quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Poema sem filme


Cena de "O Amor" de Jean-Luc Godard

Chupe minha noite e o meu dia com fascínio,
Dobre a esquina e antes de parar,
corra para meus sonhos,
— 2010 nem começou!

Deixe a rua deserta,
antes de se refugiar em sua casa (Lá estarei sozinho)
Você estará feliz com a família.
A rua não passa por minha casa,
O cotidiano compreende as ruas desertas
mas detesta solidão que se tranca em quartos.

Chupe meus dedos,
o doce é mais doce se dormir
de olhos melados.
A noite entra e sai por ruas desertas,
percorre os sonhos até encontrar o travesseiro letárgico,
em gotas, drágeas, tanto faz, o cotidiano abandona os solitários que morrem de medo da vida.
E 2010 está em sua porta!

domingo, 27 de dezembro de 2009

Transmutação




A religiosidade dos homens é pífia,
Abre a boca e caí o mito,
Fecham as janelas, abre um sol.
Atrás dos dias sempre vem um antes,
O começo não ultrapassa o jogo,
A linguagem contraria Deus,
Ele, entre todos os séculos vividos,
Permanece invisível logo agora.
Ainda bem que Ele abandonou os seus seguidores,
Tinha gente demais no culto achando que o mundo se salvaria.



"Vivre sa vie" de Jean-Luc Godard (1962)

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

ana cristina cesar



Do livro "A teus pés"
La Fora
há um amor
que entra de férias.
Há um embaçamento
de minhas agulhas
nítidas diante
dessa boa bisca
de mulher.
Há um placar
visível em altas horas,
pela persiana deste hotel,
fatal, que diz: fiado,
só depois de amanhã
e olhe lá,
onde a minha lâmina
cortante,
sofrendo de súbita
cegueira noturna,
pendura a conta
e não corta mais,
suspendendo seu pêndulo
de Nietzsche ou Poe
por um nada que pisca
e tira folga e sai
afiado para a rua
como um ato falho
deixando as chaves
soltas
em cima do balcão.

domingo, 13 de dezembro de 2009

Claude Simon e Alain Robbe-Grillet



"Cada romancista, cada romance deve inventar a sua própria forma." (Alain Robbe-Grillet)

“A última parada do bonde ficava cerca de um quilômetro antes do terminal onde os trilhos desapareciam sob a areia da praia, num lugar onde à direita, no meio dessas árvores que crescem nos terrenos úmidos e de ramagem esbranquiçada, abria-se uma longa alameda calçada de pedra também ela quase recoberta pela areia no fim da qual se erguia não propriamente sobre uma saliência mas no alto do que outrora devia ter sido uma duna bastante alta uma construção cercada de pinheiros e de um estilo arquitetônico em moda durante o Segundo Império ou no começo da III República, ou seja imitação, em miniatura, de algum castelo do vale do Loire...”
(Claude Simon – O bonde. p. 67)


“O sentimento de naufrágio cresce ainda com esta parte do texto, em que se trata da longa temporada confusa em Santa Catarina e Rio Grande, na costa distante apenas trezentos ou quatrocentos quilômetros em voo livre (mas por caminhos montanhosos quase impraticáveis) das célebres cataratas que vêm interromper o rio Iguaçu, justo antes de sua confluência com o Paraná, isto é, na fronteira do Paraguai, onde eu acreditava que B, tinha, como tantos outros, achado refúgio, quando a situação em Porto Alegre — durante muito tempo tranquila sob a proteção de suas lagunas — tornou-se de repente inquietante.”
(Alain Robbe-Grillet, p. 72-73)

“Certo, o Novo Romance’ nunca foi uma escola, ainda menos uma teoria literária geral. Sua própria existência enquanto agrupamento de escritores foi, desde o começo contestada, com freqüência pelos mesmos que podem ser considerados como os protagonistas do movimento. Perguntem a Butor, a Pinget, a Duras, a Ollier, mesmo a Sarraute, se os seus livros fazem parte do Novo Romance. Nenhum o admitirá sem reticência, quase todos quererão de imediato precisar suas reservas, vários dentre eles (nem sempre os mesmos segundo as épocas) oporão a tal classificação violenta e totais denegações. Não posso dizer que isso tenha alguma vez me incomodado muito, minha amigável obstinação terá triunfado em relação à frieza prudente, sombria, egocêntrica deles.” (p. 81)

