domingo, 7 de janeiro de 2018

Poética

                     


“Poesia: procura de um agora e de um aqui.”
Octavio Paz


A poesia é o rastro da vida. O rastro de uma explosão no universo que estilhaça em milhões de objetos, imagens, que nem todas as línguas conseguem dar conta. Mas o fato de o signo estar colado no que existe, da nuvem de linguagens, certamente é o que consegue ver além do olhar preso na realidade. 
Caminhos que perdemos podem ser um leve encontro poético mediado por signos e objetos. Quem um dia atravessou, quem passou por estradas, ruas, águas e o mais distante nas alturas, pensou na construção de suas emoções? Nem tudo é poesia na vida, mas a poética está em todos os lugares. 
O fato de existir narrativas sobre todas as coisas não significa que daí há poesia, mas a poesia está nela, na narrativa que diante da linguagem se faz o poético mais oculto ou mais límpido aos olhos. Temos depois o processo da leitura da vida: o entendimento da vida nem sempre é poético mas a beleza da forma deixa o conteúdo mais para a poesia do que para a realidade. A realidade não tem obrigação de estar dentro do poético, mas toda poesia está nas entranhas da vida. 


segunda-feira, 1 de janeiro de 2018

O Tempo Outro




“Não há outro tempo que o agora, este ápice
Do já será e do foi, daquele instante...”
Jorge Luis Borges (O passado)


Ao descobrir o que há por detrás daquela parede, descubro o outro lado, ao descobrir o outro lado, busco o que existe dentro de mim, o desconhecido. Vivemos trancafiados no mundo real, ideias desviam-se dos acontecimentos. O Real nos deixa mais vulneráveis às extremidades da mente, fazer o resumo das coisas, viver a realidade que inventaram, forjar outra. A tentativa de viajar no Outro é a busca de si no que há de diferente no tempo presente; ao passado, a tentativa de olhar com os olhos livres da realidade, que se afirmaram por estar indo ao futuro.
A engrenagem, dizia Sartre. Digo, reatividade, se o tempo é descontínuo, Levinas estaria a me levar ao descontínuo do tempo que constitui a reserva das ideias sobre o Tempo. Pensar e viver o tempo, como o filósofo pergunta, por que é preciso ir para o bem, o mal, a evolução, as fraturas, as separações? Por estarmos diante de que o “recomeço no tempo descontínuo traz a juventude e a infinitude do tempo”.

O que vejo sempre quando ouço uma história, um pequeno relato, a descrição que me encanta. O que ouço logo cai num buraco desconhecido do meu entendimento: o desconhecido mais íntimo de mim esquece o que chegou e permito-me esquecer, momento. Logo começo a perceber o tipo de desconhecido, experiências internas que acabam de ganhar espaço no meu tempo do pensar.


sábado, 30 de dezembro de 2017

Olhos de Alfama



Minha alma, minha fama, roupas minha Alfama jogadas ao Tejo. Amarrotadas de solidão, ruas e sol, sobre as pedras o caminho entre cores, a chuva absorve o olhar. O seco da boca, a dor dos pés, a trilha que leva do lado de lá da ponte. A ladeira dos sonhadores, o comboio leva a dor das paixões, o fado a cantar, música ao léu, um corredor de flores, dor que molha e seca na Alfama. Três nomes no pensamento:  Partir, Voltar, Nadar.  Um longe, um perto, o sonho que dorme e acordes da viola nos passos que some no alto da cidade. Todos os olhares ao rio, um dia morei em ti. O que une e separa é o oceano que penetra no Tejo até a dor dissipar o medo do passado.

quarta-feira, 22 de novembro de 2017

Tabuleiro de cores

                                          Salvador Dalí




O preto no branco, o branco no teto, o trato mal das ideias,
O branco e preto, o feto, o acerto de contas, o branco dita – regras – dura e purifica linguagem, limpa o chão por onde pisa.
O preto e o branco nos afetos, acerto histórico, a morte é o fim. Todas as cores no céu, sem luta não existe arco-íris.
O branco é a ordem, a bandeira é da liberdade, a história é preta e branca, todas as cores, todos os olhos, linguagem é o que faz da vida o tabuleiro da imaginação.
Amor à vida, olhos desnudos, corpo por cima, todas as cores feminino-masculino, o viés une os dois. Formas de expressar, diversidade de ver, recusar, deixar o céu da boca, saliva da LIBERDADE.



