terça-feira, 14 de dezembro de 2010

A pedra - Morlaix




“Um pedacinho de madeira, um martelo e um prego resolveriam tudo: a barreira entre ele e o mundo lá fora seria muito mais real.” Paul Bowles


Em pleno inverno Morlaix aparece viva no meu coração. Acordo congelado. Perdi as cobertas no meio da noite, dentro da noite sonho com barcos que não retornam do mar. A praia fica em desespero nestes momentos. Se vê familiares caminhando de ponta a ponta na faixa de areia, da praia até as pedras, no lugar mais alto da baía. Cachorros perdidos a esmo em busca de vestígios dos seus donos. Uma senhora com os olhos nos latidos dos cachorros, o olhar perdido na brisa fria que vem do mar.
A porta do quarto está aberta. Acordei empapado de suor. Procuro por Marie, onde estaria se já era um outro amanhã? Ela já está em pé. Puta que o pariu, fico desnorteado quando ainda mal consigo reconhecer o habitat, quanto mais o tempo em que estou. Procuro chinelos embaixo da cama e não encontro nada. Disseram que nesta casa se tinha de tudo, quase tudo, e vou de meias até o banheiro fazer a higiene matutina. Desço até a cozinha. Estão no café da manhã, na grande mesa que fica na cozinha, ao fundo a música sem definição, audível aos olhos acordados dos convivas transitórios, não sei que música toca na vitrola digital pirata, mas pouco importa porque ainda rola um café quentinho. Juntos. Estamos em viagem já uns 10 dias, contei os dias, fui o primeiro a chegar, cada um de país diferente, então, isto é, o correto é uns 12 dias, uma conta que comecei depois do meu primeiro vinho na cidade. Marie veio no início da outra manhã. Ainda tenho dificuldades com o levantar em lugar estranho. Ela chegou de um lado da França, pelo o outro lado da cidade, de carro; os outros chegaram, por incrível que pareça juntos da Bretanha mesmo. Não tão de longe, daqui de perto. Estava acostumado com o Brasil ou com as histórias dos lugares distantes da Rússia até a França contada por Tugny. Houve um erro primário nas minhas contas, não era um problema de memória, mas o simples fato de acreditar que existe uma lógica histórica movendo meu pensamento como início de um planejamento para contar os dias. Eu fiquei aqui patinando no abrir dos olhos. Lá estavam eles tomando café.
Os dias em Morlaix. Um encontro entre amigos, um estudo para escrever um livro, depois de anos como editor agora retomado nesta manhã em que retoma o trabalho silencioso em escrever em sua parte, mas ainda deverá submeter as discussões com Tugny sobre como deverão continuar as escritas.
Então, retomo a chegada de Tugny e Anne, é que existe uma prática cotidiana do casal, uma combinação aleatória de viagem. Parece que todas as linhas de trem passam em Rennes, de lá se distribui aos outros pontos do país, mas não é isso, eles se encontraram desta forma pelo desejo de viajar no mesmo trem. Aqui já temos o princípio, disse a ele bem baixinho, no ouvido, que o fato dele chegar desta maneira, de alterar nosso roteiro é a maneira mais clara de algo inacabado que será o nosso livro. A impressão de que linhas que se cruzam, de sonhos que se aproximam de sonhos, mais parece o “tempo de besouros” que só existe em países asiáticos, “é um indício”, diz Tugny, porque agora eles estão em Morlaix também. Isso parece ser coisa da cabeça de quem escreve em nome do não esquecimento. É uma história estranha, porque a lógica dos encontros, a deles, é sempre um deles já estar no lugar à espera do outro, mas linhas do tempo e sonhos precisam religar. Isto é um sinal, penso no Paul Auster
“Fica claro que vocês concordam na maioria das coisas, mas de maneira nenhuma em tudo, e você gosta de brigar em torno de suas diferenças. Suas discussões sobre os méritos relativos de vários escritores e artistas têm um certo aspecto cômico, porém, pois raramente acontece de um dos dois conseguir convencer o outro a mudar de opinião.”


