domingo, 1 de novembro de 2009

Dor longitudinal


Imagem de História do Cinema




“Quer dizer que você também sabe mentir. Que bom. Ainda bem que você sabe mentir.”
Philip Roth



Será que você não consegue provar o tamanho do caminho da dor? Provar com dores nas mãos, no corpo inteiro o caminho por onde o tempo passou e deixou apenas a lembrança numa estrada esburacada como o céu sem fim, cheio de espaços, buracos em que nuvens existem para dissimular a imensidão da dor longitudinal da palavra. Dizer assim é fácil, quero ver estar dentro dessa dor, com dentes rangidos de tanto tilintar de frio, ou do corpo em chamas, a ferver, quando passar o dia todo ao sol, andando de um lugar a outro sem chegar ao fim, em uma estação de trem ou aeroporto. Sozinho. Novamente, será que você consegue expressar a dor diante da perda, a vida que desaparece no último olhar? Não.
Hoje é dia de você descansar sem pensar que a dor está rodando a sua casa. A criação não depende mais dos teus nobres dedos que digitam a dor no texto. A tela está em branco hoje, e você tem o tempo, a partir de agora, até completar 50 anos para escrever e pensar sobre o gosto que tudo isso poderá ter daqui uns anos. A dor não precisa do Ser para dar essa resposta, ela está aquém de uma pergunta filosófica, ela é uma chaga, uma ferida aberta que vive entre os que pensam e os que esqueceram de vez dessa faculdade maluca que é estar na nuvem das razões. Ao mesmo tempo carrega sua mochila de textos, de caracteres virtuais para depois descarregar páginas em branco com narrativas intermináveis e invenções de jogos de linguagens. Ainda assim nem tudo é inevitável, mesmo que necessário em suas perguntas, o tempo é alheio assim se você não fizer com o texto ganhe força junto com o pensar.
Tudo será oculto se o todo for mostrado de uma só vez. Não se consegue, porque essa parte imensa engana os olhos. Você não precisa de razões lógicas para obter respostas extraviadas. Engane os olhos, hoje, somente hoje, mas nada será real se o signo sangrar de vez, nada terá valor se for do início ao fim uma rigorosidade métrica textual. Tem que haver o desatino, uma força máxima de loucura, uma explosão de ideias para pôr o signo na rotação da força do pensamento. Um depende do outro. Nem só esse desejo de perguntar e de saber tentar esquecer a dor será notado no texto se não houver uma descontinuidade de palavras com a imagem. Depois uma retomada disso tudo, através do tempo para se ler com mais calma e espanto, de uma só vez para compreender a dor que as mãos sentem quando se deixa a vida de lado.
Depois, a imagem, repleta de sangue, essa sim, terá a dor expressa para na palavra. Ela será uma extensão da razão, um signo que não existirá por sim próprio, mas terá a ilusão de enganar os olhos de quem acredita na verdade vinda da imagem. Então, você tem agora, a letra guardada, a imagem dentro dela, as ideias sendo traduzidas, as mãos resistindo o tempo que for preciso para escrever e não solucionar nada que possa garantir o futuro. Daqui uns anos, quando você completar 50 anos, suas mãos não sentirão mais dores. Seu corpo será testemunha disso tudo.
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