domingo, 12 de agosto de 2018

Devorador de rosas

     By Bedframe De Livros


“O que é primeiro não é a plenitude do ser, é a fenda e a fissura, a erosão e o dilaceramento, a intermitência e a privação corrosiva.”

Maurice Blanchot



Rosa roseira, escravo dos espinhos, o homem tira o véu da cabeça, deixa à amostra sua identidade, não teme os olhos, nem o odor dos dias tristes. Acorda entre livros, dorme entre sonho e medo, descobre os caminhos do imaginado. 

Manhã de mate:
Matinal, noturno de olhos ensebados, guarda-ressaca.
Manhã de sol:
Livro aberto, o que cata tela de música, linguagem dos sentimentos diria Thomas de Quincey do futuro.
Impressão digital na fronte, mágoa de domingo,
rio que desce, corre o céu, prédio de janelas escancaradas, seios no parapeito, beleza diante da câmara, olhos negros,
riso lúdico, mãos nos cabelos, o teu corpo é uma flor do presente. 
Tarde cinza:
O escavador de sonhos, vive em busca do pensamento, o ato de pensar ainda não começou a pensar, e Artaud jamais esqueceu as perdas do viver


A verdade é que me coloco a uma distância de quinze a vinte anos à frente deste tempo.”

Thomas de Quincey


*(Reler, texto de agosto de 2013, o texto movente no tempo.)


  


sábado, 23 de junho de 2018

Paz e Trégua


“Estávamos cansados de todas as coisas, cansados especialmente de ultrapassar inúteis fronteiras.”
Primo Levi

Meus livros. Leio e reescrevo o pensamento solto que existe na leitura que faço do ainda existente das páginas dos livros escolhidos assim por mim.
A dor é o fim, minha alma é como amarelecido das folhas surradas, manchas do café, do rastro do vinho, da solidão de ler o fim de “A trégua” de Primo Levi. Um dos mais impressionantes e dolorosos fechar de páginas que tive. E se eu fosse o editor, certamente, choraria ao cabo de sua confecção. Isso não acontece mais, terminar uma edição na cumplicidade do fim e o início de outro momento, no tempo dele existir, a reprodução parece ser a solidão que não se esgota. O livro está dentro desta história.
Na próxima guerra não haverá renascer, os escombros serão do tamanho da dor da Mãe-Terra arrasada. Morta por seus filhos, ela no secar dos olhos, sacrificará a existência em nome dos ideias que se perderam nas religiões, raças, e no outro lado político, destruidor da diferença.

O poder e a vontade “Ser” o “Outro”, o retrato diferente dos olhos de Levi no final de ”O despertar”, talvez seja para além da imagem, da ficção e da linguagem afiada dos manipuladores do mundo. Talvez tenhamos a vida depois disso tudo, dos nacionalismos revestidos de ética, e boas mentiras hão de passar a vigorar nas fronteiras dos corpos. Estamos imersos. O Território poderá ser apenas a linha imaginária que se perdeu no coração dos corações puros que retornam às escrituras, onde deus existe um homem há para se fortalecer e se impor. Onde a fronteira finca sua cruz, sempre teremos um grupo, uma cabeça a pensar, e que sua vida é e pode estar no fim. Por que outro um existente nos olhos do lado de lá pode ser uma ameaça à vocação única de ter direito de estar demarcado na fronteira do lado de cá. 

sexta-feira, 1 de junho de 2018

Na outra margem

     Toulouse - France




“Nosso futuro é tão irrevogável
Quanto o rígido ontem.”
Jorge Luis Borges
(do poema Para um versão do i ching)

