domingo, 28 de abril de 2013

Simone de Beauvoir - A força da música



Leio por necessidade da profissão, muitas vezes, mas a maior parte das minhas leituras povoa o imaginário poético-filosófico que fiz durante esses anos todos; parti junto à adolescência antes mesmo de deixar a cidade que nasci, nesta época, os livros primeiros de minha existência, livros de uma biblioteca particular de um amigo que era sócio do Círculo do Livro, depois eu virei sócio também, e comecei adquirir um pouco do misterioso mundo da vida. A música foi minha primeira amante, com ela soube voar de vez à dimensão das letras, das ideias, da contestação existencial existente nos homens. Eu fui além. Eu aprendi com a música a gostar dos livros e vice-versa.
Agora ao ler Simone de Beauvoir “La Force des Choses”

“As circunstâncias – quase não vou mais ao cinema, nem ao teatro, prefiro ficar em casa; evidentemente, eu poderia ler; mas quando, à noite, chego em casa, estou farta das palavras; sinto-me cansada deste mundo em que vivo e que ainda reencontro nos livros. Os romances pretendem inventar um outro, muito semelhante a este e, geralmente, mais insípido. A música transporta-me para outro universo onde reina a necessidade e cuja substância, o som, me é fisicamente agradável. É um universo de inocência – pelo menos até o século XIX – porque o homem está ausente dele.
(...) Além disso, eu tinha, em música, ignorâncias enormes. Ela me trouxe o que as outras artes me recusam agora: o choque das grandes obras ainda virgens para mim. Aprendi a conhecer melhor os músicos que eu já amava. Meus livros amontoaram-se, ao acaso, em minha biblioteca e nada são para mim; mas gosto de olhar, austeras ou risonhas, as lombadas multicores, que abrigam tumultos e harmonias. Foi através da música que, nesses últimos anos, a arte misturou-se, familiarmente, à minha vida; foi através dela que recebi emoções violentas, que experimentei seu poder e sua verdade e, também, suas limitações e suas fraudes.” (p. 214 -215) Difusão Europeia do Livro, São Paulo, 1965. Tradução de Maria Jacintha




sexta-feira, 26 de abril de 2013

A Força das Coisas - Simone de Beauvoir

   

Passagem maravilhosa de Simone de Beauvoir sobre a morte de Camus. Texto que instiga os leitores a conhecer um pouco mais desta grande escritora e do inigualável Albert Camus.

Simone de Beauvoir em “A força das coisas”, p. 212-213, Difusão Europeia do Livro, São Paulo, 1965. Tradução: Maria Jacintha



“Eu estava só em casa de Sartre, numa tarde de janeiro quando o telefone soou: ‘Camus morreu, agora mesmo, num desastre de automóvel’, disse-me Lanzmann*. Voltava do Sul, em companhia de um amigo, o carro fora de encontro a um plátano e ele morrera instantaneamente.Pousei o fone, um nó na garganta, os lábios trêmulos. ‘Não vou chorar, disse-me. Ele não era mais nada para mim.’ Fiquei de pé, junto à janela, olhando a noite descer sobre Saint-Germain-des-Prés, sem poder acalmar-me e sem poder, também, mergulhar em um verdadeiro desgosto. Sartre emocionou-se, também, e durante toda a noite, em companhia de Bost, falamos  sobre Camus. Antes de me deitar, tomei beladonal; eu não mais o usava, desde a cura de Sartre. Precisava dormir; não fechei o olho. Levantei-me e, vestida de qualquer maneira, fui andar dentro da noite. Não era o homem de cinquenta anos que eu lamentava; não era aquele justo sem justiça, severamente marcado, de arrogância sombria, que rasgara meu coração com o seu consentimento aos crimes da França; era o companheiro dos anos de esperança, cujo rosto franco tão bem sabia rir e sorrir; o jovem escritor ambicioso, apaixonado pela vida, seus prazeres e seus triunfos, pelo seu companheirismo, por seu amor e sua fidelidade. A morte ressuscitava-o; para ele, o tempo não existia mais: ontem não tinha mais verdade do que anteontem; Camus, tal como eu o amara, surgia da noite, ao mesmo tempo reencontrado e dolorosamente perdido. Sempre que um homem morre, com ele morre uma criança, um adolescente, um jovem: cada um de nós chora aquele que lhe foi mais caro. Caía uma chuva fina e fria. Na avenida Orléans, vagabundos, encolhidos e transidos, dormiam nas soleiras das portas. Tudo me dilacerava: essa miséria, essa desgraça, essa cidade, o mundo, e a vida, e a morte.” 
*Claude Lanzmann é jornalista, escritor e cineasta, nasceu em 1925.                    
                                            Photos by Henri Cartier-Bresson - Paris, 1946