sábado, 12 de dezembro de 2009

Raízes do Mal, o romance



Fragmento do livro, p. 384
Estávamos pelo dia 20, acho, enfim, alguns dias antes do Natal, e eu havia aberto os olhos numa manhã cinza, depois de uma noite agitada em que menininhas eram “colhidas”, em lavouras cheias de espantalhos com cabeça de palhaços, por máquinas loucas e terrivelmente silenciosas, como se tudo se passasse no fundo de um mundo submarino, por exemplo, no fundo de um lago. Eu não havia perambulado pelas redes nessa noite, deixando para a máquina a tarefa de surpreender alguma conexão a uma “Porta 999”. Mesmo assim, amanheci esgotado.
Minha boca estava seca como uma velha esponja esquecida num mormaço. Joguei-me sobre a garrafa de Evian na mesinha-de-cabeceira.
O duplo híbrido me olhava da tela.
– Olá – acabei por dizer entre dois gluglus. Tudo bem?
– Melhor impossível, Dark. A minha noite foi muito boa.
– Ótimo. Assim, contrabalança a minha.
Fiquei em pé com muita dificuldade, forçando as articulações, maltratadas pela noite passada na plantação sangrenta. Caminhei lentamente para o chuveiro.
Já ia abrir as torneiras quando a voz da máquina me chegou através da cortina plástica.
– Inventariei todos os cortes significativos esta noite, Dark. Estamos no bom caminho. Na direção das raízes...
Não respondi e abri com um golpe seco o misturador de água. O jato quente dispersou os restos de pesadelo que atormentavam a minha consciência.
Quando saí do chuveiro, estava apenas recuperando a velocidade normal. Instalei-me na frente da máquina diante da janela que dava para as montanhas.
O céu estava baixo. As cores ganhavam um tom monocromático. Tudo parecia evocar o brilho de um tonel úmido.



Capa de Eduardo Miotto

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Pálida Folha





De repente o amor sorveu a vida.
Atrás dos dias, a noite corria louca,
Treslouca, pálida folha
escorreu dos cabelos um fio de vida.
Enquanto isso: chovia dia a dia após o outro amor
na noite fugidia.

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Nascedouro


Robert Doisneau

Antonio Paim diria — Barthes tem razão em afirmar que a força semiótica da literatura é jogar com os signos em vez de destruí-los, é poder colocá-los numa maquinaria de linguagem. Daí nasceu Maquinaria de Linguagem, nesse jogo de signos, nessa poesia que viaja em barcos perdidos, em estantes empoeiradas, em caligrafias esquecidas. Eu fui atento às vozes do Antonio Paim e Barthes.


terça-feira, 24 de novembro de 2009

Eu que ando nos labirintos


De Boris Pasmonkov

Ando apaixonado por Philip Roth, mas lendo o espanhol Antonio Muñoz Molina, “Vento da Lua”, varrendo meus dias rumo ao fim. Ouvindo música, mesclando trabalho, editando impressões na solidão de Chet Baker ao fundo.
E como diz Roth, “Eu é que lamento não poder devastar você”, e eu que não cruzo as esquinas para não me perder no labirinto, e eu que não piso no tabuleiro para confundir o preto com o branco, então, eu que continuo pensando na chuva que irá chegar. “Me moriré en París con aguacero” como sonhou Vallejo, e eu que mudo o assoalho velho da casa para não pisar nos teus rastros.

Ferdinand Louis Celine em “Viagem ao fim da noite”

“O mês de janeiro era um bom momento para uma iniciativa dessa ordem. Decidimos, porque era mais cômodo, que nos encontraríamos em Paris num domingo, que em seguida iríamos ao cinema juntos e que daríamos talvez primeiro uma passadinha na festa Batignolles para começar, se todavia não estivesse muito frio na rua.”

sábado, 21 de novembro de 2009

Outros diálogos


Tejo

Tímida Alegria
tenho vício à rima, e ao mal de não dizer. e o que perdôo me castiga ao fim da tarde. há cinco anos o silêncio de minha mãe. a casa já só sabe ser mui quieta. mas a vida espanca. amanhã o fim da tarde me espera noutro canto. no avesso do mundo que cala. lá onde revelia é desculpa de minuto para ir a outro ponto: minha secreta viuvez tão longe, severa sobriedade já não é. (Mariane Farias)


Ainda
Chegou como Madredeus agora vindo com "Ainda". Melódico. Um tempo que ainda não cansamos de perder e pensar. A literatura é assim, esses vícios melódicos, doídos no fim de tarde, no encontro do texto com tempo que a solidão se apresenta. Assim, bem assim, eu li o texto.

"O livro de caracteres figurados, não traçados por nós, é o nosso único livro" G. Deleuze em "Proust e os Signos

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Baía de Morlaix -fragmento



"O falso não é um erro ou uma confusão, mas uma potência que torna o verdadeiro indecidível." Gilles Deleuze