A dor é minha, a semente que guardo nos olhos, fonte de energia que trago no peito, o alarme da vida, o sopro do coração, a braceada perdida no tempo, o levante dos invisíveis, o Nada e o nadar no mar, a perdição dos esquecidos, a morte dos ricos, o apodrecimento dos pobres, o casamento dos notívagos que, soturnos, vagueiam noite adentro até encontrar o primeiro templo e lá jurar amor eterno a Deus e esquecer seu Outro, o lado da vida está aberto ao desconhecido.
A miséria de poder ver-se nu em águas de um rio sujo que preserva a vida dos homens e mata os peixes já sem oxigênio. Um dia esse poema matará o homem em sua redoma de dominar a natureza. A irredutível vagabundagem dos poetas em quererem ser malditos e esquecer a linguagem dentro de si. O desperdício do olhar que não resulta mais em poética. A doença apressada em ódio de uma sociedade que se afunda em filas e fugas do sonho para viver só a realidade. Enumerar não uma só razão para atravessar o rio sujo, e sim várias para tentar escalar paredões e prédios tal qual o malinês imigrante.
Quase morto, vejo diante do sonho o espelho, o não acordar nesta vastidão destruída pelas águas que invadem uma cidade, todos a fugir para o cume mais distante; e lá, quase ninguém para conversar, encontro um velho sentado em uma pedra, imenso, dedos longos, esbaforido, olhar a salvo de um fim que nunca termina, nele  encontro o lado de todos os velhos amigos que morreram nessa travessia, todos os desconhecidos em suas fanáticas formas de viver, de torcer, de amar, de matar e desprezar o Outro. Me vi entre eles, saio do rio em direção ao velho ofegante, em plena forma de viver vou recitando uma canção até o seu encontro. − O fim não existe mais, a continuar vamos avante, de som em som cantamos a vida que está a começar, o tempo que não se difere de mais nada, ando invisível a tudo isso, por isso estou aqui deste lado do rio.

domingo, 6 de maio de 2018

Cromatismo dos sentimentos






“O temor de ferir e o medo de ser ferido estão nas próprias falas.”
Maurice Blanchot

A possibilidade de driblar a escrita, a ideia falseada num tipo de cromatismo andante, quase permanente contínuo, fugindo do sentimento, a se mostrar na própria linguagem de uma performance. A ida é proporcional ao tema, como se fora a combinação numérica, de linha a linha, na tela, o texto se forma, reconstrói o pensamento sem sair da ideia de outro texto que poderá não chegar em algum outro lugar, pois sua combinatória é ir no andar dos corpos, simétrico no lançar dos braços na água, no ritmo do nadar, do correr...ad infinitum, a contar que o tempo não se esgota, a configuração da linguagem poderá ir adiante, atravessar o oceano, descansar em terras de um dos últimos universalistas da história da música, morar ao lado de Saint-Saëns.
Poder acordar no som silencioso da vida que adormece na fuga, no domingo cinza de um fim de mundo tomado de vegetal cerebral, um afronto à flora, aos sons, onomatopaico, combinações de panelas e zum-zum de sirenes que protegem a saída dos criadores da vida.
A vida é uma combinação do desejo de fazer com a organização sentimental do criar dentro do modelo moderno, legado dos legítimos donos da cultura, e o desapego disso tudo que é a busca do limite da sensibilidade com a pureza da criação. Um novo constructo do fazer.
Volto ao abrir do dia, o acordar bem distante, na separação e proporção compassada e numérica dos olhos, os dedos que movem, atravessam o parque ainda úmido da noite, o cheiro diferente, a origem de seu corpo e o novo respirar bem longe dos caçadores de talentos, dos dromedários que foram cultuados pelos protetores dos museus. Os mesmos que impulsionam o ódio porta a fora, os mesmos que confundem arte com a moral, da caixa secreta de horrores e famílias que ainda brotam da botas sujas de lama e sem nenhuma aptidão para o ato de pensar e silenciar ao novo.
O que escapa dos sentidos domesticados é a ruptura com todos os sistemas, permanecer no caminho com todos os lados da vida em consonância às formas de linguagem que estão soltas no tempo.


segunda-feira, 30 de abril de 2018

Cartógrafo





Eu te olho através das lentes bêbadas da Solidão.
Amor se come com os pés,
Livro se lê com a fome.
As mãos carregam o resto de nossas vidas.
Toneladas de ideias, rugas identificam,
a solidão cartografa o amor.

