quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

A Ilusão do Real


“Assassinato do Real: isto soa como Nietzsche proclamando a morte de Deus. Mas este assassinato de Deus era simbólico, e iria transformar o nosso destino. Ainda estamos vivendo, metafisicamente vivendo, deste crime metafísico, como sobreviventes de Deus. Mas o crime perfeito não envolve mais Deus, mas a Realidade, e não se trata de um assassinato simbólico, mas de um extermínio.
(...) E isto porque o Real não está apenas morto (como Deus está); ele pura e simplesmente desapareceu. Em nosso próprio mundo virtual, a questão do real, do referente, do sujeito e seu objeto, não pode mais ser apresentada.”
Jean Baudrillard



O que é percebido, o que é visto antecipado por já estar lá, é que está fora do conceito, o conhecer disso é poder de observação ao longe; mais de perto, é poder compreender que se existe, é o que ali está no canto de todos os objetos, imagens inventadas, pensadas, antes mesmo de serem nomeadas e o que não precisa ser quantificado, por exemplo, a vida... é o que temos, o que está posto sobre o mundo. A vida é tempo sem tempo a preencher o ar com inaudito, com aquilo que ainda estamos tateando, o perceber é condição para se conhecer. Pássaros de um real que não existe.




sábado, 14 de dezembro de 2013

Mãos de palavras


“Toda boa escultura, toda boa pintura, toda boa música, sugere os sentimentos e os devaneios que ela quer sugerir. Mas o raciocínio, a dedução, pertencem ao livro.”
Charles Baudelaire


Ela inclinou o corpo até o outro lado da mesa, ali estava ela, com os olhos nos seios, com os olhos no cálice, com a boca em suas frases, inclinou um pouco mais do o normal, quase na horizontal, mais do que fazia em outras situações. Um lugar público, um olhar íntimo, uma voz que parecia vir das caixas de som, que vinha das imagens da tela, entravam mãos e braços, o outro lado da mesa estava ele com os olhos em seus lábios, o movimento da língua, imaginação de que a liberdade pudesse existir na língua...a partir do começo na linguagem nasce um texto, um verso morre no copo ou no corpo das palavras.
Ela do outro lado da mesa disse –

estou com sede, favor me servir um cálice, eu sei que minha voz é melhor que o que escrevo, mas sua escrita não é minha companheira já um tempo, então me escuta, eu quero um gole do teu gole, meus seios são só de quem vê a vida, tipo, tipo, eu mesma, o resto que se foda...enche esse cálice e a vida ficará melhor com nós dois aqui neste lugar em que não se vê mais mãos sobre mãos.

                  Imagens a partir do filme de Murilo Salles
               

domingo, 8 de dezembro de 2013

Balada no “FaceBaker”

                               Do filme La belle Noiseuse 


“Acredito que o erotismo está fundado no interdito; que, se não houvesse em nós um interdito que se opusesse profundamente à liberdade de nossa atividade erótica, não teríamos atividade erótica.”

Georges Bataille

Mostre tua roupa, tua boca,
Os teus peitos, os teus enfeites,
O teu corpo, os teus defeitos,
O olho que vê o sol, os sinais da vida,
O alcance dos braços, a voz de um outro lado,
As mãos que asseguram o livro - Os pés,
O andar até a geladeira, o gole de água para não secar.
Mostre um pouco das entranhas, não quero ver poesia,
A tela é um brilho que cega, o ver mais longe está na lábia,
No passo da mulher que saboreia o filme sem manchar o olho.
A ruga que vem ao natural, o seio que vê o horizonte, o cotidiano que arrebata o desejo das noites,
Que atravessa as paredes da idade.
Mostre teu riso, tua boca, teus peitos,
Música para embalar, língua para deslizar linguagem, dias que morrem: o eterno sabor melódico.
Enquanto esse decifrar não chegar ao fim, mostre um pouco de ti nesta balada de Baker.


  Imagem de Emmanuelle Béart  



sábado, 9 de novembro de 2013

Olhar o fim

    Foto: Bebeto Alves

“No reino do olho nu nada acontece que não tenha seu começo e seu fim.”
Paul Auster

Todos queimam um cigarro até o fim, um dia até o fim,
Os dedos queimam até o fim, o cigarro é até o fim.
Todos queimam a vida até o fim, o beijo queima até o seu fim.
Tudo tem um fim, os dedos envelhecem até o fim, o sorriso espera os dedos envelhecerem até o fim, o riso vive até todos os fins.
Todos olham até o fim, o dia parte até seu fim, os olhos lá ficam a esperar o fim: olhos a sonhar com o outro dia até o fim.



domingo, 3 de novembro de 2013

Teorias do Jogo da Vida



“Por sua vez, o tempo que redescobre não é estranho ao tempo perdido: nós o redescobrimos no próprio âmago do tempo perdido.”
Gilles Deleuze



Os pontos que ganhamos na vida vão além do nada adiante dos pontos que ganhamos no jogo que nos foi imposto, nada aquém das perdas no tempo que ficamos a calcular a medida exata para se ganhar o jogo do pensamento.


