segunda-feira, 26 de maio de 2008

A livraria no caminho entre o parque e o café



O tempo presente e o tempo passado
Estão ambos talvez presentes no tempo futuro
E o tempo futuro contido no tempo passado.
Se todo o tempo é eternamente presente
Todo tempo é irredimível
T.S.Eliot


No caminho entre o restaurante, café, a livraria do sebo, Ex Libris, e do meu trabalho paro quase sempre para olhar a vitrine. Abro a porta e falo com a moça que atende e pergunto: o que tem de interessante ou quanto custa esse aqui?
Já comprei muitos livros e o que mais impressiona são as dedicatórias, ou quando as pessoas resolvem sublinhar com lápis e canetas coloridas o mesmo livro. Foi hoje, três cores em um livro. Um senhor livro, um T.S. Eliot, Poesia (Collected Poems). Tradução de Ivan Junqueira, Nova Fronteira, 2 edição, 1981.
Livro que já tive, que ganhei um dia de aniversário nos anos 80. Perdi num bar quando estava viajando de férias. Sei lá. Li, reli os poemas depois na casa de uma namorada que me emprestara e tive o trabalho de devolver no final do romance. Nunca vendi um livro que amasse. Terminei os romances em minha vida.
A dedicatória é assim:
“Espero que “Poesia” seja mais um meio de fazer com que continues sempre inspirado. Não deixa morrer o poeta que mora em ti. Com carinho. Sylvia – 17/XII/81”
Isso aconteceu no século passado. Será que o poeta está morto? Cansou da poesia, talvez. Talvez tenha precisado vender para pegar uns trocados. O tempo passou e ninguém come livro nem se alimenta de poesia. Talvez. Quero dizer, não enche barriga. Será que a solidão tomou conta do poeta e ele para precisar comprar um remédio, uma bebida, teve que vender o T.S. Eliot? Eu não teria coragem de me desfazer de um livro como esse.
Sempre fico curioso quando entro nas livrarias de sebo e vou logo ver o que tem anotado em suas páginas amarelecidas. Eu mesmo já comprei um livro que era meu e tinha sido roubado anos antes. Isso quando ainda cursava Filosofia. Levaram o "Contra o Método", mas tempo depois trouxe de volta para casa com minha assinatura e tudo. Sem dedicatória, é claro, porque duvido muito que ganharia de alguém esse tipo de livro. Nele encontrei as páginas sublinhadas pelo gatuno intelectual. Sei quem foi. Um amigo que depois de ler viu que ser anarquista epistemológico era um perigo trabalhando no governo municipal idealista de esquerda de Porto Alegre e isso poderia ser um convite para cortar os pulsos de desilusão ideológica. Ele se desfez vendendo à livraria ou resolveu simplesmente trocar por algo mais voltado aos seus ideais. Sei lá. Não me interessa.

sexta-feira, 23 de maio de 2008


Pablo Picasso e Françoise Gilot


Pablo Picasso em 1910 fala à Gertrude Stein ao observar cabeça, rosto, as pessoas que preenchiam a vida: “Olhe aquele rosto, é tão velho como o mundo. Todos os rostos são tão velhos como o mundo.”
Isso antes da guerra, Gertrude Stein disse que era o tempo em que se podia ficar sentado em um banco vendo a vida passar.
Olhe por mim. Olhe o tempo que é tão jovem e velho como os olhos através do tempo.

segunda-feira, 19 de maio de 2008

Samuel Beckett escreve em apoio a Fernando Arrabal



Carta que Beckett escreveu em apoio à defesa de Fernando Arrabal quando não pode comparecer a testemunhar no julgamento do Arrabal. Típico intolerância das ditaduras, na época, 1967, Francisco Franco e sua polícia prendem o dramaturgo por ter dado o autógrafo do livro "Celebrando a Cerimônia da Confusão" a um jovem logo quando chegou em Madrid. Acusação da prisão na Espanha, dias depois foi preso na sua casa em Múrcia, por de ter escrito uma dedicatória sacrílega e antipatriótica, pela qual poderia ser condenado de seis a doze anos de reclusão.

sábado, 17 de maio de 2008

Barraco em Palomas


Michel Houellebecq e Fernando Arrabal no filme "A Possibilidade de uma Ilha".


Não abro concessão a nada no Maquinaria de Linguagem, exceto quando amigos compreendem a maquinaria de linguagem, exceto quando a derrisiva escritura supera a mediocridade da pronvíncia. Aqui vai o texto do pensador Juremir, leitor de Borges e de Houellebecq entre outros.

