quarta-feira, 30 de abril de 2008

Os mistérios da escrita



Andresa Thomazoni "O Mar de Sal"

"O horizonte da língua e a verticalidade do estilo desenha, portanto, para o escritor, uma natureza, pois ele não escolhe nenhum dos dois. A língua funciona como uma negatividade, o limite inicial do possível; o estilo é como uma Necessidade que vincula o humor do escritor à sua linguagem." Roland Barthes


Uma passagem maravilhosa do livro de Ricardo Piglia, “Formas Breves” sobre a decifração de escritas secretas, da origem da escrita, em que ele lembra de Lévi-Strauss quando diz que ela está na origem da divisão do trabalho. Não existe escrita sem “opressão, sem desigualdade social, não há escrita sem Estado”. Assim mesmo a escrita sempre esteve ao lado da rebeldia, da contrariedade, da afirmação da vida contra o Estado. Não que o Estado seja negação da vida, mas certamente ele a confina a escrita ao discurso oficial, aquilo que todos deveriam receber como sendo o melhor ao bem comum.
O mais fascinante está em Simone Weil, segundo Piglia, quando “aponta a voz feminina como oposta à tradição escrita: o arquivo da memória se construía no corpo da mulher em oposição à escrita, ligada desde sua origem às técnicas do Estado, à comunicação religiosa, aos cálculos agrários. O relato feminino (Sherazade) resiste aos ditames do rei”.
Quando o pesquisador inglês, George Hughtinghton, depois de trabalhar meses sobre a escrita em sumério (a primeira forma de escrita conhecida), decifrou seus segredos, revelou seu significado ao ler o fragmento. Sabe-se que ele saiu correndo pelos corredores do departamento de arqueologia do Museu Britânico se despindo, como se estivesse de desfazendo das roupas de seu tempo e de seu momento histórico proferiu: “Após dois mil anos de silêncio, sou o primeiro a escutar essa voz”.
O pesquisador morreu ainda jovem, aos trinta e dois anos, numa clínica psiquiátrica nos Alpes suíços. No relado de Piglia, segundo os enfermeiros, ele à noite falava baixinho “com alguém numa língua exótica”.

domingo, 27 de abril de 2008

A cadeira do tempo


Foto de Jean Baudrillard


Antes o homem olhava a história, debruçava-se sobre a linha histórica, sobre o tempo como garantia do bom entendimento de sua contemporaneidade. Hoje, esse mesmo homem, aquele que negou seu esquecimento, está sentado no seu tempo, em sua cadeira de madeira e ferro, dessas que já existem desde o século XX, com todas as garantias da história, da razão, da técnica, em toda sua esteira do tempo, olhando o passado apenas como um filme, um livro, sem grandes esperanças de apreender seu futuro. Simplesmente esse homem é um observador, um intérprete do seu tempo.

Baudrillard traduz:
"Mas esta ininteligibilidade não é mística nem romântica: ela é irônica. Ironia é o último signo que vem do âmago secreto do objeto, a alegoria moderna da reversibilidade de todas as coisas."

segunda-feira, 21 de abril de 2008

Por uma filosofia a três, a transdisciplinaridade do pensar-juntos


Pintura de E.E. Cummings


O homem anda às voltas com a “dupla verdade” desde os escolásticos, desde de Averróis, que vem solucionando esse problema por centenas de caminhos diferentes do pensamento. Ou melhor, do conhecimento. O idealismo cravejado na humanidade perpassa por todas as correntes do saber e mesmo no “nominalismo”, na arte da lógica, ele se vê dando pitada de ideal nas proposições. A especulação é a saída para justificar a existência de algo superior ao próprio ato de conhecer. Desde quando algo superior convive com os homens depois da morte de Deus? No lugar da falta se colocou a Razão, no lugar da Razão se postula as verdades candentes, aquelas que preconizam e estabelecem as regras de todas as ciências. A realidade não se esgota, não se esmorece diante do excesso, apenas Satura na exigência do pensamento.
O melhor atalho, a meu ver, neste momento é Heidegger quando pergunta sobre o sujeito quando sai de “sua esfera interna e chega a uma ‘outra’ esfera, a externa?” (O Ser e o Tempo,§ 44), ou como se pode ter com o conhecimento o objeto? Heidegger pergunta: como o sujeito que conhece conseguirá essa empresa “sem precisar arriscar o salto numa outra esfera?”. O resumo para o conhecimento não termina na filosofia heideggeriana até porque ele dirá que a cada conhecimento do ser, por ser parte do mundo da vida, revela-se um “cobrimento” das tentativas de tudo conhecer sobre a Verdade.
O absoluto é o fantasma que ainda ronda às Ciências humanas? Existem os teóricos achando que descobriram a teoria da comunicação como sendo uma ciência para todos os males dos excessos da mídia, ou a redenção das tecnologias na informação e que darão conta das proposições acerca do legado sobre o sujeito e o objeto.

