sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

A Lógica da Vida

    © Nilson Lopes

“Todo esforço é um crime porque todo o gesto é um sonho morto.”
Fernando Pessoa


Um sujeito estranho entra na porta do bar, por onde o sol minutos atrás já tinha adentrado sem pedir licença, o cara veio sentou à mesa ao lado da minha. O estranho em todos os aspectos, de terno novinho em folha, com um belo sapato, foi o que mais me impressionou naquele lugar distante em que eu me encontrava, no interior, uma praia do Rio Grande do Norte, o sujeito me olhou, enquanto eu tomava uma dose de uísque sem gelo, desolado naquele fim de mundo. Olho no olho, ele me diz de soslaio numa língua quase parecida com o português ‒ “vou sentar ao seu lado, tenho algo a lhe dizer, senhor”, antes mesmo de qualquer reação, como um leopardo o sujeito já estava ao meu lado mexendo na mochila que trazia consigo. Foi logo expressando sua lógica “A vida é mais do que se imagina. Concorda? O pensamento é uma arma perigosa, o crer é a absolvição da alma.”

Ele retira da mochila uma pistola e um silenciador e nesse mesmo instante já acopla no cano, o tempo suficiente para eu poder reagir, mas não, fiquei imobilizado, ele continuou, “O último gole seu, a vida já era, ou você segura essa pistola e dispara um tiro em minha cabeça ou eu acabarei com a sua a vida antes mesmo de você acabar esse uísque.” Não tinha o que dizer, o cara coloca a pistola em minha mão esquerda. Ele disse de uma forma confusa ou eu que já não conseguia entender mais nada, pensei. Eu era o escolhido, que tinha premeditado tudo, disse que observou meus passos desde a minha chegada naquela praia, que estava no mesmo hotel, que o escolhido tinha sido eu. Agora ouvia a conotação mais audível da vida, as palavras em toda sua extensão, compreensivas, um cara me dizendo tudo aquilo, um derramar de signos, imagens que faziam sentidos num sotaque que diferenciava a todos naquela praia. Sem que pensar bem o que fazer, peguei a pistola com a mão direita e me imaginei disparando a pistola, descarregando toda no teto, mas se ele tivesse outra arma guardada. O que fazer nesse momento, a mão que dispara será mão punida mais adiante, pensei. Olhei fixo nos olhos do sujeito e ele disse de chofre “Nem pensar em hesitar, não existe alternativa na vida, ou atira em mim, ou eu te mato com a minha outra arma.” Depois desse dia, pensei, se sair vivo dessa, prometo, nunca mais viajarei sozinho para descansar, mas não tem lógica, o que realmente contava era atitude do elegante homem com o olhar distante, parecia estar no paraíso, tinha uma calma absoluta, só o sotaque era um problema para mim. Parecia que ao mesmo tempo rezava, entoava a linguagem com uma precisão como se fosse outro idioma. Ele começou um novo assunto, disse ‒ “O destino está traçado, temos que aceitar o destino, eu por ser pecador, você por ser o agente que irá cumprir esse destino, da mesma forma, se não aceitar eu lhe eliminarei, por ser um pecador, um homem do Ocidente, com traços e hábitos de um ateu, então, merece me matar, porque um dia pequei, de outra forma, irá morrer, dá no mesmo. Não tem saída, senhor.”
Pensei mais um pouco, sem pestanejar com a arma já desenfreada, ele tinha feito esse movimento técnico, porque nem esse detalhe eu conhecia minutos atrás, mirei em sua mão contrária a da mochila e disparei a pistola, aquele barulho seco, três tiros, um na mão, outro na perna, o terceiro não sei onde foi. Ouvi um gemido, a voz no fundo enquanto caía da cadeira, “Pecador, você irá morrer, existem outros além de mim, nós iremos matar todos vocês...” O cara caiu no chão, eu chamei o dono bar, ele veio correndo, e perguntou o que estava acontecendo, perguntou se eu tinha atirado nele, eu, com os olhos fixos no homem, disse que sim, pedi que chamasse uma ambulância e a polícia.

