segunda-feira, 3 de dezembro de 2018

Estrangeiro

                                      Toledo - Espanha



O teu ódio é primário, é banal e mitificador,
Meu amor é universal, banal, é livre.
Nossas diferenças? nada disso existe, é fonte de vida,
Energias que divergem, falas que destoam,
Onde o teu ódio anda, meu amor já se apossou.

terça-feira, 27 de novembro de 2018

Movimento(s) de Leitor

    Claude Monet -Soleil levant


“A arte só está próxima do absoluto no passado, e é apenas no Museu que ela ainda tem valor e poder.”
Maurice Blanchot

Meu grupo é tão seleto que não existe, vivo no limbo da desatenção, permaneço só. A multidão amordaça, é calada, dizimada que nem cauda da serpente explodindo por balas perdidas. Vejo no espelho o movimento do corpo, a luz difusa, a névoa de um domingo quase sol meio cinza. Corro louco, feito refugiado, do meu próprio país para ver o mar. Não olho para trás nunca mais é forte demais. Fuga dos sonhadores, minha alma dentro do casaco cinza que atravessa o frio sem se entregar. Depois, nado fundo para não mais voltar. Jamais. Sigo em braçadas até o fim do livro. Leitura voraz, audição do silêncio. A mesma cena que passa aos olhos é um filme autoral, a mesma cruz um sonho insistente de causar questionamentos. Ouço o tilintar do pensamento, notas dissonantes, ritmo das pernas, braços em sincronia ao bater na água. O presente é apenas um arremedo do passado aos que não resistiram às tempestades. Demarco uma linha imaginária na tela, traço fugas, planejo novos roteiros em novas cartografias do coração. Enfim, terminei a leitura e o céu abriu o clarão das ideias.

domingo, 25 de novembro de 2018

Quase Dezembro

     Barcelona - música de rua




Poeta, poética, zuar à luz meu céu,
Através do canto entoo a cor da boca,
Que penetra o corpo, se volta para a alma,
Reluz no desejo pagão, no ensejo de voo sem asas.

Ótica da vida, luas luz meu sol,
A vida é cheia, logo ali um diz, que gordura,
Outro diz, que velhice, outra diz que pele,
que resseca com a dor de tanto dizeres.

Narrativa, falatório no vácuo da solidão,
Contrariado, ouve o silêncio dos que falam,
Todos ao mesmo tempo narram sem se ler,
São felizes e riam de suas narrativas vazias.

Tempo, memória do resgate, coração em alerta,
Nem toda história consegue ver o fundo dos olhos,
Não esquecer é lembrar, viver é permanecer atento,
O irrealizado é um detalhe do não retornar ao passado.

domingo, 4 de novembro de 2018

Observador da sacada





     Aigues-Mortes - France




“Adorava poder mostrar-lhe o filme, mas, por outro lado, sei que tem outras coisas na cabeça.”
(Win Wenders sobre o Papa Francisco)

Ainda procura ver os rostos, nada pessoal, ele ainda busca enxergar todos em sua individuação, a captura do anonimato é a imagem oca, ele busca ver os olhos dos anônimos.
As imagens confundem o centro, rasga os lados, alarga os braços, entorna o vinho sobre o mundo,
Ele procura os olhos, ausculta o som do mundo,
Ele vigia os sentidos, vê a face do desconhecido, os olhos na multidão é como o tempo que não tem dimensão única, interminável aos olhos a imagem-tempo.
Ele ainda vê tudo como observador privilegiado, o mundo não muda, mãos que matam mudam.
Ele busca o movimento da humanidade, a contínua ida ao desconhecido do Ser, procura o olhar que retorna em sua finitude.
Ele é o observador do que se esgota, do tempo que permanece movente, percebe o transmutar e o que permanece intacto.
O movimento é como a música no filme, um travelling que no silêncio faz a imagem ser os olhos dele,
Ele permanece a olhar o tempo dos olhos esquecidos, dos que creem e os que vivem a pensar nas possibilidades de vida.
Os olhos dele é o signo, que na cena entranha o desconhecido, a imagem-movimento que se dispersa na multidão no momento certo em que o silêncio solapa em meio aos olhos presos na linha do tempo que desfia a ilusão da permanência.

segunda-feira, 29 de outubro de 2018

Um Dia Depois

                                    By António Paim - Rouem



"Nesses dias há grandes rebanhos silenciosos de carniceiros negros vigiados pela polícia, quando a noite cai...”
Paul Nizan


Se toda dor, toda tristeza percorresse o país o que seria de mim? todo em lágrimas e dor, na veia em fusão com águas dos rios, do mar que afasta a vida da vida. Então, o que seria dos olhos sonhadores, mordido por tubarões, aves de outro mundo, botas que pisotearam, afundaram mãos e braços até não ter mais respiração.
O que seria do corpo cansado, esfacelado da luta, da fuga do mal, do não querer matar, não usar o gatilho que atira na vida? Querer voar o céu do país, inventar um paraíso para o coração, ficar menos triste, sair da prisão que só a falta faz quando tudo se transforma em ódio, faz o vento espalhar dores e mortes esquecidas no cotidiano, queimar a pele com o ácido que mata a floresta, que afunda barcos, que a presa mais atenta não consegue mais fugir da dor imposta. Onde anda a história contada lá atrás? Não sei.





sábado, 13 de outubro de 2018

Invisíveis

                           Anjo caído. Jean Michel Basquiat. Catálogo da exposição no MAM Basquiat de Paris.



