sábado, 3 de outubro de 2009

Morlaix - fragmento


Francis Bacon - 1946 Painting

Depois daquela noite não consegui tirar mais os olhos da Baia de Morlaix. Mesmo distante, lá do sobrado, do quarto as persianas não me deixam em paz, querem que eu fique olhando quando posso apenas ver a baia que esconde sua beleza dos dias, do tempo, da vida que um dia Corbière deixou nessa cidade. Diria, lembrando Deleuze, da mão para o olho. O olhar que vem do mar é o meu olhar que entra no sobrado, na cozinha onde todos se divertem.
Marie me chama. Sem descansar, o mar é um lobo que uiva, contorna o velho sobrado com sua umidade constante, com sua brisa que cola na grama. Estamos de volta. Nos aquecemos ao redor de um fogão à lenha. Tugny prepara um chá, Amelie e Marie cuidam de uma sopa, e eu, nada por enquanto. Arrumo a mesa e me sento ao lado do fogo. Cuido para que ninguém se canse antes da ceia como meu olhar que observa, tento me lembrar da história que o filósofo escreveu sobre Francis Bacon, de que o artista ao pintar com os olhos se realiza quando consegue tocar com os olhos. Aqui ninguém reza, ainda bem, penso. Todo mundo toca com os olhos o novo lugar. Morlaix é um presente do mar.
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