sábado, 27 de maio de 2017

Inocência

                 Gustav Klimt - Three Ages of Woman - Mother and Child 



“Mas quanto mais me tornava transparente e leve, mais meus despojos cinzentos ganhavam consistência para seus sentidos fatigados.”
Pierre Klossowski



Imagino meu corpo além do meu corpo. Além, um pouco mais distante do que hoje sou. Bem antes, quando bem pequenino ao lado de minha mamãe. Bem ao lado, sentadinho em um banquinho, enquanto ela cuidava de minha avó enferma. Estava ali, ainda sem a consciência real das coisas, nada a perder, e o lado humano de estar à deriva da lógica da vida. A vida dos homens não existia. A inocência e a vida, brincava com o Nada: suprema maneira de ser apreendida pelo pequeno Ser. Uma alegoria do impossível, desde que, hoje, já não sei o que estava a viver. Construí esse mundo, através do imaginário de minha mãe, pude ir além do que hoje posso compreender.  
Falava sozinho, como um humano que ainda está a ver o mundo, o poente é mais distante hoje. Minha mãe cuidava de sua mãe, olhava-me com lágrimas de dor e felicidade.

Essa é uma imagem que não lembro por mim mesmo, é a recordação de relato que minha mãe volta sempre a me contar. Já narrou inúmeras vezes, não importa, estou sempre pronto para ouvi-la novamente. Todos os ângulos, a vida é sempre a mesma, o amor está dentro e fora dessa narrativa. O amor é infinito, a dor morre logo ali [...] outras narrativas.

“Dalgum modo outra vez e todos outra vez no olhar fixo. Todos duma vez como uma vez.” Samuel Beckett

sábado, 20 de maio de 2017

Técnica dos cupins e o blogueiro




“Dois mil e quinhentos anos depois da tecedura de Platão, parece que agora não só os deuses, mas também os sábios se retiraram, deixando-nos sozinhos com nossa ignorância e nosso parco conhecimento das coisas.”
Peter Sloterdijk

        Definitivamente o determinismo decretou que os blogs estão em crise, que as pessoas migram mais rápido que cupins de uma madeira a outra, que passam num movimento rápido à noite e que de durante o dia já se percebe que ali viveu um blog. Ninguém naquele espaço habitará mais, a não ser o vazio de caracteres deixados consiga ser a metafísica constante das linguagens trôpegas de uma modernidade cínica.
Assim penso, será que foram os blogs que migraram à noite para outro espaço em caracteres em uma necessidade causal, que no lugar onde existia uma linguagem restou uma pasta oculta e que um dia alguém ainda irá lembrar? Ou mesmo, posso pensar, que de onde havia a linguagem nunca existiu destino e significados em sua textura, que tudo é fruto dos que pensam em guardar apenas na memória. Nem memória existe mais agora, a não ser que fique impresso e guardado em uma gaveta imaginária onde cupins não possam abocanhar. Nem a nuvem consegue suportar a memória, ela exige demais, é altamente corrosiva, poderia muito bem acabar com o esquecimento, desmitificar previsões e mudar o rumo do que era um determinante e se tornar em fractais.
O fim é o espelho da repetição diferenciada, não existe propriedade do que se espelha se não tivermos a velha crença de que a ideia combinada com a lógica dos acontecimentos só permanece se puder continuar corroendo as madeiras.
As nuvens que alimentam e guardam memórias são raras hoje em dia. Nem um pouco de sentimentalismo, mas uma porção de devaneio nos permite esquecer o acontecimento, depois é crer que o agora é diferente do antes. Como diz o designer, “o que parece simples para mim, talvez seja complexo para outra pessoa” (Vitor Lourenço), mas o que é complexo nunca deixará sua complexidade pelo simples fato que o finalismo contemporâneo está mais para uma migração do que para uma etapa avançada do pensamento.     
O grau de complexidade é a luz de linguagens jogadas no tempo e para que alguém pessoa possa tê-la é não necessariamente poder tornar simples o seu grau de uso. E, hoje, definitivamente a imagem é apenas o cenário em movimento às linguagens que correm tempo das certezas. Para os fins dos determinantes e para novas crenças existirem serão imprescindíveis sujeitos privilegiados ou não. Estar rompendo e descobrindo a melhor maneira de desmitificar o destino é tarefa do pensamento.