sábado, 28 de abril de 2018

Nadantes

                                       Rio Douro 

“Universal como a violência e a morte, a dor nos iguala.”
Michel Serres

Milhões de pessoas em suas vidas, em casas, sós ou  acompanhadas, partidas, inteiras, felizes, tristes, por meio e metade de um tudo, e todos estão algures – lugar próximo deste mundo. Eu aqui, inteiro, em pedaços, parte do todo, nau perdida em sonhos, esperto para o amanhã. Fuga necessária para o outro lado do rio, braços e pernas aquecidos para entrar a nado e nado até o lado seguro da vida. Depois, então a me secar ao vento, de outro lugar, sem luzes difusas de restos e sobras do passado, feito no tempo que mete medo aos passantes. Passado e presente, entre roupas e dores alimentadas de promessas do outro lado de lá, do tempo que ficou marcado como se fosse dor de dente. Esquecido de tudo, estar prestes e se atirar nas águas que podem levá-lo longe, bem longe das verdades em compotas. A vida − depois de tudo − é um corpo que some a distância da ira dos que estão do lado de lá. No canto da boca existe um rio, a fuga, palavras, o que voa é o que fica no espaço entre o fim do olhar e o horizonte do pensamento.

segunda-feira, 9 de abril de 2018

O Lado do Rosto

      Claude Cahun - 1928


“O inelutável não tem a inumanidade do fatal, mas a seriedade severa da bondade.”
Emannuel Levinas

Dentro de mim mora um Eu, um desconhecido fragmento do Outro lado do Ser. Se isso não bastasse, dentro de mim a energia que existe é que move meu pensar, não a energia que faz com que eu tenha todo conhecimento, pois ela não existe dentro do mundo, ou melhor, fora de mim. Um exemplo prático do cotidiano ilustra este exercício: dois dias atrás, em atividade, andei dizendo breves palavras ao público, o evento exigia esse ato de falar, meu discurso era simples, apresentar aos presentes o trabalho que realizei e que ajudei a acontecer, desfiz-me de toda carga do dia a dia e expus aos outros o trabalho de forma a apresentar o lado autoral aos seus leitores.
Bem, a partir dali, fechei um ponto que estava dentro, lá guardado do Eu, melhor, do que imagino ser parte dele, mas que só se torna realizável no acontecimento.
Mais tarde voltei ao meu Eu material, a redenção do corpo, o guardião do rosto, de cara viajei ao texto, a Emmanuel Levinas, onde o rosto corta o sensível e desnuda o lado adormecido da razão. Bati na minha própria porta do Ser, passei por cima das nuances filosóficas, sentei, peguei dois livros que estão surrados, mas pelo tempo de convívio comigo, entrei mundo adentro da questão mais difícil de ser conclusiva, pois dela, o que dela se faz existir está para além do Eu, está do lado de fora, a Ética.
Quando terminava algo, no passado, sentia, logo depois, o vazio a se instalar no corpo, como as pessoas se sentem quando acaba um grande evento, quando termina toda a energia naquilo que une e inevitavelmente irá mais adiante ter o fechamento.

Aprendi muito com o fim de tudo, aprendi mais com a solidão noturna, pois ali, depois de uma leitura, de um vinho, um café, um filme, talvez, o descanso para acordar antes mesmo do meu Eu. O corpo está neste imediato contato com a realidade, o Rosto, o de Levinas, está presente no meu cotidiano. Bem, daí vêm os afazeres para acordar o resto, cada um com seu mantra, diria outra pessoa. É e não é, porque para pensar “é preciso estar atento e forte” e enfrentar a única responsabilidade suprema que existe ao que está dentro, ir para o lado de fora com suas armas, desprovido do medo, ir à luta.




sexta-feira, 30 de março de 2018

Niilista da Paz

                       Apocalipse - (1265-175) - Calouste Gulbenkian - Lisboa



"Atirou-se contra os espelhos, como uma alma-de-gato cega."
Severo Sarduy


Vida, ó vida das cidades, Aleppo, Rio, saídas para o sol,
ruas de fugas, outros perdidos, mortes em nome do Estado: evocam − Eu e Tu, alusão de um Deus.
Se morre, mata-se em nome do Tu,
o Eu mata em nome da Paz.
Tenho dificuldade racional de compreensão dessas mortes,
morro por dentro, torno-me Niilista da Paz:
vidas perdidas em nome das armas, cruz no céu,
a terra penetra na carne do Bem e do Mal.
Tenho medo do azedo e do doce apóstolo,
tenho ânsia de vômito à verdade absoluta dos seguidores.
Prefiro caminhar sozinho, lá outros hão de andar ao meu lado.
Eu e Tu, é para além de um deus, é a personificação do crer e não crer na imagem forjada pelos homens.
Jogos filosóficos, resta-nos a dor da miséria alheia,
a palavra do homem contra a indecisão na vida, são jogos de vida e morte.
A linguagem − dia sim dia não −, salva o diálogo da escuridão,
por vezes preciso do silêncio dos perdidos, dos ateus, dos crentes, dos que duvidam da ordem.
Todos unidos, na estrada do por vir, o horizonte é o céu cravado de violência seletiva, dos que matam em nome de um senhor.
Prefiro andar sozinho do que crer na razão para encontrar o paraíso, nem perder o sentido para encontrar Deus.  