                       Foto: Fátima Marchi – Tabuleiro de Reis


terça-feira, 7 de novembro de 2017

A Fala Cotidiana contra a Verdade





“O mundo inteiro nos é oferecido, mas por meio do olhar.”
Maurice Blanchot

Por aqui, no país de orientação religiosa pós-liberal, na capital, Porto Alegre, um movimento pela moralidade parece estar além dos deuses; no lugar das decisões mitológicas prevalece a orientação de ordem político-social-moralista. O que deseja implantar como normal e, quiçá, lei, no futuro,vedar olhos em nome de um pretenso desejo de punição aos que pensam contrário. Fadiga dos tempos, o moralismo toma conta do corpo que pensa sem a razão e leva à força toda a diferença na guilhotina do espetacular. Em tempo de democracia o que cair na rede é válido, até as frustrações de um espírito conservador, que, em forma de ironia, sacraliza o cotidiano. Para eles, os moralistas, a arte deve ser controlada por guardiães do bom costume, como se o prefeito da cidade do Rio de Janeiro, além de pastor, tomasse o controle dos corações e dissesse o que é o lado bom e o lado mau das cabeças.
Na cultura Ocidental o tema é recorrente, desde que a mitologia foi tomada de assalto pelo racional, isso lá distante, na Grécia da epopeia, no lugar em que existia o mito que se fundiu com o racional, o pensamento se formou. Um mundo vive de idas e vindas, mas não permitir que o mito tome conta do “sagrado” invenção para dominar o racional em relação ao medo do mito, o homem se formou. A educação, no entendimento dos que pensam que tanto faz existir o histórico, o lado mais obscuro do homem está na sua cabeça. Foi criado o bem para eliminar o outro lado. As religiões monoteístas controlam tudo, menos a tara do conservador, nem a gula dos ditadores. Aqui, o ditador moral, o que move o mundo sendo movido por sua tentativa de cura ao se salvar da morte. Momentâneo. O homem é um passo do desconhecido. Sou do lado anárquico da humanidade. A cultura no seu confinamento moralista empobrece o crivo do pensar. Nem mesmo se tem mais diálogo quando, hoje, na contemporaneidade, se lavam as mãos em nome da purificação do espírito, impondo um lado que, para mim, o grotesco é parte desse lado, então, uniformizar as mentes é uma forma de controle do olhar, uma forma de vigiar na paz democrática, no medo do desconhecido. Ao falar um pouco das origens, a partir da leitura e do ver cinematográfico, do olhar perdido no horizonte, sinto-me distante cada vez mais do cinismo democrático e religioso deste século.

Não sinto saudades do que vivi, a corrente da vida é parte do cotidiano que escapa das mãos do guardião social. Tem uma saída, o possível está na insignificância da linguagem, burlar os olhos, desvelar os véus, mostrar a dor da realidade que já cansou da simples nudez, mostrar o que tem por dentro, pois todo significado pode forjar novas linguagens e embaralhar os códigos do guardião. 

                       Egon Schiele - Two Women Embracing

domingo, 22 de outubro de 2017

Amplidão Mínima

                      Fonte: Zacharias Martin Aagaard





[...] seu crescimento é doloroso como o de um menino e triste como o começo da primavera.” Rainer Maria Rilke


Eu não minto, não meto,
Descubro linhas, acerto, perco o tempo,
Encontro os pontos, absurdo na meta,
Desconto a vida em linha reta.
Sinuosidade da morte:
Acho o lúdico, súbito, mordo língua,
Nado a esmo, lá no fim águas,
Olhos vivos nas algas da solidão,
Enfio mãos, naufrago em Mar de Espanha.[1]
Afundo sonhos, renovo ideias, conto histórias,
Faço o cerco, prolongo a narrativa, escapo da morte, 
Invento mundos, amplio a visão, mato tempo em vão,
Encontro espaços entre o Nada e o tempo de viver.
Histórias forjadas, atos do pensamento, nada perdido,
Livros lidos nunca escritos, sonho noutros lugares,
Vivo distante do meu lugar, destino no acaso faz-me errante.
Nunca saio do meu canto antes de olhar a fadiga das paredes.
O ser não envelhece no tempo, é mais velho que a morte dos pensamentos.  




[1] Alusão ao município sem mar, Mar de Espanha – Minas Gerais

sexta-feira, 6 de outubro de 2017

Sem discípulos



“Objeto é apenas o que pode ser ocupado e abandonado.”
Peter Sloterdijk (Esfera I – Bolhas)

Nenhum homem, nenhum momento, nem a flor do pensamento, meio olho e uma frota de navios imaginários a se perder na linha do tempo. De nunca mais poder retornar à terra segura, mesmo sendo o que ilumina as ideias, anda, por ora, a procurar o fantasma do passado, uma obsessão do demônio da igualdade nos poros biológicos predestinados a sobreviver ao sol. O novo tempo é a estranha forma de matar e limpar as ruas em nome de uma integridade tenebrosa. A moralidade se impõe como ordem dos néscios de alma que evocam a religião, a ciência e até a arte de matar o próximo.
O homem deste século sabe tudo, até mesmo crê que é inferior a deus para matar em nome de um deus. Prefiro ver o rio caudaloso de ideias se perder em ruas, túneis profundos, em pedras que escondem os desconhecidos a morrer na ordem do exército de mosquitos que sugam o sangue da maioria que pondera. Na fuga, atravessar oceanos, cruzar fronteiras sem olhar para trás com medo de sua própria cola que pega fogo feito fuga de animais racionais que escolheram se mesclar com a resignação das teorias fatalistas.
Um espetáculo público se monta lá do alto do poder celestial, todo homem que tem altivez e acredita no destino crê se salvar. Por outro lado, o que faz da fuga eterna seu imaginário, a poética e o país é quem talvez encontre o verdadeiro medo e força de forjar um novo tempo de flanar. Diria um quase andar em nuvens e um deslizar em águas profundas até chegar à margem e ver que na fuga todos são iguais e que, de uma hora para outra, retornam os dogmas em roupas e véus.




