domingo, 4 de julho de 2010

Baía de Morlaix - O amor






“...Eu me sinto em falta —, falta que pode ter por escusa uma incapacidade de fazer outra coisa. Só amo problemas”
Paul Valéry



Aqui uma parte de "Baía de Morlaix", que insiste em tardar seu nascimento. Um fragmento da parte "O Amor", o encontro do personagem Antonio Paim com o dia e sua tarefa de continuar escrevendo.


O que foi dito foi visto, disse em voz alta Marie. Riu dos meus olhos elétricos, porém tranquilos. Não estou pensando em nada que não seja neste lugar, tudo que vem daqui, vem para mim, para vocês, principalmente, para aquela mulher que anda como se fosse uma música, sei lá o quê. Inventei um jeito novo, eu narro, ela digita, tomamos vinho e eu fico admirado pelo tempo que ela dedica a sua vida aos projetos, até aos meus projetos ela se doa com mais paixão. Depois, eu desfaço tudo. Reescrevo tudo que foi pensado. A memória está só pela metade, por isso é bom preenchê-la com mais vinho. Novamente começo, agora, eu no teclado, ela lê, qualquer coisa em seu canto que atrai minha atenção, me tira do livro. O silêncio é suficiente para não nos separarmos, depois juntar nossos dias, mais até o fim dos nossos dias sempre se sente na individualidade de cada um. Assim é a vida, são os livros lidos, ninguém lê com perfeição, por isso, aproximo os livros, a música ao amor, tudo para poder compreender o exato momento das diferenças, das solidões que vivem nos lugares por onde já passei. O texto é um pouco desse amor. Não tem mais similaridade entre nós que o texto que habita e brota da solidão, da leitura individual. Não estou sozinho, enquanto existirmos simplesmente sem finitude existencial, existiremos, como a Cajuína de Caetano Veloso.
Que solidão danada quando estou ao lado dela, e não poder compreendê-la por inteira é o que nos mantém próximos, e separados pelos sonhos. Marie é a solidão de meu texto que percorre meus dias, é o que nasce quando estamos separados e se consagra quando ficamos lado a lado. Gosto dos ombros se tocando, quando caminhamos para qualquer lugar, é como se livros pudessem andar juntos. Sozinhos. Lemos e escrevemos separados pelas certezas de que a verdade é uma construção dos sonhos. Estou separado dos outros. Fui sentar sozinho dentro da Quimera. Marie ficou conversando com os amigos e eu fui terminar de ler o livro e pensar no que deveria escrever quando a noite assim vier.
Aqui, por trás da grande janela envidraçada, olho os carros passando na ladeira, num feixe de luz, o que resta do dia em Morlaix, é o dia que será longo. Tugny é inseparável de seu estilo. Lá estão eles, felizes flanando em pensamentos sobre tudo que pensam falar e viver.
O dono da padaria estava lendo um livro policial, um Simenon. Vi de longe ele atrás do balcão, enquanto uma funcionária atende os clientes em pleno humor. Deve estar apaixonada. Não pelo homem que parece estar se lixando ao mundo. O Amor é de longe mais difícil aos homens. Eles preferem a solidão a terminar um amor. Se eu acabar amanhã, irei até a Baía da Morlaix. Pensar exatamente no último olhar. Sexo é mais importante que a devoção. Já que estou aqui, leio, caminho, escrevo e dedico parte de minha a vida a um projeto que não sei onde irá chegar. O amor é mais simples quando se está nele, quando termina, pronto, acaba e ninguém ira ouvir dos lamentos. Penso em sexo, o amor como sendo a única coisa que me fez escrever esse texto.
Olho a praça vazia. Está escurecendo. Morlaix fala com o mar. O lamento da ausência.
Postar um comentário