Só para enfatizar um pouco mais sobre as teorias lembrei do poeta, dramaturgo, pintor e ensaísta E.E. Cummings (tradução de Augusto de Campos, Brasiliense).

“Minha teoria da técnica, se tenho alguma, está muito longe de ser original; nem é uma teoria complicada. Posso exprimi-la em quinze palavras, citando A Eterna Pergunta E Imortal Resposta do teatro burlesco, i. é: ‘Você bateria em uma mulher com uma criança? — Não, eu lhe bateria com um tijolo’. Como o comediante burlesco, sou extraordinariamente apegado àquela precisão que cria o movimento.”

quinta-feira, 17 de abril de 2008

A BUSCA DA FECALIDADE


Antonin Artaud


A poesia de Artaud como leitura para viver intensamente. Escolhi um excerto do poema.
Tradução de Cláudio Willer

Onde cheira a merda
cheira a ser.
O homem podia muito bem não cagar,
não abrir a bolsa anal
mas preferiu cagar
assim como preferiu viver
em vez de aceitar viver morto.

Pois para não fazer cocô
teria que consentir em
não ser,
mas ele não foi capaz de se decidir a perder o ser,
ou seja, a morrer vivo.

Existe no ser
algo particularmente tentador para o homem
algo que vem a ser justamente

O COCÔ
(aqui rugido)
Para existir basta abandonar-se ao ser
mas para viver
é preciso viver
é preciso ser alguém
e para ser alguém
é preciso ter um OSSO,
é preciso não ter medo de mostrar o osso
e arriscar-se a perder a carne.

O homem sempre preferiu a carne
à terra dos ossos.
Como só havia terra e madeira de ossos
ele viu-se obrigado a ganhar a sua carne,
só havia ferro e fogo
e nenhuma merda
e o homem teve medo de perder a merda
ou antes desejou a merda
e para ela sacrificou o sangue.

terça-feira, 15 de abril de 2008

A liberdade em Morin no Surrealismo




“Minha única estrela vive.” André Breton em Arcano 17

A poesia para Edgar Morin não é o simples ato de escrever, recitar e sim de viver intensamente. Ontem Morin trouxe o Surrealismo como retomada de vida, do “improvável”, luta incessante contra o provável, contra aquilo que ele sempre combateu: o cerceamento da liberdade.
André Breton no seu belíssimo livro Arcano 17 (Editora Brasiliense, 1986)

“O pensamento poético tem, obviamente, uma grande afinidade com essa forma de agir. É inimigo da pátria, e está eternamente de sobreaviso contra tudo aquilo que pode querer ardentemente apreendê-lo: é nisso que ele se distingue, na essência, do pensamento comum”.

Volto à noite histórica de ontem no Salão de Atos da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, retorno à leitura Morin em Meus Demônios:

“A adesão ao marxismo foi uma adesão à doutrina levando em consideração o gênero humano. Os intelectuais que se aliaram ao comunismo e ao trotskismo o fizeram pela causa da humanidade, Camus falou em nome da humanidade exprimindo seu horror pela bomba de Hiroxima. Mas quantos erros e horrores foram cometidos acreditando-se servir ao gênero humano! Em todas as variantes do comunismo, a causa da humanidade foi desvirtuada por seus cegos servidores.”

segunda-feira, 14 de abril de 2008

Com as minorias, os vencidos e os excluídos



Morin escreveu no livro "Meus Demônios", Bertrand Brasil, 1997:

