sábado, 12 de dezembro de 2009

Raízes do Mal, o romance



Fragmento do livro, p. 384
Estávamos pelo dia 20, acho, enfim, alguns dias antes do Natal, e eu havia aberto os olhos numa manhã cinza, depois de uma noite agitada em que menininhas eram “colhidas”, em lavouras cheias de espantalhos com cabeça de palhaços, por máquinas loucas e terrivelmente silenciosas, como se tudo se passasse no fundo de um mundo submarino, por exemplo, no fundo de um lago. Eu não havia perambulado pelas redes nessa noite, deixando para a máquina a tarefa de surpreender alguma conexão a uma “Porta 999”. Mesmo assim, amanheci esgotado.
Minha boca estava seca como uma velha esponja esquecida num mormaço. Joguei-me sobre a garrafa de Evian na mesinha-de-cabeceira.
O duplo híbrido me olhava da tela.
– Olá – acabei por dizer entre dois gluglus. Tudo bem?
– Melhor impossível, Dark. A minha noite foi muito boa.
– Ótimo. Assim, contrabalança a minha.
Fiquei em pé com muita dificuldade, forçando as articulações, maltratadas pela noite passada na plantação sangrenta. Caminhei lentamente para o chuveiro.
Já ia abrir as torneiras quando a voz da máquina me chegou através da cortina plástica.
– Inventariei todos os cortes significativos esta noite, Dark. Estamos no bom caminho. Na direção das raízes...
Não respondi e abri com um golpe seco o misturador de água. O jato quente dispersou os restos de pesadelo que atormentavam a minha consciência.
Quando saí do chuveiro, estava apenas recuperando a velocidade normal. Instalei-me na frente da máquina diante da janela que dava para as montanhas.
O céu estava baixo. As cores ganhavam um tom monocromático. Tudo parecia evocar o brilho de um tonel úmido.



Capa de Eduardo Miotto
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