domingo, 18 de setembro de 2016

Pensar sem Mitos


“Quando dois filósofos não concordam em relação ao ser, eles não concordam em nada.” Étienne Gilson



Havia muito tempo que eu só pensava, passei alguns anos, dias em pensamentos, totalmente absorto. Era uma disputa entre o que eu estava a pensar e o que externamente me cercava.
Acordo sob a égide do panegírico dos homens engravatados que discursavam, mostravam uma tecnologia do século XX, depois disso pensei: realmente, o mundo é feito apenas de convicções. Voltei aos pensamentos. No outro dia o líder maior das minorias e maiorias desanda a desvendar a realidade vazia e a perplexidade em que as pessoas se encontram.
Mais uma vez sem convicções, me tornei mais cético do que já sou. Não a ponto de cometer uma asneira existencial e me agarrar a uma promessa prometeica. Tenho respeito ao mito, mas àqueles que foram forjados, e ninguém com mais de cinco anos leva a sério esses mitos. Errado. Todos se agarram a mitos. Ao homem cabe o argumento, aos deuses não cabe nada, aliás, eles poderiam dar um descanso à insanidade dos homens. Nem tudo está perdido, existe ainda a capacidade de argumentar, de pensar, até mesmo de reconhecer no Outro a possibilidade de ler o livro, de ver o filme, de ouvir o som, de poder refletir sobre todas as coisas sem que as convicções tomem conta dos argumentos.


quarta-feira, 7 de setembro de 2016

Visível




“...aqui onde se eleva e se arranca uma fala musical,
ali onde o visível se cobre ou se afunda.”
Gilles Deleuze

Mais uma noite, início de setembro, o céu escuro, alto e bom som,
Fogo, os tiros, os cantos, os gritos,
O inimigo a olho nu.
A ordem das coisas é a representação da democracia,
A repressão, virtude dos descontentes.
O jogo é real, o sonho é vital, a ordem é matar o contêiner,
Os dados lançados, o crime é punido.
O tecido social é o burquini de nossa democracia,
Entre as vestes e a ordem, a nudez é a pele da vida.
O poder condena a forma de vestir, esquece do mal que faz,
Toda ordem tem um nome, o povo come cinzas, cores espelham,
O fogo é o fim que some na escuridão.
Em nome da Democracia a constituição é rasgada,
Morte e Vida.


segunda-feira, 29 de agosto de 2016

Biodiversidade



Amargar na pobreza do espírito é a morte do corpo,
A fonte da vida é a fonte da língua.
Fontes renováveis de energia, texto além do texto,
Criação de cronópios para matar pokémons.

domingo, 28 de agosto de 2016

A imagem na tela

 

“O novo automatismo de nada serve por si só se não estiver ao serviço de uma poderosa vontade de arte, obscura, condensada, que aspira a desdobrar-se em movimentos involuntários que contudo não a constranjam.”
Gilles Deleuze (A imagem-Tempo, Cinema 2)


Sou do tipo que utiliza computador de mesa, um ser quase em extinção disse um dia desse uma voz cifrada do outro lado do écran. Agora o que mais se fala é da autonomia do cérebro, pensa em algo, lá está, o significado é o algoritmo da informação; os olhos, a câmara que move na linguagem cifrada. Para Deleuze, a informação aproveita-se de sua ineficácia para alicerçar seu poder. O poder impotente. O uso da linguagem cada vez mais é dependente das criptografias nulas, do constructo das linguagens a nudez vira um afronto. Era tudo que eu queria, a nudez viver ao lado do que cobre sobre a pele como uso livre da linguagem do corpo aos olhos do mundo laico. Tudo é uma questão de adaptação ou tudo é uma questão de tempo para não nos lembrarmos mais do Ser? O tempo é o passado em nosso corpo, não conseguimos mais compreender o tempo, então, é melhor esquecer o tempo nas tentativas de pensar menos, de fazer tudo na medida certa do descompasso. A vida é rápida, o tempo não nos livra de todos os sentimentos. Perdemos horas do nosso tempo no entretenimento. Morre-se de medo em ver o tempo nos acordar antes de todos em manhãs pós-golpe. O medo de se sentir útil ao pensamento é mais uma brecha para o desconhecido. Junte os pedaços e vire a página da intolerância.
O mundo hiper-moderno é aquele em que a informação é a própria Natureza.