O que há com aqueles companheiros que esperam calmos e silenciosos ali na plataforma, tão calmos e silenciosos que colidem com a multidão em sua própria imobilidade”   

Ralph Ellison (Homem invisível)


Não engane os vivos, a prova de amor mais bela, a oculta vem para depois do medo, o invisível luta o que pinta, quem escreve morrerá nunca. A música que toca, o texto na tela não é como marca imposta no corpo. Somos milhões pelo mundo, nunca morremos, desaparecemos, cherie. Aos poucos, nos unimos no fundo, profundezas da dor, então, estamos vivos novamente. Continuamos dançando, pintando, o canto nunca silenciará. Somos criaturas invisíveis, somos vozes e corpos que renascem da dor. Somos a mistura da arte com a vida que é ofuscada, da voz que é aterrorizada, vozes surgem de todos os lados do mundo, a invisibilidade é a poética da resistência. A liberdade está dentro dos olhos tristes, da negritude, da brancura e de todas as cores nos dentes, da pele que envelhece. Os músculos no rosto enrugado que não apaga o brilho da vida.

quarta-feira, 10 de outubro de 2018

Paradoxo das Sincronias - Nunca se está sincronizado totalmente com o mundo

     Filme - Para sempre Mozart




“Mas sem a integração da crueldade pela vida, também não haveria vida.”
Edgar Morin 


Recolher a dor, deixar o tempo tomar conta do instante vivido, deixar de ir ao encontro do que anos atrás se fazia presente, quando a memória podia ser a guardiã. Nesta viagem de agora não estar nem no início e já temer o fim abrupto do mal que surge no horizonte: estrondos e explosões. O tempo que não foge do corpo, está colado nas paredes da alma, invisível é parte de todo o universo. Um breve esquecimento, o tempo que te salva é o mesmo que passa sem retorno programado. É como ter o controle da memória sem mesmo saber o caminho certo por onde ela anda esse tempo todo. Reprogramar a vida, autoanálise, pensar que os encontros sempre foram parte importante da formação da pequena história de cada corpo. Aqui estou. Reflito sobre a capacidade de encarar a vida sem perder os fios que ligam a memória ao tempo.
Se o passado é feito de portas que se fecham, abre, independente do mundo exterior, que se apodera do signo, a palavra gravada nas lacunas do corpo e do pensamento a se mostrar na dor e completude. Então, o que dizer da dor, esse desvio do ato de encarar a realidade e ao mesmo tempo de desvendar a solidão do Ser no mundo?
Passo dias a pensar sobre alguns temas, a dor, essa massa sem corpo, essa estrela vista por dentro e por fora, essas cores que mudam conforme os dias. O tempo e a memória são o mesmo horizonte aos olhos, a razão do corpo se manter teso, pronto para nadar até o outro lado. De repente surge o momento em que me vejo dentro d’água, entre a respiração, os braços e as pernas que, no movimento contínuo, me levam ao pensamento sublime. O único Deus que existe para o meu Ser é o poder ser livre, poder pensar e me solidarizar com o mundo. Com o que resta dele. Os amigos partirão comigo? Alguns sim, outros ficarão no meio da guerra, a vida que suga até o último cigarro, a última lágrima.
O que pode estar acontecendo do outro lado? Esse é o único detalhe que escapa dá lógica das coisas tangíveis e das pensadas diante do mundo e do Ser no mundo. O desejo não se esgota em si, a vontade, fruto de um tempo em que o Ser se torna domínio absoluto da alma, da certificação de estar no início e no fim de si mesmo.
É como fazer seu próprio filme. Acontece que nasci no berço mais humano do século XX, do ventre materno nasceu a fome de viver à risca a vida em toda sua loucura. Não entrego meu pensamento livre ao ódio que tenta justificar o mal diante de sua falta de aceitar a diferença. Por isso, em alguns casos, a dor é mais latente, alguns vivem mais intensamente.
Gosto de pensar o texto movido por uma câmara imaginária, que aproxima mais e mais daquilo que tem o significado da linguagem; o que está visível, o que narra, e principalmente o que oculta, é o submerso vindo aos olhos do sentido. O que antes era esquecido, não visto, pode tomar o espaço mais preciso na narrativa.


sábado, 15 de setembro de 2018

Levitação-Imagem

    (Roma - do olhar imagem levitação)



