quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Um barco distante


De Boris Pasmonkov

Amo os poemas dos famintos, dos doentes, dos marginais, dos envenenados: François Villon, Charles Baudelaire, Edgar Poe, Gérard de Nerval; poemas de supliciados da linguagem que estão se perdendo nos seus textos e não poemas dos que fingem que estão se perdendo para melhor exibir sua consciência e sua ciência, da perda e da escrita. Antonin Artaud



Hoje é um dia de lembrar de um grande amigo, um amigo que perdi em 15 de outubro de 2008. Além de amigo, um talentoso homem, um daqueles que hoje é jóia rara. Um pai que me deixava estonteado pelas análises sobre cultura e tudo que gostaria de viver ao lado de seu filho. Dizia com orgulho os filmes que assistia ao lado do filho. Nos conhecemos no Zelig, na mesma rua, no mesmo bairro que vivemos anos. Ele é da cidade, eu vim direto do interior morar na Cidade Baixa. Porto Alegre aqui estava. Aqui nos cruzamos diversas vezes até o Zelig, dos meus queridos Pio e Bia nos unir. Ando afastado dos amigos. A vida é assim. Dói voltar aos lugares que vivi, não por medo, mas simplesmente, porque me afasto, para quando voltar, também, lembrar dos amigos, dos amores que tive, e lá encontrá-los no tempo e na imagem dos meus olhos.
Não existe muito a que se lamentar da vida. Nisso somos parecidos. O cinema, os livros, a literatura e a música era um elo de vida, de embate diário. O cotidiano às vezes passava à margem de nossas discussões. Gostávamos de ser elitistas. Ele adorava Jonh Cage, Philip Glass e Laurie Anderson, o último show que assistiu e depois veio me contar com o prazer na alma de ter sentido a vida pulsando na música mais uma vez. Tudo nele tinha a dimensão de um Coppola, do olhar grandioso, de uma vastidão poética e da ironia de um Tarantino. Tudo tinha de Pessoa, o cotidiano pelos bares da Cidade Baixa, de um Rimbaud, dos amores amargados nas letras que compunha, nas poesias que nasciam nas madrugadas desse notívago. Esplendoroso e descuidado, um homem com os métodos quase nada aristotélicos e modernos. Um barroco pop, um clássico pungente estilo Samuel Barber em seu Adágio for strings de Platoon. Era o próprio anarquista de sua alma. Ainda acreditava na vida.

Aqui um fragmento de um longo e-mail, desses da madrugada, que ele mandou em dezembro de 2007.

“Existem certos instantes que nos tatuam a alma e são responsáveis por um manancial de decisões que tomamos pela vida a fora.

Me lembro quando eu conheci a sopa de pacote. Foi uma revelação (não é deboche).Para mim foi um divisor de águas. Eu revejo mil vezes "Veludo Azul", devido à agonia do personagem do Denis Hooper.”

De Vitor Hugo Turuga (1963-2008), Porto Alegre
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