Acabei de ler um romance de Roth na terra de Corbière. O poeta maldito escreveu um livro, Amores Amarelos. Conheci Corbière antes de conhecer a baía, esse templo entre o mar e o mundo. O dono da padaria estava lendo um policial, Simenon. Vi de longe, ele atrás do balcão, enquanto uma funcionária atende os clientes em pleno humor. Deve estar apaixonada, pensei. Não pelo coroa, que parece estar se lixando ao mundo. O Amor é de longe o mais difícil aos homens. Eles preferem a solidão a terminar um amor. Se eu acabar amanhã, irei até a Baía da Morlaix. Pensar exatamente no último olhar. Sexo é mais importante que a devoção. Já estou aqui, leio, caminho, escrevo e dedico parte de minha a vida a um projeto que não sei onde irá chegar. O amor é mais simples quando se está nele, quando termina, pronto, acaba e ninguém ira ouvir os teus lamentos. Penso em sexo, acabo no amor, ele como sendo a única coisa que me fez escrever esse texto. Olho a praça vazia. Está escurecendo. Morlaix fala com o mar. A ausência.
António Paim

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Debate sobre cinema na 55ª Feira do Livro de Porto Algre



Palestra sobre cinema na 55ª Feira do Livro de Porto Alegre

12/11
Hora: 18:30
Local: Sala dos Jacarandás -
Cinema gaúcho: inovação e diversidade
Debater as virtudes e limitações do cinema gaúcho contemporâneo como o primeiro passo para desenvolver um projeto sólido de cinema brasileiro. Carlos Gerbase,Milton do Prado ,José Pedro Goulart e mediação de Cristiane Freitas Gutfreind

Hora: 20:30

Local: Praça de Autógrafos -

Cinema gaúcho: diversidades e inovações

Cristiane Freitas Gutfreind, Editora: Sulina

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Novos Rostos da Ficção Francesa. Uma Antologia


Capa de Letícia Lampert

A antologia é uma pequena amostra da nova ficção francesa. São 22 autores. O lançamento foi durante a Feira do Livro de Porto Alegre no Ano da França no Brasil. O projeto nasceu para difundir a nova produção literária de língua francesa. O interessante é que todos os autores ainda não foram traduzidos no Brasil, por isso o ineditismo da antologia que será distribuída gratuitamente no país. Com o apoio do Ministério da Cultura da França - CultureFrance o projeto se tornou realidade. Temos um belo livro, com biografias, fragmentos das obras e tudo bilíngue. Nouveaux Visages de la Fiction de France é o último trabalho da Sulina.

Morrer como Corbière-Lançamento na Feira do Livro



Do livro "Morrer como Corbière" de Emmanuel Tugny, lançamento hoje, 19h30 na Feira do Livro de Porto Alegre. "É uma luz escura que clareia o espaço, um guia, um anjo mau e bobo que desenha o tempo: anime-se tudo isso e o mundo fará rir um riso amarelo que mexe com a visão clara e diversa do trabalho da morte."

sábado, 7 de novembro de 2009

Raízes do Mal, o romance policial


Eduardo Miotto

Eu já tinha postado antes um fragmento do livro de Maurice Dantec. A capa evoluiu, melhorou. Essa é a que começará a circular pelas livrarias. Saiu o livro Raíze do Mal. Inaugura a col. Flores do Mal. O primeiro é um chute no estômago, uma bomba que é bom se ler tomando café, chá, cerveja, espumante, vinho ou melhor, uma leitura sem sem tomar nada. Ser sorvido pela narrativa do Dantec. Envolve, arrebata até chegar a última página. Um grande livro.
Segue mais um fragmento. Editora Sulina, tradução de Juremir Machado da Silva, 543 páginas, preço de capa, R$ 70,00. Quem mora em Porto Alegre poderá adquirir na Feira do Livro com desconto de 20%.


"Rodávamos pela nacional 9 na direção de Stresa. Seguíamos pela margem sudoeste. O sol pálido da manhã batia na superfície das águas irisadas pelo vento. A máquina reinava no seu box, entre mim e Svet, ligada às baterias fotovoltaicas e ao computador de bordo. A tela mostrava o turbilhão fractal costumeiro dos seus sonhos neurossimulados. Olhei para o cenário das montanhas e do lago de um azul tão intenso. Um espetáculo ainda mais fascinante se dava a ver. A luz dourada brincava com os cabelos de Svetlana e com as maçãs do seu rosto. Semiadormecida, ela mantinha a têmpora contra o vidro. Um traço infantil relaxava o arco dos seus lábios." (p.483)

domingo, 1 de novembro de 2009

Dor longitudinal


Imagem de História do Cinema




“Quer dizer que você também sabe mentir. Que bom. Ainda bem que você sabe mentir.”
Philip Roth



