domingo, 6 de janeiro de 2019

História(s) humanas 2



        Imagem: Cannes - France



“O que é explicado como ideia e não como definição.”
Werner Jaeger

Coisas do mundo existem, digo, as mais preciosas e estranhas estão aqui no Brasil. Vivemos no país digno de ficção, um prato cheio para a literatura. Alguém escreveu que este país está virando um hospício. Estou sentindo em mim pequenas transformações no humor, na paciência em lidar com os objetos, com imaginário e os mais palpáveis tipos de estranhamentos. Como ligar o mundo concreto, aquela construção da consciência de Herder, em que o acolhimento histórico ligava a vida ao futuro? Estamos no tempo das versões e superações dos apóstolos da decadência dos valores modernos, a história já não é um caminho inexorável, o retorno é uma versão idealizada do que já foi o concreto estar no mundo.

O mundo parece estar novamente no dilema entre o domínio das coisas, de um lado, no obscurantismo do que foi dado, e o retorno cego ao princípio das leis monoteístas sobre a vida. O que é de espantar, de ver os que um dia conheceram a história hoje se deixam levar aos princípios de crença religiosa para explicar a realidade. Vivemos o tempo de que melhor é ser obscurantista do que perder o controle absoluto sobre o Outro. Os dois sempre sonharam ter às rédeas da vida e da história.

Um exemplo de pragmatismo, da essência cega do conservadorismo, lidar, manipular dados com os serviços prestados por empresas aos seres pós-humanos, aos abjetos seres que povoam o planeta Terra. Estamos virando personagens de um mundo que o absurdo é simplesmente não mais uma digressão filosófica ou experiência existencial, mas para estarmos dentro da salvação e do núcleo onde o bem possa estar, devemos compartilhar esse tipo de terapia fundamentalista contemporânea das redes sociais aos templos em que seus guardiões estão galgando o poder da gestão dos povos.

Existe uma saída, em que possamos ver as coisas mais definidas em suas verdades e fragmentos? Retorno ao tempo da reflexão, da livre educação, de separar a vida do que é lei de princípios religiosos, existe sim, caminhos diversos, em que a consciência histórica, o legado da modernidade não se deixa morrer no desejo totalizante de dominar o Outro em nome de uma só Verdade. Convido a todos a tornar mais complexa a vida, voltar à leitura de tudo, do clássico ao contemporâneo. Não se trata da busca do Uno, escreveu Jaeger no ensinamento de Platão “A virtude é sempre a mesma”, e que podemos aprender é que ler nos abre a compreensão melhor do mundo.

sábado, 5 de janeiro de 2019

História(s) humanas

     Cannes - França

"Madrugada, um céu de estrelas
E a gente dorme
Sonhando com o dia"
Caetano Veloso


Cansado da comicidade, da urbanidade na palavra média da média elitizada, estou carente de revolta, estou ansioso, perdido como nunca, em transição permanente livre para refletir, para ouvir Caetano nos complexos dos nexos e ler o que sempre gostei. Estou na leitura, pois como disse Gadamer “pois Ser-humanista significa saber ler”. Atento à leitura a vida fornece a liberdade de ler, a possibilidade ter a crítica na palavra que discorre e revela a imagem. O tempo é de leitura, de pensar, de espedaçar as nuvens que ocultam o disfarce da história, também, é o real olhar desatento. Estou cansado de mentes possuídas, de ideias conjuncionais, o mar é da cor do que é, a cor dos meus olhos é o que é, a roupa que visto é minha pele. Todas as cores no meu Ser. A única tradição que existe em mim é o legado do estar no mundo: a leitura é a prova de tudo.  

sábado, 15 de dezembro de 2018

Doce Noturno

      Rio Sena 



“Você também me lembra a alvorada
Quando chega iluminando
Meus caminhos tão sem vida”
Cartola

Vive-se a ironia desprovida de vida, ir lá no fundo,
Escavar a alma, atracar com unhas e sede − O copo.
O veneno da maldição, combinar morte com dinheiro,
Esfregar mãos de felicidade, contar os feitos,
Esconder os defeitos da dor, promover a vida,
Escrever no face e se glorificar do intento.
O poder de contrariar a ignorância do cérebro,
A inteligência do berço, do embalar, enlatar e aprontar.
Toda compota tem seu apodrecimento,
Toda maldade é o que se redime
Nem sempre é o perene o que se persegue,
A caça é o que pode morrer engasgado.
É o fim dos tempos logo ali,
Atrás da noite vêm as luzes,
O sol tardio é a dor infinita,
De tanto ler o ver é insignificante.
O que pode estar oculto,
É como estar abrindo a cabeça,
O dia é nos olhos unidos,
O corpo, o prazer é o texto em cor.
Depois deste dia, uma flor é como a dor,
Desmancha a métrica confunde o ritmo.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2018