(texto ampliado de 2011) 

domingo, 9 de abril de 2017

Cabelos de Baudelaire

      Felice Casorati - Concerto - (1883-1963)




Certas cores, cabelos que esvoaçam no tempo,
mistura cheiros e sons, açafrão no tilintar do outono,
Tinta que borda a pele, marca a alma, o frio se aproxima.
Ilumina partes do corpo, o tom certo, é como a luz,
Atravessa fendas, melodias espalham, clarão que dança,
Como melodia na luz assombradas de pensamento.

Dedico meu tempo a teus cabelos, a poética imortal,
Mesmo que não crês no Nada, a cabeleira brilha,
O tempo não apaga os versos, o tempo esquece o presente.
Como o barco de Debussy, eleva a dor diante da música,
Em perdidas matemática antes do sol do meio-dia,
Fios voam mar dentro de luz, fonte da vida, os cabelos em direção à margem,
Morre no horizonte o que oculta.







sexta-feira, 7 de abril de 2017

Elegia Simultânea

Imagem: Málaga



“Uma melodia que ouvimos de olhos fechados, pensando apenas nela, está muito perto de coincidir com esse tempo que é a própria fluidez de nossa vida interior...”
Henri Bergson



Todo mês um dia, o ano que se aproxima,
Uma vida distancia-se,
flor explode o coração no ensaio que dos olhos firmes,
espanta solidão, todo mês a mesma via.
Todo ano que chega ao fim, uma dor se aproxima,
uma vida a discorrer, um poema de interlúdio,
todas as notas, todas as músicas, fim do mundo.
Todos os lugares no coração, um ser que viaja,
viver no sol da Andaluzia, frio da Serra da Estrela,
um dia entre o céu e o pensamento, ruas e destino.

Todas as edificações e o Distrito da Guarda, o alto dos morros,
Viver a luz de Lisboa, a ribeira do Porto,
aos trilhos entre Paris e o Mediterrâneo.
Todo o dia a luz a acordar, vê sonhos pintalgados a serpentear extensão do corpo.

O espreguiçar da vida, uma roda de turbante, os passos, entre trens, a nuvem leva a nado o corpo que vive entre águas. 
Toda manhã, a sombra desce a montanha,
ao lado de sua companheira, dois passos, um gole, a vida e o rio desce o pouco que pode ainda – Pensamento.
O que não tem espaço em teu heracletiano lastimoso de lágrimas e música desce correntezas.  
Dois a observar o mundo: passa o tempo, nem a morte os alcança.
Deus do inverno é o mesmo do castigo que incendeia o corpo congelado.
Estão, num outro nível de prazer, disse-me a voz misteriosa –
“Descem o rio - no corpo de um barco criado na ilusão dos mortais, eles afundam, cada dia de minha vida num espelho. A verdade vem das águas.”



quinta-feira, 6 de abril de 2017

Diferença e Descobrimento - O que é o imaginário?

   

Editora Sulina - 07 de abril está chegando o mais recente trabalho de Juremir Machado da Silva


Diferença e descobrimento
O que é o imaginário?
(a hipótese do excedente de significação)



    “O pesquisador de imaginário, intelectual, curioso, leitor de mundos em movimento perpétuo, adepto da complexidade existencial e praticante da simplicidade como forma discursiva argumentativa e poética, articulador de encontros e estimulador de prospecções, realizador de aventuras e analista de sonhos, entre a comunicação e a cultura, é o construtor de pontes, o ser à beira do rio que contempla o fluxo e tenta identificar pequenas cristalizações enquanto a noite não chega com seus encantos e armadilhas tecidas de lendas e mitos.
Um semeador de águas.
Não há pesquisa ou narrativa sobre o imaginário fora da metáfora e da analogia. A vocação do imaginário  está nas figuras de linguagem. O imaginário é uma expressão que encontrou palavras, cores ou formas. O ódio ao metafórico faz parte de um imaginário – por extensão – cientificista que ainda crê na decifração total do sentido. Essa presença da transparência no horizonte das ciências humanas remete a um desejo recorrente de legitimação por pares que figuram altivos e inalcançáveis como referências de rigor e de consagração acadêmica.” (p.101-102)


domingo, 2 de abril de 2017

O livro Invisível - sobre Ralph Ellison

          Ralph Ellison   

Luiz Maurício Azevedo

Doutor em Teoria e História Literária (UNICAMP)

