terça-feira, 27 de dezembro de 2016

O leitor do século XXI consegue ser sartreano?

     Lisboa                          



“Eu queria que, ao renunciar à torre de marfim, o mundo me aparecesse em sua plena e ameaçadora realidade, mas não quero que, por isso, minha vida deixe de ser um jogo. Por isso endosso inteiramente a frase de Schiller: ‘O homem só é plenamente homem quando joga’.”
       Jean-Paul Sartre (Diário de uma guerra estranha – Caderno XIV – 1940)
“Se é verdade que apenas podemos viver uma pequena parte daquilo que há dentro de nós, o que acontece com o resto?”
Pascal Mercier (Trem Noturno para Lisboa)




Quais os olhares que existem sobre o Jean-Paul Sartre no século XXI, de que forma o l’adulte terrible é visto hoje, existe espaço para o homem sartreano neste século? Me vem essas questões quando busco uma de sua obras que mais admiro, O ser e o nada. Há uma pertinência na leitura histórica dos festejados filósofos do século passado, não sou adepto ao modismo, pelo simples fato, a afetação beira quando se determina o que é bom ou o que é lixo.

Sartre soube viver como poucos o que sempre desejou, o homem que sempre buscou, o que gostaria de viver e não aquilo que imaginaria viver segundo a moral vigente de época impunha. Ele bem disse em seu primeiro romance A Náusea, só há existência no personagem Roquentin, ele se perde num presente estranho e duvidoso. Isso é que me levou a procurar mais sobre Sartre, sua forma de pensar, narrar o mundo naquele momento histórico tinha lá suas idiossincrasias. Tudo que existe é por nossa escolha. Sartre soube fazer muito bem seu caminho, escolhas que agradaram muitos; outros o abominaram profundamente e nada disso foi suficiente para ofuscar a sabedoria do homem que viveu intensamente seu tempo. As críticas não importam hoje em dia, ele foi um monstro sagrado do Século XX que construiu sua vida com atitudes, livros, textos e mais textos, com opiniões desastrosas e com sacadas inovadoras que provocaram a ira dos poderosos, dos santos, dos deuses e admiração de uma legião de homens e mulheres. Antes de tudo isso, Sartre soube fazer o pensamento mover-se, soube filosofar, é o que importa agora para mim, em pleno Século XXI, o tempo em que o pensamento anda escasso.
O que restou da obra de Sartre? Ele não inventou nada, o “Nada” hoje é parte do acaso das verdades absolutas. A aversão que se nutre ao pensador do existencialismo, não se dá porque ele “errou”, ou narrou de forma equivocada seu tempo, mas por outros motivos, o pensador-escritor é deixado de lado por nossa tendência de querer uma mensagem, melhor, no criticismo moderno, querer ver a explicação mais correta da realidade. 
O erro de Sartre foi reivindicar nos escritores uma militância, que fossem todos à esquerda, submetidos a regras rigorosas da escrita, era a tentativa mais absurda que tinha em “Crítica da razão dialética”, de conciliar o marxismo com o existencialismo.

O que nos leva a consciência de alguma coisa é o processo unir o existir e o saber. Isso só se torna possível na experiência literária, ensaística do Sartre. Ele foi além dos princípios fundantes da filosofia. O experimentar poder ter sido também sua perdição. A conciliação do existencialismo ao marxismo foi um tiro da cegueira do século XX no escuro. A imposição de que todos escritores fossem de esquerda era no mínimo a bala perdida de sua reflexão. Mesmo assim, as circunstâncias que se deu esse adágio, que mais servia aos inimigos, é que o levou a ser um que sempre foi, do mundo das coisas para sua realização em si. Eis o existencialista em plena contradição. A liberdade é parte deste homem contemporâneo, um legado que me leva a apreciar sua obra quase na sua totalidade.

Nem todo Sartre é datado, embora sua filosofia em O Ser e o Nada busque de forma incessante explicar a existência do Outro além da minha existência, o contrário seria estar distante de seu próprio tempo. O moralista permaneceu em sua vida e obra, sua certeza da liberdade diante de um tempo que embotava o homem. Sartre foi um revolucionário de sua época. O legado é extenso, é danoso a outro tipo de moral. Não resta dúvida que o mundo precisa de homens que rompem com a moral vigente. A vida é uma experiência e não algo que é simplesmente dado.

  A vida é o Tempo sem tempo a preencher o ar com inaudito das coisas pensadas. Ontem, com aquilo que estamos tateando, o perceber da condição para se conhecer. Hoje, com o que restou daquilo que não pudemos compreender na sua totalidade. Amanhã, nem Sartre nem qualquer outro filósofo nos garante algo irrefutável. O pensamento para valer a pena, em qualquer época, reivindica o direito de pensar livre. É o que Sartre soube fazer com maestria e estilo, provocar a contradição e não buscar a chave de todos os problemas. A filosofia e a literatura em Sartre estão a salvo por muito tempo.   