Perder é a aposta menor em relação a dor daquele que já perdeu na vida. O Ser e o Jogo, eis o jogo existencial do século XXI... o que percorre no sangue de todos que vivem o limiar da imagem à linguagem digital do pensamento, ao passar do ato de transformação criativo ao ato de jogar o lance da linguagem misturada no pensar ao tabuleiro invisível que o jogo apresenta aos jogadores do pensamento.

Existem outras formas de conhecer esse jogo, através da derrota é um deles... Eis o outro fracasso do jogo, o que se assemelha à vida, o que vai além das expectativas de vida: o jogo é uma música perdida, a lógica do jogador é esquecer o real, a lógica da vida é mostrar ao jogador que o seu fim existe.


Eu me abstenho nessa parada... neste último lance dos dados invisíveis... ando ao lado do intransponível, do Acaso...nem toda regra é absoluta, e sei que nem todo Acaso é uma regra, eu me torno parte das ideias antes do fato consumido e mesmo se tratando de linguagem, o devaneio subjetivo contraria a tudo e a todos. Eu me abstenho...prefiro o risco inominável da linguagem. (continua ao decorrer da leitura em Deleuze).

                  De Mike Hoolboom - blog.

domingo, 27 de outubro de 2013

Terra


"Just a perfect day
drink sangria in the park
And then later when it gets dark
we go home"
Lou Reed

A Terra te espreita, olha o céu, as paredes e o teto,
O lugar da vida é o limite de teu mundo.
A Terra finda.

O olho do sol te crava a lança de fogo no coração,
A Terra renasce do Nada.

A vida desfaz teus entendimentos, tudo se repete,
A Terra é a promessa do imprevisível.

A morte é um lugar distante,
A Terra é infinita diante de ti.

Tua música é o exercício do pensamento e já dizia o poeta, você vai colher só o que plantou,

A Terra tem o seu preço.
                  Imagens: Trans-Europ-Express(1966) de Alain Robbe-Grillet

segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Lígia


“Tudo que pode me acontecer através de um contorno, de um rasgo, é bom para me raptar...”
Roland Barthes


O Teu olhar preso no desejo
O andar pela casa em dedos leves,
presa feito peixe de vidro.

O teu olhar medroso, o afiar dos meus dentes
com a libido morde até alisar,
sobe acima com a força dos quadris
como uma tempestade de verão.

O teu olhar é mais ousado: fareja,
atrai as chuvas, o choro dos homens,
lava as calçadas com sexo,
arrasa as plantações,
como se fosse o olhar de uma única mulher a sofrer no mundo.

O teu olhar machuca nas despedidas,
pernas sobre o corpo, cigarros de ócio,
paixão que aquece os olvidados.
É o sabor de menta...
Culpa de mulher que luta
contra o sono.
MALEDICÊNCIA dos tambores que fogem da morte.
(15 janeiro de 1999)







sexta-feira, 27 de setembro de 2013

Eu e os outros


      Eu e os pedaços dos olhos, o livro entregue ao som da dor, da luta dos esquecidos, eu e os outros, um terço para se matar, uma reza insana contra deus, eu, outros a me acompanhar, os que seguem sem cerimônia, os que lá cruzam distantes, os errantes de minha inspiração, os que amordaçam são os amores nascedouros.
       Os que nasceram na Argélia, os que morreram em Paris, os que vieram da Fronteira, da terra dos olhos em pedaços, dos livros dos inumanos, do pré-socrático dos pampas, do pós-secular dos olvidados em festa de despedidas. Eu e os outros – os que partiram e jamais encontraram o rumo de casa.


“Fim. Entreguem a terra, a terra que não é de ninguém. Entreguem a terra que não é para ser vendida ou comprada (sim o Cristo nunca desembarcou na Argélia já que até os monges tinha propriedades e concessões ali).” Albert Camus – O Primeiro Homem




segunda-feira, 16 de setembro de 2013

O Ser Sem Representação



Esse futuro nos iludira, mas não importava: amanhã correremos mais depressa, estenderemos mais os braços... E, uma bela manhã...
F. Scoott Fitzgerald
                  

Ícones do corpo, espaço da não representação, o olho furado tem espaço no mundo virtual, ganha a expressão das cores em notas musicais, a tribal eletrônica Björk expande os sentidos dos meus dias, os tambores me levam para longe das máscaras, o Brasil virou uma sinfonia de arrepiar, um sonho fora do lugar... essa é a distância entre o devir e o isolamento absoluto de uma realidade neurotizada pela tentação do conhecimento único. O próprio movimento do que é feito os corpos, os sons e a imagem que vem da unidade do ser e do nada, e como bem disse Heidegger “...a realidade do mundo não pode consistir em um ser”.