Estrangeiro

                                      Toledo - Espanha



O teu ódio é primário, é banal e mitificador,
Meu amor é universal, banal, é livre.
Nossas diferenças? nada disso existe, é fonte de vida,
Energias que divergem, falas que destoam,
Onde o teu ódio anda, meu amor já se apossou.

terça-feira, 27 de novembro de 2018

Movimento(s) de Leitor

    Claude Monet -Soleil levant


“A arte só está próxima do absoluto no passado, e é apenas no Museu que ela ainda tem valor e poder.”
Maurice Blanchot

Meu grupo é tão seleto que não existe, vivo no limbo da desatenção, permaneço só. A multidão amordaça, é calada, dizimada que nem cauda da serpente explodindo por balas perdidas. Vejo no espelho o movimento do corpo, a luz difusa, a névoa de um domingo quase sol meio cinza. Corro louco, feito refugiado, do meu próprio país para ver o mar. Não olho para trás nunca mais é forte demais. Fuga dos sonhadores, minha alma dentro do casaco cinza que atravessa o frio sem se entregar. Depois, nado fundo para não mais voltar. Jamais. Sigo em braçadas até o fim do livro. Leitura voraz, audição do silêncio. A mesma cena que passa aos olhos é um filme autoral, a mesma cruz um sonho insistente de causar questionamentos. Ouço o tilintar do pensamento, notas dissonantes, ritmo das pernas, braços em sincronia ao bater na água. O presente é apenas um arremedo do passado aos que não resistiram às tempestades. Demarco uma linha imaginária na tela, traço fugas, planejo novos roteiros em novas cartografias do coração. Enfim, terminei a leitura e o céu abriu o clarão das ideias.

domingo, 25 de novembro de 2018

Quase Dezembro

     Barcelona - música de rua




Poeta, poética, zuar à luz meu céu,
Através do canto entoo a cor da boca,
Que penetra o corpo, se volta para a alma,
Reluz no desejo pagão, no ensejo de voo sem asas.

Ótica da vida, luas luz meu sol,
A vida é cheia, logo ali um diz, que gordura,
Outro diz, que velhice, outra diz que pele,
que resseca com a dor de tanto dizeres.

Narrativa, falatório no vácuo da solidão,
Contrariado, ouve o silêncio dos que falam,
Todos ao mesmo tempo narram sem se ler,
São felizes e riam de suas narrativas vazias.

Tempo, memória do resgate, coração em alerta,
Nem toda história consegue ver o fundo dos olhos,
Não esquecer é lembrar, viver é permanecer atento,
O irrealizado é um detalhe do não retornar ao passado.

domingo, 4 de novembro de 2018

Observador da sacada





     Aigues-Mortes - France




“Adorava poder mostrar-lhe o filme, mas, por outro lado, sei que tem outras coisas na cabeça.”
(Win Wenders sobre o Papa Francisco)

Ainda procura ver os rostos, nada pessoal, ele ainda busca enxergar todos em sua individuação, a captura do anonimato é a imagem oca, ele busca ver os olhos dos anônimos.
As imagens confundem o centro, rasga os lados, alarga os braços, entorna o vinho sobre o mundo,
Ele procura os olhos, ausculta o som do mundo,
Ele vigia os sentidos, vê a face do desconhecido, os olhos na multidão é como o tempo que não tem dimensão única, interminável aos olhos a imagem-tempo.
Ele ainda vê tudo como observador privilegiado, o mundo não muda, mãos que matam mudam.
Ele busca o movimento da humanidade, a contínua ida ao desconhecido do Ser, procura o olhar que retorna em sua finitude.
Ele é o observador do que se esgota, do tempo que permanece movente, percebe o transmutar e o que permanece intacto.
O movimento é como a música no filme, um travelling que no silêncio faz a imagem ser os olhos dele,
Ele permanece a olhar o tempo dos olhos esquecidos, dos que creem e os que vivem a pensar nas possibilidades de vida.
Os olhos dele é o signo, que na cena entranha o desconhecido, a imagem-movimento que se dispersa na multidão no momento certo em que o silêncio solapa em meio aos olhos presos na linha do tempo que desfia a ilusão da permanência.

segunda-feira, 29 de outubro de 2018

Um Dia Depois

                                    By António Paim - Rouem



"Nesses dias há grandes rebanhos silenciosos de carniceiros negros vigiados pela polícia, quando a noite cai...”
Paul Nizan


Se toda dor, toda tristeza percorresse o país o que seria de mim? todo em lágrimas e dor, na veia em fusão com águas dos rios, do mar que afasta a vida da vida. Então, o que seria dos olhos sonhadores, mordido por tubarões, aves de outro mundo, botas que pisotearam, afundaram mãos e braços até não ter mais respiração.
O que seria do corpo cansado, esfacelado da luta, da fuga do mal, do não querer matar, não usar o gatilho que atira na vida? Querer voar o céu do país, inventar um paraíso para o coração, ficar menos triste, sair da prisão que só a falta faz quando tudo se transforma em ódio, faz o vento espalhar dores e mortes esquecidas no cotidiano, queimar a pele com o ácido que mata a floresta, que afunda barcos, que a presa mais atenta não consegue mais fugir da dor imposta. Onde anda a história contada lá atrás? Não sei.





sábado, 13 de outubro de 2018

Invisíveis

                           Anjo caído. Jean Michel Basquiat. Catálogo da exposição no MAM Basquiat de Paris.