 
Em um célebre artigo, intitulado The future is black (publicado no Brasil pela editora Sulina), o escritor norte-americano Mark Dery evoca uma histórica afirmação de Greg Tate, muito familiar para os indivíduos negros, segundo a qual “pessoas negras vivem a ostracização que os escritores de ficção científica imaginam.” Na tradição da literatura norte-americana não há demonstração mais nítida e expressiva desta suspeita do que a descrita por Ralph Ellison, no livro Homem Invisível. Publicado em 1952, a obra conta, em primeira pessoa, a história de um indivíduo negro tentando desesperadamente sobreviver ao racismo cotidiano. Escrito por Ralph Ellison, um escritor negro, em um tempo em que todos os escritores eram brancos, Homem Invisível é um dos livros prediletos do ex-presidente Barack Obama. E de uma extensa lista de lideranças intelectuais afro-americanas. Apesar disso, é uma obra praticamente desconhecida no Brasil. Sua primeira tradução data de 1990 (Editora Marco Zero). Depois disso, permaneceu esgotada até a publicação da segunda tradução, em 2013 (Editora José Olympio). Não ganhou resenhas nos principais suplementos literários do país. Não foi destaque nos vídeos de booktubers famosos. É, no Brasil, um livro invisível.
O brasileiro, este ser que existe para dificultar a vida dos sociólogos, faz o que pode para preservar seu delírio de democracia racial. Como tenho poderes paranormais, consigo ver, daqui onde estou, o cidadão médio: tênis, óculos escuros, camiseta da seleção Brasileira, argumentando de forma desmiolada: "Racismo não é uma preocupação nossa. Falar que tem racismo aqui é macaquice, querer copiar os americanos, sabe? Aqui é diferente. Aqui o preconceito é social, só. Pode ver, os negros são tratados como se fossem seres humanos. Por que, então, a gente ia precisar de um livro cheio de ódio, onde os negros praticam racismo inverso?"
No país das trevas, as pessoas têm dificuldade cognitiva de chamar as coisas pelo nome, e bem antes de Donald Trump já haviam inventado um mundo com fatos alternativos, pós-verdade, oxímoros e argumentos construídos sob a égide da ignorância reluzente. Sobre o racismo criaram sua própria narrativa: o melhor modo de acabar com ele é parando de falar nisso. Em suma: contra a reação das vítimas, o melhor remédio seria o silêncio dos ofendidos. É por isso que dificilmente você ouviu falar em Ralph Ellison. Esconderam de você um livro. E só escondem de você coisas que não querem que você veja. E tudo aquilo que não querem que você veja é precisamente aquilo que você necessita ver.
Quanto a mim, acredito que Ralph Ellison rompeu a fronteira cultural da literatura norte-americana de prestígio e o fez com uma obra que não representava uma ruptura estética (nada que pudesse sugerir, entretanto, o nascimento de uma nova literatura, uma literatura negra, cujo grau de exotismo poderia exercer algum componente sedutor sobre a crítica caucasiana). Acredito que Homem Invisível encaixa-se com tranquilidade na cauda longa do modernismo, tendo maiores afeições com Ulisses do que com a Cor Púrpura, para efetuar uma comparação em relevo. Embora, é claro, seja um grande construtor de cenas, Ellison não se dedica a um realismo em que os autores necessitam explorar as decepções do real para encobrir a ausência de potência criativa. Ele é mais sofisticado, e se localiza mais na linha de um Faulkner, em quem todas as suas raízes são expostas através de rituais cuidadosos, que se apresentam ironicamente como encenações cujo desejo aparente seria ocultá-las. Seu texto é fluido, mas alegórico; reto, mas sinuoso; palavroso, mas enxuto; caucasiano, mas negro.
Acredito, por fim, que um livro que permanece vivo, mesmo sessenta e cinco anos depois de ter sido publicado, é um livro que merece ser lido. Mas isso sou quem acha; eu, um sujeito que não usa camisas da seleção Brasileira, que não coloca ketchup na pizza, que não toma chimarrão, que não sente pena de Eike Batista. Você certamente achará outras coisas em Homem Invisível. Coisas suas. Coisas grandes. Você verá aquilo que eu não vi.  Você encontrará respostas que estão lá somente à sua espera, na linguagem jazzística, no ritmo alucinado, na inteligência viva da melhor obra que a literatura afro-americana já produziu. Homem Invisível vai, sob um aspecto muito específico, salvar sua vida.