Existem os lados, os tantos cantos deste mundo em que o pensamento libertário não deixou de respirar. Um lado dirá, ‒ quase burra, nem um pouco de estilo, muita informação ‒ outro ‒ nenhum pensamento é o que se vê em plataformas diversas ‒ mais outro ‒ tudo é uma questão de rede, ou seja, de sermos caçados por nós mesmo na rede. É o fim da autonomia? Em absoluto, não.

Minha tela está dando sinais de finitude, minhas mãos ágeis ainda acompanham o pensamento. O mundo é tão rápido, os dedos aquecidos pela xícara de café se tornam aquecidos neste inverno, mas quando o café acabar o que acontecerá?

   Orquestra Filarmônica de Nova Iorque - homenagem ao cinema - Federico Fellini

sábado, 30 de julho de 2016

Velhice

               


Desrespeite meus cabelos brancos, 
eu não sinto nada por você.
Eu sinto a dor que sentes e não percebes.
Tu sentes a vida na dor que vivo.
Respeite a dor do Outro.
Eu sinto, tu sentes,
A luz que nos aquece
A luz que adormece.
Respeite o teu desejo,
Respire todos os poros,
O corpo envelhece.


quinta-feira, 28 de julho de 2016

A literatura dos especialistas

     Paris - Shakespeare and Company

  “Deus tem em jogo sua existência nessa morte livre que um homem resoluto se dá.”
Maurice Blanchot


Existe uma literatura na cabeça, melhor existem literaturas em cabeças pensantes, em cabeças mercantilistas, em cabeças afetadas, e o melhor, em cabeças utópicas. Utopia nos dias de hoje parece mais um livro obsoleto, um livro de pouco interesse de mercado. Quando bate a crise, o livro é o primeiro a cair no esquecimento. Esses dias uma pessoa me falou que a crise é de todos, mas poucos conseguem morrer nela, conscientes de suas ideias, de suas utopias. Fiquei com esse pensamento durante dias, do início ao fim da badalada Flip (em Paraty/RJ), a mesma que prestigia a cultura, que nomeia os melhores, que busca divulgar nossa produção.
Tantas coisas que já não consigo lembrar por falta de interesse em ter essas iniciativas como verdadeiras representantes de nossa cultura. Sei, a Flip, as bienais do Rio de Janeiro e de São Paulo perderam seu brilho. A mídia há muito cometeu o crime, o tiro certeiro no coração da literatura. Não contente com a obscuridade de suas críticas, ainda por cima resolveu ser o olho mágico para ver o novo. Essa imagem, pura poeira, legitimou o texto e o interesse de comprovar que a autoria matou a criação. O autor predestinado nasceu do que foi plantado por agentes deste interesse, de algo maior que legitimasse uma literatura.
Ou seja, primeiro era preciso fazer com que o aprendiz de escritor se tornasse um escritor a partir dos ensinamentos de especialistas. Aí, Ferrou!.
Todo mundo escreve. Todos silenciam em relação a isso quando o resultado é nulo. Neste crime não existe culpado, existe cúmplice. Não vou deslegitimar 30 anos de crime, melhor, não vou denunciar, não nasci para ser representante de um poder oculto. Constato: o que está morto, está agonizando no vazio de leitores e na falta de uma literatura menos credenciada por especialistas.
“A arte parece então o silêncio do mundo, o silêncio ou a neutralização do que há de usual e de atual no mundo, tal como a imagem é a ausência do objeto.”
Maurice Blanchot




segunda-feira, 11 de julho de 2016

Cotidiano



Assim, o olhar encontra naquilo que o torna possível o poder que o neutraliza...”
Maurice Blanchot