É o que o tempo faz a vida. As pessoas que vivem como viajantes desfazem o sentido absoluto de contar o tempo através da razão acumulativa, ou melhor, desmantelam o pragmatismo que existe no mundo delas. Mas lá está Tugny com seu cigarro. Lê um livro envelhecido sem capas. Disse que encontrou na velha cômoda do quarto o livro de páginas da cor da mesa grande da cozinha. Parece que tudo aqui se assemelha com o passar dos anos. Lembro novamente que perdi os chinelos e novamente pergunto se alguém o viu. O sol lá fora chegou aos poucos e agora entra com toda força na porta da cozinha iluminando uma linda prateleira com pratos e cristais que não revelam o tempo de nascimento, a origem da madeira, mas isso hoje não tem importância alguma; o que nos revela o amanhã, como diz Tugny, é o que atrai os corações.
Depois todos silenciam para apreciar a música ao fundo — Os escribas da história só existem porque deles um sentimento existe que não tem origem certa, dizem que é no Ocidente, mas sei lá de qual lugar mesmo o seu começo, um movimento para além do racional que emerge das profundezas dos sonhos.
Decerto eu virei um abade embebido de vinho de Borgonha e a culpa é do dono da casa que nos presenteou com algumas garrafas. Todos contam histórias em francês, espanhol e inglês, eu só penso em português. Minha mulher está numa conversa acirrada com a mulher do Tugny sobre a história de Morlaix, sobre a importância de Corbière em nossas vidas. Tugny, lá do canto da cozinha, fala em tom alto, “Qual a importância de Corbière nos dia de hoje, alguém saberia a resposta? Sei que vocês logo já estarão pensando que o fato de ninguém o conhecer mais é o ponto da sua legitimidade, mas não é isso, alguém saberia? E aí, António Paim, tem alguma pista?” Ninguém responde, Tungy esquece por hora, e diz que à noite será reveladora, depois da quarta garrafa de vinho imagino. Certamente ele está se divertindo.
Volto ao tempo das histórias, e o objeto é o trajeto que nos leva ao tempo, um retorno regado à café, uma viagem aquecida do frio ao sol que nos alegra em Morlaix.

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

O filme




O que está em aberto na vida? Aquilo que não cessa, o que é reaberto. O sonho vem assim, entre a escuridão do corpo, entre os olhos em descanso, no silêncio do tempo, então, assim surge as imagens, o desconexo em nada impede dos olhos enxergarem enquanto o corpo dorme. Até o soluço noturno, na Paris que dorme, no corpo que se aquece ao lado do corpo que descansa. Até hoje penso que a noite me traiu, que fez o soluço sair do sonho. A noite não foi minha companheira, foi apenas racional, como se pudesse prever o fim.

"...o toque cada vez mais escorregadio de seus corpos suados e a pequena sinfonia de sons que os dois emitiam na noite, individualmente e juntos." Paul Auster (Invisível)

domingo, 28 de novembro de 2010

O acontecimento



"A única oportunidade dos homens está no devir revolucionário, o único que pode conjurar a vergonha ou responder ao intolerável." Deleuze

terça-feira, 2 de novembro de 2010

O Cais e o Memorial na Feira do Livro de Porto Alegre



A Feira do Livro de Porto Alegre é assim, entre cais do porto, praça e livros. Vendo livros e não sonhos. Vendo a mim todos os sonhos para ler os livros.

segunda-feira, 18 de outubro de 2010



Existe o mundo interessando no homem do mundo? Existe a filosofia da existência em que o argumento perde para a linguagem? Existe o Nada em que o Acaso toma conta como se cuidasse de uma criança? Existe a Verdade diante do escape da Ideia que teima em ser a saída para não ficar fechada na linguagem? Bem, existe a contradição.Uma delas é permanecer não preso aos dogmas e sempre poder voltar aos velhos amigos da parede da minha casa. Sartre e Simone.

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

O caminho da editora




Andei longe daqui, talvez mais por andar incessantemente da casa para o trabalho por esta travessia. O caminho invariante é que leva da casa ao trabalho, mas mudo pois o inalterar da coisas me entedia. Depois retorno a ele e as imagens mudam. Sempre ao lado, passo uns metros, e lá está ele com suas luzes diferenciadas. É como escrever, ando longe mas não deixo de trilhar pelos textos, escrevo com outros olhos, escrevo em outros lugares.
"Essas travessias de brinquedos nada podiam saber das expedições em cujo curso todas as margens ficam para trás." Martin Heidegger


sábado, 31 de julho de 2010

Azul





« Que pode um homem ? Combato tudo — fora do sofrimento de meu corpo, para além de uma certa grandeza. »
Paul Valéry