A certeza de minha liberdade foi ter atirado para me defender do jogo imposto pelo sujeito, um cara que chega do nada, escolhe outro de forma premeditada, mas precisa ver seu projeto vitorioso pondo fim à liberdade dos dois. Isso tudo eu a pensar, não existia mais lógica diante do fato consumado.
A polícia me interrogou, levaram o cara ao hospital, depois me disseram que era um sujeito com problemas com o governo, que tinha se metido em desvio de dinheiro, lavagem de dinheiro etc, que após sua soltura tinha se convertido ao lado mais seguro da vida. Primeiro ficou louco, depois religioso, agora tentava ir para o paraíso. Levar mais gente era seu propósito.
Mas uma coisa não fecha, depois, um dia mais tarde em conversa com o delegado, um jovem muito gentil, ele era do polícia federal, disse que o cara tinha uma ficha criminosa extensa, tudo isso contra o país, ele junto com alguns políticos, mas nesse meio tempo, delação premiada, liberdade vigiada, se converteu, mas o que não fechava, o delegado disse, foi o fato do sujeito pedir para atirar nele...qual a lógica, me interrogou... Eu respondo ao delegado que ele era o especialista, eu apenas, um viajante cansado do trabalho, que tinha saído lá do sul para descansar em uma praia e terminar de escrever um livro. Meu último livro, que por coincidência trata sobre a existência de Deus na era das redes sociais... O delegado riu e disse ‒ “Meu senhor, parece que está plena forma do pensamento, está liberado, o problema não é certamente com o senhor mas sim com a crença do Outro, com os fantasmas que vivem na vida dele.”

Meu último olhar ao delegado veio junto à lembrança de um poema do T. S. Eliot “Pensamentos cruéis comigo vêm e comigo vão: Ruivo, rio, rio, rio.”

quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

O Viajante


“Tudo isso é a passagem aos nossos olhos. E nada disso ela foi outrora.”
Walter Benjamin

Um amor além desta cidade,
O verão queima as casas, os telhados brilham,
Um amor além deste lugar,
A vida é mais que um prato à mesa,
É a fome dos fantasmas que vivem nesta cidade.

Um verão a mais na vida dos meus planos,
Depois desta cidade não existe mais um lugar para morar sozinho.
Um amor além desta cidade só com você,
Lá na beira do Sena, irei plantar meu sonho,
Ele nunca morreu, irei catar lixo para sobreviver de amor.

Irei morar em baixo da ponte para pagar o teu doce preferido,
um amor além desta cidade é preciso.
Vamos envelhecer longe daqui, que ninguém nos ouça:
Vamos embora quando findar o dia,
o avião não espera ninguém. Partimos! 

quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

Os acordes da vida


                                                                                                    A Heitor Villa-Lobos




Hoje eu acordei bachiano, acordes em meu corpo,
O templo da vida, a música é refúgio,  
O cérebro é como a casa da fortuna,
Sem movimento, o passo é solo sem som.
Os acordes do acordar trazem à vida o cheiro da floresta,
O voo do pássaro a purificar, lá no alto o céu,
é o chapéu que nos protege.
A floresta é a força que desce as águas, o árido país virou peça de museu de pedras.
O rio é a lembrança dos tempos, o passo voa abaixo do azul, o verde é húmico, desintegra e nasce mais adiante.
A riqueza do coração descansa, o sol ilumina o solo que cruza no som que vem do Amazonas até o sul do país.
Porque hoje, ao acordar, as bachianas me jogaram à dança.
O murmúrio da natureza no rosto do acordar é o vagar translúcido dos passos,
O rasgar do tempo atravessa o lamento do coração,
A terra não morre assim tão fácil, seria preciso silenciar o pulsar dos acordes que o vento traz da floresta.





domingo, 7 de dezembro de 2014

O escritor sem rosto


“Törless tirou da gaveta todas as suas tentativas poéticas.”
Robert Musil

Sobre Antoni Casas Ros existe o mistério que cerca uma vida. A sombra sobre um rosto desconhecido, sobre uma vida, a literatura perdida entre as livrarias, ninguém o lê, ou todos que o leram desconhecem o mistério do autor. Um autor mapeado por cartógrafos das letras, por filósofos desempregados, por artistas esquecidos, por mulheres livres, homens abandonados: sem rostos, todos os rostos que hão de botar a cara na janela, na vitrine, nos espelhos do grande hotel.

Ninguém conhece Antoni Casas Ros, ainda existe rastros do escritor? Em 2014 saiu seu último trabalho, “Lento”, lentamente ele se mostra nas livrarias, em e-books, sumirá na poeira digital, nas redes sociais ninguém mais lembrará do rosto desconhecido de Antoni Casas Ros. Restam os que buscam se conhecer um pouco mais, os que ainda lêem, é, são esses mesmos os que querem desvendar o mistério do escritor de o “Enigma”.

