sábado, 10 de dezembro de 2016

A fuga


                                 

“Ela se desintegra e se dispersa numa espécie de fuga. Quanto mais elevada for a categoria da vítima, maior é o seu medo.” Elias Canetti − Massas de perseguição



Todo ano, quando se chega ao fim dele, uma massa, que pode até ser unida nas diferenças, se junta para trucidá-lo. Este ano, em especial, foi disparado o mais infeliz do século XXI para uma maioria significativa. A outra parte gostou do que vivenciou. Para uma terceira infinitesimal parte, mais um ano indiferente. Sempre é assim quando damos cabo ao que se iniciou um tempo atrás, depois de muito ser percorrido; maltratado pela massa, pela sabedoria do presente, o ano se torna vilão no tempo que se esgota.
Os agrilhoados ao tempo que colou no ano que perdeu a força renovadora, esses, querem fugir, dar um basta ao tempo que não foi tão condescendente, por isso fazem suas orações no dia do juízo final. Uns rezam de forma ordeira, pensam no deus coletivo de um credo, outros, mais descolados, oram de forma singular, é no prazer e na dor que se dá um fim definitivo ao ano desgastado. Existem outras categorias que podiam fazer parte desta reflexão, mas prefiro me deter no conceito de uma só massa, a que na fuga vai passando por cima de tudo. Unida no atropelamento coletivo, a massa vai fazendo um estrago e acha que só está extravasando seu ódio daquilo que tanto mal lhe fez: o ano de 2016 chega ao fim.
Lembro que o ano não foi dos melhores, olho por dentro da lente subjetiva, sinto que não sentirei tanta falta daquilo que não me serve mais, aí me dou conta que estou junto à massa. Fico estarrecido com minha falta de capacidade de assimilar as frustrações, de querer só as vitórias, bem que podia ter sido mais humano nesta hora. Creio que só um retiro sabático para tirar-me do fundo do poço onde todos acabam ficando.
É impressionante como o sentido de destruição é compartilhado, como os sentimentos de mitificação e autopunição são compartilhados, e tudo para dar um fim a uma parte do tempo que se esgota. Somos tão irresponsáveis que nem o deus dos crentes nem um sentimento de união nos salvará da virada. Vamos pular o mar de ondas direto para 2017. O golpe não nos salvou, Brexit nenhum nos unirá, o ódio branco não será suficiente à união dos globalizados, dos nacionalistas, dos reformistas, nada disso será suficiente para dar garantia de um ano melhor. Definitivamente, preciso de um ano sabático em outro planeta.
Imagem: Valência


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