Em pleno inverno, Morlaix vive em seu mistério. Meu coração sem método não se entrega ao frio. Acordo congelado. Perdi as cobertas no meio da noite, adentro sonho à noite com barcos que jamais voltarão do mar. Um ir sem volta. O que se perde no tempo, no sonho, e de nada para reclamar, afinal de contas acordo olhando a cor do teto, um azul esverdeado da umidade, quase da cor do fundo do mar visto lá do alto. O teto me olha também, como na infância que a gente via os textos, as paredes úmidas e fazia montanhas e mares só com os olhos bem atentos. A praia fica em desespero, a tempestade na areia, as casas não abrirão as janelas hoje, pensei ao acordar. Seria o fim do dia isso e não o amanhecer, mas a tempestade deste inverno nos deixa acuado, todo mundo entorno do velho fogão. Uma mesa grande e todos lá tomando café. A porta do quarto está aberta. Ela não dormiu comigo. Puta que o pariu. Procuro umas chinelas embaixo da cama e não encontro nada. Desço até a cozinha. Todos tomam café e o vento zunindo na porta. No fundo uma música sem definição, não sei o que é mesmo, mas pouco importa porque ainda tem café quentinho. Juntos. Estamos viajando uns 10 dias. Tugny fuma seu cigarro descansado enquanto lê um livro velho sem capas. Disse que encontrou no quarto. Lembro que perdi os chinelos e novamente pergunto se alguém viu passar umas chinelas de lã. O sol lá fora, olhe, lá está ele vindo com o vento aos poucos. Todos contam histórias em francês, espanhol e inglês. Minha mulher está numa conversa acirrada com a mulher do Tugny, histórias de Morlaix, notas do passado que envolve a família de Tugny, do seu avô escritor, também sobre a importância de Corbière em nossas vidas. Naquele momento, nossa estadia lá se dava por um projeto, um roteiro de filme, um livro, uma escritura que estava sendo feita às escuras por nós dois. Em Tugny, principalmente, imagino que esteja escrevendo, nos prometemos de nunca discutir sobre isso e simplesmente viver, sei que ele se afastava sem se despedir, que eu me afasto e cada um no seu canto escreve o que vem à cabeça. Ele ganha a vida escrevendo, eu ganho a vida lendo. Isso tinha tudo para dar errado, pelo menos de minha parte. Eu ganho a vida vendo eles de longe, ganho a vida escrevendo sobre eles também, sobre escritores, sobre objetos que dou uma extensão da vida, que planto como se fosse um engenheiro que tenta iludir os olhos dos leitores com edificações falsas. Sempre penso que o que se escreve sobre o escrever é em vão, que ninguém mais presta atenção a nada. Essa bobagem da imagem ter vida própria, muito mais ainda. A sensação das coisas está tão virtual que mal posso esperar para ver tudo na memória que se apagou. Presto atenção nas luzes, na sombra, no feixe de luz entrando na sala da casa antiga. Morlaix é um lugar que encanta. Corre ao longo de um rio e não o rio, que ao contrário do que se imagina, ele vai à margem de Morlaix contando os anos, os séculos. A cidade parece ser mais milenar do que as margens deste rio, de tão indiferente às tempestades, nos sente por inteiro, parece compreender que ali estão vivendo de suas paredes, do seu chão, que usa as dunas para proteger fumantes, pessoas que fogem das outras, que se refugiam na solidão e que protegem pessoas da República Francesa, como costuma dizer o Tugny.