Há livros assim. 


Texto pelo autor - recentemente publicado no Correio do Povo - Caderno de Sábado - 25-03-2017.

segunda-feira, 27 de março de 2017

Mar

 
“O homem volta a si e descobre que está deitado de costas, olhando para um céu sem nuvens, ao anoitecer.”
“... mas pouco a pouco suas descrições passam a ter menos a ver com o mundo físico do que com o estado de ânimo.”

Paul Auster

O mar, vastidão que impressiona. A vastidão que dá medo. Corre. A fuga dos barcos engolfa solidões e trai os deuses. Vive junto a eles e nem percebe. Seu castigo, o de conviver na terra com os homens. O mar está aqui nos observando enquanto dançamos ao vento da noite fria, estrelada, encosta suas armadilhas aos amantes que desconhecem que amanhã o roteiro deverá continuar existindo.
Depois daquela noite não consegui tirar mais os olhos da Baía de Morlaix. Mesmo distante, lá do velho sobrado, as persianas não me deixam em paz. Uma luz escorre até meu rosto, meu olho de remela apenas vê a baía que esconde sua beleza dos dias. Diria, penso em Deleuze, da mão para o olho. O olhar que vem do mar é o que entra no sobrado, na cozinha onde todos se divertem. O mundo é uma presença em nossas vidas.
Marie me chama: “o mar é um lobo que uiva de tanto barulho estranho”. Ele contorna o velho sobrado com sua umidade constante, água quase toda a extensão, sua brisa que cola na grama. Um pântano ao redor. Estamos de volta este ano, penso. Nos aquecemos ao redor de um fogão à lenha. Tugny prepara um chá, Amélie e Marie cuidam de uma sopa. E eu, nada por enquanto. Arrumo a mesa e me sento ao lado do fogo. Cuido para que ninguém se canse antes da ceia como meu olhar que observa.  Tento lembrar-me da história que o filósofo escreveu sobre Francis Bacon, de que o artista ao pintar com os olhos se realiza quando consegue tocar com os olhos.
Aqui ninguém reza, ainda bem, penso. Todo mundo toca com os olhos o novo lugar. Morlaix é um presente do mar. Isso é quase sagrado, os olhos são uma dádiva, alguém disse ao ver o tempo lá fora uivando junto com o mar.

O momento é de todos pensarem que o mar poderia ser uma companhia nessa primeira noite completa por inteiro. Chegamos ao meio da madrugada. Vi o mesmo vento em outros lugares pelos quais passamos, o cheiro, a pele do mar em meu corpo é esse sal. Enganei meus olhos sem ter conseguido tocá-los com o novo. Tanto faz existir o inaudito. Na manhã percebi a diferença. Como se começasse a tomar algo nos canos, algo que fosse tomando conta do corpo. Isso seria o início e o fim da vida? Lembrei-me de quando fiquei um mês no hospital tratando de um câncer. Aquela santa droga para aliviar a dor, a dolantina, no corpo. Agora o mar de Morlaix entra da mesma forma. A sensação é a mesma e eu acordei com o livro Francis Bacon: lógica da sensação de Deleuze. Através da leitura, sinto o olho e a mão na imagem do mar. Aqui sem vê-lo, porque estamos sós, o seu cheiro impregna os sentidos. Imagino o mar, como o diagrama em Deleuze, que fracassa se nada surgir. Aqui o fato pictural do mar vem pela pele. Uma injeção de leitura, a pele e o mar estarão lá para sempre. Essa é a viagem. Vejo que Marie abandonou a leitura sugerida por mim. Ela sempre diz que já existem loucos na vida suficientes e prefere uma aventura policial à reflexão dos livros. Tugny, bem sei, ele tem seu emaranhado estético. Ainda bem. Imagina se todos nós soubéssemos o que se passa por dentro um do outro. O mar daria esse mesmo efeito de desnudar o outro? Não. Ele tem seus segredos, a força imagética de aterrorizar e de maravilhar o continente, os homens. Temos nossos segredos. A diferença se une ao diálogo.
(Fragmento da novela Baía de Corbiere)  