Eu olho no horizonte a tua partida a outro país, a tua arte ficou no caos do cotidiano, a inquietação das coisas é que dá ânimo ao sonho à sinfonia da Terra... É como o ciberespaço que não se concretiza, ele é a orgia dos corações que atravessa o tempo, que muda de local em busca do primeiro movimento.

Os amores não morrem na violência do Estado, e nem essa fábula hiper-real do político fundará o outro tipo de violência acobertada da própria derrocada em nome da ordem. Estamos entre os que se iludiram e os que insistem em forjar sonhos. O pensamento é como a música, talvez um dos poucos atos que ainda existem para mover a única coisa que importa na Terra, a Vida.

                                                    As pessoas se reconhecem na probabilidade das diferenças.
Jean-François Lyotard



domingo, 8 de setembro de 2013

Relógio do coração


“O mundo está em minha cabeça. Meu corpo está no mundo.”
Paul Auster
                  

Eu sou da paz, sou da luta, desordem das verdades,
Eu sou do medo que deixou de ter medo.
As bombas, os fogos, os olhos lacrimejam enquanto dormes.
Eu sou de uma luta que quer arrancar o coração,
quer avançar o esquadrão armado, quer amar,
Morrer na hora certa do tempo.
Eu sou um relógio perdido.
Eu sou tua escuta no silêncio das noites, sou teu algoz.
Eu me distancio na textualidade do virtual, o tempo dos olhos no relógio que habito, eu sou o único, sou da paz:
a luta fica para o nosso acordar.
Eu sou o eterno viajante em busca de algum lugar do mundo para me mudar,
Eu sou um inconformado com o teu jeito de quebrar as vidraças.
Não esqueças que a tua sensibilidade é ver melhor o mundo vivido.


                                                       Imagens: Bebeto Alves

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

Os olhos da Gata



Teus olhos felinos jamais esconderam a solidão, os olhos farejaram o mundo. Os pés desceram as escadas da casa dos Prigents sem deixar rastro, os quatro pés do vento do esquecimento no armário do andar de cima será o segredo do casal. Nossos corações não esquecerão o fugidio agrado da Gata. A Gata mordia os cacos das rugas, andava de um lado a outro sem ser vista, a pele brilhava ao ter a Gata ao lado, só Anne percebia seu talento de fuga. Ela, a Gata jamais dava as horas aos homens, benzia as mãos de sua dona, a Gata atravessou o oceano, amou a casa dos verdadeiros amigos, marcou seu tempo nas roupas dos convivas. A Gata partiu para São Paulo no último suspiro de verão.

Yeux de Chat


Tes yeux félins n’ont jamais su cacher la solitude, tes yeux ont reniflé le monde. Tes pattes ont dévalé les escaliers de la maison des Prigent sans y laisser de trace, les quatre pattes du vent de l’oubli dans l’armoire de l’étage du dessus seront le secret du couple. Nos cœurs n’oublieront pas les tendresses fugaces du chat. Elle mordillait les fragments de rides, elle allait d’un endroit à l’autre en cachette. Ta peau brillait quand le chat était contre, seule Anne reconnaissait ses talents de fugueuse. Le chat n’accordait jamais ses faveurs aux hommes, elle bénissait les mains de sa maîtresse. Elle a traversé l’océan, elle a aimé le foyer des amis vrais, elle a laissé l’empreinte de son temps sur les vêtements des hôtes. Elle est partie pour São Paulo au soupir dernier de l’été.
(Transtradução: Ronan Prigent)


terça-feira, 20 de agosto de 2013

O comedor de rosas


“A verdade é que me coloco a uma distância de quinze a vinte anos à frente deste tempo.”
Thomas de Quincey


Rosa roseira, escravo dos espinhos, o homem tira o véu da cabeça, deixa à amostra sua identidade, não teme os olhos, nem o odor dos dias tristes.
Manhã de mate:
matinal noturno de olhos ensebados, guarda-ressaca.
Manhã de sol:
livro aberto, tela de música, uma linguagem dos sentimentos diria o Thomas de Quincey do futuro.
Impressão digital na fronte, mágoa de domingo,
rio que desce, corre o céu, prédio de janelas escancaradas, seios no parapeito, beleza diante da câmara, olhos negros,
riso lúdico, mãos nos cabelos, o teu corpo é uma flor do presente.


sábado, 17 de agosto de 2013

A arte da ficção segundo Henry James

                                Henry James e seu irmão filósofo William James

No livro “A arte da ficção”, traduzido por Daniel Piza, Editora Imaginário, o leitor encontrará Henry James em num ensaio maravilhoso apresentando a “Poética” dele, o que ele considera como romance. O ensaio nasceu em resposta a uma conferência proferida por Walter Besant, em 1844. Enquanto Besant exigia do romance um compromisso moral, H. James rebateu com a importância da criação livre, do valor estético contra qualquer imposição apriorística à arte.