Não vejo margem nenhuma daqui de cima, do meu quarto de teto azul, cor verde manchada tons e bolores de vida. A cidade, ao lado uma marina assentada sobre construções antigas, parece flutuar e não os barcos que mais parecem prédios. Um sobrado velho, no meio do nada, afastado de tudo, quase tudo parece suntuoso e distante de quem tenta decifrar, mas de perto, sentado num café, passeando pelas ruas, tudo parece estar entranhado, em sentido, em consonância com o mundo. Tem uma residência uns 100 metros da nossa.
Vamos definir o roteiro hoje, avisa um de nós. Eu tomo meu café. Fico atento ao sol que rompeu as nuvens. Os raios entraram na cozinha como crianças correndo, de uma vez só, ali estava o sol em meus pés. Fico em silêncio. Todos saem para o pátio da casa. Eu prefiro ficar ali. Leio uma revista que compramos ainda na Espanha. Da Espanha, passamos por Paris, Saint Malo e Morlaix. Ninguém dá sinal de cansaço. Eu já não consigo beber como antigamente. Prometi ao Tugny que terminaria a minha parte até o fim de Morlaix, como a cidade fosse possível tê-la em sonhos e na espessura dos sentimentos. Um livro. Um trajeto a cumprir, entre a Espanha e Morlaix sobreviver é um dom. Minha obsessão à Barcelona se realizou. Fundiu-se num fim sem volta. Jamais pensarei dela como pensava antes dela deixar sua pele secar perto de mim. Se foi, ainda bem. Não esquecerei jamais os 3 dias que por lá passamos. Não escrevi uma linha sequer. Tugny escreveu quase um caderno. Eu escrevo direto no notebook, enquanto ele, em sua caligrafia que mais parece uma rede bem traçada, jogada ao mar, vai à cata de peixes, de histórias e de formas em que as pessoas possam ser fisgadas tal como os peixes. Eu não consigo tê-las ao meu lado. As histórias se afastaram de mim nesses dias. Elas virão mais adiante? Estou apaixonado de paixão por minha mulher. Agora ao fundo, o silêncio do quase absoluto, toca Samuel Barber. Fico emocionado. Tomo mais uma xícara de café. Aqui parece que tudo esfria rapidamente, por isso tem que se tomar o café queimando. Perco de vista os convivas. Eles foram à casa do vizinho. Ouço uma voz, Tugny me chama:
— Antonio, Antonio Paim, olha quem será nosso convidado para ser almoçado hoje...Nosso almoço, um pato assado. Já está temperado, presente. Eu iria temperar, mas os fantasmas da família cuidaram dessa parte. Como sabe, eu sou francês, os meus avós, minha família já foi dona de quase esse todo Morlaix. Parte maldita da França.
Fico ouvindo-o. Sua voz desaparece porque presto mais atenção nos meus chinelos, que ainda andam sumidos. Marie retornou com a Amelie.
Morlaix não existia antes de chegarmos? Claro, antes mesmo de inventarmos esse almoço a vida já estava aqui, mas nós reinventamos essa parte da França disse um de nós. O que pensar do tempo se aqui estamos todos reunidos? Marie viu meus chinelos no pátio e disse que ando saindo pela noite, que ando dormindo solto pela noite que nem o fantasma do velho avô do Tugny. Que falo de mar o tempo todo enquanto estou dormindo, que resmungo palavras desconexas. Existe um cão travesso na casa, Tugny disse que é do dono, esse dono da casa, o tio dele, o que nos deu o pato para assarmos. Onde mesmo estão os moradores deste lugar, pergunta Marie. E eu sei, se nem mesmo percebo por onde andei a noite passada, se fui até a praia, se fiquei no quarto, se fui viver a tempestade que já se foi. O sonho se foi. O mar aqui continua em sua cor como o teto do quarto.