Será que você não consegue provar o tamanho do caminho da dor? Provar com dores nas mãos, no corpo inteiro o caminho por onde o tempo passou e deixou apenas a lembrança numa estrada esburacada como o céu sem fim, cheio de espaços, buracos em que nuvens existem para dissimular a imensidão da dor longitudinal da palavra. Dizer assim é fácil, quero ver estar dentro dessa dor, com dentes rangidos de tanto tilintar de frio, ou do corpo em chamas, a ferver, quando passar o dia todo ao sol, andando de um lugar a outro sem chegar ao fim, em uma estação de trem ou aeroporto. Sozinho. Novamente, será que você consegue expressar a dor diante da perda, a vida que desaparece no último olhar? Não.
Hoje é dia de você descansar sem pensar que a dor está rodando a sua casa. A criação não depende mais dos teus nobres dedos que digitam a dor no texto. A tela está em branco hoje, e você tem o tempo, a partir de agora, até completar 50 anos para escrever e pensar sobre o gosto que tudo isso poderá ter daqui uns anos. A dor não precisa do Ser para dar essa resposta, ela está aquém de uma pergunta filosófica, ela é uma chaga, uma ferida aberta que vive entre os que pensam e os que esqueceram de vez dessa faculdade maluca que é estar na nuvem das razões. Ao mesmo tempo carrega sua mochila de textos, de caracteres virtuais para depois descarregar páginas em branco com narrativas intermináveis e invenções de jogos de linguagens. Ainda assim nem tudo é inevitável, mesmo que necessário em suas perguntas, o tempo é alheio assim se você não fizer com o texto ganhe força junto com o pensar.
Tudo será oculto se o todo for mostrado de uma só vez. Não se consegue, porque essa parte imensa engana os olhos. Você não precisa de razões lógicas para obter respostas extraviadas. Engane os olhos, hoje, somente hoje, mas nada será real se o signo sangrar de vez, nada terá valor se for do início ao fim uma rigorosidade métrica textual. Tem que haver o desatino, uma força máxima de loucura, uma explosão de ideias para pôr o signo na rotação da força do pensamento. Um depende do outro. Nem só esse desejo de perguntar e de saber tentar esquecer a dor será notado no texto se não houver uma descontinuidade de palavras com a imagem. Depois uma retomada disso tudo, através do tempo para se ler com mais calma e espanto, de uma só vez para compreender a dor que as mãos sentem quando se deixa a vida de lado.
Depois, a imagem, repleta de sangue, essa sim, terá a dor expressa para na palavra. Ela será uma extensão da razão, um signo que não existirá por sim próprio, mas terá a ilusão de enganar os olhos de quem acredita na verdade vinda da imagem. Então, você tem agora, a letra guardada, a imagem dentro dela, as ideias sendo traduzidas, as mãos resistindo o tempo que for preciso para escrever e não solucionar nada que possa garantir o futuro. Daqui uns anos, quando você completar 50 anos, suas mãos não sentirão mais dores. Seu corpo será testemunha disso tudo.

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Ler ao sol, Ler na Feira do Livro


Telhados de Paris


“...é o desconhecido que irrompe sobre nós. Cessamos de nos conhecer no futuro.”
Octavio Paz


Hoje começa a 55ª Feira do Livro de Porto Alegre. Esse é o Ano da França no Brasil. Eu como um editor francófono, um convicto e apaixonado pela literatura, o cinema e principalmente pelos filósofos e sociólogos que influenciaram em muito meu pensamento anárquico-poético e imagem em movimento, estão um pouco na feira. Lá estarão em livros que edito e por alguns cantos da praça em outras barracas, como se costuma chamar o estande. Está armado o palco dos livros. Eu me situo, percorrerei as alamedas da praça, até o cais do porto da cidade. Serei mais um leitor perdido entre os papéis que ainda embelezam os olhos que leem e buscam o prazer nos livros. O livro, para mim, como leitor e editor é paixão, o resto são construções para erguermos as instituições da vida, do saber etc.
Um negócio lucrativo que só dará certo se ainda existir leitores. Nem falo dos altos preços do livro, até porque sei a dificuldade que um editor tem para sonhar e publicar os livros que fazem parte dessa Paixão. Ler ao sol, na praça, algo que ainda fascina muitos que irão à Feira do Livro de Porto Alegre. Deveriam existir cadeiras ao longo do cais, com guarda-sóis para as pessoas lerem e ver a tarde se pôr.

Lembrando Nei Lisboa


"E uma paisagem tão comum
Telhados de Paris
Em casas velhas, mudas
Em blocos que o engano fez aqui
Mas tem no outono uma luz
Que acaricia essa dureza cor de giz
Que mora ao lado e mais parece outro país
Que me estranha mas não sabe se é feliz
E não entende quando eu grito."

domingo, 25 de outubro de 2009

Penetráveis no tempo




O que o tempo faz com os amores é a mesma coisa que faz com o tempo de um autor? A literatura, um pouco é assim, me surgiu essa ideia agora lendo e ouvindo música. Lembrei da frase trazida pelo Nelson Motta do Hélio Oiticica, “o que eu faço é música”. É a teia penetrável do texto, é a teia tanto do texto como do amor.
O movimento é que faz com que as coisas não fiquem datadas. Tal qual a literatura, a música, o amor poderá ter esse aspecto duradouro de vida. A vida do texto, depois de muitos anos, alguns que larguei de mão, não consigo sentir prazer mais, é assim mesmo com o amor ou amor é assim como tudo antes? Sim. Tudo antes tem o texto, a música, a geometria das formas dando tom ao amor no tempo. Então, retomo o tempo de um autor, o texto que não datou porque foi penetrável, um caminho para se entrar, se ler, sentir os lados, todos e a musicalidade dos passos, dos olhos nas páginas como a dança dos parangolés.


terça-feira, 20 de outubro de 2009

O fantasma em cena


Godard no filme de Win Wenders -Quarto 666



Philip Roth em "Fantasma sai de cena".