O que há com aqueles companheiros que esperam calmos e silenciosos ali na plataforma, tão calmos e silenciosos que colidem com a multidão em sua própria imobilidade”   

Ralph Ellison (Homem invisível)


Não engane os vivos, a prova de amor mais bela, a oculta vem para depois do medo, o invisível luta o que pinta, quem escreve morrerá nunca. A música que toca, o texto na tela não é como marca imposta no corpo. Somos milhões pelo mundo, nunca morremos, desaparecemos, cherie. Aos poucos, nos unimos no fundo, profundezas da dor, então, estamos vivos novamente. Continuamos dançando, pintando, o canto nunca silenciará. Somos criaturas invisíveis, somos vozes e corpos que renascem da dor. Somos a mistura da arte com a vida que é ofuscada, da voz que é aterrorizada, vozes surgem de todos os lados do mundo, a invisibilidade é a poética da resistência. A liberdade está dentro dos olhos tristes, da negritude, da brancura e de todas as cores nos dentes, da pele que envelhece. Os músculos no rosto enrugado que não apaga o brilho da vida.

quarta-feira, 10 de outubro de 2018

Paradoxo das Sincronias - Nunca se está sincronizado totalmente com o mundo

     Filme - Para sempre Mozart




“Mas sem a integração da crueldade pela vida, também não haveria vida.”
Edgar Morin 


Recolher a dor, deixar o tempo tomar conta do instante vivido, deixar de ir ao encontro do que anos atrás se fazia presente, quando a memória podia ser a guardiã. Nesta viagem de agora não estar nem no início e já temer o fim abrupto do mal que surge no horizonte: estrondos e explosões. O tempo que não foge do corpo, está colado nas paredes da alma, invisível é parte de todo o universo. Um breve esquecimento, o tempo que te salva é o mesmo que passa sem retorno programado. É como ter o controle da memória sem mesmo saber o caminho certo por onde ela anda esse tempo todo. Reprogramar a vida, autoanálise, pensar que os encontros sempre foram parte importante da formação da pequena história de cada corpo. Aqui estou. Reflito sobre a capacidade de encarar a vida sem perder os fios que ligam a memória ao tempo.
Se o passado é feito de portas que se fecham, abre, independente do mundo exterior, que se apodera do signo, a palavra gravada nas lacunas do corpo e do pensamento a se mostrar na dor e completude. Então, o que dizer da dor, esse desvio do ato de encarar a realidade e ao mesmo tempo de desvendar a solidão do Ser no mundo?
Passo dias a pensar sobre alguns temas, a dor, essa massa sem corpo, essa estrela vista por dentro e por fora, essas cores que mudam conforme os dias. O tempo e a memória são o mesmo horizonte aos olhos, a razão do corpo se manter teso, pronto para nadar até o outro lado. De repente surge o momento em que me vejo dentro d’água, entre a respiração, os braços e as pernas que, no movimento contínuo, me levam ao pensamento sublime. O único Deus que existe para o meu Ser é o poder ser livre, poder pensar e me solidarizar com o mundo. Com o que resta dele. Os amigos partirão comigo? Alguns sim, outros ficarão no meio da guerra, a vida que suga até o último cigarro, a última lágrima.
O que pode estar acontecendo do outro lado? Esse é o único detalhe que escapa dá lógica das coisas tangíveis e das pensadas diante do mundo e do Ser no mundo. O desejo não se esgota em si, a vontade, fruto de um tempo em que o Ser se torna domínio absoluto da alma, da certificação de estar no início e no fim de si mesmo.
É como fazer seu próprio filme. Acontece que nasci no berço mais humano do século XX, do ventre materno nasceu a fome de viver à risca a vida em toda sua loucura. Não entrego meu pensamento livre ao ódio que tenta justificar o mal diante de sua falta de aceitar a diferença. Por isso, em alguns casos, a dor é mais latente, alguns vivem mais intensamente.
Gosto de pensar o texto movido por uma câmara imaginária, que aproxima mais e mais daquilo que tem o significado da linguagem; o que está visível, o que narra, e principalmente o que oculta, é o submerso vindo aos olhos do sentido. O que antes era esquecido, não visto, pode tomar o espaço mais preciso na narrativa.