domingo, 5 de fevereiro de 2017

Silêncio da letra

           Wu Guanzhong (1919-2010)


Cansei dos teus olhos,
de tua voz, a duração deste momento,
o movimento faz o tempo durar o sempre na imagem.
O breviário do solitário é catar os dias, então, do previsível, da atitude dos versos, a métrica é o fluxo do pensamento:
e o silêncio fascina.
Morrerei em Paris como César Vallejo e Celan.
O Sena que lava a textura do tecido,
palavras entre as pernas abrem-se às manhãs da cidade.
A poesia nasce da algaravia, da alma perdida, morrer em águas turvas.
O silêncio abre-se coberto de tardes tristes,
um beijo na beleza incessante dos olhos esquecidos dos
os amantes  que não se cansam de partir.
O silêncio fascina sobre o escrito.

sábado, 4 de fevereiro de 2017

Leitor anarquista da Filosofia Cristã

        Robert Doisneau 



“Quer dizer, no momento em que adentramos o espaço da memória, entramos no mundo.”*
Paul Auster

Gosto de ler os filósofos cristãos, principalmente os dos séculos XIX e alguns do XX. Assim, ao lê-los aprendo mais do que muita ironia vã da ignorância religiosa e fanática sobre Deus. Sou de fato um ser em movimento, mas o que nunca deixou-me impressionar é a latência reflexiva dos moralistas ao tratar da vida como se ela tivesse uma base sólida para todas os questionamentos. Escamotear a existência em nome de um ser superior. De fato, a vida é onde tudo se inicia e tudo se perde no fim. O acontecimento tem seu apogeu. Os observadores mais atentos, os desavisados e dispersos, porém atentos, a todos que param um pouco para apenas sentir e deixar o tempo passar ou ficar parado no ato de pensar. Éttienne Gilson escreveu:
O pânico que parece se apoderar dos apologistas sempre preocupados em não perder o último navio, é algo que lhes é natural, mas não deixa de ser inútil. Não há último navio. Da popa daquele no qual você embarcar, você verá outros três ou quatro se preparando para partir.**

Ou seja, prefiro a reflexão inteligente do que ardor de uma crença, de uma outra ordem de religião. Isso se aprende ao longo dos tempos. Quantos Tempos existe quando vive em uma só vida? Depende, não da crença, a meu ver, da capacidade que se tem de encarar a realidade sem temer que a ordem das coisas não gerida pelo fervor de uma crença, mas por circunstâncias que envolvem essa vida.

No caso dos exegetas, daqueles que dedicam sua vida a interpretar, a eles meu profundo respeito, mas nem com todos me sentaria para conversar, ouvi-los. Porque se tem algo que me deixa numa profunda dislexia é o tom professoral, é querer dar aula no mais alto grau da tonalidade e expressão teatral de um professor. Isso me tira do sério, então, prefiro conversar com os livros. O Éttinne Gilson é meu companheiro por excelência. Com ele aprendi a ler melhor textos filosóficos, a ouvir e, principalmente, recusar verdades e tons pseudoeducadores de alguns seres monocórdios. No final da última página de um Gilson, acredito cada vez menos na luz duradoura de uma Verdade única.