Henry James – A arte da ficção

“A única razão para a existência de um romance é a de que ele tenta de fato representar a vida. Quando ele desdenha essa tentativa, a mesma tentativa que se vê na tela do pintor, terá chegado a uma situação muito estranha. Não se espera de uma pintura que seja tão humilde que possa ser esquecida; e a analogia entre a arte do pinto e a arte do romancista é, até onde posso ver, completa. Sua inspiração é a mesma, sua técnica (a despeito da qualidade diferente dos meios) é a mesma, elas podem explicar e sustentar uma à outra. Seu motivo é o mesmo, e a honra de uma é a honra de outra. Os maometanos pensam que a pintura é uma coisa profana, mas já se vai muito tempo desde que os cristãos pensavam assim, e portanto é mais estranho que na mente cristã traços (ainda que dissimulados) de suspeita contra uma arte irmã subsistam até hoje. A única maneira eficaz de apagá-los é enfatizar a analogia a que acabei de me referir – é insistir no fato de que, se a pintura é realidade, o romance é história....”(p.21-22)


sexta-feira, 16 de agosto de 2013

A inexistência de um só começo

    © Bebeto Alves

Todas as manhãs quando movo meu corpo ao movimento das águas imagino o instante do acordar ao tempo... a saudade mata, a nostalgia é a dor esquecida no tempo. Um esquecimento de sóis, de luas que não escondem nada, que transparece no fundo dos olhos. O final do dia é o revigorar dos pensamentos, um voltar ao tempo, a nostalgia se funde na saudade, e tudo se transforma, vira uma só coisa entre tantas: a Vida!



                  © Antonio Paim

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

Dobras do corpo

                                              René Magritte- The Key to the Fields. La Clef de champs, 1936

                                                      
“Uma coisa é abrigar o ‘obscuro’, uma outra é tropeçar no obscuro como um limite”.
Martin Heidegger (Heráclito)



Eu bem que pensei que pensar em ti seria um dos meus últimos pensamentos de inverno, que a temporada do frio já estaria chegando ao seu tempo de esgotamento. A totalidade das imagens é que consumiram meus olhos que não se cansam de olhá-la através do divã, das janelas, das portas que estão abertas, que ora cerradas escurecem meu caminho... Dos seios, das bundas, dos acordes e das sinfonias e gemidos, eu que fiquei a ver navios morrerem nas águas do Guaíba, nas pedras pude mijar descansado olhando o vento levar o inverno, pude vê-la atravessar a avenida na multidão, nos gritos de gozos, no silenciar dos dedos entre as coxas... Em tudo, eu vi tuas ancas marcando a palma de minha mão com tintas da palheta e das dobradiças da janela do quarto.

domingo, 21 de julho de 2013

A Sem-Vergonha


                                            Firenze 
Ela, a Sem-Vergonha, é uma bela moça que vive nas redes sociais, sabe enfrentar a dor de não ter a vida por inteira, os estilhaços e o gás fazem da tez a carcaça ser brilhante, insuflar a poética. Não admite ver a vida saqueada pelos benfeitores da vida, ela não aguenta mais olhar a vida a latir, a bramir essa realidade dos que tomam conta de tudo e todos. A cidade é o espaço da mobilidade das mãos, dos pés, de tatuar a utopia, de detonar a bomba na casa dos donos do país... a rua é da Sem-Vergonha, é dos outros cachorros, dos felinos, dos meninos e das borboletas, a cidade é da diferença que anda em duas rodas, que cruza aos pés e mãos em troca de dialógicas mensagens, de uivos coloridos e de goles a golpe de vinhos e do longe se chega perto. Aterroriza-se o altar da igreja dos acomodados. A rua é da Sem-Vergonha. Hoje ela não voltará para casa, está ocupando a casa do poder. Ela está mais linda do que nunca... é a reaparição dos Goliardos do século XXI.

sábado, 20 de julho de 2013

Henry Miller ao sábado




#Ẹra uma vez uma rainha de cabelos de ouro e nádegas de ébano. Ela vinha do Trópico de Capricórnio, que fica abaixo da linha do Equador. Sua língua era de mercúrio e ela adorava estranhos deuses. Eles eram de tamanho e peso proporcionais. Ela os reunia, quando queria divertir-se, e os escondia num cofre. Às vezes usava-os em torno do pescoço, como contas. Frequentemente, quando saía para passear, dizia consigo mesma: “Ainda há lugar no cofre para outro deus”. Por isso mesmo, ao som de passos indubitavelmente divinos, ela se prostraria aos pés de um desconhecido e diria: Você é meu deus! E eu o adorarei para sempre...sempre!”. Por ser impulsiva demais para observar detidamente o que via, descobriria um dia que se enganara, que dera sua devoção a uma vaca ou a um golfinho.#