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018

Auto de fé da resistência

                       Lisboa - Ler Devagar





“Assim se explica que até nossos dias acreditem mais firmemente na existência de uma cor quimérica do que na de Deus.” Elias Canetti


Canetti, nasceu na Bulgária, judeu de origem serfadita, a língua materna espanhola, teve sua formação em mais de um lugar, circulou pela Inglaterra, depois Viena e adotou o alemão para escrever. Com doutorado em Química, a escrita literária nunca foi deixada de lado, tornou-se um estudioso da psicologia. Como Otto Maria Carpeaux[1] escreveu: “Precisava-se, aliás, de um esforço de reportagem literária para identificar a personalidade desse autor esquivo.” O romance que ofuscou os nazistas, que foi destruído na época da cegueira humana, Die Blendun – que ganhou em inglês o título Auto de Fé –, abriu meus sentidos nos anos 1980. Ainda hoje, volta e meia retorno a ele, o inesperado surge nas leituras e no que separa o leitor de uma grande obra. Logo uma obra que tem o personagem que se afunda em sua erudição, na incompletude do mundo, no que o torna humano e o tira da vida. Pois o cotidiano requer mais que erudição, às vezes um esquecimento quase que alienante da própria compreensão da vida.
Nem um pouco me sinto triste nos voos que faço em Canetti, penso, é minha autoanálise, meu veneno e água, um equilíbrio que me deixa ávido para continuar gostando da obra e apostando na vida. Sem me jogar com todos os livros no abismo da mediocridade, creio que um livro não é apenas didático, é poético, e todo signo que brota da linguagem, a construção de uma história é que salvam a memória para retornar a outros livros.
Um livro aniquila tudo que existe, a recordação deixa de existir diante do êxtase da leitura final, tudo acaba. Diante do inominável fiquei prostrado, misto de solidão com vontade de esquecer o presente. Logo eu, um presenteísta, anárquico, naquela época vivia às voltas com as cruzadas modernas da estética. Uma completa algaravia enlouquecida e sem nem um nexo lógico. Eles vinham e diziam, “que leitura mais obtusa, quase um misto de descendente de Musil com a decadência dos aliados de Heidegger”. A partir desse dia, do momento da apoteose da linguagem modernista, me senti o próprio guerreiro do esquecimento. Nunca fui ao extremo das coisas, do direito a dizer qualquer bobagem, perdido no fim do Brasil, a leitura foi a tentativa de compreensão do mundo.
Aí me vi em o Auto de Fé, de Canetti, logo este Kien, em que via todo mundo desmoronar na falta das unidades da estética do cérebro, a preservação da vida se dava através do livro. Pensei, sou ele e sou o outro lado. Dane-se, estamos saindo da curva do capital ortodoxo para o fundo dos 20 a 30 anos de pós-68. Ainda bem que só tive um percalço de lá para cá. Ainda vivo, retorno meus olhos, meu interesse ao autor, leio e releio sua obra...O romance do qual sempre quis ser autor não foi um Camus, foi um Canetti. Tomo meu vinho e retorno à elegância de sua linguagem.
Salve o leitor, o livro sempre existirá, em oposição à acepção ontológica da obra, o entorno da linguagem é quase uma fenomenologia existencialista da exclusão do leitor – pensava. Hoje penso o contrário. O leitor morre e o livro viverá esquecido. Os incêndios são esporádicos, os imbecis estão soltos e pensam que são guardiões da cultura no domínio da existência e criação. Um livro é o que te tirar do marasmo, mesmo o personagem mais misógino possível, uma construção da erudição é sinal da fraqueza das edificações que estão a esmorecer. Assim me sentia lendo e refutando aquele livro na primeira vez, até perceber os caminhos a que ele podia estar levando meu entendimento sobre os anos que tardiamente fechavam o século XX.
Canetti não subjuga o leitor a desistir, pelo contrário, ele é dos clássicos que nos dá alento para resistir aos livros que caem no abismo, aos livros que são incendiados, nas obras que são excluídas do mundo pela cegueira dos homens, que nunca deixará de existir.



