quinta-feira, 14 de agosto de 2008

Diálogo sobre o fracasso e a guerra dos Outros



"A vida está cheia de mistérios desses. Há alguma coisa diante da qual toda a razão é impotente." Robert Musil


Não contente com mais uma leitura de o “O Homem sem Qualidades” de Musil, meu amigo Ferdinand Seznec, autor de um só romance, “L’Evasion n’aura pas lieu”, sem edição em português. Conversou comigo ontem por e-mail. Ele ainda reluta outras formas de comunicação pela rede, pelo simples fato de não ter paciência de ficar “visível aos outros”, como prefere dizer. Falamos de nossas vidas, de quando nos encontramos pela primeira vez, nos Anos 90 do século XX. O tema em torno do fracasso, diante de tudo que está acontecendo, ou seja, de nossas forças estarem se esgotando assim como se esgota o amor. “Sem ressentimentos”, diz ele "porque o amor tem a sua duração assim como a glória de um escritor, de um compositor e por vezes". "Muitos de nós acabamos morrendo na mais absoluta consciência do silêncio e sem reconhecimento." Ele estava triste por ter perdido um amigo no ataque russo à Geórgia, na província da Ossétia do Sul. O amigo dele morreu com estilhaços de uma bomba enquanto escrevia mais um romance.

Ferdinand (sobre o fracasso e as perspectivas de um novo livro sair na França)
Sei lá. De nada adiantaria. Eu, você não temos aura. A gente se vira, dribla e se mantém fazendo coisas que não deveríamos, para horror de quem tem aura, mas isso não significa que se possa ir mais longe. Eu já bati no teto.(risos). Daqui não passa. Se eu escrever mais 20 romances o resultado será o mesmo. Cada vez mais eu penso em escrever e guardar, pois o que me dá prazer é escrever, não publicar. É muito provável que seja ruim mesmo, pois, salvo sendo paranóico, não há razão para o mundo estar contra mim. Já até recebi um daqueles elogios tradicionais de uma mulher que leu um ensaio meu que saiu numa revista de filosofia e literatura. Segundo ela, agora sim ficou bom, não ficou como os anteriores, onde o personagem, "eu", ficava se queixando de não ser compreendido como escritor e passava o tempo se masturbando. Ser é ser percebido. Eu sou percebido, nos meus romances, dessa maneira. Deve ter algo errado, pois quando eu penso estar sendo radical e maldito caio na graça das velhinhas de 90 anos. Fazer o quê? Escrever para passar o tempo.

Homem Nômade:
Isso porque você fez aquele texto em cita o Franz Ferdinand e talvez a velhinha adora ouvir essa garotada. Não temos aura porque não pensamos no simples fato, de antes enriquecermos para depois comprarmos a própria glória (risos) Comprando todo mundo e zombando da ignorância. Eu ainda tenho "fé" de enriquecer (risos) depois escreverei um livro com um toque austeriano e a crueldade de Bataille, ou simplesmente, continuarei sonhando e achando que sou melhor que os outros. No fundo nunca soubemos vender o peixe. No final, bem no final, creio que alguém se dará bem...e você quem sabe tenha um livro no Brasil e resenhado na Veja e na Folha de São Paulo (risos). Eu me tornarei um empresário na arte do entretenimento imaginário e um reconhecido acadêmico alternativo e compraremos a fama. Depois jogaremos na lata do lixo para os outros olharem de como é fácil ter glória.

Ferdinand:
Adorei, está muito bom, especialmente o "nunca soubemos vender o peixe". É verdade. Nem saberemos. Somos bons, sim, muito bons, mas como não sabemos vender o peixe, somos vistos de outra forma. Eu também vou continuar sonhando em ser escritor, pois, por personalidade, não sou de deixar de fazer o que gosto, mas cada vez mais tenho consciência de não ser percebido como escritor. No fundo, escrever romances e jogar futebol são equivalentes para mim: um hobby dos domingos à tarde aqui em Paris. Faz sentido. Os leitores que se encantam com os escritores reconhecidos certamente me vêem em relação a eles da mesma forma como me vêem em relação a um jogador de futebol. Aí está: eu sou tão bom escritor quanto jogador de futebol (risos). Vou lá, estou atrasado. Estou indo para a Geórgia visitar a família desse amigo meu. Tenho que ver um jeito de entrar naquela terra. Abraço, Ferdinand.
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