(Henry Miller – Crazy Cook, tradução: Raul de Sá Barbosa)


domingo, 14 de julho de 2013

A cidade

                    © Ana Ferrary

A cidade de cheiros, de olhos de cruzada, crucifixo nas pernas, nos peitos, no pau emblemas, um adeus! A cidade é da gente, é dos que estão indo embora, dos que chegam aos borbotões, em suas peles, cores, dentes e gemidos, a cidade está dentro da gente. A cidade de gente que brinda o seu aniversário na dor do rio que agoniza em suas águas, aos olhos dos viajantes, de gente na alegria do gozo embebido, de gente que se ferra sem grana no bolso... A cidade está repleta de gente que morde seu pedaço de vida, que bebe seu vinho, que se aquece nos braços da gente. A cidade está cinza, a cidade está viva. A revolução é contínua.


“Mesmo quando o mundo cai aos pedaços, a Paris que pertence a Matisse estremece com brilhantes e ofegantes orgasmos, o próprio ar está cheio de esperma estagnado, as árvores emaranhadas como cabelos.”
                                                                                            Henry Miller

                                © Ana Ferrary

terça-feira, 9 de julho de 2013

Os treze desaforismos de um voyeur



“Pensar é um ofício cujas leis estão minuciosamente fixadas.”
Padre Chenu (Marie-Dominique Chenu)



Voyeurismo é uma forma incontornável de voltar os dedos ao ponto de partida. O desejo.

Voyeurismo é a forma irreversível de voltar a punheta ao ponto inicial da procura. O desejo muda de janela.

O voyeur é aquele que se veste de maneira adequada mas escancara sua alma ao despir-se diante do objeto espreitado.

Os olhos do voyeur não permitem que a cerração tome conta do ambiente.

Todo voyeur deveria ter seu amuleto dentro da retina.

A mão de um voyeur transpira quando ele folheia a última página da História do olho.

O voyeur quando diz Não é porque está pensando no próximo Sim a outro vulto passante.

Um voyeur não tem religião, exceto quando ele diz: pelo amor de Deus, deixe eu ver essa marquinha.

A merda é que temos voyeur e voyeurs.....o moralista voyeur pode tudo, menos ser o traído pelo outro que existe dentro de si.

Nunca revele o seu sonho a um voyeur possessivo, ele poderá cegar o seu prazer para o resto dos dias.

O olhar é o ofício do voyeur cujos os sentidos estão na imagem só vista na alma do olhar.

O olho nu do voyeur desnuda tua leitura, depois parte sem dizer adeus.

A melhor história é aquela que se vê na leitura dos olhos.



terça-feira, 2 de julho de 2013

O Movimento da Vida, o Livro


É claro que o que move o livro é o acesso ao leitor, vice-versa, o leitor só faz o livro ter alguma importância se tiver o livro em mãos. Aos olhos, o pensamento movente e o que Bergson entoou: “O conhecimento que você me traz incompleto, eu o completarei”. Eis a questão: que tipo de livro, qualquer livro, qualquer texto, um romance, um ensaio, uma biografia, autoajuda, técnico, filosofia, qual mesmo? O desconexo para muitos não precisa ser e nem assim deseja a unificação mas o livro é nexo dos desconexos, é texto que vai da vertigem da linguagem à compreensão das páginas. Eu digo que tenho minhas preferências, como leitor, como alguém que busca escolher a partir do que lê, do que gosta, mesmo que isso tenha sua complexidade, que não contemple o todo do meu gosto, porque o negócio do livro é o negócio, mas eu aprendi mesmo sobre a importância do livro foi com o negócio Vida, com as relações que tive até aqui... até o século XXI desbancar o século passado. Nada de excepcional se o livro acabar, afinal de contas o dito pelo não dito não precisa da escritura para ser dito. Para clarear as ideais, aí sim, é como se a vida tivesse no sentido de dois trens que deslizam sobre os trilhos, a mesma velocidade, em vias paralelas, a sensação, é que para cada um dos trens, o que está sentado de um lado olha o outro, e se veem, sem movimento, como se estivessem parados, é assim, quando se está com o livro na mesma velocidade da vida. A vida parece que não passa, não sai do lugar, mas na realidade um desaparecerá antes que o outro possa perceber, tão rapidamente, que o outro só enxergará o que ficou na memória. Vestígios.  

