domingo, 13 de agosto de 2017

Mundo

                              Hebert Maeder, 1952.

“A compreensão significa o projetar-se em cada possibilidade de ser-no-mundo [...] existir como essa possibilidade.”
Martin Heidegger

O mundo é velho, vejo a foto, vejo a vida,
O mundo não passa da minha memória, ele se perde.
O mundo é uma árvore que virou pedra, o mundo é mais velho que minha dor.
O mundo circula a Terra, a velhice é o mundo, meu capuz é velho, tão velho que minha amada foi embora para outro mundo.
O mundo é o tempo que levo até meu trabalho, o lugar que invento mundos, que envelheço com minha dor e procuro fugir deste mundo naufragado, meu país é novo. Sou velho demais para o meu País.
Pudesse eu, se quisesse, te daria um mundo, o melhor dos mundos.
Não posso comprar nada, nem tudo nem nada, te devolvo os sonhos.
Vou dar a volta ao mundo, circular é a fonte de vida, quando menos se espera tem uma nascente.



Domingo

                                                    Nikolai CHERNYSHEV.On the Way. 1939.



"Just a perfect day
drink sangria in the park
And then later when it gets dark
we go home"
Lou Reed

Todos os dias da semana perfazem os dias todos de uma vida, toda vida é o resultado de um só dia que estende-se ao tempo. O dia em minha cabeça, começou num domingo. Tão logo concebi a importância dos dias foi porque o domingo estava presente na vida, no início toda a expectativa de vida, uma semana dos meus dias que se completava, depois, era o começo para outro sonho e o pior, a realidade iniciava sempre aos domingos. Dia especial espalhados por diversos lugares da Terra, em religiões, em orgias gastronômicas, bebedeiras entre amigos, almoços, corridas pelos parques, em competições entre barcos e na lentidão dos domingos a vida foi tomando seu rumo. No domingo a família está reunida, o pai é o domingo e até o fim do dia os domingos são dos pais: mãe e pai, o alento para o resto da semana.


sexta-feira, 4 de agosto de 2017

Sentido


Anda trépido, tripula um Uber, navega o tempo,
O único espaço que existe é a pele que circula o olho,
Um desenho perfeito, escalpe de retina, morte que salva,
A linguagem distorcida, nem roupa nem signo,
A ambiguidade é nossa PAZ. Quem rouba o sonho
é o cérebro.

A voz pode oscilar, o signo vinga a vida. 

quinta-feira, 27 de julho de 2017

Cores do Tempo

     Minh Ngo Thanh Vietnam

“Um borrão. Um claro. Claro obscuro. Ora um. Ora outro.” Samuel Beckett


De todas as cores, de todos os sons, nem espaço existe para se deixar de pensar. Todos os números dão a exatidão, exatamente no plano abstrato onde o real aparece na representação. A única certeza está no código: a precisão infinitesimal percorre o tempo sem trégua para o olho do observador. Aí pensei, e se eu pudesse discorrer até o fim do mundo? Pensei que o tempo pudesse dar uma trégua aos corações libertários, que os deixassem parar um pouco no instante infinito do prazer, que a realidade pudesse ser a mesma da eternidade da metamorfose [...] Viral, correr dos sons possa se transformar em signos do escape total do Real. A maneira de percorrer o outro lado da vida é não deixar de viver, eu sei. Armei mais um truque para me manter aceso ao próximo século como uma lanterna à deriva no mar. Se tornar-me imortal − juro, darei um jeito nisso, voltarei a comer glúten. Promessa de leitor!!!

quarta-feira, 5 de julho de 2017

Língua Absolvida

             Hans Dieter (German, 1881 -1968)





“Foram o pão e o sal de meus primeiros anos. São eles a verdadeira e secreta vida de meu intelecto.”
Elias Canetti (do livro A língua absolvida)

Na língua, a ginga, a sonora, a fala solta,
O verbo desprezado, o vento a zumbir.
O verbo engolidor, a voz que te falta,
O tempo é testemunho da imperfeição.

Na altitude o desejo superior, a brancura é farsa,
O sujeito entra numa espécie de devir étnico,
Desconhece o resto do corpo, o domínio é forte.
A morte o desfaz em segundos, não perde a pose dos dentes brancos.