* A Invenção da Solidão. Paul Auster. Companhia das Letras, 1999.
** O Filósofo e a Teologia. Éttinne Gilson. Paulus, 2012.

sábado, 14 de janeiro de 2017

Eternidade(s) do Tempo

            Imagem: Arturo Nathan “O mar de gelo” ou “O exilado”


“O tempo é pensado por nós antes das partes do tempo, as relações temporais tornam possíveis os acontecimentos no tempo. É necessário, pois, correlativamente, que o sujeito não esteja situado nele para que ele possa estar presente em intenção tanto no passado como no futuro.”    Merleau-Ponty




Ou seja, o tempo não é mais um “dado da consciência” e que a consciência torna-se parte do tempo. O tempo ideal é o tempo que se deixa desamarrar do presente. Ele está amarrado no cais, diante do passar dos dias, o presente nunca é o mesmo porque supõe-se um futuro diante do passado que nunca deixará de ter suas marcas na parede da velha casa. Como trilhou Ponty, “Não estamos sempre tão longe de compreender o que podem ser o futuro, o passado, o presente e a passagem de um ao outro?”...Eis o emaranhado do tempo no retorno ao cais. A posição dos barcos na certa não está mais em consonância ao olhar do dia anterior, nem do segundo no passo a passo da rua que vai do cais os barcos: mudara a posição e o sentido é o mesmo apenas no objeto imanente da consciência. Primeiro o pensar sobre o tempo. 
Depois, tudo muda na série das relações possíveis, dos passos, da distância entre o que se imagina e o existente. O existir nunca estará completamente constituído do tempo, o absoluto não percorre esse espaço, o passado, o presente e o futuro não se completa. Continuará sua extensão na linguagem, no olhar que vê a imagem do tempo no cais, na velha parede que envelhece com o cansaço da permissão da memória em pensar o tempo.

terça-feira, 10 de janeiro de 2017

Transitórios

                                     




“A poesia se torna (... ) se reduzida à sua essência silenciosa: um andamento e um desdobramento de puras relações, isto é, a mobilidade pura.”
Maurice Blanchot

Entre a ponte e o continente, estamos nos dois lados ao mesmo tempo. Percorremos os caminhos na metáfora da liquidez, o lado mais próximo da salvação é se distanciar das promessas, da segurança garantida que tínhamos sob a égide de um tempo de racionalidade fácil. O mundo antes de sua liquidez explodiu. Antes mesmo de juntarmos os pedaços, a razão não deixou de espiar o presente com os olhos no futuro, a razão flertou com o lado mais duro da vida. Sempre penso: se sairmos desta armadilha, quantas outras teremos pela frente? A crítica enfurecida da modernidade bem que tentou, demonizou o quanto pode as formas lúdicas de vivenciar e constatar o mundo em movimento.
A socialidade, o vivencial foi resgatado no lúdico, entre a forma e o conteúdo, vieram “baumans” na fluidez dos acontecimentos e das rupturas com verdades eternas.  
Na tradição anárquica e libidinosa do pensamento ocidental, na esteira humanista de pós-ilumistas, homens com sensibilidade rara souberam prover-se com o que havia de melhor dos signos, das significações de um tempo em que estar face a face era produto da responsabilidade social para uma responsabilidade que o “eu” e o “nós” nos enredamos em Ato e Vida. Bauman foi um desses, humanista, homem de pensamento que via no Outro o seu lado mais responsável. Se ver nele mais um igual sem fronteiras. Humanos simplesmente. Precisamos de homens assim, de Bauman na simetria dos significados e das responsabilidades é “que a liberdade do eu ético seja talvez, paradoxalmente, a única liberdade que se veja livre da sombra ubíqua da dependência.”












domingo, 8 de janeiro de 2017

Ilusão


“Ouvir meras fábulas talvez não seja o programa favorito de vocês – talvez queiram ouvir A VERDADE. Bom, se é isso que vocês querem, então é melhor procurarem outro lugar – mas juro pela minha vida que não posso dizer exatamente que lugar é esse.”  Paul K. Feyerabend