“O mundo material, dizem, irá dissolver-se e o espírito afogar-se no fluxo torrencial das coisas. – Que se tranquilizem! A mudança, se consentirem em olhá-la diretamente, sem véu interposto, bem rapidamente lhes aparecerá como o que pode haver no mundo de mais substancial e de mais durável.”
                                                                              Henri Bergson 

sexta-feira, 21 de junho de 2013

Elias Canetti em “Pergunta e resposta”


Elias Canetti é um autor atualíssimo, é um romancista, ensaísta, um profundo estudioso dos fenômenos sociais. O passar dos anos tornou suas ideias cada vez mais lúcidas, pelo menos para este leitor. Tenho como um dos livros que mais amo “Massa e Poder”.



"Toda pergunta é uma penetração, uma incursão. Quando a pergunta é utilizada como meio de poder, ela corta feito uma navalha o corpo do interrogado. Já se sabe o que se pode encontrar; mas não se quer realmente encontrar nem atingir isso. Com a segurança de um cirurgião, penetra-se nos órgãos internos. O cirurgião mantém sua vítima com vida para averiguar coisas mais precisas a respeito dela. Este é um cirurgião de tipo especial, que trabalha conscientemente com a provocação de uma dor local. Ele irrita determinadas zonas da vítima para saber coisas seguras a respeito de outras." p. 317




quinta-feira, 20 de junho de 2013

Passagens




“Para mim, nada era prescrito, nada proibido, nem carne, nem roupas, nem mulheres de tal ou tal casta, nem modéstia, nem devassidão.”
Paul Nizan


Quando nasci, alegria de mãe, a infância, a ditadura,
O cuidado de pai, a vida em família, a loucura do Brasil,
A solidão da juventude nos anos de chumbo, a alienação,
Os irmãos, o espelho do mundo, a morte, a educação,
A frustração, o primeiro arrependimento, o beijo no vazio,
A primeira namorada, a vergonha de ver o país em ruínas.
A compreensão do mal, a falta de intimidade com o bem,
A resposta cartesiana para tudo, a força positivista,
A morte, a ditadura, o futebol, a ilusão, a música, a escola,
Os amigos, as brigas, as serpentes, os cachorros uivaram, o lobo,
A intimidade, o mundo nas ondas do rádio, o cinema imaginário,
O sonho de viajar, o beijo roubado, a paixão por figurinhas,
O jogo, o lúdico, o fim da infância.
A adolescência, a frustração, o fechar de olhos, o abrir o peito,
A morte de amigos, de parentes, a vida batia na minha cara!
O fim de um tempo. A cidade grande, os amigos, a ilusões.
O país do futuro, o presente de merda, o grito de porra, o gozo.
A foda de comida, a fonte de vida, o grande beijo, os livros...
A vida era um filme, um livro sobre o nada.
A juventude envelhecida, o país de vadios, de vícios bons, de malditos do bem...
De bons mocinhos do mal, de maldade em maldade a Brasil,
O novo século, a morte, a doença, a revolta trazida do interior,
A cara de maldade do adeus, a fome de bola, a bola nas costas, o país do futuro.
A velhice não demora, a vida avança o medo das rajadas, dos tiros,
A ditadura dos dentes, da raiva da razão cega, do estertor da verdade vazia.
O Brasil do presente. A rede, a fonte de vida, o lado orgânico do amor, o beijo que dei ao vento.

quarta-feira, 19 de junho de 2013

A Revolta de Jean Baudrillard



“Quem pode enfrentar o sistema globalizado? Com certeza não é o movimento antiglobalização, cujo único objetivo é barrar a desregulação. Seu impacto político pode ser considerável, mas o impacto simbólico é nulo. Essa violência ainda é uma espécie de peripécia interna que o sistema pode superar, mantendo-se dono do jogo.”
Jean Baudrillard

A força do pensar baudrillardiano se mantém mais do que viva, é o transparecer contra a representação, é o olhar ao sol contra o olhar cadente, único, o olhar contra os que pensam que as ideias existem para legitimar algo. Isso já passou. O tempo deles está morto, vem se desmoronando – lá pela metade do século XX–, mas ninguém ousava pensar diferente, porque pensar a diferença é sempre um afronto aos ideólogos de um estado de conceitos que foram se sobrecarregando, obsedando, o mundo de uma fuligem que na certa, um dia, todos os dias isso vem acontecendo, os dias vão mostrando o contrário...Aí todos, sem distinção se tornaram cada vez mais seletivos, tentaram salvar suas almas de pesquisadores impondo um pouco do que restava da modernidade, do pouco que restava do ideário conservador, ou seja, de primeiro a Redenção – a sua....o Reconhecimento – o seu....depois os Outros....aqueles que só poderiam chegar perto, reverenciar, antes era da ordem dos adoradores, hoje, no esfacelamento desses valores, na tentativa última de glória, virou sinônimo de todas as esferas da vida. O cotidiano se encheu de tudo isso...agora...e agora o que temos? A liberdade, um dos poucos atributos, um dos poucos conceitos que não morreram com a destruição dos valores do século XX.

