quinta-feira, 28 de julho de 2016

A literatura dos especialistas

     Paris - Shakespeare and Company

  “Deus tem em jogo sua existência nessa morte livre que um homem resoluto se dá.”
Maurice Blanchot


Existe uma literatura na cabeça, melhor existem literaturas em cabeças pensantes, em cabeças mercantilistas, em cabeças afetadas, e o melhor, em cabeças utópicas. Utopia nos dias de hoje parece mais um livro obsoleto, um livro de pouco interesse de mercado. Quando bate a crise, o livro é o primeiro a cair no esquecimento. Esses dias uma pessoa me falou que a crise é de todos, mas poucos conseguem morrer nela, conscientes de suas ideias, de suas utopias. Fiquei com esse pensamento durante dias, do início ao fim da badalada Flip (em Paraty/RJ), a mesma que prestigia a cultura, que nomeia os melhores, que busca divulgar nossa produção.
Tantas coisas que já não consigo lembrar por falta de interesse em ter essas iniciativas como verdadeiras representantes de nossa cultura. Sei, a Flip, as bienais do Rio de Janeiro e de São Paulo perderam seu brilho. A mídia há muito cometeu o crime, o tiro certeiro no coração da literatura. Não contente com a obscuridade de suas críticas, ainda por cima resolveu ser o olho mágico para ver o novo. Essa imagem, pura poeira, legitimou o texto e o interesse de comprovar que a autoria matou a criação. O autor predestinado nasceu do que foi plantado por agentes deste interesse, de algo maior que legitimasse uma literatura.
Ou seja, primeiro era preciso fazer com que o aprendiz de escritor se tornasse um escritor a partir dos ensinamentos de especialistas. Aí, Ferrou!.
Todo mundo escreve. Todos silenciam em relação a isso quando o resultado é nulo. Neste crime não existe culpado, existe cúmplice. Não vou deslegitimar 30 anos de crime, melhor, não vou denunciar, não nasci para ser representante de um poder oculto. Constato: o que está morto, está agonizando no vazio de leitores e na falta de uma literatura menos credenciada por especialistas.
“A arte parece então o silêncio do mundo, o silêncio ou a neutralização do que há de usual e de atual no mundo, tal como a imagem é a ausência do objeto.”
Maurice Blanchot




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