Falta movimento na política, o corpo é preso.
Saída escusa povoa a cartografia de um país,
Podridão é mero passaporte para o inferno.
Dissolvida, a língua muda de lugar, a interioridade,
Espaço mediatizado entre a fuga e o morrer na alvura.

sábado, 27 de maio de 2017

Inocência

                 Gustav Klimt - Three Ages of Woman - Mother and Child 



“Mas quanto mais me tornava transparente e leve, mais meus despojos cinzentos ganhavam consistência para seus sentidos fatigados.”
Pierre Klossowski



Imagino meu corpo além do meu corpo. Além, um pouco mais distante do que hoje sou. Bem antes, quando bem pequenino ao lado de minha mamãe. Bem ao lado, sentadinho em um banquinho, enquanto ela cuidava de minha avó enferma. Estava ali, ainda sem a consciência real das coisas, nada a perder, e o lado humano de estar à deriva da lógica da vida. A vida dos homens não existia. A inocência e a vida, brincava com o Nada: suprema maneira de ser apreendida pelo pequeno Ser. Uma alegoria do impossível, desde que, hoje, já não sei o que estava a viver. Construí esse mundo, através do imaginário de minha mãe, pude ir além do que hoje posso compreender.  
Falava sozinho, como um humano que ainda está a ver o mundo, o poente é mais distante hoje. Minha mãe cuidava de sua mãe, olhava-me com lágrimas de dor e felicidade.

Essa é uma imagem que não lembro por mim mesmo, é a recordação de relato que minha mãe volta sempre a me contar. Já narrou inúmeras vezes, não importa, estou sempre pronto para ouvi-la novamente. Todos os ângulos, a vida é sempre a mesma, o amor está dentro e fora dessa narrativa. O amor é infinito, a dor morre logo ali [...] outras narrativas.

“Dalgum modo outra vez e todos outra vez no olhar fixo. Todos duma vez como uma vez.” Samuel Beckett

sábado, 20 de maio de 2017

Técnica dos cupins e o blogueiro




“Dois mil e quinhentos anos depois da tecedura de Platão, parece que agora não só os deuses, mas também os sábios se retiraram, deixando-nos sozinhos com nossa ignorância e nosso parco conhecimento das coisas.”
Peter Sloterdijk

        Definitivamente o determinismo decretou que os blogs estão em crise, que as pessoas migram mais rápido que cupins de uma madeira a outra, que passam num movimento rápido à noite e que de durante o dia já se percebe que ali viveu um blog. Ninguém naquele espaço habitará mais, a não ser o vazio de caracteres deixados consiga ser a metafísica constante das linguagens trôpegas de uma modernidade cínica.
Assim penso, será que foram os blogs que migraram à noite para outro espaço em caracteres em uma necessidade causal, que no lugar onde existia uma linguagem restou uma pasta oculta e que um dia alguém ainda irá lembrar? Ou mesmo, posso pensar, que de onde havia a linguagem nunca existiu destino e significados em sua textura, que tudo é fruto dos que pensam em guardar apenas na memória. Nem memória existe mais agora, a não ser que fique impresso e guardado em uma gaveta imaginária onde cupins não possam abocanhar. Nem a nuvem consegue suportar a memória, ela exige demais, é altamente corrosiva, poderia muito bem acabar com o esquecimento, desmitificar previsões e mudar o rumo do que era um determinante e se tornar em fractais.
O fim é o espelho da repetição diferenciada, não existe propriedade do que se espelha se não tivermos a velha crença de que a ideia combinada com a lógica dos acontecimentos só permanece se puder continuar corroendo as madeiras.
As nuvens que alimentam e guardam memórias são raras hoje em dia. Nem um pouco de sentimentalismo, mas uma porção de devaneio nos permite esquecer o acontecimento, depois é crer que o agora é diferente do antes. Como diz o designer, “o que parece simples para mim, talvez seja complexo para outra pessoa” (Vitor Lourenço), mas o que é complexo nunca deixará sua complexidade pelo simples fato que o finalismo contemporâneo está mais para uma migração do que para uma etapa avançada do pensamento.     
O grau de complexidade é a luz de linguagens jogadas no tempo e para que alguém pessoa possa tê-la é não necessariamente poder tornar simples o seu grau de uso. E, hoje, definitivamente a imagem é apenas o cenário em movimento às linguagens que correm tempo das certezas. Para os fins dos determinantes e para novas crenças existirem serão imprescindíveis sujeitos privilegiados ou não. Estar rompendo e descobrindo a melhor maneira de desmitificar o destino é tarefa do pensamento.