“Profetizar a catástrofe é de uma banalidade inacreditável. Mais original é considerar que ela já aconteceu.” Jean Baudrillard
            De Jean Baudrillard - New York - 1997

segunda-feira, 17 de junho de 2013

Antes do Amanhacer




No seio da luz, o mundo continua a ser o nosso primeiro e o nosso último amor.”
Albert Camus
“O dia nasceu macio e redondo, disposto a furar o silêncio.”
Eduardo Cabeda


Antes do dia acordar, antes de todos os olhos se abrirem, a vida está acessa, o que resta da noite está entre paredes, está no meio das roupas, das pernas aquecidas....o que está na rua está frio, está entre as pernas o frio e o calor da vida desaguando nas ruas da cidade adormecida. Entre os que vivem e os que morrem sobra apenas o resto... todos morrem ao abrir os olhos, os que estão presos em suas vidas, os que mataram, os vampiros do sol...eles se deram de cara com a escuridão... esses, os loucos, sabem morrer e viver na escuridão...não mais saberão enfrentar o frio do dia cinzento, o sol existencial de Meursault do século XXI, ...o grito é outro, o estrangeiro está diante do sol como da escuridão, a saída é correr, morder a manga da camisa, se proteger do veneno, enfrentar os vampiros da ordem...nem toda ordem é uma ordem, é um afronto ao temor, um cão que late, briga na lata...come na mão própria, mesmo sem braços, inventa um prato imaginário, corre até o ônibus, foge para a escuridão da avenida e aguarda o novo dia.

domingo, 19 de maio de 2013

Londrinalha – Lembranças de Ian McEwan




“Era capaz de ouvir o que escrevera. Caminhava em direção a uma representação de si mesmo. Todas aquelas noites sozinho.”
Ian McEwan


Ainda penso no romance de Ian McEwan, Amsterdam, aquela história dos dois amigos que vão ao funeral da Molly (que tinha sido amante dos dois). Mas aqui, neste fevereiro congelado, paro no centro da ponte Tower Bridge, penso na história, no que o livro possa significar num inverno londrino em fevereiro. Eu sem um exemplar do livro que me vem à cabeça não sou ninguém, espasmos na memória. Lembro do egoísmo, dos personagens que estão na paranoia do jornalista e do músico. Fico a dez passos das mulheres que atravessam Londres comigo. Atrás, vejo-as, passo a passo, a multidão cruza nossos caminhos, as vozes todas em burburinho, e o único som significante no momento é meu pensamento no romance de Ian McEwan. Percorro a memória no lado mais abominável do ser humano, na inveja, na moral forjada durantes anos e sinto o sol forte me aquecer. Ainda posso caminhar e pensar no que li, essa é a dádiva da natureza, estou aqui e penso que não tem como andar com os livros em todos os lugares mas consigo lembrar até onde fiz as anotações. Algo que me arranca da realidade, impulsiona meus pensamentos, meus olhos cerram em segundos, penso na audição das palavras que brotam da velha ponte; seu passado de coisas que não calaram, porque sei que posso não saber, naquele momento o que ficou no tempo sem testemunhas, suicidas, bandidos, assassinos, amantes que por ali passaram. Mas, logo adiante, a memória retornará do presente, as páginas do Amsterdam. O prazer de retornar ao que já li, quando sinto o cheiro dos lugares, das ruas que inspiraram uma história, percebo o pouco que consigo construir a partir das reminiscências. O romance morre na última página, os dois personagens desapareceram em Amsterdam. Meus passos cruzam Londres, a cidade me ajuda a esquecer o lado soturno da vida. Páginas existem, mas estão gravados nesse emaranhado de ideias que flutuam sobre o rio, no frio cortante de um inverno aquecido pelos olhos de mais um viajante a vislumbrar uma livraria na beira do rio. (Fevereiro de 2013)

terça-feira, 14 de maio de 2013

O instante submerso




Almost blue, Almost doing things we used to do, There's a girl here and she's almost you. Almost...      Chet Baker


Quase um instante, o tempo que tive para perder o trem, o tempo que tive de não te encontrar mais, mesmo ao meu lado, te perdi, te achei já no caminho do Nada, depois disso tudo seria metafísica e nossos corpos não ficariam mais ao contrário dos olhos.
Nossas mãos não se enlaçaram mais no tempo do agora, dos olhos que escapam pelos cabelos, pelas transversais, por ruas que nos cruzamos, por cafés que tomamos, por elegias que fizemos juntos lado a lado no caminho do rio, da ponte, dos casamentos absurdos, dos protestos infames, do dinheiro e da miséria. Um instante vive em ti, na cabine escura de um vagão que se perdeu no passado quase tive o tempo em minhas mãos.