Juremir Machado da Silva


Foi uma semana de arromba! Palomas é a capital cultural da sua região. Por estar próxima do Uruguai, organiza um evento chamado Linha Divisória do Pensamento. Os últimos convidados foram o homem de teatro espanhol Fernando Arrabal e um malucão com cabelo de índia velha chamado Gerald Thomas. No passado, Thomas teve algumas boas idéias e deu uma sacudida no tedioso teatro nacional. Depois, cansado de guerra, passou a dedicar-se a um culto esotérico: o thomasismo. A passagem dos dois pela aldeia foi um terremoto que abalou a Cordilheira de Palomas de ponta a ponta e continua repercutindo, ainda mais que um dos jornais locais, A Hora do Diário, sempre ávido por fofocas e barracos, talvez estivesse mordido por não ter conseguido uma entrevista com Arrabal antes da sua chegada ao Brasil. Nem foi por mal. O homem estava simplesmente sobrecarregado. Precisava ir banheiro.
No primeiro jantar em que se encontraram, os dois brigaram. Arrabal criticou os políticos americanos e os comparou a grandes ditadores. Thomas, que se diz membro da equipe de Barak Obama, reagiu com uma provocação perguntando se Arrabal não teria esquecido de citar o ditador espanhol Francisco Franco. A pergunta, obviamente, sugeria alguma simpatia de Arrabal por Franco. Tendo conhecido as prisões franquistas e tendo tido o pai condenado à morte pelos franquistas, Arrabal jogou um livro com a história da sua vida no Índia Velha. Dali em diante nada mais deu certo. Arrabal palestrou e foi ovacionado. Thomas abandonou a própria palestra pela metade e foi vaiado. O outrora pós-moderno original, limitou-se a defender a extinção do Estado de Israel e a emitir um “Heil, Hitler”. Era certamente uma ironia. Afinal, Thomas é de origem judaica. A mídia não prestou atenção a essa irrelevância. A Federação Israelita de Palomas, porém, não gostou das gracinhas do pretenso grande provocador e lançou, com boa dose de razão, uma nota de repúdio. Thomas não pára mais de se explicar.
Para complicar ainda mais o transcendente sátrapa, que não foge de uma boa polêmica e adora contar a sua história, lembra que “la Universidad Bar-Ilan de Tel-Aviv ha realizado con « El extramundi (Papeles de Son Armadans) » en su número XLI, revista creada por Camilo José Cela, el monográfico sobre Arrabal. Toda la contra-portada está ocupada por la firma de Arrabal y la frase ‘¡Viva Israel!’”. Por outro lado, a história que ocorreu com o pai do dramaturgo atual mais encenado no mundo está resumida, para facilitar a vida de qualquer curioso, assim na wikipédia:
“El 17 de julio de 1936 durante el pronunciamiento militar que provocó la Guerra Civil Española el padre de Fernando Arrabal se mantiene fiel a la República, por lo que es condenado a muerte por los rebeldes. La pena es posteriormente conmutada por treinta años de prisión. Fernando Arrabal padre pasa por las prisiones de Monte Hacho, en Melilla (donde intenta suicidarse), Ciudad Rodrigo y Burgos, hasta que el 4 de diciembre de 1941 es trasladado al Hospital de Burgos por una supuesta enfermedad mental. Investigaciones posteriores sugieren que la enfermedad era fingida para conseguir un traslado a un lugar menos vigilado. El 21 de enero de 1942 Fernando Arrabal padre se fuga del hospital en pijama y con un metro de nieve en los campos. Jamás se vuelve a tener ninguna noticia de él, a pesar de las búsquedas minuciosas que se han realizado con posterioridad. A causa de este trauma, como escribió Vicente Alexandre, «el conocimiento que aporta Arrabal está teñido de una luz moral que está en la materia misma de su arte”. Os mais exigente podem ler o livro de Arrabal “Porté disparu” (Plon, 2000).
Estranhamente uma parte da mídia resolveu defender o barraquento. O sujeito insinuou que um notório opositor de Franco estaria protegendo Franco, saudou Hitler e propôs a eliminação de Israel, foi embora sem terminar a palestra (deveria devolver o cachê) e encheu o saco de todo mundo com sua performance amadora. Como nada tinha para dizer e o oponente já brilhara em cena, restou-lhe questionar a validade do encontro. Sobrou até para o hotel Sheraton de Palomas. Furioso por não conseguir se conectar à internet com seu mac, Thomas queria ir embora na segunda-feira pela manhã, antes mesmo da palestra. O hotel não estava à sua altura. Convencido a ficar, encenou durante o seu arremedo de conferência uma tentativa fracassada de conectar o laptop. Sem dúvida, foi uma das mais duras críticas ao capitalismo neoliberal já feitas por um artista genial inconformado com o absurdo cotidiano.
Os trabalhadores da arte também se manifestaram. Houve espaço na mídia para todo mundo. Palomas viveu um grande momento. Depois que o iconoclasta Fernando Arrabal dormiu na frente de Eva Sopher, a eterna guardiã do Teatro São Pedro, tudo se tornou permitido. Deus está morto. Graças a esse ato digno de um transcendente sátrapa do Colégio de Patafísica, eu, que admirava Arrabal, virei seu fã. Enfim, vamos ao povo. Uma teatreira local, representante do sindicato do tédio, mas, segundo ela mesma, grande leitora, criticou a organização do evento por ter convidado os dois e por não dar oportunidade aos artistas estaduais de falar para mais de mil pessoas. A pregadora de peças esqueceu que os artistas locais colocam-se à disposição da população regional com seus espetáculos a cada ano. Pouca gente aparece. Por que será? Em todo caso, Palomas pretende investir no futuro em um evento maior para artistas caseiros, o Fronteirinhas do Pensamento. Buenaço!
Ao longo de semana, A Hora do Diário, explorou o assunto insaciavelmente. No começo, parecia disposta a liquidar Thomas. Em seguida, passou a enterrar Arrabal também para aliviar um pouco a situação de Thomas. Ao final, já estava abertamente do lado do Thomas. Por quê? Quem pode saber? O thomasismo, pelo jeito, é uma doença de segundo caderno. Desde antes da vinda a Palomas, Thomas botou defeito em Arrabal: garantiu que o espanhol costumava faltar aos eventos com os quais se comprometia, visitou o site do dramaturgo e o considerou “careta”, fez o seu jogo de cena. A verdadezinha é cristalina: Thomas não suporta concorrência. Mas é nosso. Ou quase. Temos, portanto, de inventar argumentos para defendê-lo. Ao menos, num aspecto se chegou à originalidade absoluta: deve ser a primeira vez que A Hora do Diário, jornal da comunidade judaica de Palomas, protege alguém que se permite propor a extinção de Israel. Não é Fantástico?