(Texto publicado no Correio do Povo - Caderno de Sábado -24/12/2016)


                         Paris

sábado, 17 de dezembro de 2016

Noite

   Cidade Baixa



“O sol data o tempo interpretado nas ocupações.”
Martin Heidegger

Eu não sei se a solidão maior é estar sozinho ou é estar diante das certezas absolutas da vida. Se a certeza é uma definição, o absoluto de todas as coisas afunda-se nas incertezas de algo que é coisa do humano, demasiado humano. Estamos envolvidos até a morte com as certezas. O sujeito chega e solta sua sentença, ele vem com suas armas de morte, não de vida, pois a vida está bem distante das certezas do sujeito que as sentencia. É melhor tomar conta da vida que simplesmente desaparecer.

sábado, 10 de dezembro de 2016

A fuga


                                 

“Ela se desintegra e se dispersa numa espécie de fuga. Quanto mais elevada for a categoria da vítima, maior é o seu medo.” Elias Canetti − Massas de perseguição



Todo ano, quando se chega ao fim dele, uma massa, que pode até ser unida nas diferenças, se junta para trucidá-lo. Este ano, em especial, foi disparado o mais infeliz do século XXI para uma maioria significativa. A outra parte gostou do que vivenciou. Para uma terceira infinitesimal parte, mais um ano indiferente. Sempre é assim quando damos cabo ao que se iniciou um tempo atrás, depois de muito ser percorrido; maltratado pela massa, pela sabedoria do presente, o ano se torna vilão no tempo que se esgota.
Os agrilhoados ao tempo que colou no ano que perdeu a força renovadora, esses, querem fugir, dar um basta ao tempo que não foi tão condescendente, por isso fazem suas orações no dia do juízo final. Uns rezam de forma ordeira, pensam no deus coletivo de um credo, outros, mais descolados, oram de forma singular, é no prazer e na dor que se dá um fim definitivo ao ano desgastado. Existem outras categorias que podiam fazer parte desta reflexão, mas prefiro me deter no conceito de uma só massa, a que na fuga vai passando por cima de tudo. Unida no atropelamento coletivo, a massa vai fazendo um estrago e acha que só está extravasando seu ódio daquilo que tanto mal lhe fez: o ano de 2016 chega ao fim.
Lembro que o ano não foi dos melhores, olho por dentro da lente subjetiva, sinto que não sentirei tanta falta daquilo que não me serve mais, aí me dou conta que estou junto à massa. Fico estarrecido com minha falta de capacidade de assimilar as frustrações, de querer só as vitórias, bem que podia ter sido mais humano nesta hora. Creio que só um retiro sabático para tirar-me do fundo do poço onde todos acabam ficando.
É impressionante como o sentido de destruição é compartilhado, como os sentimentos de mitificação e autopunição são compartilhados, e tudo para dar um fim a uma parte do tempo que se esgota. Somos tão irresponsáveis que nem o deus dos crentes nem um sentimento de união nos salvará da virada. Vamos pular o mar de ondas direto para 2017. O golpe não nos salvou, Brexit nenhum nos unirá, o ódio branco não será suficiente à união dos globalizados, dos nacionalistas, dos reformistas, nada disso será suficiente para dar garantia de um ano melhor. Definitivamente, preciso de um ano sabático em outro planeta.
Imagem: Valência


domingo, 20 de novembro de 2016

Método do silêncio





 “Tudo o que se movia nele ainda jazia em trevas, embora já sentisse o desejo de contemplar em meio à escuridão coisas que os outros não percebiam.”
Robert Musil

A maldição nunca vem sozinha. Vem acompanhada do verme deixado pela Vida em algum canto deste país. Nesta cidade o fenômeno do verme é que ele, midiático, como seu ar de “estuprador do espírito”, observa o cenário em ruínas desmoronar-se no esquecimento. Decadência. Diante de uma obra que foi criada para identificar como verdadeira, certos feitos, pensamentos monopolizam e naturaliza a verdade midiática de um só Dono: o verme onipresente. Por ser a excrescência da realidade, de uma sociedade que se ilude com o passado imposto, a cultura da terra nem sempre é orgânica, raiz é a invenção do poder.

Um dia percebi que o silêncio do verme era sua arma para fazer com que o Outro fosse esquecido. Que o Outro morresse em seu próprio mundo, como se existisse mundos distintos, era preciso saber que um lado era nulo e, portando, devia ser esquecido de uma vez para todo o sempre. Assim, a exclusão e não existência faz parte de um falso cotidiano, o mundo dos iludidos é a vida que não cabe no bom convívio social.

