quinta-feira, 20 de junho de 2013

Passagens




“Para mim, nada era prescrito, nada proibido, nem carne, nem roupas, nem mulheres de tal ou tal casta, nem modéstia, nem devassidão.”
Paul Nizan


Quando nasci, alegria de mãe, a infância, a ditadura,
O cuidado de pai, a vida em família, a loucura do Brasil,
A solidão da juventude nos anos de chumbo, a alienação,
Os irmãos, o espelho do mundo, a morte, a educação,
A frustração, o primeiro arrependimento, o beijo no vazio,
A primeira namorada, a vergonha de ver o país em ruínas.
A compreensão do mal, a falta de intimidade com o bem,
A resposta cartesiana para tudo, a força positivista,
A morte, a ditadura, o futebol, a ilusão, a música, a escola,
Os amigos, as brigas, as serpentes, os cachorros uivaram, o lobo,
A intimidade, o mundo nas ondas do rádio, o cinema imaginário,
O sonho de viajar, o beijo roubado, a paixão por figurinhas,
O jogo, o lúdico, o fim da infância.
A adolescência, a frustração, o fechar de olhos, o abrir o peito,
A morte de amigos, de parentes, a vida batia na minha cara!
O fim de um tempo. A cidade grande, os amigos, a ilusões.
O país do futuro, o presente de merda, o grito de porra, o gozo.
A foda de comida, a fonte de vida, o grande beijo, os livros...
A vida era um filme, um livro sobre o nada.
A juventude envelhecida, o país de vadios, de vícios bons, de malditos do bem...
De bons mocinhos do mal, de maldade em maldade a Brasil,
O novo século, a morte, a doença, a revolta trazida do interior,
A cara de maldade do adeus, a fome de bola, a bola nas costas, o país do futuro.
A velhice não demora, a vida avança o medo das rajadas, dos tiros,
A ditadura dos dentes, da raiva da razão cega, do estertor da verdade vazia.
O Brasil do presente. A rede, a fonte de vida, o lado orgânico do amor, o beijo que dei ao vento.

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