“Quando se realiza um experimento como esse depois de passar vinte ou trinta anos afastado da obra de um escritor, nunca se pode ter certeza do que se vai encontrar, a constatação de que um escritor outrora admirado agora parece datado ou a consciência do quanto se era ingênuo no passado. Mas por volta de meia-noite eu estava tão convencido quanto estivera nos anos 1950 de que o âmbito estreito da prosa de Lonoff, seus interesses limitados e a contenção inflexível que ele adotava, em vez de implodir as implicações dos contos e diminuir seu impacto, produziam as enigmáticas reverberações de um gongo, reverberações que deixavam o leitor admirado de como era possível tanta seriedade e tanto humor se combinarem num espaço tão pequeno, junto com um ceticismo tão radical. Era precisamente a limitação de meios que tornava cada historinha não uma leitura frustrante, e sim um feito mágico, como se uma narrativa folclórica, ou um conto de fadas, ou uma história de Mamãe Gansa, fosse interiormente iluminada pela inteligência de Pascal.”

Nasceu em 19 de outubro



Foi assim, minha mamãe, com sua memória de 84 anos, relatou agora por telefone. Minha mamãe estava sentindo as contrações do parto, uma noite de outubro, um dia poético, e meu pai conseguiu a carona de um amigo num jepp. As ruas esburacadas. O carro velho, lembra minha mamãe, dava a sensação de que eu estararia vindo ao mundo ainda no no trajeto da Cidade Alta ao hospital. Neste momento, a caminho da Santa Casa, faltou luz na cidade. Minha mãe ficou brava demais. Não queria que eu nascesse no escuro. Quando chegaram no quarto, a luz voltou, eu nasci. Vim trazer a luz a vocês e alguns livros.

domingo, 18 de outubro de 2009

Areia -fragmento-Morlaix



“Com silencioso corpo repousas na areia ao meu lado,
Superestrelada.”
Paul Celan


Acordei e fui caminhar em direção à praia. Barcos ao longe cruzam a baia. Existe um porto aqui perto, não tão perto que eu possa ir caminhando sem que o pessoal se dê conta da minha ausência. Me afastar por um tempo das vozes, trago as imagens, trago Marie em mim. Ela não sai dos meus dias, mesmo quando quero, lá está ela. Aqui e distante ao mesmo tempo, eis o equilíbrio. Aprendi com o tempo que Marie não vê as mesmas coisas. Assistimos filmes juntos, temos opiniões que se aproximam mas sempre eu tento refletir sobre algo que não tem importância nenhuma ao tempo e continuidade do cinema. O cinema prescinde das minhas reflexões. Não me atrevo analisar aquilo que não vejo como autoral, por isso gosto de autores que fazem cinema, que usam a areia mais que um simples ambiente para se fazer um cena. A cena é esta, estou aqui pensando nas cores que surgem das areias, estou pensando que se corre por esta praia vazia, se foge da morte também. Algum ladrão andou por ela. Lembro que se correr até o mar é mais que liberdade, é poder ver que a natureza não nos perdoará jamais. O signo nas coisas, as travas de uma chuteira atolada na areia é sinal de que o próximo jogo deverá ser com inteligência. Prefiro olhar o tempo passar por aqui. O cinema está aqui perto. Sinto no ar o seu cheiro, alguém aqui um dia filmou uma cena, um crime, talvez, uma epopéia vinda do mar, uma tristeza recorrente das águas
António Paim

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Um barco distante


De Boris Pasmonkov

Amo os poemas dos famintos, dos doentes, dos marginais, dos envenenados: François Villon, Charles Baudelaire, Edgar Poe, Gérard de Nerval; poemas de supliciados da linguagem que estão se perdendo nos seus textos e não poemas dos que fingem que estão se perdendo para melhor exibir sua consciência e sua ciência, da perda e da escrita. Antonin Artaud