                  Christophe Jacrot

sábado, 6 de dezembro de 2014

O voo do pensamento



“Estimam que se tudo passa, nada existe; e que se a realidade é mobilidade, ela já não é o momento em que a pensamos, ela escapa ao pensamento.”
Henri Bergson


A distância entre o pensar e o refletir sobre um objeto é absolutamente necessária para se saber a medida que existe entre o que se pensa e o que se vê. Então, ver e pensar estariam juntos na mesma caminhada desse ato de imaginação? A reflexão que move essa proposta de pensar move as ideias, digo o que se pode olhar e pensar sobre o real, falo, sobre a teoria do que se nomeia como real, o que está no objeto, mas o que penso nem sempre é o que está lá fixo no objeto, mas nem por isso, ver e pensar é a garantia de que algo real existe neste ato de pensar. A imaginação é o momento em que o fenômeno sobre o estado das coisas se torna um pouco mais palpável: o que se imagina é o que está por trás do pensar, a ideia é ir além dos conceitos. Ainda ontem embaralhei as cartas do pensar, o dilema entre ir à fenomenologia para descobrir o que me faz escolher o que pensar no momento ou ficar no plano de tentar desconstruir as imagens do pensamento. Como sou um homem na escuridão deste século, preferi abrir alguns livros, depois me contentei com as imagens de um documentário do cineasta Godard. Fechei as janelas e fui ouvir Gabriel Fauré. 

domingo, 23 de novembro de 2014

Contemporâneas


    Roma
“O que havia de imóvel e de congelado em nossa percepção se reaquece e se põe em movimento.” Henri Bergson

Mãos que escorregam, lábil entre névoas,

abrem os caminhos dos olhos,

através dos cabelos ‒ Invadem.

O corpo é enlace dos dedos,

o firme propósito é atar para não cair.

Mãos moventes, reveladoras, aprovam!

Desfazem as intuições, ação movida.

Mãos escritas, dedos de pensar no século XXI.

(A Paul Celan (Cernăuţi, 23 de novembro de 1920 — Paris, 20 de abril de 1970) foi um poeta romeno radicado na França.)




Fenomenologia de fragmentos



“A utopia é o campo do desejo, diante da Política, que é o campo da necessidade.”Roland Barthes



A irreverência de Nietzsche, em fazer a transvaloração de todos os valores levou o filósofo a transbordar o século XX com aforismos, e um estilo de pensar sem as rédeas da cavalaria oficial do pensamento racionalista.
A idiossincrasia do pensador, dado à polêmicas, foi o que estigmatizou-o, porém seu estilo é uma nova forma de pensar a realidade. Atrevidamente sempre atentou contra a moral. No Crepúsculo dos Ídolos, o pensador ataca:

"Se nós, os imoralistas, causamos dano à virtude? Tanto quanto os anarquistas o fazem aos príncipes. Só depois que se atira contra eles é que eles voltam a estar firmemente assentados em seu trono. Moral da história: é preciso atirar contra a moral."

É preciso passar da lógica cartesiana, aristotélica para uma nova forma de pensar a cultura.
Michel Maffesoli, herdeiro do pensamento fenomenológico e da sociologia compreensiva, faz a crítica à modernidade de forma lúcida. Sem vacilar, num estilo próprio, o sociólogo fará o contorno crítico do pensamento do século XX. Por que contorno? Maffesoli se vale dá mais autêntica tradição nietszchiano de escrever no traço de Bataille.
Na linha marginal do pensamento, o sociólogo faz a crítica do pensamento moderno à crítica de sua valoração teleológica. Aquilo que Bataille retira de Nietzsche para ver o mundo cristão com sua moral, Maffesoli o faz na sociologia e na política para desconstruir a projeto salvador do pensamento moderno.
A unidade e a linearidade são partes de um todo, de um projeto moderno que compõem o ideário moderno. A nova sociologia, se é que se pode dizer, é justamente pôr em cheque o postulado da totalização do sujeito em nome de uma moral teleológica.
O cotidiano é a matéria prima. O estar-junto pressupõe a polissemia na pluralidade e nas contradições. O que na modernidade juntava, unia através da razão, na sociedade contemporânea é separado. Depois une-se o orgiástico no coletivo tribalizado e o estético, filho da cultura de massas, se emancipa

"E o estetismo estigmatizado pode ser justamente uma sensibilidade teórica, que nos permita apreciar a beleza da desordem aparente, sua fecundidade também.(...) Ao contrário do moralismo, o estetismo remete a uma forma de assentimento à vida. Nada do que compõe deve se rejeitar. É um desafio por aceitar." (No fundo das aparências. p.49)

O espírito dionisíaco permite esse novo homem sentir a arte. Esse é homem que surgiu nas ruas de Paris com Baudelaire. Perpassa o século XX com Camus, antes na cartografia dos fenômenos de Benjamin que decorre nas passagens da cidade, como quem pinta ou capta as imagens de uma época através dos fenômenos e dos sonhos dos passantes.
Maffesoli é o sociólogo da fenomenologia cotidiana, sabe como tratar com um dos paradigmas mais caro para à modernidade, a política. Aqui perfaço a política do corpo como a extensão de todas as sobras políticas, os restos como residual e clareza na superfície dos comprometimentos e pequenos lapsos das leituras do mundo.