Desci ao inferno, à terra, conheci os meandros do local, da profundeza, os rastros da superfície e do silêncio estratégico feito pelos vermes diante do diferente pensar, o que se valoriza como humano, demasiado humano. Voltei à realidade, com uma única arma, o silêncio salvou a ilusão. A razão não precisa estar do lado do verme para ser autêntica, não precisa ganhar nenhum prêmio para sobreviver entre os vermes e a Cidade. Pensei patentear o método do silêncio como antídoto, depois, a pessoa era só fazer terapia para não cair no lodo dos vermes. Criar um método de terapia através do esquecimento silencioso, poria dúvida no futuro, o mal dela nasceria, então, salvar algumas pessoas a não perder suas almas, em se deixar transforma-se em vermes, virou uma solução apenas do ato reflexivo.

O método não é invenção minha, está na natureza, serve a todos. Então, contra os vermes midiáticos, todos que se sintam injustiçados, qualquer tipo de exclusão... Usem o Silêncio e o esquecimento. É uma filosofia de vida, matá-los dentro de nosso possível ódio, depois deixar o tempo passar, e sem que percebamos − eles extintos − existirão apenas na cabeça do verme. O mal existe, estamos emergindo do silêncio e como Musil escreveu em O jovem Törless “A história nos ensina que só existe um caminho para isso: o mergulho em si mesmo.”



quinta-feira, 17 de novembro de 2016

Fenomenologia das imagens


                         

“As sílabas recolhidas pelos lábios — belo silencioso círculo — ajudam a estrela rastejante em seu centro.”
Paul Celan

Os sentimentos andam ao lado de nossa vontade. Nossos desejos não são alterações meteorológicas e sim psíquicas. São funções de nossas percepções e sonhos. Um cruzar de ideias que percorrem o tempo de nossa existência. Esse cruzar complexo, onde mora o único valor, o que pode nos manter vivos todas às manhãs quando acordamos. É o acordar do “trajeto antropológico” sob as imagens que circulam nosso Ser esse tempo todo. Sonoridade na dor, na despedida e nas chegadas das imagens. O encontro do vivido com o que buscamos mais adiante do olhar.
Meus sentimentos começaram antes do século XX findar. Bem antes, quando ainda sentia poder encontrar através das imagens todas as linguagens que fossem o expressar do cotidiano. O cotidiano lançou seus dados Mallarmaicos que impulsionaria as inspirações nos signos de hoje. Assim acordei pensando em Octavio Paz no seu Arco e a Lira, em que diz: “Não é a técnica que nega a imagem do mundo; é o desaparecimento da imagem que torna possível a técnica”.
As palavras tomam conta dos dias. As gerações, eu leio, incessantemente, me afasto a cada página lida. Fujo dos absolutos. Entrego-me incessantemente à diversidade da vida, da dor, das paixões.
As palavras são mais do que razões para se ter, pensar sobre os objetos e sobre as possibilidades da verdade. Muito mais, elas, agora, a linguagem, o signo me levou para o distante das utopias. Joga-me no deserto dos saberes, da desilusão e do fim de um tempo que se abre ao novo. De outros: do fim dos fins. Sempre a jogar, as palavras verdadeiramente à vida do fluxo e refluxo da dialógica dos acontecimentos.
Um olhar fenomenológico é posto acima disso, do que está dado, é um complexo religar as imagens do cotidiano. À deriva, ao sabor do presente e de todos os tempos, as imagens são verdadeiras como “as noites que fixam sob o teu olho”, escreveu Paul Celan. 

(Um blog, um espaço para o texto, pensamento, as ideias, todas as possibilidades de pensar no texto. Filosofia, literatura, arte, cinema, livros, o humano demasiado humano. Criado em 2007, sob forte influência de Barthes, depois de ter acabado de concluir meu doutorado, nasceu "em colocá-los numa maquinaria de linguagem".) 
        


segunda-feira, 14 de novembro de 2016

Trem do tempo

    Trem de Nice -França



Pois os pensamentos são uma coisa estranha. Muitas vezes não passam de acasos que desaparecem sem deixar rastros; os pensamentos têm épocas de viver e épocas de morrer.” Robert Musil – O jovem Törless


Não tenho nada a dizer, o dito pelo dito é entediante,
Melhor ler do que dizer, melhor sentir do que falar,
Tenho muito a viver, o tempo chega ao fim.
Tenho algo a fazer, construir um mundo de imagens,
Tenho muito a colher, a vida foi longa,
A colheita é breve, a dor só existe na seca.
Choramos para nos alegrar, cantamos para acordar a noite.
A palavra escrita é o alimento, a voz é o vaguear no tempo,
O fim é o início de outras escritas, de vozes que não temem o fim.
Os dias perdem forças no tempo chega ao fim.
Deixo a negação para o momento do tempo que se perde,
Tenho tudo a ler, livros perdem o tempo único.
A leitura dos lábios é o signo que o rio perde no fim.
Um dia escrevo tudo, outro dia falo muito, a angústia me resgata no fim da linha. A vida é tênue.