domingo, 4 de julho de 2010

Baía de Morlaix - O amor






“...Eu me sinto em falta —, falta que pode ter por escusa uma incapacidade de fazer outra coisa. Só amo problemas”
Paul Valéry



Aqui uma parte de "Baía de Morlaix", que insiste em tardar seu nascimento. Um fragmento da parte "O Amor", o encontro do personagem Antonio Paim com o dia e sua tarefa de continuar escrevendo.


O que foi dito foi visto, disse em voz alta Marie. Riu dos meus olhos elétricos, porém tranquilos. Não estou pensando em nada que não seja neste lugar, tudo que vem daqui, vem para mim, para vocês, principalmente, para aquela mulher que anda como se fosse uma música, sei lá o quê. Inventei um jeito novo, eu narro, ela digita, tomamos vinho e eu fico admirado pelo tempo que ela dedica a sua vida aos projetos, até aos meus projetos ela se doa com mais paixão. Depois, eu desfaço tudo. Reescrevo tudo que foi pensado. A memória está só pela metade, por isso é bom preenchê-la com mais vinho. Novamente começo, agora, eu no teclado, ela lê, qualquer coisa em seu canto que atrai minha atenção, me tira do livro. O silêncio é suficiente para não nos separarmos, depois juntar nossos dias, mais até o fim dos nossos dias sempre se sente na individualidade de cada um. Assim é a vida, são os livros lidos, ninguém lê com perfeição, por isso, aproximo os livros, a música ao amor, tudo para poder compreender o exato momento das diferenças, das solidões que vivem nos lugares por onde já passei. O texto é um pouco desse amor. Não tem mais similaridade entre nós que o texto que habita e brota da solidão, da leitura individual. Não estou sozinho, enquanto existirmos simplesmente sem finitude existencial, existiremos, como a Cajuína de Caetano Veloso.
Que solidão danada quando estou ao lado dela, e não poder compreendê-la por inteira é o que nos mantém próximos, e separados pelos sonhos. Marie é a solidão de meu texto que percorre meus dias, é o que nasce quando estamos separados e se consagra quando ficamos lado a lado. Gosto dos ombros se tocando, quando caminhamos para qualquer lugar, é como se livros pudessem andar juntos. Sozinhos. Lemos e escrevemos separados pelas certezas de que a verdade é uma construção dos sonhos. Estou separado dos outros. Fui sentar sozinho dentro da Quimera. Marie ficou conversando com os amigos e eu fui terminar de ler o livro e pensar no que deveria escrever quando a noite assim vier.
Aqui, por trás da grande janela envidraçada, olho os carros passando na ladeira, num feixe de luz, o que resta do dia em Morlaix, é o dia que será longo. Tugny é inseparável de seu estilo. Lá estão eles, felizes flanando em pensamentos sobre tudo que pensam falar e viver.
O dono da padaria estava lendo um livro policial, um Simenon. Vi de longe ele atrás do balcão, enquanto uma funcionária atende os clientes em pleno humor. Deve estar apaixonada. Não pelo homem que parece estar se lixando ao mundo. O Amor é de longe mais difícil aos homens. Eles preferem a solidão a terminar um amor. Se eu acabar amanhã, irei até a Baía da Morlaix. Pensar exatamente no último olhar. Sexo é mais importante que a devoção. Já que estou aqui, leio, caminho, escrevo e dedico parte de minha a vida a um projeto que não sei onde irá chegar. O amor é mais simples quando se está nele, quando termina, pronto, acaba e ninguém ira ouvir dos lamentos. Penso em sexo, o amor como sendo a única coisa que me fez escrever esse texto.
Olho a praça vazia. Está escurecendo. Morlaix fala com o mar. O lamento da ausência.

domingo, 27 de junho de 2010

Fado das Línguas

John Ruskin


Minha boca seu entrave
E logo, oca, língua adentro
Perfura a vida de alegria
E saliva a dor com fantasias
Depois de calma, retoma a vida.

Toda noite tem a boca
Escancara a impertinência. Grita!
Sem dor, perfura o gelo, o frio é o passado,
E logo vem teus lábios dizê-lo, afastar da vida,
Um presente que não lhe diz respeito. O passado!

Toda manhã vem teu hálito,
Abre um sorriso feito geada que derrete,
Meus lábios não passam mais em tua vida,
O passado ficou nas histórias sem memória,
Um inverno nos corta, um beijo, um rio. Alentejo!

Toda vida um vidro que transparece,
Embaça tua língua que se volta ao vento,
O sorriso que espera o sol abrir as mãos premiadas. A vida!

domingo, 6 de junho de 2010

Meu Castelo




Fora dos olhos que não são teus, e tudo é lido por todos. Agora as imagens são lidas por todos e tudo, protesto, e mais do que isso, é você queimando sem ser uma bandeira, logo você que morou ao lado meu, lida com as mãos e olhos, agora consumida, desespero na leitura, a vida em vão, se afasta do meu castelo... Some dos olhos guardiães, cinza de fogo dos outros, dos inimigos de Altaforte que se refugiaram no mato antes de invadir minha fortaleza.


"Bertrans, mestre de arte,
Bertrans de Altaforte irá louvar-te
E ainda que bem me querias mal
Ainda que me desejes mil
Males afinal,
Audiart, Audiart,
Levará meu sinal,
Audiart,..."
(Ezra Pound - Na Audiart - Tradução de Augusto de Campos)

sábado, 5 de junho de 2010

A gata de Anne


Gata de Anne -Saint Malo


Atrocidade é palavra bem-acabada, palavra bendita depois de ser dita é jogada às feras e se não for proferida é palavra calada, morta, depois de nascida foi palavra criada, e depois de tudo foi enterrada em terra alheia, em vida teve sorte, jogou e perdeu, ganhou na hora certa de fechar a casa e partir para outra boca. A boca desaforada da palavra é vida de outro poeta que profere e diz:
- Agora sou eu mesmo, com a palavra minha e de vocês que não entendem nada.Nada é dada por todos, mas me leem que eu sou uma palavra de reverso e controverso.