(Reescritura de texto de 2007 - "De Nietzsche ao presenteísmo fenomenológico")

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Água do sonhar

"Nada me prende a nada Quero cinquenta coisas ao mesmo tempo."Fernando Pessoa



Faço o teu retrato, faço o pensamento,
Até ontem à noite desfiz o pensar do outro dia.
Arrumei os livros, dobrei as roupas e preparei a comida.
Faço a minha cama, abro os olhos para a noite,
Sonho com a vida, a realidade é o sono do vazio.
Acordo antes de todos, nado até o outro lado da baía,
Sonho nas braceadas com o real do pensar:

A VIDA É LÍQUIDA.

sábado, 15 de novembro de 2014

Cidade Noturna de Rimbaud


“Torres de sinos cantam ideias das pessoas. A música desconhecida escapa dos castelos de ossos. Todas as lendas evoluem e veados invadem burgos. O paraíso de tempestades despedaça. Selvagens dançam sem cessar a festa da noite...
Que braços bons, que hora adorável vão me devolver essa região de onde vêm meus sonos e meus movimentos sutis?”
Arthur Rimbaud


Meu último absinto foi ontem, noturno gole de secar a pele, de queimar os olhos e azular a visão diante de uma cidade que dormia. Fiquei sem saber o fim da história do filme que via ‒ ação e pensamento não me desceu bem, fui até o armário de madeira envelhecida e o vidro transparecia a garrafa intacta de um absinto do passado, nunca mais tinha provado o noturno silêncio da província. Minha cidade não é minha, meu olhos são meus e de quem eu vejo e dorme no quarto ao lado. A cidade soube me receber esses anos todos, bebo o último gole de absinto a molhar a garganta deste fim de mundo.

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

O outro lado do olhar

        “A imaginação é uma das forças da audácia humana.”                                                                                                                                      Gaston Bachelard



Os pés juntos, as mãos atadas, a vida cercada, o lado esquerdo fraturado, a voz rouca do grito, a tortura do pensamento, o cachimbo em bocas abandonadas, os quatro cantos da casa sitiada, a cidade virou um lixo, teus irmãos morreram no assalto, tua vida virou um marca-passo que alimenta um dia depois do outro na vontade de ver o nascer do outro dia.

domingo, 9 de novembro de 2014

A Lente Barthesiana

    (Para Sempre Mozart - Godard)

“A desmedida me conduziu à medida: colo na imagem, nossas medidas sãs as mesmas: exatidão, justeza, música: acabei com o não chega.” Roland Barthes




A minha língua é a tua medida, a distância entre o sentir e o ver das paredes que nos protege. Sou parte de tua parte, carne de tua pele, ossos de tuas dobras, sou o Outro a te perguntar, sou um semblante entre o Eu o espelho da velha casa da infância. A tua imagem já existia desde sempre, entre o sonho e a boca... A medida da minha dor é a letra em sangue que risca tua roupa até o decote de folhas coloridas que vai até a última tatuagem de tua lente. Um olho atento vale tanto quanto pesa a beleza da imagem, quem vê poderá sentir e pensar sobre o dizer do que se vê... a imagem vive para além da tela.

   (National Portrait Gallery)

domingo, 2 de novembro de 2014

A Corja





“Onde está o velho violinista Jones
Que brincou com a vida durante noventa anos,
Desafiando as geadas a peito descoberto,
Bebendo, fazendo arruaças, sem pensar na
                              [ esposa nem na família,
Nem em dinheiro, nem em amor, nem no céu?”
Edgar Lee Masters (1868-1950)



Os iludidos vêm à tona nos dias dos mortos, levantam os braços em nome da coroa de ouro do rei, do monstro azedo que passou por essas terras e deixou a conservação do solo, dos livros, da moral e da política intacto, preservada em conserva histórica que só de tempos em tempos se abre na primavera.
Os iludidos são os mesmo que iludiram o cemitério de The Spoon River, lá os mortos do mal se reúnem e saem a povoar o imaginário de algumas cabeças brilhantes da mídia. O psicanalista foi engolfado, esqueceu de ler o livro e acreditou no conto da vovozinha que um dia lhe narrou na hora da partir.
Os iludidos vivem um momento único na história, estão narrando a própria morte na vida que gostariam de ter.


