terça-feira, 2 de setembro de 2008

O Signo de Saturno da Infância


Imagem do "História(s) do Cinema" de Jean-Luc Godar




“Na realidade, demasiadas possibilidades. Como o temperamento saturnino é vagoroso, propenso à indecisão, às vezes precisamos abrir caminho de faca na mão. Às vezes, acabamos virando a faca contra nós mesmos.” Susan Sontag



Eu era muito pequeno. Eu e minha mãe viajávamos de avião do interior do nada, do Erechim, nos Anos 60 do século XX, para outro distante nada, Porto Alegre. Depois a última parada seria Alegrete. Numa tempestade ao chegar na capital como diz a mãe, “aquela água turva lá embaixo, da cidade não se via nada, só água”. Porto Alegre vinha de uma enchente e aconteceu uma instabilidade no vôo quando o avião se preparava para o pouso e fez com que eu me agarrasse ao pescoço materno. Medo. Ela perdeu uma corrente de ouro, provavelmente um símbolo religioso. Foi o tempo perdido, o religioso nessa viagem. Eu tinha quase dois anos de idade e tinha ido visitar meu tio que era funcionário da Varig em Erechim. O Rio Grande do Sul era cortado pela Varig.
Minha avó tinha morrido não fazia meses, a vovó Morena e, eu antes mesmo de saber da vida, já sabia conviver com a morte. A mãe diz que eu brincava ao redor da cama da Morena que agonizava, morria aos poucos. Morreu em casa. Nasci na Santa Casa, já quase não se nascia em casa. A vida sempre começou para mim enquanto a dos outros desapareciam dos meus olhos. Foi assim com meu tio, irmão de meu pai. Foi assim, ultimamente, meu pai neste século. Morreu. Nasci. Morri um pouco e nasci mais um tanto de nada para a eternidade do pensar de uma finitude prazerosa. Ser filósofo é a dádiva mais vagabunda e exuberante que existe. Nascemos e morremos no final de um filme, de um livro, de um acaso olhar sobre as águas turvas da cidade que não lembro mais. Minha vida foi em torno das águas turvas do Guaíba. Nasci quase na fronteira do Brasil com a Argentina. Não sou de lugar nenhum e mesmo quando sinto falta, sinto falta é de andar ao redor dos olhos da infância sem cidade. Sempre sonhei ser todas as cidades do mundo. Benjamin via em Paris a cidade que “ensinou-me a arte de me perder” e eu senti isso no silêncio da solidão que me levou até lá. Quando leio Susan Sontag me lembro da leveza dos sonhos, a escritura nasce quando ela escreve sobre Benjamin ou sobre Barthes. Choro no fim ao perceber seu imenso voltar às palavras.
A filosofia, a literatura nos ensinou a ter um câncer e depois, ler com prazer deve ter sido a imaginação mais fantástica para Sontag um dia. Todos, um dia, qualquer dia da existência, pensam na vida com saudades dos esquecimentos da infância.

“Um labirinto é um lugar onde as pessoas se perdem”
Walter Benjamin
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