Hoje é um dia de lembrar de um grande amigo, um amigo que perdi em 15 de outubro de 2008. Além de amigo, um talentoso homem, um daqueles que hoje é jóia rara. Um pai que me deixava estonteado pelas análises sobre cultura e tudo que gostaria de viver ao lado de seu filho. Dizia com orgulho os filmes que assistia ao lado do filho. Nos conhecemos no Zelig, na mesma rua, no mesmo bairro que vivemos anos. Ele é da cidade, eu vim direto do interior morar na Cidade Baixa. Porto Alegre aqui estava. Aqui nos cruzamos diversas vezes até o Zelig, dos meus queridos Pio e Bia nos unir. Ando afastado dos amigos. A vida é assim. Dói voltar aos lugares que vivi, não por medo, mas simplesmente, porque me afasto, para quando voltar, também, lembrar dos amigos, dos amores que tive, e lá encontrá-los no tempo e na imagem dos meus olhos.
Não existe muito a que se lamentar da vida. Nisso somos parecidos. O cinema, os livros, a literatura e a música era um elo de vida, de embate diário. O cotidiano às vezes passava à margem de nossas discussões. Gostávamos de ser elitistas. Ele adorava Jonh Cage, Philip Glass e Laurie Anderson, o último show que assistiu e depois veio me contar com o prazer na alma de ter sentido a vida pulsando na música mais uma vez. Tudo nele tinha a dimensão de um Coppola, do olhar grandioso, de uma vastidão poética e da ironia de um Tarantino. Tudo tinha de Pessoa, o cotidiano pelos bares da Cidade Baixa, de um Rimbaud, dos amores amargados nas letras que compunha, nas poesias que nasciam nas madrugadas desse notívago. Esplendoroso e descuidado, um homem com os métodos quase nada aristotélicos e modernos. Um barroco pop, um clássico pungente estilo Samuel Barber em seu Adágio for strings de Platoon. Era o próprio anarquista de sua alma. Ainda acreditava na vida.

Aqui um fragmento de um longo e-mail, desses da madrugada, que ele mandou em dezembro de 2007.

“Existem certos instantes que nos tatuam a alma e são responsáveis por um manancial de decisões que tomamos pela vida a fora.

Me lembro quando eu conheci a sopa de pacote. Foi uma revelação (não é deboche).Para mim foi um divisor de águas. Eu revejo mil vezes "Veludo Azul", devido à agonia do personagem do Denis Hooper.”

De Vitor Hugo Turuga (1963-2008), Porto Alegre

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Um mala com imagens


Foto: Boris Pasmonkov


"e na medida em que estamos no dia, o dia ainda é contemporâneo do seu despertar."
Maurice Blanchot

As imagens que trago numa mala é como a língua afiada de Blanchot, “Soberba potências, diz Pascal, que faz da eternidade um nada e do nada uma eternidade”, quando fala da imagem que fala intimamente de nós. Esse segredo é frágil, a imagem é desintegrada no movimento que ela mesmo faz; entre o íntimo, entre as paredes do imaginar, o cruzar das fronteiras ao adicionar o real que se estabelece em outro imaginário. Ele chama de “fundo sórdido”, esse vazio que para lá vai a imagem, que sai de nós, porque a vizinhança também tem a imagem. Não importa a tela que temos no interior de nós, impõe-se aí algo além do desejo. O signo da imagem está na “felicidade da imagem que ela é um limite perto do indefinido”. Um fundo que pode ter cores ou não, mas no tempo, tem suas próprias características que vem das imagens.

domingo, 11 de outubro de 2009

Boris Pasmonkov


Photos du Mur - Boris Pasmonkov



"La rue de mon hôtel
est le début de mon chapeau
sur le rebord duquel
je pose quelques gros mots,
les pieds dans le vide
au dessus de mon café.

Tout le reste n'est que du virtuel
comme une tête au carré."
Boris Pasmonkov

sábado, 3 de outubro de 2009

Morlaix - fragmento


Francis Bacon - 1946 Painting

Depois daquela noite não consegui tirar mais os olhos da Baia de Morlaix. Mesmo distante, lá do sobrado, do quarto as persianas não me deixam em paz, querem que eu fique olhando quando posso apenas ver a baia que esconde sua beleza dos dias, do tempo, da vida que um dia Corbière deixou nessa cidade. Diria, lembrando Deleuze, da mão para o olho. O olhar que vem do mar é o meu olhar que entra no sobrado, na cozinha onde todos se divertem.
Marie me chama. Sem descansar, o mar é um lobo que uiva, contorna o velho sobrado com sua umidade constante, com sua brisa que cola na grama. Estamos de volta. Nos aquecemos ao redor de um fogão à lenha. Tugny prepara um chá, Amelie e Marie cuidam de uma sopa, e eu, nada por enquanto. Arrumo a mesa e me sento ao lado do fogo. Cuido para que ninguém se canse antes da ceia como meu olhar que observa, tento me lembrar da história que o filósofo escreveu sobre Francis Bacon, de que o artista ao pintar com os olhos se realiza quando consegue tocar com os olhos. Aqui ninguém reza, ainda bem, penso. Todo mundo toca com os olhos o novo lugar. Morlaix é um presente do mar.