sábado, 29 de maio de 2010

O homem possível


Vito Finocchiaro



"O que chamamos de realidade é uma utopia." Maurice Blanchot


Blanchot chamaria isso de “a paixão da indiferença” a obra de uma imensidão inacabada, vinda de Robert Musil. Ele fala do Musil que não teve o reconhecimento devido no seu tempo, de não ter sido acolhido como um inovador, nem como uma grande obra, ou melhor, o que não foi acolhido e poderia ter sido. O esquecimento ligeiro, como se fosse um instante do tempo que se perdeu. Depois, mais tarde, a mesma obra apareceu, ressurgiu na mesma cultura, no mesmo local, país, na França. Um deles, um dos porta-vozes que criaram na mesma cultura, que um dia ajudou-os a esquecerem, lá veio com essa, que se estava moldado para se desligar dos legados, como se revirassem uma estante, um quarto, uma casa atrás da grande obra. Remexeram em bibliotecas, livrarias, e depois disso tudo, vieram dizendo:
— olhe, aqui temos uma grande obra, um clássico para ser catalogado na modernidade.

Eles, entre outros, não souberam reconhecer o momento certo. Acabaram morrendo, sem antes disso, de entregar o texto de Musil a uma nomenclatura acadêmica. Depois todo mundo acabou lendo e conhecendo Musil, mesmo que tardiamente, sem os atrativos de um clássico. Ainda bem.
Melhor, então, um dia, um deles, o mais expoente deles, um dia resolveu dizer:
— o que se lê aqui, já se leu um dia, se execrou e foi e será um erro APENAS apontar como sendo algo maior com o que justamente se nomeou.

Um leve erro de leitura, de reconhecer na escritura o que se conseguiu ler nas linhas, o tempo era o caminho perdido da letra impressa. Lá, entre uma grande forma, a linguagem serpenteou o tempo e trouxe o signo nas ideias fracionadas, enquanto a modernidade dava sempre adeus ao Ser criado. O romance não foi inventado. A paixão da indiferença é uma destruição pelo início, o começo de um compreender de uma época, e depois de atravessar a atonalidade em cordas. Enfim, o exílio de sons continuou até o tempo das incertezas.
Hoje lendo Musil pelos olhos e dedos de Blanchot, o tempo que vivemos é melhor dos que as certezas e promessas do século XX. Aqui estamos. Lá morremos como a matéria substancial da linguagem que invadiu o pensamento em nome tempo da paixão indiferente.



"Homem dífícil, capaz de criticar que ama e de se sentir próximo do que recusa; por muitos aspectos, um homem moderno que acolhe a nova era tal como ela é e prevê lucidamente o que ela se tornará, homem de saber, de ciência, espírito exato e nada disposto a maldizer as temíveis transformações da técnica; mas ao mesmo tempo, por sua origem, sua educação e a certeza das tradições, um homem de outrora, de uma cultura." p. 199

domingo, 23 de maio de 2010

Avata. O Futuro do Cinema e a Ecologia das Imagens Digitais


Capa: Eduardo Miotto
Autores: Erick Felinto e Ivana Bentes

"O que poderia ser mais capitalista que comer um Big Mac enquanto se assiste aos enlevos ecológicos de Sully com a bela flora e fauna de Pandora? Mas, se até mesmo o presidente da Bolívia, Evo Morales, considera o filme bom modelo para a luta contra o capitalismo e a preservação da natureza, por que deveríamos repreender tais interpretações de Avatar?" p. 24

Erick Felinto


"Na cosmologia dos Na'vi, Pandora pode ser entendida pela hipótese de Gaia, e o filme leva essa ideia às últimas consequências, com personagens (a cientista
Grace Augustine e, mais radicalmente Jake Sully) que são convertidos e transmutados até se integrarem como parte desse todo aberto e inteligente que é Gaia/Pandora." p. 75