sexta-feira, 16 de maio de 2008

Viva La Vida na Maquinaria de Linguagem



Arte de capa do novo álbum do Colplay, "Viva La Vida or Death And All His Friends". Inspirada na pintura "A Liberdade guiando o Povo" do pintor francês Eugène Delacroix a textura Viva la Vida, em tinta branca.



Texto bom e barato é texto que sai da palavra-pensamento e corre pelas veias até a rua; do outro lado. Texto ruim, nesta cidade, é texto exatamente com isso que se parece, corre nas veias, e no outro lado encontra a leitura que interpreta a vida. A mesma coisa para quem vive do sangue alheio, digo da lágrima, da ária, das cores do Outro. O que se deve fazer é subir as escadas antes que o leitor provinciano te alcance. Escreva, vomite sobre a mesa, não do bar, essa é peruca velha e batida em cabeça do Ego e aí cabe de tudo. É museu do tempo. O Ego da cidade é histórico, segue a leitura na hora zero, segue os pátios, porque potreiro é coisa de quem ama a cidade. Eu amo a letra na cabeça, a contrapalavra no pensamento que sai da imagem poética e entra tela adentro. Sentado em minha bergère, leio antes de olhar o prédio que esconde a história, os textos que escoam e Viva La Vida da maquinaria de sons do Colplay.

domingo, 11 de maio de 2008

A Lembrança do Pensamento


Olhar do café


“O inicial acontece apropriadamente antes de tudo aquilo que está por vir, e advém, por isso, apesar de veladamente, como o puro vir ao homem histórico. Ele nunca perece, ele nunca é algo que passou.” Heidegger (Nietzsche II – A Lembrança da Metafísica).