domingo, 30 de outubro de 2016

Canção do fim



“...Eu escavo, tu escavas, e o verme também escava,
e quem canta ali diz: eles escavam.”
Paul Celan


Uma coisa é uma coisa, todo sexo é um começo,
Coisa que começa, que inicia tem um fim,
O começo do desejo é o fim do começo,
Todo fim é o início de um novo desejo.
Palavra inventiva: é só o começo.
Depois eu te inicio, entre o fim e o meio,
Depois de todo o meio, o fim é um belo beijo.
No começo se inicia o fim, um fim esplendoroso,
O rosto é começo, o olhar é o espelho,
Depois dos corpos, o vento é o que mistura,
Os dois se perdem na multidão,
O breviário das bocas, alcance do desejo,
A flor da vida testemunha o enlace,
A dor é a separação, nunca mais ouvir a voz,
O instante da partida é a rusga da boca aveludada.




sexta-feira, 21 de outubro de 2016

Outubro



Outubro, choveu tanto este mês,
Outubro fiz aniversário, sol no fim de tarde,
Outubro é primavera, fiz meus olhos ficarem verdes,
Tive tempo de deixar vermelho meu pensamento,
Fui até o espelho e vi o vulto da velhice dançando,
Meu corpo é um rio temperado de cumplicidade com a vida.

Vou sair para ver o rio transbordar, santuário de águas,
Vou ouvir o canto do sabiá antes do dia se apresentar,
Outubro, eu entre os librianos, é o som da rua,
O ladrão que esconde a chuva para não se molhar,
O político que é preso para o tempo ser ultrapassado.
Outubro, política da violência que discorre - dia e noite.

Outubro é o mês do Cartola e de Vinicius.
Em outubro a dor passa mas não descansa,
A música é sumo nos lábios, entoa qualquer saída,
Viver é a facilidade de todas as notas do pensamento.



sexta-feira, 14 de outubro de 2016

Cartografia da Educação

    Gustav Klimt



Torna-se patente hoje o fato de que as construções modernas de uma razão subjetiva não eram menos utópicas do que as visões antigas e medievais de uma razão objetiva. Pois a razão subjetiva não é outra coisa senão um sujeito universal coerente.

Peter Sloterdijk (Crítica da Razão Cínica)



Tenho medo de um país mais adiante, do país que vivo, ali na frente é na certa o naufrágio de um pôr do sol. Como tinha medo do país presente, melhor de um passado sem registros é o de conhecimento. É preciso que saiamos do legado moderno. Tenho este temor diante das cabeças em minha frente, o controle da ordem é a origem do pensamento, pois refletir nas certezas nos levaria ao racionalismo, nos poria no centro das discussões. Não é o que parece, é o que vem acontecendo, cada vez mais o pensamento está sendo eivado pela brutalidade da lógica silenciosa de excluir o máximo possível, de colar o mínimo com mais força para poder fazer da realidade um acordo entre o que está disponível e a única coisa que pode ser dada. Ou seja, contestar sem arejar o cérebro. Não se trata de buscar o culpado, pois se fosse mexer neste presente existente, o passado estaria sendo esquecido para sempre.

Um lugar ao sol para os que acreditam que pensar é um bem supremo. Desde que o contrário da ordem oferecida não seja a não aceitação de mais um esboço de encobrir o presente com a funcionalidade das ordens injetadas para solucionar a doença maior que existe, a falta de conseguir religar os fios dos pensamentos. Nos iludimos muito rapidamente com as ordens, nos deprimimos mais rápido com a crítica, porque certamente o que já está sendo proposto é melhor, está pronto, já vem como uma forma vitoriosa. Os críticos da Educação são os mesmos que outrora gostavam de pensar um meio de socializar, mas esquecem, hoje, o pensar dentro de um limite é inócuo. Pois o pensar não é uma racionalidade pronta, não tem uma fórmula de inclusão do melhor em detrimento do que já está excluído por ter sido uma ameaça aos propósitos dessa suposta socialização da Educação.


Existem fórmulas para aplicar na educação, mas não há uma maneira inabalável de que essas receitas possam dar certo sem que haja, o que pouco resta de um pensar autônomo, um grande desastre no presente. Não estou a pensar no futuro, mas em refletir sobre o que estão pensando em fazer, do hoje, um amanhã mais formatado, mais indecifrável, porém, funcionalmente mais seguro.   


sábado, 8 de outubro de 2016

Passagem

    Imagem do portal libertarianismo




Não dou conselho, viro a página do livro,
Não vendo meus pertences, anulo meu sofrimento,
Não compro drogas com código de barras, não voto na salvação,
Não compro a alma de ninguém, não vendo meu coração,
Alhures farei meu país, não jogo o jogo dos algozes,
Não saio com bandeiras, minha luta é a paz,
Não me iludo com promessas, minha pátria não tem dono.