domingo, 10 de setembro de 2017

Dançar e Punir

       William Blake Oberon, Titania and Puck with Fairies Dancing



“E assim, à medida que o sol se punha, uma visão foi se impondo aos meus olhos.”
Antonin Artaud

Nas redes sociais as pessoas que gostam de legitimar a cultura do óbvio, da constatação, da quantidade, essas, emburreceram de vez. Jogam suas frustrações na falta de tempo para compreender a vida, naquilo que ela possa nos apresentar de novo, de desconhecido. A vida é o tempo de todas as coisas, o mais simples é o extremo, destruidor ou construtivo: arrasar ou adorar. É mais fácil primeiro adorar, depois, em outro sentido, destruir o pensamento contrário; sem se dar conta, pode-se estar cavando o próprio erro: o fim é o limite para o pensamento duro. O que vem a ser o pensamento duro, bruto? É o pensar dentro da construção cultural dual, em que existem os polos do bem e do mal. Essa religiosidade racional é parte da vida, é claro, não serei eu a refutar todas as manifestações pelo simples fato de pensar diferente. Eis a reflexão dos frágeis, pensar, refletir, o contraponto do monismo deste tempo irredutivelmente evaporizado no digital DNA das fraquezas brutais dos homens; está faltando Alteridade.



sexta-feira, 8 de setembro de 2017

Desfabricar




“[...] mas só porque tínhamos de nos cingir aos fatos não queria dizer que devíamos deixar de pensar ou não era permitido usarmos a nossa imaginação...”
Paul Auster – 4 3 2 1

A verdade é que quando escrevemos, digo, escrevo no impulso. A razão nunca abandonou-me, exceto no momento em que tenha perdido totalmente a fé na lei sonhada pelos homens, regida por uma onipotência, vontade acima dos homens, exceto, diante da razão traiçoeira. A razão ou fé, pensei: a luz no fim do túnel, é a única que me engana [...] Andei pensando em fazer uma saída do Rio Grande do sul, ou seja, esquecer por lapso de tempo não compreendido, levar a bandeira da vitória ou da derrota, pior, achar que se é na identidade que a alma deva ser reconfortada...Me perco, estou à deriva. Os braços avançam pretensamente à margem do nunca encontrado outro lado da paz. Um rio tem sua extensão de medo e finitude. A existência requer mais do que braços longos e ágeis, precisa ter técnica, unidade e fragmento a cortar o frio, a perfurar o peso volumoso das águas.   
Não interessa a louca, a boca, a secura do tempo, do corpo, do lânguido ao úmido, do torpe ao racional, do tiro no escuro à clareza das ideias. Sempre haverá um meio termo do absoluto, uma tentativa de completude sem que se feche para a escritura. Melhor seria não ter que prestar atenção aos determinantes. O acaso é uma quebra de registro, um protocolo que deixa de impor verdades. Existe razão nos descontínuos pensamentos. Há de existir bons sentimentos diante de tanta desesperança, penso enquanto tomo meu último gole de água e perco-me nas águas de um rio sem fim.

                                    Menina Janela-por the Real Richard


segunda-feira, 28 de agosto de 2017

Trem das Águas



“Olha em redor: a poucos passos dele formou-se uma pequena multidão que está observando seus movimentos como as convulsões de um demente.”
(Palomar contempla o céu – Italo Calvino)


Nadar e ser um trem ao mesmo tempo, deslizar nas águas, cruzar o país como se fosse uma locomotiva, de braçada em braçada, deslizar águas, trilhos e o coração bater tão rápido enquanto o vento singra as águas do tempo, da vida. O Tempo para se viver mais do que tem para continuar a subir em trens do mundo, de poder nadar sem saber o tempo de parar, sem ter estação para descer, o tempo de morrer é não poder mais ter o som das águas, o sibilo da locomotiva humana, do sinal no céu da luz que brilha, da estrela que ilumina a dor dos olhos que envelhecem de tanto ver o fim que não termina e os braços a continuar, avançar o corpo para o outro lado do mundo, de fugir da miséria dos homens, de buscar o som inaudito dos trilhos, do apito de um trem, do barulho do mar, do rio que silencia enquanto se atravessa a fronteira a nado para contrabandear o vento do outro país, para viver o tempo dos outros e buscar dentro de si o som das águas que vibram nos trilhos úmidos da chuva.