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Morrer como Corbière



Capa de Letícia Lampert (sobre a obra Les Amours Jaunes de Nathalie Talec)

Jim Morrison não conheceu Tristan Corbière, que pena! O leitor brasileiro conhecerá o maldito da poesia que se perdeu ainda tão jovem através do texto de Emmanuel Tugny. Morrer como Corbière nasceu sob o signo da poesia maldita, como diria Octavio Paz sobre os poetas malditos, “são frutos de uma sociedade que expulsa aquilo que não pode assimilar”. A vida tem em comum ao Morrison e a Corbière, talvez uma morte prematura. Corbière impressiona Tugny não por seu único livro, “Os amores amarelos”, mas pelo encanto da vida na literatura.
A obra única do Corbière teve a tradução no Brasil no final dos anos 90 do século passado. Não é fácil encontrar escritores assim por esse país, Corbière, Tugny, este que vem do seu criador, um anarco-criador, no texto e na música que faz sua obra sob a égide da linguagem, dos nomes, das formas, da cores em notas e que ainda escreve à mão pelos dedos de Emmanuel Tugny. Nada melhor do que o Tugny homenagear a vida deste outro poeta que veio ao conhecimento do público através de Verlaine, em 1884, com Les Poètes maudits.
Morrer como Corbière é um romance que fragmenta a vida do escritor nas partes que compõem o texto, a forma vem como um barco que traz o alimento com a linguagem em direção as areias. O leitor se sentirá nesse barco, esse marinheiro ao encontro da terra. E nada melhor que conhecer o texto de Emmanuel Tugny nesse sonho de Tristan Corbière em Morlaix.


Fragmento de Morrer como Corbière

O poeta fala errado e alto; sua palavra é detida desde língua e silêncio. Mas isso é literatura e o garoto que virou ankou, o garoto arquiteto de carnavais em si, tendo-os constatado fora de si, o garoto doente que virou energúmeno, possuído, atravessado por um riso enorme diante da vida tomada em reverso e vista, a vida zombeteira naquilo mesmo em que ela se devora, finalmente se engendrou: ele não é mais Édouard-Joachim, não é mais o filho de Édouard, mas sim Tristan Corbière, ou seja, filho de si mesmo, filho do mergulho na verdade mórbida e, nisso mesmo, hilariante, criança triste de riso amarelo; já foi dito, os Tristans são filhos de mães mortas no parto: Tristan acabou se matando ao dar a luz a si mesmo, matou nele a fantasia crucial de uma vida e de um mundo em desenvolvimento desde vida e mundo. Matou em si a própria ideia de sentido.
Emmanuel Tugny

domingo, 20 de setembro de 2009

A ocupação do sol


Foto do outono na feirinha do Bom Fim- Porto Alegre - março de 2009.


"O homem original são todos os homens." Octavio Paz

Ando pensando na possibilidade das luzes, da clareza através da luz entre as árvores, em certas regiões da cidade. O sol que vem no vão dos prédios, esse sol, o mesmo do inverno, agora esse de setembro no Bom Fim, no sábado, saindo da locadora a caminho da feira de sábado. Ontem, quase sempre no mesmo horário, lá por volta das 17hs. Fim de tarde. O sol lá. Esse sol que entra, das árvores escorre, espalha e corta os prédios e dá um tom no asfalto plúmbeo ocupando o lugar da solidão com essa luz fantástica. Uma luz que dá vontade ficar parado olhando até o fim da última réstia de cor sobre as pessoas que ali passam. Vou direto. Não tinha como registrar na minha câmera. Quase ninguém se preocupa com esse cotidiano das luzes e sim das coisas e das pessoas. Sempre o mesmo trajeto, comprar na feirinha. Volto cansado do jogo, volto e fico feliz quando esse sol lá está na espera dos meus olhos. Definitivamente, no verão não terei esse mesmo prazer. Essa cidade funciona bem no outono, inverno e primavera com seus dias de sol ao cair da tarde.

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Raízes do Mal de Maurice Dantec


Capa de Eduardo Miotto

Lançamento em outubro de 2009.
Raízes do Mal de Maurice Dantec.
Tradução de Juremir Machado da Silva
Romance que abre a coleção policial da Editora Sulina, "Flores do Mal".