domingo, 18 de setembro de 2016

Pensar sem Mitos


“Quando dois filósofos não concordam em relação ao ser, eles não concordam em nada.” Étienne Gilson



Havia muito tempo que eu só pensava, passei alguns anos, dias em pensamentos, totalmente absorto. Era uma disputa entre o que eu estava a pensar e o que externamente me cercava.
Acordo sob a égide do panegírico dos homens engravatados que discursavam, mostravam uma tecnologia do século XX, depois disso pensei: realmente, o mundo é feito apenas de convicções. Voltei aos pensamentos. No outro dia o líder maior das minorias e maiorias desanda a desvendar a realidade vazia e a perplexidade em que as pessoas se encontram.
Mais uma vez sem convicções, me tornei mais cético do que já sou. Não a ponto de cometer uma asneira existencial e me agarrar a uma promessa prometeica. Tenho respeito ao mito, mas àqueles que foram forjados, e ninguém com mais de cinco anos leva a sério esses mitos. Errado. Todos se agarram a mitos. Ao homem cabe o argumento, aos deuses não cabe nada, aliás, eles poderiam dar um descanso à insanidade dos homens. Nem tudo está perdido, existe ainda a capacidade de argumentar, de pensar, até mesmo de reconhecer no Outro a possibilidade de ler o livro, de ver o filme, de ouvir o som, de poder refletir sobre todas as coisas sem que as convicções tomem conta dos argumentos.


quarta-feira, 7 de setembro de 2016

Visível




“...aqui onde se eleva e se arranca uma fala musical,
ali onde o visível se cobre ou se afunda.”
Gilles Deleuze

Mais uma noite, início de setembro, o céu escuro, alto e bom som,
Fogo, os tiros, os cantos, os gritos,
O inimigo a olho nu.
A ordem das coisas é a representação da democracia,
A repressão, virtude dos descontentes.
O jogo é real, o sonho é vital, a ordem é matar o contêiner,
Os dados lançados, o crime é punido.
O tecido social é o burquini de nossa democracia,
Entre as vestes e a ordem, a nudez é a pele da vida.
O poder condena a forma de vestir, esquece do mal que faz,
Toda ordem tem um nome, o povo come cinzas, cores espelham,
O fogo é o fim que some na escuridão.
Em nome da Democracia a constituição é rasgada,
Morte e Vida.


segunda-feira, 29 de agosto de 2016

Biodiversidade



Amargar na pobreza do espírito é a morte do corpo,
A fonte da vida é a fonte da língua.
Fontes renováveis de energia, texto além do texto,
Criação de cronópios para matar pokémons.

domingo, 28 de agosto de 2016

A imagem na tela

 

“O novo automatismo de nada serve por si só se não estiver ao serviço de uma poderosa vontade de arte, obscura, condensada, que aspira a desdobrar-se em movimentos involuntários que contudo não a constranjam.”
Gilles Deleuze (A imagem-Tempo, Cinema 2)


Sou do tipo que utiliza computador de mesa, um ser quase em extinção disse um dia desse uma voz cifrada do outro lado do écran. Agora o que mais se fala é da autonomia do cérebro, pensa em algo, lá está, o significado é o algoritmo da informação; os olhos, a câmara que move na linguagem cifrada. Para Deleuze, a informação aproveita-se de sua ineficácia para alicerçar seu poder. O poder impotente. O uso da linguagem cada vez mais é dependente das criptografias nulas, do constructo das linguagens a nudez vira um afronto. Era tudo que eu queria, a nudez viver ao lado do que cobre sobre a pele como uso livre da linguagem do corpo aos olhos do mundo laico. Tudo é uma questão de adaptação ou tudo é uma questão de tempo para não nos lembrarmos mais do Ser? O tempo é o passado em nosso corpo, não conseguimos mais compreender o tempo, então, é melhor esquecer o tempo nas tentativas de pensar menos, de fazer tudo na medida certa do descompasso. A vida é rápida, o tempo não nos livra de todos os sentimentos. Perdemos horas do nosso tempo no entretenimento. Morre-se de medo em ver o tempo nos acordar antes de todos em manhãs pós-golpe. O medo de se sentir útil ao pensamento é mais uma brecha para o desconhecido. Junte os pedaços e vire a página da intolerância.
O mundo hiper-moderno é aquele em que a informação é a própria Natureza.

Existem os lados, os tantos cantos deste mundo em que o pensamento libertário não deixou de respirar. Um lado dirá, ‒ quase burra, nem um pouco de estilo, muita informação ‒ outro ‒ nenhum pensamento é o que se vê em plataformas diversas ‒ mais outro ‒ tudo é uma questão de rede, ou seja, de sermos caçados por nós mesmo na rede. É o fim da autonomia? Em absoluto, não.