[1] Carpeaux, Otto Maria. História da Literatura Ocidental, vol. 4. São Paulo: Leya, 2012.
Texto publicado no jornal Correio do Povo - Caderno de Sábado - 24/02/2018.



sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

Ensaio dos Possíveis

            Art by Gleb Goloubetski


“Cada indivíduo é o centro do universo, e é apenas porque o universo está repleto de tais centros que ele é precisoso.”
Elias Canetti


Um belo dia, manhã, uma manhã cinza no dia de um homem, ele acorda. Os pensamentos são formados nas madrugadas, nos dias, no silêncio do sono. A sua formação não é uma enciclopédia, um compêndio, um quadro estático na parede sem cores nem relógios. O formato que se tem é que a vida é uma sucessão de acontecimentos. Teorias ao longo dos séculos.
Esse homem atravessou parte do ocaso do século XX, vivendo intensamente as mudanças sofridas e impostas no Ocidente. O Ocidente impôs. O pensamento no mundo ocidental, uma parte viva do mundo, que está na Complexidade de Morin, não serve mais como uma simples descrição de fenômenos, mas o é, também. Nesse belo dia, o homem percebe que é o mesmo dessas alterações, que é parte de uma mesma coisa, de tudo no mundo. Não é literatura; é a realidade esfacelando-se a partir do momento de cada manhã em que o homem coloca seus pés novamente no chão. A literatura é a mesma que salva o sonho de um dia acordar no absoluto dos conceitos. E como diria Morin, através da literatura o homem torna-se o que produz “pelas ideias”, e neste acordar que todos fins se mesclam com o hibridismo do ensaio. A vida é isso.
As ideias sobrevivem porque os homens as alimentam de novas roupas e novas informações e conforme as necessidades; os mesmos homens que as negaram tratarão de dar-lhes forma diante dos acontecimentos.
 As teorias sobrevivem porque os homens se espalham pela terra e, como diz Morin, o desconhecido não é apenas o mundo exterior e, sim, sobretudo, nós mesmos. As crenças nas verdades, na lógica ocidental, nos fatos e no Cotidiano da comunicação entre esse homem e todos pelo mundo afora e adentro, do Ocidente ao Oriente, da rua à casa, do real ao hiper-real, do conceito ao Imaginário[1], da linguagem à comunicação, e tudo na esfera do vivido, do jogo, permaneceu porque o visível passa do inteligível ao sensível e ao invisível. Lembrar de Heidegger, do “Ser” como a compreensão “indeterminada” e do mesmo modo “sumamente determinada”. Do homem que ao acordar personagem se dá conta de que ele compreende a palavra “imaginário” e com ela todas as derivações, as variações possíveis, ainda que essa compreensão pareça indeterminada. Inacabada. Esse imaginário povoa seus dias. Ele retorna ao “Ser” e em Heidegger: “O que compreendemos, o que se manifesta, de algum modo, na compreensão, dele dizemos, que tem sentido. O Ser, porquanto, é simplesmente compreendido, tem sentido”.
 Do possível ao impossível, esse homem, dentro da complexa colcha do pensamento, será sua única saída para o mundo. O seu mundo diante do que está em discussão, sendo que em um belo dia, esse homem acordou fora do apenas inteligível. Foi através da “brecha microfísica” que abrira o espaço para o sujeito se postar diante do objeto, diante do próprio decreto mal-aventurado da lógica ocidental, que percebeu que o acaso contribuíra para as suas novas manhãs.





[1] A partir de Castoriadis quando diz que no “por-vir-a-ser emerge o imaginário radical, como alteridade e como ‘originação’ perpétua de alteridade, que figura e se figura”. A Instituição Imaginária da Sociedade. E o Imaginário como figuração de imagens que é parte do presenteísmo de significados ou sentidos em Maffesoli.