Imagem das palavras,
Na simetria os olhos,
Correr à tela. A lente,
milímetro fátuo escorre,
no muro poema pichado.
O caminhar do texto. A representação,
tempo suficiente para a cisão,
embate do corpo arranha.
O dizer extenso do pensamento,
O cérebro guarda, cria além do que vê.
  

domingo, 29 de maio de 2016

Compreensão e Interpretação

    Paul Nash-blue-house-on-the-shore-1930



“Não pretendo convencer ninguém, nem sequer ser convencido.”
Paul Valéry

(parte 2)
Interpretar um acontecimento passa pela forma de como compreender um pouco do mundo, diria a voz no cotidiano. E que toda “interpretação se funda na compreensão” daquilo que pensamos como algo parte de nós, do que está no lado externo, no cotidiano a percorrer a significância de que o que se é compreendido se é projetado à interpretação. Existe a abertura ao mundo a partir da compreensão, o ser está presente no que está pensado. As circunstâncias movem o que está em curso, “o mundo já compreendido se interpreta”[1].

Não estou aqui a pensar a interpretação na esteira lógica do uso da linguagem, mas não posso deixar de lado as tentativas da hermenêutica na contribuição de como a interpretação pode ser a via por onde os caminhos do olhar direciona-se em busca do compreendido. Poderia estar neste terreno seguro e verdadeiro, porém, demasiado superficial, para o curso das águas deste rio que deságua no espaço abstrato das intenções protagonizadas por interpretações no âmbito de fatos contemporâneos. Prefiro percorrer o caminho que passa pelo signo do interpretar que consegue compreender as linhas imaginárias do pensamento, e que nem tudo que é da linguagem dá conta do que é do pensamento, e que nem todo pensamento é o plano mais perfeito para se chegar ao entendimento sobre um acontecimento. Neste ponto, entre o que vem para ser entendido e o que passa para ser legitimado como objeto de análise, talvez, o que se pensa, o que pode dar alguma contribuição poderia compreender que suas verdades passam pelo crivo de uma instância comum, e que muitas vezes correspondem uma velha ordem da interpretação autoritária sobre o mundo.
A opção do pensador livre passa por mais de uma concepção de compreensão: ter a mão as possibilidades de compreender o que a conjuntura do ato interpretativo expõe e jamais esquecer que o mundo sem compreensão é como o ente num mundo sem escolhas.       
Para Heidegger o mundo compreendido se interpreta. No Brasil o mundo da política é o espaço em que as ações são comandadas por canalhas que deixaram de lado a compreensão do mundo para por em prática a imaginação insana de suas ideias que só servem para dualizar questões e temas que são partes de um universo conceitual. A clareza das ideias da política no Brasil é tão plana quanto às ideias de um fanático religioso, ou quando cai no terreno do entretenimento e de um mundo desportista manipulador. O fanatismo tem uma mesma raiz, este dualismo de exclusão e de adoração, que perpetua nas gerações seguintes. Mas o que seria do mundo sem essas veleidades, que para alguns é fonte de vida? A potência dessas linguagens está calcada no mundo perfeito dos mídias. Aqui, quase uma entidade, ou melhor, um quase lugar perfeito, é moldado aos porta-vozes da verdade que desprezam a diferença.




[1] HEIDEGGER, Martin. Ser e Tempo ‒ Parte 1. Petrópolis, RJ. Vozes, 1988.

Abertura



“O decisivo não é sair do círculo mas entrar no círculo de modo adequado.”
Martin Heidegger



O difícil acesso de compreender o Ser é o pormenor dos problemas, o contrário seria mais ininteligível ainda ‒ o Ser compreendido pela facilidade de interpretá-lo. A poética é a única saída viável para se entrar no círculo, o círculo vicioso que Heidegger evoca no Ser e o Tempo. A maneira mais filosófica de compreensão é entrar nesse terreno interpretativo para além conhecimento rigoroso. A poesia é concebida na interpretação hermenêutica que parte dos fragmentos para compreensão do todo.

sábado, 14 de maio de 2016

Nascimento do Poeta

                      Imagem: Sophie Calle



A mãe vem com a lanterna entre as pernas,
Depois virá o pai
Pensando que a obra é sua.
(2007)