sexta-feira, 31 de outubro de 2014

Willy e o Mr. Bones



“Cão como metáfora, se você consegue acompanhar o meu rumo, cão como emblema dos oprimidos, e você não é nenhuma figura de retórica, meu garoto, você é real pra cachorro.”
Paul Auster


A paixão do Mr Bones ao amigo poeta, pária aos olhos dos que julgam é o que não me move mais a ficar triste, mas é o que mais me leva ao abandono do Mr. Bones, esse sim, o protagonista da solidão do homem, do sonho do sonho no acaso do real que se perde nas histórias. Mr Bones que saiu a procurar um novo amigo e se perde na dor que só o humano parece sentir. Esse é o caminho que vai do exercício racional de pensar sobre a escuridão de um outro lugar, de um Eu desconhecido às imagens que a vida nos apresenta e das clareiras que o relógio do tempo soa ao longe. Ao limiar do sentir e viver, é através das imagens que o romance nos leva de metáfora em metáfora à poetização do companheiro cão.



domingo, 26 de outubro de 2014

Cadernos da Primavera IV



“toda a verdade é encurvada e o próprio tempo é um círculo?”
Nietzsche



Em tempos de fraturas na história, na cultura e em tudo que surge, entre o olhar que faz e a mão que destrói, prefiro viver à margem das ideias construtoras de um mundo melhor. Se o mundo começasse pelo desejo de ser um mundo melhor, se o mundo fosse a projeção daquilo que dos sonhos resultasse em algo, certamente não estaria aqui para pensar sobre o mundo. A perfeição existiria, nada de novo e assustador nos aconteceria, acontecimento seria o retorno do Todo, do Mesmo. Então, prefiro mesmo que tenha que ter de errar, de pensar em tudo que não seja uniformizado, só assim eu posso me contradizer e refazer meu pensamento logo ali adiante. Isso não é um pecado. Mas os princípios universais, os existentes, não me encorajam a errar até à morte. Prefiro viver com o bem ao meu lado, com as vicissitudes do engano mas prefiro, também, ver que meu pensamento está na direção do que sonhei e sonho todos os dias. 

Paul Auster

    Do livro "Todos os Poemas" Companhia das Letras, 2013

sábado, 11 de outubro de 2014

Cadernos da Primavera III

    1024The_Great_Nave_of_Their_Medical_Treatment


“Pela última vez, deixem de confundir poder e potência... O poder é de um eu, de uma instância, a potência de ninguém.” (Economia Libidinal,  Jean-François Lyotard)

 


Duas coisas me assustam no momento, a saber, a primeira é que ter sempre que vigiar as ideias vis que circulam o mundo como se fosse a diversidade em nome da liberdade, e a segunda, depois disso, saber que elas existem mesmo é querem convencer os brasileiros que o mundo é assim mesmo, uma troca de cadeiras, de favores e vêm com essa, em nome da liberdade de escolha, votem em um de nós para salvar o país da crise.


quarta-feira, 8 de outubro de 2014

Cadernos da Primavera II


“Aquele que escolhe vê-se livre em sua escolha. Ele pode até mesmo arrepender-se dela e ele demonstra de todas as maneiras que ele assume sobre os ombros os seus próprios atos.”Hans-Georg Gadamer


A razão ocidental de tradição aristotélica e kantiana teve um grande revés ao longo da modernidade no século XX e no que se inicia, no século XXI; e, hoje, demonstra sua força contra aquilo que ela mesmo criou e cuidou com zelo quase moral, a saber, endureceu sua lógica em nome da unidade, destruiu os argumentos que se voltavam contra o silogismo. O que vemos já um bom tempo desde o tiro certeiro no método e na razão é o raciocínio anapodítico como hábito no cotidiano beirando a legitimar a razão de “cachorro louco”, já dizia um amigo meu analítico, um ex-amigo por conta da razão absoluta dele.