“Iluminei a escuridão de minha invisibilidade – e vice-versa.”
Ralph Ellison

A imagem eu não inventei, as cores eu não as criei, a técnica já existia antes de eu criar o método de levitar para fotografar, o método alpinista de captar imagens, detalhes que só conseguimos ver de uma grande lente, movie, de movimento, tomadas aéreas.
A levitação-imagem é aquela em que busco fisgar naquilo que o olho sonha ver. Só ele, o olho naquele ângulo, a partir de uma música ao fundo (inaudível até hoje quando volto a sonhar), em um estilo que pode arrebatar até o mais cético em relação à existência de coisas sobrenaturais. É mesmo, sobrenatural, eu levito (mas isso tem uma altura, no máximo 15 metros), isso causou espanto na primeira vez quando subi até a torre de um velho prédio público, e com minha lente diminuta de um celular, fui de um lado ao outro, cercando a torre, discorrendo meu pensamento, o olhar que se afinava na captação das imagens possíveis e as que já não existiam mais. O tempo se estendia, eu conseguia compor as imagens do mesmo prédio em diferentes épocas. Eu, um ser levitando, invisível aos olhos do mundo. Sem cansar, fiquei lá em cima, creio que altura era de 10 metros, depois desci sem que ninguém percebesse minha presença. Um invisível entre os passantes. Misturei minha pele na dos outros, voltei à terra e saí caminhando entre os transeuntes.
Não contei a ninguém, guardei esse segredo da “imagem levitação”, nome que escolhi para esse método que nasceu do pensamento, do lado mais obscuro da alma de um homem qualquer, de repente se torna o voo do olho, o corpo que vê.
Fui logo aos livros, nada especial, não tentar entender o fenômeno, mas compreender de onde eu tirei que poderia levitar. Essas coisas estranhas já aconteceram comigo, como aquela de eu me encontrar em uma loja de piano e pedir para entrar e ver o piano, e logo que sentei na banqueta em frente ao piano comecei tocar Chopin. Depois algumas peças de Mozart, nada excepcional, atônito fiquei, isso durou uns 3 anos, lá eu ia uma vez por semana - em meu sonho - na loja. Já era um velho conhecido do vendedor, era a atração invisível, tinha palmas do vendedor e dos fantasmas. Passou. Agora, quase 2019, me encontro a levitar em imagens e pensamentos, do alto faço a cartografia da vida que vive lá embaixo.  

quinta-feira, 13 de setembro de 2018

Perdido





“como um automóvel de luxo que atropelou um asno.”
Benjamin Péret

Eu tinha os discos dele, os filmes do Jim Jarmusch, a voz rouca da noite, eu tinha a idade dos homens que perdiam a voz de tanto gritar, a bebedeira dos esquecidos, a ilusão dos enganados, das noites dos sucumbidos. Tinha tudo dele, a morte na alma, o coração apaixonado. A flor do lado mais escuro dos olhos, a verdade esfacelada, eu tinha fome de vida. Eu tinha tanto sorte, morria e renascia em todas as paixões, em todas tentativas de enriquecer bebendo com amigos e ir dormir com a solidão. Eu tinha tanta carência, acordar no meio da noite e a achar que já era hora de ir dormir o sono eterno do Nada. Eu tinha tanta gana, queria arrancar o ódio dos donos do poder e só me contentava com a morte inevitável deles. Eu era imortal. Eu tinha tanta dor no corpo que minhas lágrimas já nasciam e secavam nos lábios de minha namorada. Eu tinha tanta esperança. Largava tudo em nome de minha vida. A liberdade é amiga dos que têm mais coisas para pensar, e hoje, o lamento é uma música do silêncio, a fome é dos não derrotados, é o poder do medo e da vontade de continuar no tempo sem medo de rir da morte e da vida.

domingo, 26 de agosto de 2018

Invisibilidade

     By Pancetti - Marinha - Saquarema - 1955.

Ninguém sente, nem olha, a frente é que se pressente,
A imagem distante fica de frente, o tempo que existe,
A lente que perfura o coração exausto, batimentos da vida.
O que nem todos percebem é que o tempo é um tanto diferente.
Ele, sem as rédeas humanas, é o pêndulo dos poetas,
Torna invisível tudo que ata, entre nós, a âncora estende a vida,
Do barco, o mesmo fluxo dos trajetos,
O desconhecido é que está atrás da sincronia do tempo.
E ninguém olha mais por dentro, está tudo do lado de fora,
Em frente, a imagem segue reunindo fome de signos,
Milhões de gente, e nem tudo é vida.
Às vezes mata por não aceitar o Outro.
Ninguém diz mais que a verdade depende da vida,
A vida é um coração frágil.
Nem tudo é visível, o que se alimenta da razão que inventa,
É o real que vira semente do imaginado.  
Nem todo bem é o todo que é, parece ser diferente,
Melhor é a invisibilidade sincronizada do Ser que se refugia no tempo.
Nem toda noite é escura, nem todo dia é dia.
Toda semente há de viver além das forças das mãos que envenenam,
Da água que seca, o fogo que avança e mata mais a frente.
Nem tudo é dor por doer, tem a morte que dribla a vida,
É da vida, esquecer um pouco do fim sem tempo certo para acabar.

“A invisibilidade [...] dá à pessoa uma noção ligeiramente diferente do tempo.” Ralph Ellison