quarta-feira, 10 de abril de 2013

O movimento do Caos




“O caos da região corporal é apenas um recorte do grande caos que é o próprio ‘mundo’.”
Heidegger


Em meus estudos filosóficos tardios estou a viajar sobre o conceito “caos” mais precisamente a partir de Heidegger, meu filósofo de referência em muitos momentos e, que me leva pensar sobre todas as coisas, próprio do homem do século XXI, o pensar sobre as coisas que vão do mínimo observar ao máximo de se perder no tempo histórico das ideias...algo mais ou menos idealizado mas totalmente absorvido no caos, esse que Heidegger traz de Nietzsche e analisa em seu livro “Nietzsche”.
Nietzsche, o filósofo que por anos, no meu tempo de aluno de filosofia, em que ouvi de um professor de lógica enamorado e encantado pela luz analítica disse num só som tonitruante “Nietzsche não é filosofia, se querem Nietzsche, mudem de curso, vão para letras, para história, aqui é filosofia”. Nunca mais esqueci essa máxima. Quase desisti do curso, em partes abandonei, larguei esse professor e suas ideais, exatamente, levantei-me e fui ao bar do prédio em que ficava o curso de filosofia e caminho tinha uma livraria, de quebra, parei, me encantei, adquiri o livro de Pierre Klossowski, “Sade, meu próximo” uma edição em português da editora Brasiliense.




“O caótico designa, para nós, o emaranhado, o confuso, todas as coisas se precipitando uma sobre as outras em todo sem pé nem cabeça. Caos não significa apenas o não ordenado, mas ao mesmo tempo o sem pé nem cabeça na confusão, o emaranhado na precipitação. Caos em significação tardia sempre tem em vista concomitantemente uma espécie de movimento.” Heidegger no livro Nietzsche, Vol. 1, p. 440, Forense Universitária, 2007.

domingo, 7 de abril de 2013

Tardes de outono (L'hermétisme de l'automne)



Desde Hermes até hoje o sol nasce da escuridão, da explosão.
Da luz vem a sombra, os galhos de manjericão na estufa de um quarto escuro. 




Provisório, tudo nasce e morre diante da lente, os galhos pagãos percorrem o Ocidente desta casa rumo ao hermético poço de luz dos olhos de abril. 






sábado, 6 de abril de 2013

Contra o fanatismo

Fonte:  Librairie Espagnole Sonia - imagem trabalhada

"Isto que se retrai
vai se aproximar de nós
no reverso do dia."
Paul Auster

Em homenagem a Amina, a garota tunisiana de 19 anos que postou 2 fotos de topless no Facebook e foi condenada por um líder religioso.

