generoso do que uma xícara de café. 

E que nada lhe tirará, que estrago na vida já cuidou de fazê-lo.

E a solidão existe, longe dos livros.


sexta-feira, 15 de abril de 2022

Sexta-Feira


 


Minha dor permanece atenta,

os olhos capturam a infância

a cidade é mais um detalhe dessa dor,

as ruas povoam o medo circunstancial.

 

Meus irmãos sofrem, sentem, olham,

e a cor do espelho na solidão,

a imagem dos esquecidos,

um caminhar lado a lado,

um sonho de cumplicidade.

 

Se o fim existir, se tudo isso vir: o agora,

Ser da existência for a permanente,

será o último poema na luz dos olhos.


Entregar em casa teus doces,

Um exemplar não sorvido,

Uma dança no bar do trem noturno.

 

Quebrei todas as minhas taças,

Amaldiçoei os descuidos, costurei meus erros.

Te olhando, dobrei todas as roupas, vesti a vida.

Arrumei as vestes, rosto lavado de lágrimas,

O sorriso banhado na saliva.

Abri a porta, deixei a geladeira no mesmo lugar,

cerrei as janelas, tomei o último gole de vinho,

e saí no vácuo do amor.


domingo, 27 de março de 2022

Startups da alma

     Arquivo pessoal,  Nice 
 

“Dedicatória: Me ame, ame meu guarda-chuva.”
James Joyce

 

Nota significativa para quem se sente feliz no seu canto, para quem tem um refúgio para a alma, para suas incongruentes manias de viver, de poder se sentir bem num canto, mesmo que seja na parte mínima de um lugar pequeno chamado casa. Um lugar que se transforma em espaço infinito, onde se pode sentir a liberdade de estar só. A tarde que esfria, o sol recolhe o calor externo, sozinho se pode vislumbrar a solidão do seu lado mais poético, às vezes assusta o instante em que aparece na casa do seu Ser. Parecendo filme, livro, uma viagem que se torna tão real que já não distingue se um dia saiu de seu canto do pensar sobre algo, ou se realmente existe base para conectar a leitura de um livro, a audição de uma música com o filme que está na memória e foi assistido há um tempo, e se tudo isso faz parte da realidade ou é mera participação do voo do inconsciente que se lança para diante do corpo. E se tudo isso era só um lugar para sonhar. E aí se pensa que sonhar pode ser a construção de algo, uma sociedade entre o Eu e o Outro que resolve fazer projetos para mudar, e olha o mundo lá fora e vê que ele tem vida, pulsa e também a Solidão é parte dos que destroem e dos que querem salvar e ser salvos.  

domingo, 20 de março de 2022

Outono

      Da janela 

Os soluços finos

Dos violinos

De outono

Ferem minha alma

Com a lânguida e calma

monotonia do sono.

Paul Verlaine

(tradução de Juremir Machado da Silva)

 

Meu amor é uma flor perdida na escuridão, eu sei de tudo e nada disse que sei nada sobre a vida. Chegada a hora de me manifestar, a razão anda perdida, os fanáticos percorrem os corpos. Eles são o fundamento desta pobreza de espírito, ainda ando devagar, quase correndo, e a fronteira é parte da vida. Devo ir adiante sem olhar para trás, devo ir avante remoendo a linguagem, desopilando o espírito? 

Tenho que escutar a sabedoria do velho sentado à beira da estrada, logo em frente a um bar, cuja placa deixa claro aos viajantes: “Atendemos só os filhos de Deus”. O velho olha-me e diz que não é para levar a sério, que entre e compre o que bem quiser, pois o filho dele é só um fanático, não entende nada da vida, só dizer que é o que ele quer que seja, que eu compre e caia fora. Antes que ele percebesse já tinha partido e o velho me comentou: “Vai, meu caro, Deus está dentro de ti, ou não. Não importa, a fronteira é logo ali adiante”.

Tenho que ir embora, enquanto o trem não aparece, olho para todos os lados, o que mais me encanta é o céu, perdido me vejo na clareza da vida. Depois da cancela, depois de uma coxilha, estarei na estação do outro lado, feliz e triste, à espera do trem.

O Vazio dos outros me encantava, não mais. Dou o adeus na solidão, não gostaria de estar na estação sem os amigos. Eles já partiram. Tenho medo e me sinto feliz por ir ao encontro de todos. Agora é tarde, dizia minha avó, e ela partiu antes de eu mesmo ter nascido para o mundo. Quando eu ainda chorava em sua cama, ainda ouvia sua voz. Era apenas uma criança. Aprendi a amar com a despedida sem um diálogo. Soube que eu ficava por perto. A solidão marcou minha vida.