Minha tela está dando sinais de finitude, minhas mãos ágeis ainda acompanham o pensamento. O mundo é tão rápido, os dedos aquecidos pela xícara de café se tornam aquecidos neste inverno, mas quando o café acabar o que acontecerá?

   Orquestra Filarmônica de Nova Iorque - homenagem ao cinema - Federico Fellini

sábado, 30 de julho de 2016

Velhice

               


Desrespeite meus cabelos brancos, 
eu não sinto nada por você.
Eu sinto a dor que sentes e não percebes.
Tu sentes a vida na dor que vivo.
Respeite a dor do Outro.
Eu sinto, tu sentes,
A luz que nos aquece
A luz que adormece.
Respeite o teu desejo,
Respire todos os poros,
O corpo envelhece.


quinta-feira, 28 de julho de 2016

A literatura dos especialistas

     Paris - Shakespeare and Company

  “Deus tem em jogo sua existência nessa morte livre que um homem resoluto se dá.”
Maurice Blanchot


Existe uma literatura na cabeça, melhor existem literaturas em cabeças pensantes, em cabeças mercantilistas, em cabeças afetadas, e o melhor, em cabeças utópicas. Utopia nos dias de hoje parece mais um livro obsoleto, um livro de pouco interesse de mercado. Quando bate a crise, o livro é o primeiro a cair no esquecimento. Esses dias uma pessoa me falou que a crise é de todos, mas poucos conseguem morrer nela, conscientes de suas ideias, de suas utopias. Fiquei com esse pensamento durante dias, do início ao fim da badalada Flip (em Paraty/RJ), a mesma que prestigia a cultura, que nomeia os melhores, que busca divulgar nossa produção.
Tantas coisas que já não consigo lembrar por falta de interesse em ter essas iniciativas como verdadeiras representantes de nossa cultura. Sei, a Flip, as bienais do Rio de Janeiro e de São Paulo perderam seu brilho. A mídia há muito cometeu o crime, o tiro certeiro no coração da literatura. Não contente com a obscuridade de suas críticas, ainda por cima resolveu ser o olho mágico para ver o novo. Essa imagem, pura poeira, legitimou o texto e o interesse de comprovar que a autoria matou a criação. O autor predestinado nasceu do que foi plantado por agentes deste interesse, de algo maior que legitimasse uma literatura.
Ou seja, primeiro era preciso fazer com que o aprendiz de escritor se tornasse um escritor a partir dos ensinamentos de especialistas. Aí, Ferrou!.
Todo mundo escreve. Todos silenciam em relação a isso quando o resultado é nulo. Neste crime não existe culpado, existe cúmplice. Não vou deslegitimar 30 anos de crime, melhor, não vou denunciar, não nasci para ser representante de um poder oculto. Constato: o que está morto, está agonizando no vazio de leitores e na falta de uma literatura menos credenciada por especialistas.
“A arte parece então o silêncio do mundo, o silêncio ou a neutralização do que há de usual e de atual no mundo, tal como a imagem é a ausência do objeto.”
Maurice Blanchot




segunda-feira, 11 de julho de 2016

Cotidiano



Assim, o olhar encontra naquilo que o torna possível o poder que o neutraliza...”
Maurice Blanchot


Imagem das palavras,
Na simetria os olhos,
Correr à tela. A lente,
milímetro fátuo escorre,
no muro poema pichado.
O caminhar do texto. A representação,
tempo suficiente para a cisão,
embate do corpo arranha.
O dizer extenso do pensamento,
O cérebro guarda, cria além do que vê.
  

domingo, 29 de maio de 2016

Compreensão e Interpretação

    Paul Nash-blue-house-on-the-shore-1930



“Não pretendo convencer ninguém, nem sequer ser convencido.”
Paul Valéry

(parte 2)
Interpretar um acontecimento passa pela forma de como compreender um pouco do mundo, diria a voz no cotidiano. E que toda “interpretação se funda na compreensão” daquilo que pensamos como algo parte de nós, do que está no lado externo, no cotidiano a percorrer a significância de que o que se é compreendido se é projetado à interpretação. Existe a abertura ao mundo a partir da compreensão, o ser está presente no que está pensado. As circunstâncias movem o que está em curso, “o mundo já compreendido se interpreta”[1].