Andreas Schaltzmann começou a matar porque seu estômago estava apodrecendo.
Não era um fenômeno isolado, muito ao contrário. Fazia algum tempo que as ondas cósmicas emitidas pelos aliens mudavam os seus órgãos de lugar. O cérebro dele foi submetido a um bombardeio de radiações com o objetivo de transformá-lo, como todos os outros, num robô sem consciência a serviço de uma maquinaria inumana.
Havia alguns anos que os nazistas e os habitantes de Vega estavam instalados no seu bairro. Era certo que eles não ficavam só ali. Por toda parte, inclusive nos mais altos escalões do Estado, o complô das Criaturas do Espaço estendia as suas ramificações destrutivas. Andreas dava-se conta disso a cada dia olhando os programas de televisão. O apresentador de um jogo conspirava contra o Papa e contra o primeiro-ministro Balladur, tudo levando a crer que transformava as pessoas em bonecos.
Nessa época, Andreas já havia raspado a cabeça para “controlar o osso do crânio que mudava de forma”, mas fazia algum tempo que usava um boné de beisebol para se proteger dos raios físicos.
Naquela manhã, Andreas percebeu que seu estomago estava apodrecendo quando o tubo de pasta de dente começou a brilhar antes de se transformar em carne morta. Uma lama sanguinolenta com cheiro de esgoto escorreu entre os seus dedos formando um turbilhão em torno do ralo e fazendo um barulho incrível de sucção. Olhou-se no espelho e viu o espetáculo de um monte de carne viva rasgando-se em vários pedaços até se espalhar pelo chão.




Capa da edição francesa de Les Racines du Mal

domingo, 23 de agosto de 2009

Cartas do Rainer Maria Rilke


"Rilke em Moscou" desenho de Leonid Pasternak

Relendo Rilke, sempre quando posso retorno aos autores que admiro, assim vale para a literatura, cinema e filosofia. Nunca retorno à obra simplesmente, volto à criação. Isso em Cartas a um jovem poeta, ele escreve sobre arte, o tempo certo sem medida para se chegar ao ato de criação. Algumas passagens.

“Aí o tempo não serve de medida: um ano nada vale, dez anos não são nada. Ser artista não significa calcular e contar, mas sim amadurecer como a árvore que não apressa a sua seiva e enfrenta tranquila as tempestades da primavera, sem medo de que depois dela não venha nenhum verão.”


“As obras de arte são de uma infinita solidão; nada as pode alcançar tão pouco quanto a crítica. Só o amor as pode compreender e manter e mostrar-se justo com elas.”


E finalizando a correspondência, Rilke revela a sua condição de vida, um homem sem condições financeiras.

“Finalmente, quanto a meus livros, gostaria de mandar-lhes todos os que lhe pudessem agradar. Mas sou muito pobre e meus livros, mal publicados, não me pertencem mais. Eu mesmo não os posso comprar, nem dar, portanto, — como tão frequentemente teria vontade de fazê-lo, — a quem lhes demonstra afeição.”


Carta a um jovem poeta. Tradução de Paulo Rónai, Globo, Porto Alegre-Rio de Janeiro, 1984.

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

O imaginário do livro em Paris


Paris qui dort

À Júlio Bressane

O que é um leitor? Quais as características dos leitores nessa ponta do Brasil? As respostas são muitas, porque quem pergunta acaba pensando na resposta óbvia, naquela que ele imaginaria ser a melhor adaptada para as questões que envolvem o leitor e o livro. Nesse espaço existe uma máquina de mitos, uma espécie de vassoura imaginária que varre os textos para debaixo da terra, e existem aqueles, também, que convêm e serão varridos para o fundo do esquecimento. Existe a terceira possibilidade, os que são varridos para o centro das coisas, da vida, das opiniões, aquilo que vem para sentar à mesa com as pessoas, dividir a cama, a cabeceira, e terá o espaço para ficar, dormirá ao lado de alguém.
O leitor é essa postura fabricada pela necessidade de encher a cultura de livros. Bons livros não andam ao lado de bons leitores. Penso. Os bons leitores quase sempre acabam um dia se desiludindo com os livros e acabam retornando à cultura popular, da massa, aos cultos, ao jogo, ao vício de viver um dia após o fim do outro dia, fugindo dos bons livros em direção ao paginar do tempo. Minha saída seria criar um leitor. Um leitor que fosse imune a todos os livros, que pudesse ele mesmo saber pensar um novo tipo de texto, um livro, uma linguagem em que a forma pudesse atravessar o tempo irrompendo o conteúdo de signos. Seria a gagueira da linguagem nos olhos do leitor novo. A desconstrução das ideias antigas, inventando o leitor e não o livro na antiga forma dionisíaca de instaurar o sonho. Digo, então, o tempo há de acordar o livro. Uma ideia imortal atrás do tempo e o ir até o outro lado das coisas inventando autores.

sexta-feira, 24 de julho de 2009

Proust em Deleuze, em Godard




"O tempo não é um todo, pela simples razão de ser a instância que impede o todo."
Gilles Deleuze em Proust e os signos

quinta-feira, 16 de julho de 2009

A maquinaria das páginas


"Um livro é uma pequena engrenagem numa máquinaria exterior muito mais complexa. Escrever é um fluxo entre outros, sem nenhum privilégio em relação aos demais..."
Gilles Deleuze



Eu lambo o livro,
Como o livro como se come
a máquina de leitura,
Fluxo que vem da escritura,
mão que passa por baixo das páginas,
adentro das calças
Fluxo corrente, erótico,
leitura que se lê, se masturba,
se chora enquanto termina
Folha é o redemoinho que vem página à página.