Da luz vem a sombra, os galhos de manjericão na estufa de um quarto escuro. Provisório. Tudo nasce, vive e morre diante da lente − os galhos pagãos percorrem o Ocidente desta casa rumo ao hermético poço de luz dos olhos em luminosos dançantes do abril que está por vir. A fronteira é logo ali, na curva do equinócio de cada errante navegante.

(Releitura de 2020 sobre o outono) 

 

 

 

 

 

sábado, 5 de fevereiro de 2022

Mãe


 

“Não há nada tão antigo sob o sol.”
Jorge Luís Borges


 

Minha mãe faz 97 anos, e por tantos anos me amando,

Minha mãe nesses anos todos fez a vida ser melhor,

Soube sempre me ver, mesmo distante, cuidou-me,

Por todos os lugares que andei, olhando meus passos.

Onde quer que me escondesse, lá estava ela esperando um sinal,

E eu sempre voltei sem ter ido embora, moramos juntos,

Uma união que existe na solidão, em nossas fugas,

Ela nunca permitiu eu me sentir perdido,

Nem morrer de amor, mesmo sofrendo por um amor.

Lá estava para ouvir meu silêncio revelador,

E ela já sabia que a minha amada tinha partido.

Em todas as paixões, lá estava ela na espera,

E já dizia que nem sempre se é a perfeição,

Porque existe o querer ficar juntos e o querer partir.

Assim é a vida, querer ficar é a decisão mais fácil,

Só que o trem tem sua hora de partir,

Ou ele nos leva para o novo amanhecer,

Ou ficamos esperando o tempo morrer em nossa memória.

E a única realidade por muito tempo foi saber que existimos um para o outro,

E que podíamos ter perdido muito nessa longa viagem,

E só de lembrar que ainda existe em minha vida,

É que valerá minha aposta nesse jogo, continuar viajando por essa vida.

 

 

 


sexta-feira, 4 de fevereiro de 2022

Filmes


“[...] uma gota de nada dissolvida no ar vazio.”
Paul Auster
(4 3 2 1)

 

 

Ao rio que mora na gente, a presença forte por cima da gente, como se fosse nos cheirar por todas as gotas que trasbordam dos rostos, dos poros. O corpo encharcado, uma sombra no escuro, um peso mais leve que a folha noturna caindo do teto.

E tenta mover os braços, sentir a pele, minhas mãos, nossas mãos sobre o rosto. Lembrar daquele romance de Auster tardiamente, na velhice, e não na infância, no interior de seu mundo, nos braços da voz de sua mãe, e no livro que era a sinfonia do choro dos dois, “rolar na lama”, e não era só tristeza dos dois, ele ainda pequeno, na solidão com sua mãe, um filme na tevê preto e branca, o som dublado dos sentidos, e no romance dizia que “as lágrimas não paravam de empurrar os dois para o passado”. Ela sabia da proteção desse amor, e o filho sentado ao seu lado, a película no ecrã Colorado, a marca de um tempo, e as lágrimas uma terapia e proteção ao lado de sua mãe.

O tempo foi mais distante que eles pudessem imaginar, nem ela mais pensava no passado, o futuro no interior escondido de suas almas era que “o choro chegou ao fim”, e tudo isso lembrado anos e anos mais tarde. Foi preciso muita lágrima, distanciamento para compreender o amor, a solidão, e os livros, os filmes em trilhas regadas do álcool da vida, uma contemplação para o retorno àquele tempo que ficava ao lado da mãe, que ouvia histórias, tampouco importava se do mundo dela, já era o futuro, e um jovenzinho teria que brincar sozinho, encontrar os amigos, os segredos e mistérios da vida no apogeu, e como o futuro já era ao lado de sua mãe, tudo voltou como antes, ele chora sozinho ao lado de si.

E o relato:

Meu corpo imóvel, sem ação, tentei dizer algo, como se a voz estivesse contida naquele livro de capa verde um pouco claro, manchado, e letras parecendo uma caligrafia suja do envelhecimento.

E como o livro adormeceu, ao lado a força presente no escuro dos olhos regalados do presente. Um peso sem volume, um ar denso dissipando as forças, o movimento eterno, e ele procurando forças para abrir de vez os olhos, uma contratura entre o movente e a paciência eterna do querer demorar para sentir a presença.

Uma falta de absoluto, uma força bruta na leveza do corpo inerte. O hálito de baunilha, o doce está na pele, os cheiros da infância, uma folha úmida entranhada no rosto movida entre os braços e o vulto que desapareceu. Quase tocou sua mãe. Por um décimo de segundo, um pouco mais, talvez da próxima vez consiga decifrar as lágrimas ao lado dela.  

 

 

 

Tempo

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