Não estou aqui a pensar a interpretação na esteira lógica do uso da linguagem, mas não posso deixar de lado as tentativas da hermenêutica na contribuição de como a interpretação pode ser a via por onde os caminhos do olhar direciona-se em busca do compreendido. Poderia estar neste terreno seguro e verdadeiro, porém, demasiado superficial, para o curso das águas deste rio que deságua no espaço abstrato das intenções protagonizadas por interpretações no âmbito de fatos contemporâneos. Prefiro percorrer o caminho que passa pelo signo do interpretar que consegue compreender as linhas imaginárias do pensamento, e que nem tudo que é da linguagem dá conta do que é do pensamento, e que nem todo pensamento é o plano mais perfeito para se chegar ao entendimento sobre um acontecimento. Neste ponto, entre o que vem para ser entendido e o que passa para ser legitimado como objeto de análise, talvez, o que se pensa, o que pode dar alguma contribuição poderia compreender que suas verdades passam pelo crivo de uma instância comum, e que muitas vezes correspondem uma velha ordem da interpretação autoritária sobre o mundo.
A opção do pensador livre passa por mais de uma concepção de compreensão: ter a mão as possibilidades de compreender o que a conjuntura do ato interpretativo expõe e jamais esquecer que o mundo sem compreensão é como o ente num mundo sem escolhas.       
Para Heidegger o mundo compreendido se interpreta. No Brasil o mundo da política é o espaço em que as ações são comandadas por canalhas que deixaram de lado a compreensão do mundo para por em prática a imaginação insana de suas ideias que só servem para dualizar questões e temas que são partes de um universo conceitual. A clareza das ideias da política no Brasil é tão plana quanto às ideias de um fanático religioso, ou quando cai no terreno do entretenimento e de um mundo desportista manipulador. O fanatismo tem uma mesma raiz, este dualismo de exclusão e de adoração, que perpetua nas gerações seguintes. Mas o que seria do mundo sem essas veleidades, que para alguns é fonte de vida? A potência dessas linguagens está calcada no mundo perfeito dos mídias. Aqui, quase uma entidade, ou melhor, um quase lugar perfeito, é moldado aos porta-vozes da verdade que desprezam a diferença.




[1] HEIDEGGER, Martin. Ser e Tempo ‒ Parte 1. Petrópolis, RJ. Vozes, 1988.

Abertura



“O decisivo não é sair do círculo mas entrar no círculo de modo adequado.”
Martin Heidegger



O difícil acesso de compreender o Ser é o pormenor dos problemas, o contrário seria mais ininteligível ainda ‒ o Ser compreendido pela facilidade de interpretá-lo. A poética é a única saída viável para se entrar no círculo, o círculo vicioso que Heidegger evoca no Ser e o Tempo. A maneira mais filosófica de compreensão é entrar nesse terreno interpretativo para além conhecimento rigoroso. A poesia é concebida na interpretação hermenêutica que parte dos fragmentos para compreensão do todo.

sábado, 14 de maio de 2016

Nascimento do Poeta

                      Imagem: Sophie Calle



A mãe vem com a lanterna entre as pernas,
Depois virá o pai
Pensando que a obra é sua.
(2007)

quinta-feira, 12 de maio de 2016

Brevidade do sempre

      Antonio Paim - Madri 

“Ora, aqui não se trata apenas de confrontar ideias mas de as encarar e fazer viver, e só experimentando se pode saber do que são capazes.”
Maurice Merleau-Ponty

A vida é breve. É o tempo insuficiente para se dar o fim de todas as dúvidas. Li certa vez em um livro, do qual não me recordo o nome, que a brevidade da vida é que faz um ateu, que o mundo é vasto demais para se ter tempo de senti-lo, que se Deus existe se precisaria mais do que um século para conhecê-lo. Herético esse livro. No mínimo eu deveria suprimir todas as dúvidas filosóficas e existenciais que vem no andar dos dias, na velocidade do tempo.

Ando em busca do tempo que fale mais aos meus ouvidos, não do tagarela moralista a incomodar o lado mais puro, ou seja, crer no não crer é uma atribuição saudável ao Ser.
Pensando bem, não li em livro algum, foi um texto que comecei escrever ainda quando era um jovem estudante de filosofia. Na época queria ter a possibilidade de conhecer o mais longe possível sem abrir mão de brevidade do presente, sem ceder um segundo do presente vivido. Com o passar dos anos, dei-me conta que jamais chegaria ao nível de um sábio pensador, pois o presente estava colado ao corpo. Conseguia no máximo divagar em átimos de solidão que pudessem silenciar diante dos alaridos das pessoas, dos professores, dos amigos, da namorada, etc. A partir de um dia, não lembro mais, teve um dia sim, uma manhã em que acordei com a grande revelação. Pensei, disse em voz alta ‒ não vou mais tentar vencer a dúvida, vou viver a contingência na coexistência, me apropriei de Maurice Merleau-Ponty. Desde já, o “sempre” começou a fazer parte de meu vocabulário, até tive problemas com o “sempre”. Um professor disse-me certa vez que não devia escrever num texto acadêmico “sempre”. Refleti. Acatei momentaneamente o comentário. Depois retornei à expressão do “sempre”, penso, tento abraçar a linguagem, mas o formalismo nos mete medo criando regras. Muitas vezes as regras são descumpridas em nome da liberdade, da criação, das leituras que possamos ter do “sempre”. Nem o próprio professor acreditava no que estava a falar, pois quando se pensa o pensamento já se está no mundo da incerteza da existência do pensante.

