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quinta-feira, 12 de maio de 2016

Brevidade do sempre

      Antonio Paim - Madri 

“Ora, aqui não se trata apenas de confrontar ideias mas de as encarar e fazer viver, e só experimentando se pode saber do que são capazes.”
Maurice Merleau-Ponty

A vida é breve. É o tempo insuficiente para se dar o fim de todas as dúvidas. Li certa vez em um livro, do qual não me recordo o nome, que a brevidade da vida é que faz um ateu, que o mundo é vasto demais para se ter tempo de senti-lo, que se Deus existe se precisaria mais do que um século para conhecê-lo. Herético esse livro. No mínimo eu deveria suprimir todas as dúvidas filosóficas e existenciais que vem no andar dos dias, na velocidade do tempo.

Ando em busca do tempo que fale mais aos meus ouvidos, não do tagarela moralista a incomodar o lado mais puro, ou seja, crer no não crer é uma atribuição saudável ao Ser.
Pensando bem, não li em livro algum, foi um texto que comecei escrever ainda quando era um jovem estudante de filosofia. Na época queria ter a possibilidade de conhecer o mais longe possível sem abrir mão de brevidade do presente, sem ceder um segundo do presente vivido. Com o passar dos anos, dei-me conta que jamais chegaria ao nível de um sábio pensador, pois o presente estava colado ao corpo. Conseguia no máximo divagar em átimos de solidão que pudessem silenciar diante dos alaridos das pessoas, dos professores, dos amigos, da namorada, etc. A partir de um dia, não lembro mais, teve um dia sim, uma manhã em que acordei com a grande revelação. Pensei, disse em voz alta ‒ não vou mais tentar vencer a dúvida, vou viver a contingência na coexistência, me apropriei de Maurice Merleau-Ponty. Desde já, o “sempre” começou a fazer parte de meu vocabulário, até tive problemas com o “sempre”. Um professor disse-me certa vez que não devia escrever num texto acadêmico “sempre”. Refleti. Acatei momentaneamente o comentário. Depois retornei à expressão do “sempre”, penso, tento abraçar a linguagem, mas o formalismo nos mete medo criando regras. Muitas vezes as regras são descumpridas em nome da liberdade, da criação, das leituras que possamos ter do “sempre”. Nem o próprio professor acreditava no que estava a falar, pois quando se pensa o pensamento já se está no mundo da incerteza da existência do pensante.

Passado os dias, escrevi que o legado da modernidade hiper-racional, que a fundação de um mundo que não consegue mais dar conta de seus pressupostos racionais sobre o mundo. Voltei ao professor, entreguei o texto, com alguns “sempre”, ele me olhou com uma expressão de quase um desde sempre e sentenciou: “maravilhoso, está pronto, precisa de pequenos reparos”.

Volto à brevidade das coisas. O ano do meu nascimento, 1961, morria o filósofo francês Maurice Merleau-Ponty, para muitos o filósofo do que sobrou dos grandes, que não serve para atar o sapato esquerdo de Hegel ou de um Kant. Mas minha simpatia a ele é de longa data, talvez o nome bonito de se pronunciar fez conhecê-lo um pouco mais. Leio até hoje com a frequência desorganizada de um “sempre” fora de ordem e um não seguir de regras definidas de estudo.



Ranhuras da vida

“... acordou no cume de um sonho que se eleva no céu, como no cume de uma onda. E, subitamente, não se recordou de mais nada.” Ricardo Guilh...