"O paradoxo é apenas aparente; foi a raiz de minha experiência judaica que, tornando-me mais sensível a tudo o que é humilhação e rejeição, distanciou-me da Bíblia e dos israelenses, e me fez tornar-me pró-palestino. Estou com os vencidos. Sei que, quando os vencidos forem vencedores, serão como os vencedores. Não é suficiente ser perseguido para se tornar melhor. O papel de vítima conduz muitas vezes ao de carrasco. Fiquei arrasado, como disse, com o comportamento dos comunistas que sofreram nos campos nazistas, mas que não passaram a questionar o princípio do campo de concentração para os 'anticomunistas'. Fiquei mais arrasado pelo comportamento de Israel, que não esquece de perseguir seus perseguidores, mas esquece que mil anos de perseguição deveriam levar a ver com horror qualquer tipo de perseguição".

No livro O Método 4, Sulina, 1998, o segundo livro do Morin que eu editei, antes fora o Terra-Pátria em 1995:

"Não podemos passar sem uma concepção de mundo e do homem, isto é, sem uma filosofia. Não podemos passar sem idéias, tampouco sem poesias, músicas, romances, para compreender nosso ser-no-mundo, ou seja, para conhecer. Não podemos dispensar a ética. Os nossos valores não podem, claro, ser provados empírica e logicamente, mas a nossa lógica e o nosso conhecimento empírico podem dialogar com eles".

sexta-feira, 11 de abril de 2008

O diário de Sartre







“De nada adiantará anotar aqui só o que é importante. Nestes cadernos devo dispor-me a escrever tudo. Devo me forçar a escrever sobre qualquer assunto.” André Gide

“O diário é uma tarefa, uma humilde tarefa quotidiana, e é sempre com humildade que o relemos. Naturalmente não é e não pode ser nada mais do que isso.” Jean-Paul Sartre



Hoje relendo “Diário de uma guerra estranha” de Sartre, depois de ter extraído o último siso e sem nenhuma ilusão de encontrar o juízo, muito menos o final, me dei conta do quanto o meu interlocutor anda perdido em reflexões tardias. Uma coisa ele se dignifica, a sua crença na literatura e sua ironia diante do vivido e do homem pós-humano. Para Sartre o testemunho de escrever seu diário era o que o diferencia do diário de André Gide, que é uma espécie de reflexo de uma vida, anotações, confissões e atos em si. Com isso lembrei do Homem Nômade na tentativa de testemunhar o seu tempo. Tarefa inútil, assim como sua paixão de ver a humanidade inútil e livre das cegueiras ideológicas e religiosas. Será o blog um testemunho ou uma construção do real que já não está ao alcance dos ideais?
Para muitos o blog é uma ferramenta para falar ao mundo, um ideal de linguagem, lugar de hipertextos que toma o espaço da poesia com uma prosa do futuro. Retorno ao livro do Sartre antes de começar o meu dia.

quarta-feira, 9 de abril de 2008

Partículas Elementares de Michel Houellebecq




Aí está um grande livro “Partículas Elementares” de Michel Houellebecq, editora Sulina. Uma reimpressão, com nova capa, imagem cedida gentilmente pela distribuidora Pandora Filmes e finalizada por Vitor Hugo Turuga. A tradução é de Juremir Machado da Silva. O filme, uma adaptação do livro, tem estréia em Porto Alegre neste dia 11 de abril nos Cinemas Guion.

“Este livro é, antes de tudo, a história de um homem que viveu a maior parte da sua vida na Europa ocidental, durante a segunda metade do século XX. Geralmente só, esteve, entretanto, de longe em longe, em relação com outros homens. Viveu em tempos infelizes e conturbados. O país em que nascera, deslizava, lenta mas inexoravelmente, para a zona econômica dos países médios-pobres; freqüentemente acossados pela miséria, os homens da sua geração passaram, além disso, a vida na solidão e na amargura. Os sentimentos de amor, de ternura e de fraternidade humana tinham, em ampla medida, desparecido; nas relações entre eles, os seus contemporâneos demonstravam, quase sempre, indiferença ou mesmo crueldade.” (Houellebec, 2008, p.5)