domingo, 18 de outubro de 2009

Areia -fragmento-Morlaix



“Com silencioso corpo repousas na areia ao meu lado,
Superestrelada.”
Paul Celan


Acordei e fui caminhar em direção à praia. Barcos ao longe cruzam a baia. Existe um porto aqui perto, não tão perto que eu possa ir caminhando sem que o pessoal se dê conta da minha ausência. Me afastar por um tempo das vozes, trago as imagens, trago Marie em mim. Ela não sai dos meus dias, mesmo quando quero, lá está ela. Aqui e distante ao mesmo tempo, eis o equilíbrio. Aprendi com o tempo que Marie não vê as mesmas coisas. Assistimos filmes juntos, temos opiniões que se aproximam mas sempre eu tento refletir sobre algo que não tem importância nenhuma ao tempo e continuidade do cinema. O cinema prescinde das minhas reflexões. Não me atrevo analisar aquilo que não vejo como autoral, por isso gosto de autores que fazem cinema, que usam a areia mais que um simples ambiente para se fazer um cena. A cena é esta, estou aqui pensando nas cores que surgem das areias, estou pensando que se corre por esta praia vazia, se foge da morte também. Algum ladrão andou por ela. Lembro que se correr até o mar é mais que liberdade, é poder ver que a natureza não nos perdoará jamais. O signo nas coisas, as travas de uma chuteira atolada na areia é sinal de que o próximo jogo deverá ser com inteligência. Prefiro olhar o tempo passar por aqui. O cinema está aqui perto. Sinto no ar o seu cheiro, alguém aqui um dia filmou uma cena, um crime, talvez, uma epopéia vinda do mar, uma tristeza recorrente das águas
António Paim
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