O momento em que começamos a pensar mais e mais sobre o mundo, sobre os mistérios que envolvem um mundo coerente e a incoerência que temos em vivenciá-lo. Todos vivem no mesmo barco, a nau do mundo é a mesma no plano teórico no que concerne ao corpo, na relação do corpo com o mundo. Como proferiu Feyerabend em uma de suas últimas conferências, “Ademais, os cientistas, os senhores da guerra, os esfomeados e os abastados são todos seres humanos”. Existe uma ponte imaginária nesta minha perspectiva, pois, se estou a pensar em português (ironia da reflexão), é a busca cotidiana de conhecer a natureza do mundo. Não há pretensão nisso, a pior arrogância e delimitar o pensamento em uma representação do pensamento apenas especializado. Quando nos deparamos, por exemplo, com a dor, quando ficamos dias e dias na insônia, quando a produção diária e a queima de energia é melhor que deitar, é quando penso: estamos num dilema, ou salvamos a razão, ou aprimoramos a vida. Uma maneira básica de começar, quando se chega a meio século, é naturalmente intensificar o movimento, principalmente do corpo. Mesmo assim somos traídos por uma cultura racional instintiva da modernidade que é o consumo desenfreado. Em todas as áreas e partes misturamos o que é bom e o que é ruim, somos iludidos por nossas ações, mas muitas vezes, nos recuperamos diante do inesperado que sempre aparece, seja, no acordar cedo para ir mover-se na água, na quadra, nas ruas, no campo aberto etc. Nem estou pensando em Descartes na sua moral em dizer que a realidade está objetivamente em suas causas. Pretérito, meu caro. A reflexão vem sim, distante, de uma melhor descrição coerente de tudo existe. Platão fazia, então, precisamos nos aprimorar sobre o que existe, sempre foi assim, acontece que hoje existem formas de ir por estes caminhos. Uma alternativa, a circularidade de uma hermenêutica oriental, outros roteiros que possam envolver o corpo e a mente. Não sou adepto do experimentalismo por ser um homem do meu tempo. Adeptos ou não, o mundo bem que podia se conectar de forma mais harmoniosa, mas é tão difícil quando nem mesmo ainda temos a capacidade de recomeçar do nada e fazer as coisas todas num só dia. Depois, voltar a pensar sobre tudo, ou esquecer tudo para não perder o outro dia que está prestes a nos acordar. 

sábado, 7 de janeiro de 2017

Um dia em Barthes




“Sem dúvida numa época de minha vida, atravessei uma fase que chamei de fantasia científica.”Roland Barthes


Barthes sugere-me “trapacear” para podermos ouvir a língua fora do Poder, mas isso é o que procuro no dia a dia, ou seja, ter as condições ideais de jogar com a linguagem. Ter as possibilidades de controlar aquilo que não podemos jamais atar, a produção individual e os sentidos. O resto é domínio. Mas aqui não estou mais nessa arqueologia. Saber quem domina quem é de menos na reflexão desta manhã, mas de saber o que foi feito dos domínios da razão. Em minha observância teórica e de suas aplicações, percebi que há indícios de um domínio desenfreado pelo culto da ciência, e que outras tentativas de domínio, seja pela espetacularização dos acontecimentos, seja pelas novas mitificações de sentidos vai longe, longe demais. Ainda bem. Como já dizia Cioran, “os caminhos da crueldade são diversos”, preciso de um pouco de complexidade para arejar as ideias. Ainda ontem, lembrei-me, certa vez, em plena disputa saudável de uma banca de doutorado, eu evocava no texto um conceito “trajetória antropológica”, fui picado pela vespa da racionalidade acadêmica, fui indiciado por usar conceitos ao léu. Fiquei entre o espaço literário de Blanchot ao ritual daquela cena. Passou. Não me desfiz da trajetória e os caminhos da complexidade me ajudaram na compreensão de muita coisa. A saber, o prazer em voltar a textos clássicos que me faziam sentir excluído do próprio texto. O prazer da leitura, é certo, percorre disciplina, compreensão e dialogia com os textos, com as vozes.




sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

Migrante na linguagem



“Eis como meu gosto pessoal, ligado à finitude dos prazeres materiais, adquire uma dimensão infinita, imaterial, espiritual.”
José Gil (A imagem-nua e as pequenas percepções)