Como a razão nunca teve um dono, como ela nunca foi uma casa que se entra, se mobília, se dá nome às coisas como sendo verdadeira, então, tudo começou a valer. Então, o que vimos durante o fim do século XX foi não a derrocada mas a constatação da inteligência superlativa das cavernas que tanto se almejou e se detestou. A ciência foi o único erro que deu certo nisso tudo, transformou o homem em objeto e sujeito. Este século não será fácil, mas o que importa pensar no futuro? ... se o relógio do tempo nos der tempo ‒ o que nos dava a garantia de poder elucubrar em nome do bem pensar ‒, se já não sabemos mais como compreender os ponteiros, se o que cruza a fronteira do real é o que vivemos realmente, como descobrir o pensamento além do pensamento? O propósito para as cabeças que pensam é pensar em desenredar o nó da lógica que enredou na teia do absoluto e nas águas da mesmice do rio poético. Assim se traça as lógicas que estão soltas nesse nó da vida.
   



quarta-feira, 24 de setembro de 2014

Cadernos da Primavera



Et nous avons posé nos fronts contre la vitre
Où la nuit sanglotait...”
André Gide


A vida corre longe da morte porque teme encontrá-la logo ali, então, aqui da minha janela, onde estou a ver tudo, o sol que não chega a existir por completo, o sol que aquece o corpo, o sol que ludibria a noite da linguagem que ziguezagueia o ambiente fechado à procura de uma fresta, e das possibilidades de ficar a ver o tempo nos trilhos indo para o distante dos olhos, é que torna a existência esse não alcançar por inteiro.

Daqui, permaneço com o rosto colado à janela, como na infância, embaciando o visível a esconder o lado de fora, molhado o vidro do lado de fora, o vapor que a respiração fazia ao colar o pensamento. A saliva entre as mãos, o movimento do rosto, a visão de quem se aproxima ao longe, o som dos passos, depois o hálito que se aproxima mais e mais e um rosto lindo de lábios grandes, de pele que desponta em todas as cores, que me atravessa ao meio. Diz a voz: “vamos todos ao teu lar, vamos invadir tua casa como se invadíssemos um país” da mulher com gosto de água da chuva.  E como se tomando uma forte baforada enlaça nossas armas de uma linguagem límpida e intrínseca que discorre a todos os poros, que marca a existência com a primazia do compreender: o que existe além do desejo? Ao ataque, armas de sonhos. Ah, elas invadem mesmo, penso. Que força tem os olhos dela! ...é a mesma cor do que penetra os sentidos a me jogar para dentro do quarto repleto de uma força de invasora. Então, quem é você mesmo, uma pureza entre o dia e a noite? Como o rosto colado no vidro, a primavera vem no brilho dos desejos, afasta as lágrimas do vidro que seca ao ver o dia brilhar lá fora e se esquece de tirar a testa colada nas vidraças do tempo.
 "Aristóteles tinha, pois, razão a este respeito quando afirmava que ser bom a inventar metáforas era ter olho para as semelhanças."
Paul Ricouer

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Desconhecimento



A certeza do amor é a incerteza do próximo dia, mas a incerteza dos dias é a força do amor....Aí, lá estou atravessando a rua na faixa de segurança de meu bairro, penso em E. E. Cummings, o quanto o Wally Salomão gostava do poeta, das vezes que conversamos sobre o desconhecido da poética e muito mais sobre o desconhecido na fabricação da vida com o amor. Eu me entusiasmei com ele, seu jeito de falar, o outro poeta, de como o tempo pode trotear no acaso. Sobre as ruas por onde passo, por cidades que nos dividem, e continuamos a passar, dândis em ruas de Porto Alegre, por lugares que nos cruzamos... Lembrei do Cummings hoje.

“A Função do Amor é Fabricar Desconhecimento

a função do amor é fabricar desconhecimento

(o conhecido não tem desejo;mas todo o amor é desejar)
embora se viva às avessas,o idêntico sufoque o uno
a verdade se confunda com o fato,os peixes se gabem de pescar

e os homens sejam apanhados pelos vermes(o amor pode não se
                  importar
se o tempo troteia,a luz declina,os limites vergam
nem se maravilhar se um pensamento pesa como uma estrela
—o medo tem morte menor;e viverá menos quando a morte acabar)

que afortunados são os amantes(cujos seres se submetem
ao que esteja para ser descoberto)
cujo ignorante cada respirar se atreve a esconder
mais do que a mais fabulosa sabedoria teme ver

(que riem e choram)que sonham,criam e matam
enquanto o todo se move;e cada parte permanece quieta:


pode não ser sempre assim;e eu digo
que se os teus lábios,que amei,tocarem
os de outro,e os teus ternos fortes dedos aprisionarem
o seu coração,como o meu não há muito tempo;
se no rosto de outro o teu doce cabelo repousar
naquele silêncio que conheço,ou naquelas
grandiosas contorcidas palavras que,dizendo demasiado,
permanecem desamparadamente diante do espírito ausente;

se assim for,eu digo se assim for ―
tu do meu coração, manda-me um recado;
para que possa ir até ele,e tomar as suas mãos,
dizendo,Aceita toda a felicidade de mim.
E então voltarei o rosto, e ouvirei um pássaro
cantar terrivelmente longe nas terras perdidas.”