Havia um dia em que os homens diziam: assim é; assim tem que ser e que a vida é uma questão de planejamento e que esse dia jamais chegaria ao seu fim se a conduta fosse acolhida segundo os preceitos religiosos e morais, e que nada poderia desviá-lo do destino. Aí está o problema, a vida não se esgota, mas as autoridades chegam ao fim na condição de sua mortalidade. Digo isso para todos os homens, ah, sim, para o meu umbigo, digo: chegamos ao fim um dia ou chegamos ao começo de um dia a caminhar à beirada da vida até o dia se pôr.
E isso não tem nada a ver com a morte desse homem, de sumir do mapa, de desaparecer sem deixar vestígio, até porque muitos acreditam que ele seja necessário apenas para o seu próprio princípio. O princípio de tentar confinar a vida dos outros em sua crença. 




quinta-feira, 4 de abril de 2013

O Editor de Romances (fragmento)


                                                                                     


  “Minha pele se tornara um palimpsesto de sensações fugazes, e cada camada trazia a impressão de quem eu era.” Paul Auster



Eu vi a melancolia nesses anos todos rondando a casa dos sonhos, dos dias, as noites turvas, os namoros da juventude. Da adolescência mais atrás, minha infância. Mas nunca vi com tanta clareza como nesses últimos anos.
Saltimbancos divertindo os outros. Padres salvando almas. Jamais vi flores mortas sendo recolhidas dos parques por assassinos. Nunca sonhei com tantas idéias mortas e inúteis como nesses últimos anos.
Parece o fim. Mas não finda o fim das coisas, e tudo que já se esgotou pelas próprias mãos recomeçou em mãos alheias sem que eu menos pudesse esperar. Eu penso no primeiro amor dos meus 14 anos, nas primeiras ações dos primeiros dias de como a tristeza e como a alegria ao lado perfilou os sonhos e vigílias.
A insônia acompanhou as noites dessa essa época. Primeiro pelas noites mal dormidas de um reumatismo na perna quando tinha 15 anos, depois a realidade tomando conta da adolescência e tudo se desvendando, se mostrando na concretude sem realidade nenhuma, apenas as paredes dos dias cinzas de inverno.
Agora as noites se acumulam em minha vida e cada noite é igual ao sol que nasce todos os dias, mas a solidão acompanha minha insônia como a única e verdadeira amiga ao meu lado. O certo que é esse imaginário é o remédio para o medo, afugenta-o nas horas inesperadas.
Agora conto com os teus dotes culinários, beijos lânguidos e molhados. Deixamos para trás o Brasil, o buraco deixado do cigarro em minha cama. Um país distante. Um cálice quebrado na sala, um livro que levou emprestado, um CD que roubei de sua casa e as notas dos perfumes que comprei e que nunca saíram de minha casa. Nossa última noite no país foi como uma cantata noturna que tirou o nosso sono até o segundo final da despedida. Era abril.
Na França vivemos a maior parte do tempo inventando coisas para fazermos nas horas vagas. Minhas aulas são apenas seminários e ainda por cima você cuida de crianças numa casa de americanos próximo de nosso apartamento. A única a falar inglês. Isso é um alento. Não sei dizer nada além de um francês precário.
Você costuma dizer que Paris nunca nos cansará. O dinheiro é suficiente para os dois e ainda resta alguma coisa para as viagens de reconhecimento da velha cultura e podermos entrar os séculos adentro.
(Postado em 23 de outubro de 2007)
Foto: Sophie Calle


segunda-feira, 1 de abril de 2013

A música do corpo

    Madrid - inverno


“O dia se porá ante nós.
O dia nos seguirá
rumo ao dia.” Paul Auster


Ouvir o silêncio do corpo e sentir a música, o que a música está causando na fenda que separa o corpo do mundo. É na música essa descoberta, é o que Auster nomeia como ouvir o ritmo do caminhar, a similaridade entre o ritmo do corpo e a música, é como se pudéssemos cantarolar no silêncio e perceber a musicalidade de nosso pulsar, dos passos, da respiração, do vento, do tilintar das coisas e das folhas de outono.
Da luminosidade entrando no pensamento a música tem o significado da natureza, do silêncio no pensamento a música transforma o significado de todas as coisas em algo maior, além da escrita, o movimento da música e do corpo faz a literatura ser livre do escolasticismo.


                                            Alegrete - outono