O início é o começo do pensar diante do histórico. É o ser manifesto nas coisas e deste inicial o pensar desvela o acontecimento em face do já acontecido. A lembrança do passado está aos olhos para aquém de quem nunca tocou o acontecimento sem antes de ousar ir além. Estar presente na vontade é não estar pressupondo estar além, de outro modo, é poder ter as características reais de se alcançar a lógica do que é imposto. A racionalidade do acontecimento não mais é a tentativa idealista de acontecer sem que haja a dúvida, pois quem duvidaria da prova? Só o louco que se vale do pensamento. A poética é o artifício, uma das saídas do homem, a outra é o bater de frente com a lógica nas próprias alternativas do pensador, a saber, nunca escapar do cerne das questões, nunca deixar de conhecer o miolo do pão abatumado da história e nunca se dar por vencido em face das autoridades instituídas. Para isso o início é a primeira lembrança do acontecimento que me vem à cabeça depois de ler Heidegger e o pensamento fundador em Nietzsche. Aquilo que nunca perece é o que nos move, nos toma pela mão e nos leva à reflexão a não desistir do pensamento. A maquinaria do pensar é estar na linguagem e nas suas iniciais leituras do tempo dos homens que não desistiram do “improvável” enfrentamento de vida.

domingo, 4 de maio de 2008

Ao acaso, isso é vida e literatura

(Fim de tarde no Sena)

"Dedicatória: Me ame, ame meu guarda-chuva" James Joyce


Depois de ler Sandra no blog Fantasias de Escritura — O Romance — sobre o ponto de fuga para o romance me veio uma enxurrada de textos à cabeça. Veio com essa chuva de fim de semana que não dá trégua. Veio primeiro Marcel Proust no ensaio sobre Flaubert, autor que ele não se refere como um grande entusiasta e anota aos meus olhos: “creio que só a metáfora é capaz de conferir certo tipo de eternidade ao estilo, e talvez não exista em toda obra de Flaubert sequer uma única bela metáfora”.

Depois me veio Paul Valéry nos Cadernos quando escreve:

Fazer pensar
“Não cabe ao autor, mas ao outro fornecer os seus sentimentos. A finalidade de uma obra — honesta — é simples e clara: fazer pensar. Fazer pensar, a contragosto, o leitor. Provocar atos internos.”

Maurice Blanchot: “A posteridade não é prometida a ninguém e não faz a felicidade de nenhum livro”. Quando a leitura chega a nós, sempre a primeira vez, poderá não ser definitiva. Outro dia leremos novamente, outro sentimento, outro momento para se pensar.

Depois James Joyce no belo Giacomo Joyce:
“Teia de aranha sua caligráfica, traçada longo e fino com tranqüilo desdém e resignação: uma garota de categoria”.
“Ela nunca assoa o nariz. Uma figura de linguagem: o menor em lugar do maior.”
“Uma pessoa adorável. Meia-noite, depois do concerto, sempre subindo a via San Michele, estas palavras foram ditas em surdina. Vai com calma, Jamesy! Por acaso você nunca andou pelas ruas de Dublin de noite soluçando um outro nome?”

sexta-feira, 2 de maio de 2008

A resposta poética à verdade é filosófica


Blue nude de E.E. Cummings

O que oculta e é velado no discurso é o que está apenas esperando para ser dito? O ceticismo de Nietzsche em relação às pretensões de verdade da ciência são desígnios contra o pensamento que fecha o pensar e para isso ele parte da origem, da Verdade primeira que já trouxe lacrado as possibilidades e Deus, é o primeiro como verdade. Daí a ciência tem esse valor de ser fanática em seu postulado para Nietzsche. É o psicologismo que no fundo não atinge a ciência mas é o importuno discurso sobre o que deve ser dito e pensado.
Quando a ciência ocidental se formou como discurso? Gadamer remonta, “quando os gregos formularam esta ciência, separaram o Ocidente do Oriente e colocaram-no em seu próprio caminho” (§ 46 p.59). É o que dá para se pensar que a nossa vontade de conhecer tenha se formado nesse ímpeto, bem antes mesmo do pensamento monoteísta vir à tona. Foi a salvação do pensamento contra as verdade da religião, as posturas da ciência, do pensamento ideológico.
Depois tivemos Heidegger, a resposta poética, como prefere Rorty, a filosofia próxima do poeta para afirmar e combater novamente a verdade da ciência.
Gadamer leva-me ao ponto não do ceticismo, mas das linguagens atuais, dos métodos e me remete à crítica da objetivação, das supostas construções acadêmicas tecnológicas do saber:
“Experimentamos constantemente formas de comunicação para aquilo que não é objetivável, formas que nos são proporcionadas pela linguagem, inclusive pela dos poetas” (§49, p.63).