Passado os dias, escrevi que o legado da modernidade hiper-racional, que a fundação de um mundo que não consegue mais dar conta de seus pressupostos racionais sobre o mundo. Voltei ao professor, entreguei o texto, com alguns “sempre”, ele me olhou com uma expressão de quase um desde sempre e sentenciou: “maravilhoso, está pronto, precisa de pequenos reparos”.

Volto à brevidade das coisas. O ano do meu nascimento, 1961, morria o filósofo francês Maurice Merleau-Ponty, para muitos o filósofo do que sobrou dos grandes, que não serve para atar o sapato esquerdo de Hegel ou de um Kant. Mas minha simpatia a ele é de longa data, talvez o nome bonito de se pronunciar fez conhecê-lo um pouco mais. Leio até hoje com a frequência desorganizada de um “sempre” fora de ordem e um não seguir de regras definidas de estudo.



segunda-feira, 25 de abril de 2016

Silêncio

     Rouen - France

“...você se dissolve numa imagem do nada. Você come.”
Paul Auster


Como dar conta do silêncio sem acordá-lo do vazio em que está? Todo o recipiente do pensamento está no acontecimento único de estar tomado de uma quietude, de conteúdo, de imagens e cores. Todo o pensar é uma linguagem que escapa do controle, é um signo que diz; mostra o quão o vazio diz tudo sem mover o pensamento do silêncio. Por isso, o silêncio é a melhor maneira de estar sintonizado com o que está acontecendo dentro dos espaços. Do espaço imaginado. Entre as folhas de outono e o que restou do verão, entre chuvas e vozes, ouço o silêncio que transborda. 

domingo, 24 de abril de 2016

Mudança de ar

 

“...Um e Infindo,
destruído,
eu-truído.
Luz havia. Salvação.”
Paul Celan

Isto não é um poema. A poesia é para lembrar o tempo difícil que está para começar, o tempo em que o livro deixará de ser o livro que ilumina. O livro é que clareia ideias, que faz viajar os corações dos leitores a outros mundos. Estaremos em outro tempo? A escuridão das ideias me assusta, temo pelo fim do espaço em que tudo pode ser dito, lido e compreendido, em que o que valerá são os restos de pensamento. Quase nada! Apenas por ser lei. Lei da exclusão, é que terá legitimidade. O mundo é esse eterno queimar, esse esquecimento do que é estranho ao Outro, o que não faz parte do meu pensamento, para os inquisidores faz parte do mundo. Eu preciso de todos os pensamentos para poder escolher meu livro preferido, meu filme, a minha música. É preciso existir a distância para poder ver o que está por perto.


quinta-feira, 21 de abril de 2016

O segredo





“A um ele confia uma coisa e confia outra coisa a outro, certificando-se de que eles jamais irão comunicar-se entre si.”
Elias Canetti


Vivemos num mundo onde o segredo deixou de existir, em que tudo o que é pensado, antecipadamente, já é sabido. O segredo é o lugar em que o indivíduo se submete à verdade daquele que sabe calar. Nas ditaduras o segredo é a vitalidade dos que sabem mandar, e principalmente dos que temem por algo que foge do seu controle. As massas alardeiam, o poder consente o seu silêncio em fúria. O poder mata o Outro com seu segredo, a massa divulga e joga o corpo aos leões. Todo segredo pode ser para o Bem e para o Mal.

O calar dos que recebem ordens é fruto do bom entendimento entre o que sabe mandar e o que sabe seguir as regras de forma ordeira. Esse fantasma jamais deixou de existir. As ditaduras de Direita e de Esquerda são o espelho dos que entendem o calar. Canetti demonstrou que o mais profundo dos segredos “é o que se desenvolve no interior do corpo”. Por estas bandas o que mais se sente no ar é o palavrório dos que falam e falam, mas calam quando deveriam se manifestar. Todo homem que fala demais é certamente o que tem a informação em seu excesso. O certo era ter um pouco de desconfiança, mas todo que demais se cala, deveríamos suspeitar ainda mais. Canetti observou que o segredo dos que calam é a certeza de sua sábia dedicação e inteligência de guardar o segredo dos poderosos, do outro lado, os que falam demais, também, podem estar entregando o ouro aos silenciosos donos do Poder.

O segredo, aquele que detém o poder sob o seu comando, consegue municiar o presente, ele mesmo é o que mais sabe preservar o segredo. Ao mesmo tempo, que tem o controle sobre o segredo, ele não consegue na sua amplidão ter o controle dos segredos existentes no tecido social. O ato de dissimular é propriedade de poucos que sabem manter o sigilo do seu lado. Aliados do silêncio, seus propósitos nunca deixam que o seu segredo se iguale aos demais, pois ele, o que controla, sabe medir o quanto o segredo que detém é preponderante ao imaginário social. 
Imagem: Parque Güell - Barcelona