Ivana Bentes

sexta-feira, 19 de março de 2010

A antimetodologia


Capa: Eduardo Miotto

Este livro deveria chamar-se inicialmente Manual de antimetodologia: como pesquisar e escrever textos acadêmicos sem medo da ABNT e da CAPES. Não deixa de ser isso. Mas poderia induzir os leitores a imaginar que se tratasse de um manifesto contra todas as metodologias. É um texto contra as metodologias positivistas ou contra o positivismo metodológico. Na verdade, uma rejeição ao efeito perverso da ênfase exagerada na metodologia: o metodologismo, doença que faz da necessidade de método uma camisa-de-força. O título abandonado era também uma “pro-vocação”, no sentido heideggeriano do termo: uma maneira de fazer emergir a vocação profunda e essencial da metodologia: ser caminho e caminhada da descoberta.
Ao preferir o título O que pesquisar quer dizer. Como fazer textos acadêmicos sem medo da ANBT e da CAPES, optou-se por mostrar que este manual de antimetodologia é antes de tudo uma defesa de metodologias pluralistas, abertas, que ajudem a abrir caminho e não se tornem fins em si mesmas. Propõe-se uma metodologia, construída a partir de inúmeras fontes e áreas, capaz de ser utilizada amplamente nas ciências sociais, em especial no campo da comunicação. Este livro poderia, nesse sentido, ser intitulado Dispositivos de des(en)cobrimento ou Narrativas do vivido e do imaginário. Afinal, defende-se que pesquisar é descobrir ou desencobrir. Como uma metodologia que se respeite precisa ser resumida, a que é proposta aqui poderá ser chamada carinhosamente de DD ou NVI. Não fica bem?
O texto vai além da proposta de uma metodologia. Discute as condições de produção da pesquisa no Brasil, aplica a metodologia proposta em alguns casos e atreve-se, com senso de humor e ironia, a relativizar o “terrorismo da ABNT”, que tanto apavora estudantes e jovens orientadores, chicote normativo usado muitas vezes como único parâmetro de avaliação por juízes que parecem carrascos obcecados por normas que soam, com frequência, arbitrárias e inconstantes. Faz também ponderações sobre o sistema de avaliação da CAPES, instituição com “poder de polícia” sobre as pesquisas. Mais do que incitar à desobediência acadêmica, defende o difícil equilíbrio entre sensatez, ousadia, cooperação, competição e liberdade. Pesquisar é um exercício de des(en)cobrimento.

domingo, 28 de fevereiro de 2010

Marrocos - 3ª parte

Cherifa EL HIMRI




CHAKIR - Kasbah



Chakir



Abdelhaq Arzima- Hl'homme à la besac

Marrocos - 2ª parte

El Mostafa BELYASMINE






Marrocos

O retorno ao Maquinaria de Linguagem com a arte do Marracos.


Annick Deneuville


Annick Deneuville-Huile sur toile


El Mostafa BELYASMINE- Nu




Mohamed BALILI


Mohamed BALILI

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

A lâmina na garganta - Albert Camus




O calor enlouquecedor nas cabeças, essa impressão maravilhosa sobre a Argélia em um romance inacabado de Camus. A infância nesse texto que foi encontrado nos pertences no dia 04 de janeiro de 1960, quando Camus morreu, é desconcertante. O texto que retorna ao passado, vasculha a vida e vê um mundo ao lado de outro mundo, da Europa, a França sempre presente no texto. Essa passagem é uma espécie de encontro do calor do verão com a morte.

Le Premier Homme

“Ah, sim o calor era terrível, e muitas vezes fazia quase todos ficarem loucos, mais enervados a cada dia e sem forças nem energia para reagir, gritar, insultar ou bater, e o nervosismo se acumulava assim como o próprio calor até que, de um lado e de outro explodisse no bairro amarelado e triste — como naquele dia em que, na rua de Lyon, quase nos limites do bairro árabe que era chamado de Marabout, em torno do cemitério cortado no barro vermelho da colina, Jacques viu sair da loja empoeirada do cabeleireiro mouro um árabe vestido de azul e de cabeça raspada, que deu alguns passos na calçada em frente ao menino com uma postura estranha, o corpo inclinado para a frente, a cabeça muito mais para trás do que parecia possível, e de fato não era possível. O cabeleireiro, que enlouquecera enquanto o barbeava, tinha cortado com um único golpe de sua longa navalha o pescoço que se oferecia a ele, e o outro nada sentira sob a fina lâmina além do sangue que o asfixiava, e saíra, correndo como um pato mal degolado, enquanto o cabeleireiro, que os clientes seguraram imediatamente, urrava de modo terrível — como o próprio calor nesses dias intermináveis.” (O Primeiro Homem, p. 230, Nova Fronteira, 1994)