Ainda existe o jamais ouvido, o nunca lido, aquele que nunca foi trilhado pelos olhos? Há! O que vive é o que já está prestes ao vivido. Depois é tudo passado. Pois, o que o corpo quer é só mesmo mostrar ao Outro o que a ele não lhe pertence. O desejo de pertencimento deixa de ser o melhor, o que vive do outro lado do rio é que se quer. A meu ver, só para ser manter no espaço do inaudito, o que quero primeiro é ter este pertencimento. Por dentro, até o fundo de todas as cores, o que o olho alcança não é limite para o sentir. A letra tem sua tradução. O purista que me perdoa, ele só quer ser inaudito para dificultar o olhar do que possa deslegitimá-lo.  Esse é só um mais tradutor seco, não é um transcriador. Precisamos de quem possa ler ao mundo toda a produção, que possa ir além de sua fronteira. Os nacionalismos correm esse risco, de confinar novamente a criação, de eleger o melhor e depois transformar em um produto inalcançável.


O seco, o tinteiro do tempo permanece úmido da última poética. Imagem estonteante ao migrante que descobre a língua distante. O que não é dele não tem dono. Entra pelo mundo com sua dor, sua fuga, ele não quer saber de religião, não deseja um país tal qual ele conhecia. Quer poder sentir a possibilidade de pensar em viver mais do que só o presente imóvel. Quer acordar, planejar atravessar a rua até uma praça, ver gente sorrir, crianças despojadas da moralidade imposta. O desejo do migrante é mais sagrado do que a leitura inaudita do leitor. Ele quer todos ao mesmo tempo. Uma nova forma de criar pode ir aquém do tempo, como as mulheres escravas da Idade Média que faziam sarja com a lã do senhorio, que engordavam a vida dos donos, moeda de troca, do local que existia do outro lado da cidade. Hoje, escravidão está no inominável sentimento de posse para depois se deixar como enriquecimento, tal qual a produção da lã, a criação é querer ser dono de uma cultura e render bônus entre os pares. Existe o inaudito, mas na fuga, na tangente que a linguagem se forma e destrói o que vem por todos os lados, na “communio spiritus”, na trânsfuga das línguas o corpo em massa é um levante, a revolta sem cátedra. Onde estão os leitores deste tempo?

quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

Livro de Águas

                                Sobre foto de Bebeto Alves - Arambaré - Lagoa dos Patos



“Disse que seu livro se chamava o Livro de Areia, porque nem o livro nem a areia tem princípio ou fim.”
Jorge Luis Borges


Pássaros de um real que não existe sobrevoam todas as manhãs a janela do meu quarto, então, existe é o que estou a sentir. O que está lá fora está mais vivo do que nunca. O olhar primeiro sente antes de começar a ver, vai à base, o espreguiçar primeiro, o som, percebe-se o tempo vivo por dentro... O que está fora já existe sem precisar dos meus pensamentos.
O acordar é estar dentro de um mar eletrizado da natureza. Água por todos os lados. Os braços só são fortes se o pensamento estiver em consonância com o corpo. Existem métodos para se atravessar um oceano, um país de águas, passar por uma vertente sem ser soterrado pelo medo. Gostaria de ter um livro de águas, um livro sem princípio ou fim.




domingo, 1 de janeiro de 2017

Índice visível dos IMAGINADOS

      Imagem de Tokyo



“O real escapa a cada linha como se não passasse de uma vaga referência literária. Paradoxalmente o inverossímil não deslegitima ou falseia a narrativa.”
Juremir Machado da Silva

“(...) um recorte do vivido em atos descontínuos ou uma referências a ‘coisas’ cujo estatuto não se precisou, ou somente uma posição entre o visível e o invisível.”
Maurice Merleau-Ponty


Tive um sonho, em que ela estava em pé,
eu sentado em uma poltrona, olhos fixos, perdidos.
A visão mais linda era que ela estava seminua, livre.
Eu sentindo o todo do seu cheiro, a voz vindo de cima
como um som que escorrega, carrega a imaginação tilintar,
o sussurro descendo os seios, barulho de água nas pedras, um instrumento entre a natureza e a imaginação.
O ventre quase dentro de mim. Meu campo de visão, coração aberto no tempo perdido.  
Minha boca se perdendo no tempo de um corpo, a voz indo no mesmo ritmo de minha língua. A explosão de um planeta a milhões de anos nos faz sentir seres imaginários.