  A cidade fantasma - Epecuén - Fonte: Terra

domingo, 28 de abril de 2013

Simone de Beauvoir - A força da música



Leio por necessidade da profissão, muitas vezes, mas a maior parte das minhas leituras povoa o imaginário poético-filosófico que fiz durante esses anos todos; parti junto à adolescência antes mesmo de deixar a cidade que nasci, nesta época, os livros primeiros de minha existência, livros de uma biblioteca particular de um amigo que era sócio do Círculo do Livro, depois eu virei sócio também, e comecei adquirir um pouco do misterioso mundo da vida. A música foi minha primeira amante, com ela soube voar de vez à dimensão das letras, das ideias, da contestação existencial existente nos homens. Eu fui além. Eu aprendi com a música a gostar dos livros e vice-versa.
Agora ao ler Simone de Beauvoir “La Force des Choses”

“As circunstâncias – quase não vou mais ao cinema, nem ao teatro, prefiro ficar em casa; evidentemente, eu poderia ler; mas quando, à noite, chego em casa, estou farta das palavras; sinto-me cansada deste mundo em que vivo e que ainda reencontro nos livros. Os romances pretendem inventar um outro, muito semelhante a este e, geralmente, mais insípido. A música transporta-me para outro universo onde reina a necessidade e cuja substância, o som, me é fisicamente agradável. É um universo de inocência – pelo menos até o século XIX – porque o homem está ausente dele.
(...) Além disso, eu tinha, em música, ignorâncias enormes. Ela me trouxe o que as outras artes me recusam agora: o choque das grandes obras ainda virgens para mim. Aprendi a conhecer melhor os músicos que eu já amava. Meus livros amontoaram-se, ao acaso, em minha biblioteca e nada são para mim; mas gosto de olhar, austeras ou risonhas, as lombadas multicores, que abrigam tumultos e harmonias. Foi através da música que, nesses últimos anos, a arte misturou-se, familiarmente, à minha vida; foi através dela que recebi emoções violentas, que experimentei seu poder e sua verdade e, também, suas limitações e suas fraudes.” (p. 214 -215) Difusão Europeia do Livro, São Paulo, 1965. Tradução de Maria Jacintha




sexta-feira, 26 de abril de 2013

A Força das Coisas - Simone de Beauvoir

   

Passagem maravilhosa de Simone de Beauvoir sobre a morte de Camus. Texto que instiga os leitores a conhecer um pouco mais desta grande escritora e do inigualável Albert Camus.

Simone de Beauvoir em “A força das coisas”, p. 212-213, Difusão Europeia do Livro, São Paulo, 1965. Tradução: Maria Jacintha



“Eu estava só em casa de Sartre, numa tarde de janeiro quando o telefone soou: ‘Camus morreu, agora mesmo, num desastre de automóvel’, disse-me Lanzmann*. Voltava do Sul, em companhia de um amigo, o carro fora de encontro a um plátano e ele morrera instantaneamente.Pousei o fone, um nó na garganta, os lábios trêmulos. ‘Não vou chorar, disse-me. Ele não era mais nada para mim.’ Fiquei de pé, junto à janela, olhando a noite descer sobre Saint-Germain-des-Prés, sem poder acalmar-me e sem poder, também, mergulhar em um verdadeiro desgosto. Sartre emocionou-se, também, e durante toda a noite, em companhia de Bost, falamos  sobre Camus. Antes de me deitar, tomei beladonal; eu não mais o usava, desde a cura de Sartre. Precisava dormir; não fechei o olho. Levantei-me e, vestida de qualquer maneira, fui andar dentro da noite. Não era o homem de cinquenta anos que eu lamentava; não era aquele justo sem justiça, severamente marcado, de arrogância sombria, que rasgara meu coração com o seu consentimento aos crimes da França; era o companheiro dos anos de esperança, cujo rosto franco tão bem sabia rir e sorrir; o jovem escritor ambicioso, apaixonado pela vida, seus prazeres e seus triunfos, pelo seu companheirismo, por seu amor e sua fidelidade. A morte ressuscitava-o; para ele, o tempo não existia mais: ontem não tinha mais verdade do que anteontem; Camus, tal como eu o amara, surgia da noite, ao mesmo tempo reencontrado e dolorosamente perdido. Sempre que um homem morre, com ele morre uma criança, um adolescente, um jovem: cada um de nós chora aquele que lhe foi mais caro. Caía uma chuva fina e fria. Na avenida Orléans, vagabundos, encolhidos e transidos, dormiam nas soleiras das portas. Tudo me dilacerava: essa miséria, essa desgraça, essa cidade, o mundo, e a vida, e a morte.” 
*Claude Lanzmann é jornalista, escritor e cineasta, nasceu em 1925.                    
                                            Photos by Henri Cartier-Bresson - Paris, 1946