E. E. Cummings, in "livrodepoemas"
Tradução de Cecília Rego Pinheiro




domingo, 31 de agosto de 2014

O rio dos indignados

“A verdade surge justamente onde um ser separado do outro não se funda nele, mas lhe fala.”Emmanuel Levinas




Estava aqui sem fazer nada, olhava o rio que passa ao longe, olhava as pessoas em fuga, das águas do rio a correnteza levou suas vidas. O rio afoga, o rio salva. Medo de sua própria gente. Estava, como disse – de repente, vem um grupo entoando cânticos, um pouco marcha militar, música religiosa, com fome de bola, de livros sagrados, os que soletravam precariamente a própria língua, vociferavam a gosma da vida na calçada das ruas que desaguava no rio. Era tudo o que meus olhos não precisavam ver. Vi e sem chorar, ouvi um disco de Cartola para acalmar minha ira.
Estava eu aqui lendo um livro, passou em minha janela, ali na rua, a multidão de um homem e uma mulher a ronronar e esbravejar contra a presença das águas, contra a cor das águas do rio, que um dia mudou de cor, “porque essa não é como queremos” um deles dizia, então, “morra, seca, permaneça lá no fundo, no lodo mas não venha aqui em nossa cidade”....

Estava eu aqui, sentado na varanda, vendo e ouvindo tudo... me levantei, fui até a janela que era banhada pelo cheiro do rio, fechei a casa. Peguei o primeiro ônibus em direção ao mar, no primeiro navio, parti e fugi do grupo que desejava expulsar as águas de nossas vidas. Vou embora com o mar para outro lugar em busca de um outro rio, outra cidade livre da ideia de pureza no sonho de sua gente.
   

    Ana Ferray

domingo, 10 de agosto de 2014

Momentos possíveis do imaginário



    Firenze 


A escritura é o fortalecimento e também poder ser o que se esquece durante o passar do tempo. O tempo aqui como conceito diante do que é visto, do que tem diante dos olhos. Tanto faz olharmos por através da vidraça ou mesmo diante de um real supostamente dito, dentro do mesmo espaço, porque o imaginário criado nisso tudo é como o fogo que une o todo.
O que estava separado, o que estava distante acaba se unindo nas chamas. A escritura tem um pouco disso, mas se diferencia por sua unidade de ser, por sua fonte longe do imortalizado, é como Lyotard falou de Beckett que fez a “assinatura sofrer”, e ao longe – tudo tem a clareza e distância, dependendo dos limites próximos e da trajetória, olhamos os traços da escritura como quem se impressiona. Por vezes, no estranhamento, como se nada existisse além do que estamos vendo, mas para alguns nada é mais clarividente do que historicamente está estabelecido.

“O esquecimento do esquecimento não dá oportunidade apenas às encenações realistas, ele é essencial a qualquer metafísica: ao esforçar-se por apresentar a própria coisa, fundamento último, Deus, ser, a metafísica esquece-se de que a presença é ausente. Ter tudo presente é a bulimia do pensamento ocidental.”
Jean-François Lyotard
(Moralidades pós-modernas, p. 155-156, Papirus, 1996.)




segunda-feira, 7 de julho de 2014

O artista que descansa



O que compõe o tempo certo das coisas, o que dá o toque na tela, a cor dos olhos, do cinza que cruza as manhãs,
da palheta que discorre a vida, as cores que dançam na melodia do sábado que esconde a chuva.

O que oculta a noite, o que chove sem nos ver,
molha o tecido do dia, as persianas que apodrecem do úmido brilho nos olhos.
O que enaltece o líquido e que escreve os pés na vitória.
O domingo será nosso,
com vinho,
sol ou chuva,
aquecerá o Ser.

A presença é o significa mais ínfimo da humanidade, se não conter os poros do rosto, o suor dos olhos que lacrimejam, ao fim de tudo ganha a pintura do artista no momento certo.


“Anota muitos sonhos. Os sonhos contados sempre me entediam.” Albert Camus

quarta-feira, 2 de julho de 2014

As cores das ideias


“Na vida cotidiana, estamos virtualmente rodeados por cores impuras. E mais notável é ainda que tenhamos formado um conceito de cores puras.”

