domingo, 24 de agosto de 2008

Homens sem qualidades



Um romance sem piedades. Ironia da perdição de um personagem que deixa de acreditar nos ideais da própria literatura.

“Alice vem dormir no meu apartamento. Nada lhe contei sobre o meu tortuoso caminho. Ela já me contou que fez amor com mulheres e gostou. Chega com um lindo buquê de rosas para enfeitar e perfumar a casa. Já me convenceu a ter um blog. Vou falar de mim. Sem pudor. Por que teria pudores? Sou um homem feliz com o que Deus tem me dado. Por exemplo, ela. Já temos um pequeno conflito sobre o conteúdo do blog: ela quer que eu faça literatura e não me prenda à estreiteza da verdade. Eu tento mostrar-lhe que filosoficamente a verdade é uma construção coletiva, um imaginário. Ela se irrita e garante que isso é conversa de mentiroso e de canalha. Acabamos sempre na cama”. (Solo, Record, 2008)



Um romance que não crê mais nas promessas da vida. O lúdico atravessa o tempo para encontrá-lo nas reminiscências.

“Talvez tenha começado quando Sonia morreu, não sei, o fim da vida conjugal, a solidão de tudo, a maldita solidão depois que perdi Sonia, e aí eu me arrebentei todo naquele carro alugado, destruí a perna, quase me matei nesse episódio, talvez isso também tenha ajudado: a indiferença, a sensação de que, depois de setenta e dois anos nesta Terra, que se importa que eu escreva sobre mim ou não? Nunca foi algo que eu me interessasse, nem mesmo quando eu era jovem, e sem dúvida nunca tive a menor ambição de escrever um livro.”
“Fugir para dentro de um filme não é como fugir para dentro de um livro. Os livros nos obrigam a lhes dar algo em troca, a exercitar a Inteligência e a imaginação, ao passo que podemos ver um filme — até gostar dele — num estado de passividade mecânica.” (Homem no Escuro, Companhia das Letras, 2008)
Postar um comentário