(texto ampliado de 2011) 

domingo, 9 de abril de 2017

Cabelos de Baudelaire

      Felice Casorati - Concerto - (1883-1963)




Certas cores, cabelos que esvoaçam no tempo,
mistura cheiros e sons, açafrão no tilintar do outono,
Tinta que borda a pele, marca a alma, o frio se aproxima.
Ilumina partes do corpo, o tom certo, é como a luz,
Atravessa fendas, melodias espalham, clarão que dança,
Como melodia na luz assombradas de pensamento.

Dedico meu tempo a teus cabelos, a poética imortal,
Mesmo que não crês no Nada, a cabeleira brilha,
O tempo não apaga os versos, o tempo esquece o presente.
Como o barco de Debussy, eleva a dor diante da música,
Em perdidas matemática antes do sol do meio-dia,
Fios voam mar dentro de luz, fonte da vida, os cabelos em direção à margem,
Morre no horizonte o que oculta.







sexta-feira, 7 de abril de 2017

Elegia Simultânea

Imagem: Málaga



“Uma melodia que ouvimos de olhos fechados, pensando apenas nela, está muito perto de coincidir com esse tempo que é a própria fluidez de nossa vida interior...”
Henri Bergson



Todo mês um dia, o ano que se aproxima,
Uma vida distancia-se,
flor explode o coração no ensaio que dos olhos firmes,
espanta solidão, todo mês a mesma via.
Todo ano que chega ao fim, uma dor se aproxima,
uma vida a discorrer, um poema de interlúdio,
todas as notas, todas as músicas, fim do mundo.
Todos os lugares no coração, um ser que viaja,
viver no sol da Andaluzia, frio da Serra da Estrela,
um dia entre o céu e o pensamento, ruas e destino.

Todas as edificações e o Distrito da Guarda, o alto dos morros,
Viver a luz de Lisboa, a ribeira do Porto,
aos trilhos entre Paris e o Mediterrâneo.
Todo o dia a luz a acordar, vê sonhos pintalgados a serpentear extensão do corpo.

O espreguiçar da vida, uma roda de turbante, os passos, entre trens, a nuvem leva a nado o corpo que vive entre águas. 
Toda manhã, a sombra desce a montanha,
ao lado de sua companheira, dois passos, um gole, a vida e o rio desce o pouco que pode ainda – Pensamento.
O que não tem espaço em teu heracletiano lastimoso de lágrimas e música desce correntezas.  
Dois a observar o mundo: passa o tempo, nem a morte os alcança.
Deus do inverno é o mesmo do castigo que incendeia o corpo congelado.
Estão, num outro nível de prazer, disse-me a voz misteriosa –
“Descem o rio - no corpo de um barco criado na ilusão dos mortais, eles afundam, cada dia de minha vida num espelho. A verdade vem das águas.”



quinta-feira, 6 de abril de 2017

Diferença e Descobrimento - O que é o imaginário?

   

Editora Sulina - 07 de abril está chegando o mais recente trabalho de Juremir Machado da Silva


Diferença e descobrimento
O que é o imaginário?
(a hipótese do excedente de significação)



    “O pesquisador de imaginário, intelectual, curioso, leitor de mundos em movimento perpétuo, adepto da complexidade existencial e praticante da simplicidade como forma discursiva argumentativa e poética, articulador de encontros e estimulador de prospecções, realizador de aventuras e analista de sonhos, entre a comunicação e a cultura, é o construtor de pontes, o ser à beira do rio que contempla o fluxo e tenta identificar pequenas cristalizações enquanto a noite não chega com seus encantos e armadilhas tecidas de lendas e mitos.
Um semeador de águas.
Não há pesquisa ou narrativa sobre o imaginário fora da metáfora e da analogia. A vocação do imaginário  está nas figuras de linguagem. O imaginário é uma expressão que encontrou palavras, cores ou formas. O ódio ao metafórico faz parte de um imaginário – por extensão – cientificista que ainda crê na decifração total do sentido. Essa presença da transparência no horizonte das ciências humanas remete a um desejo recorrente de legitimação por pares que figuram altivos e inalcançáveis como referências de rigor e de consagração acadêmica.” (p.101-102)