“A transparência e a reflexão só existem na dimensão de profundidade e de uma imagem visual.”


Ludwig Wittgenstein


Ideias movem moinhos, ações movem estacas,
Músculos derrubam ideias, vivem de ações,
Enquanto isso, mãos que tecem o tempo nas cores do filósofo são as mesmas que desfaz o ódio existente das ações.
As ideias sobrevivem no curso das águas que cruzam e morrem os sonhos de um lugar.
A vida é força constante das ações e das ideias,
Reflexão necessária do que move.
O corpo é a cidade em que abriga todas as cores e forças,
As idades, gênero, muros, caminhos são partes de um todo que está na ideia e na força do pensar.

                     Névoa da cidade - Luis Antonio Gomes

sexta-feira, 23 de maio de 2014

O eterno retorno

Paris La nuit - Brassaï

“Pois quem conseguiria com um só gesto virar o forro do tempo do avesso?”
Walter Benjamin


O velho no novo, o novo não é do velho,
Veremos o quão duradouro o sempre do tempo:
o novo amanhece, o velho não dorme,
o novo morre cedo, o velho nasce tarde.
A vida é o velho no novo.
O novo é a metáfora da vida, o velho, a vida.

O velho é a linguagem do tempo que se compreende
O eterno retorno que estende sobre o tempo –
a velhice e a juventude.
O novo é espécie mais bem acabada do fim,
Nasce a música, a imagem transforma o acaso,
a roupa é mera constatação da finitude.

O novo é o começo para o dia,
Mas só o velho sabe o que existe depois da luz,
Exceto, o novo de olhos bem abertos, um fonema,
A língua exala, estala, e bebe os dias do futuro.


quinta-feira, 1 de maio de 2014

O labor da vida – a palavra


Meia-frase, meio-tom, um verbo solto, uma ilusão, a linguagem voa, o labor dos sons, as imagens, a nudez da vida, o vibrar dos tempos, a palavra é sagrada mesmo crua. O sagrado do niilista está na linguagem, a lógica das ideias está no som da escrita, o silêncio é poder ler tudo sem esquecer do presente. O passado é um prédio de todas as línguas, a voz ressoa no esplendor da história. A vida, o caminho, o corpo, as mãos, os olhos, todos, inundam o presente de uma linguagem ausente. O covarde prende os dedos na voz traiçoeira para salvar a integridade do corpus, a linguagem morre nele, a vida não precisa de integridade, a vida é o labor dos olhos, uma pintura no muro, um livro inacabado, a memória do esquecimento é o lembrar dos que lutam.

terça-feira, 29 de abril de 2014

Erótica



“E eras assim... Por que não deste
Um raio, brando, ao teu viver!”
Pedro Kilkerry
Morro de medo de não te ver gozando em meus olhos,
Morro e mato o medo por não tê-la mais,
Se fosse um inseto viajaria em teu sexo,
Dormiria em ti, dividiria teu prazer,
Rasgaria tuas roupas,
Envenenaria teus e-mails,
Amaria teu mijo, morderia teu clitóris.

Se fosse o fim do mundo,
Morreria em tuas pernas.
Morro de medo em não te ver mais em minha porta.
Pernas nos vitrais,
Riso chapado em meus sonhos.
A boca engolindo tudo, enlouquecida aos viralatas da cidade.
E eu a morder a cartilagem de tua vida.

O prazer é seu, o gozo é meu, a dor é de nós dois.

sábado, 12 de abril de 2014

Estações da Vida



“Pois não há mais tempo. E é o fim do tempo que começa.”
Paul Auster



O que nos faz viver, o que nos renasce de dia e nos escurece durante a noite? O que é esse mistério que se intromete na vida, nas pessoas comuns, o que é essa névoa que vem durante as manhãs de outono e some no sol dos dias de uma cidade pequena? Um sol que corre do horizonte e passa por cima de casas, de praças, que fecha os bares noturnos e adormece os notívagos?
Acordei agora nesse sobressalto, a pensar na vida, nos irmãos, nos que ficam, nos que estão partindo, é como o trem que está a dar o sinal de partida na plataforma da estação. Nas lágrimas dos velhos que ficam, dos filhos que partem e uma gota de vida escorre entre os dedos dos pés descalços que atravessam a Praça Nova, que no ritmo dos sons da terra, do uivo dos cachorros e no riso das putas, avança rumo a um mundo novo.
O que nos faz viver é como a música eterna, pagã, sagrada e finita das estações, é por onde a vida passa e o sonho do irmão segue tranquilo ao outro lado do rio de volta para casa.