domingo, 30 de setembro de 2007

O homem nômade e o imaginário de uma geração


Foto de Jean Baudrillard




“A menos que, por uma alquimia cujo segredo é preciso encontrar, as armas da crítica possam servir à crítica das armas.” Michel Maffesoli

“Meu partido é um coração partido e as ilusões estão todas perdidas. Os meus sonhos foram todos vendidos...” Cazuza



Palavras-chave: imaginário, ideologia, lógica da dominação.

O homem nômade ergométrico lembra da letra em que Cazuza cantou “ideologia, eu quero uma para viver”. Cazuza, esse istmo entre os sonhos da Modernidade e o desencantamento, não da poesia, mas do fato de se estar no mundo, acreditando na tão prometida revolução e nos valores mais supremos que poderiam estar chegando a um Brasil “jovem”, como os ideólogos gostam de proferir.
Aquele garoto viveu antes de todos o imaginário da “revolta da poesia”, qual Maffesoli escreveu nos anos 70 propondo um pouco da aura marginal do onírico para combater a racionalização dos excessos da ideologia. Daí, mais tarde, a revolta da poesia procurar a ideologia apenas para se viver o prazer para não se transformar futuramente em risco de vida.
Não há confusão nisso, há apropriação de termos, conceitos apenas por parte dos ideólogos, porque eles jamais entenderiam o que Cazuza tentou dizer, porque sempre acharam que Cazuza gostaria de ter essa ideologia social. A constatação está nos heróis que morreram para ele, seja na luta armada ou de overdose. A dose era de Vida e não de ordem.

quinta-feira, 27 de setembro de 2007

O imaginar das palavras


Les Amants-1904-Picasso



“Nós somos o seu mundo e elas o nosso. Para capturar a linguagem não precisamos mais que usá-las. As redes de pescar palavras são feitas de palavras.”
Octavio Paz

O que não nos permite mais nos vermos, é o que permite de nós sermos sozinhos, por breve espaço do tempo, onde tudo se evaporou. Hoje ficou um vazio, uma solidão alojada ao lado do corpo inerte.
A tortuosa solidão está aí, na tela, no espaço entre os minutos que não lembraremos nunca mais e o que não permitirá que eu vá mais além, mas mesmo assim, mesmo, existe um processo de memória recente, algo que tange o lado sensível da reflexão. E os outros sentidos? O espaço imaginal, lugar em que tecemos nossos sonhos, e de lá tratamos de registrar, esse espaço que é o lugar do momento mútuo de ainda existir a possibilidade dos encontros.
Como se eu sentisse algo por alguém no plano virtual, mas que a idéia, numa construção, acaba dando espaço para a memória reconstituir todos os dias essa idéia.

segunda-feira, 17 de setembro de 2007

O homem nômade ergométrico (parte 3)


Normandie, 1996- Jean Baudrillard



“A repetição não se contenta em multiplicar os exemplares sob o mesmo conceito; ela coloca o conceito fora de si e faz com que ele exista em outros exemplares hic et nunc. Ela fragmenta a própria identidade, como Demócrito fragmentou e multiplicou em átomos o Ser-Uno de Parmênides.”
Gilles Deleuze em Diferença e Repetição

Palavras-chave: nomadismo, diferença, movimento e fixo e repetição, Nietzsche, Deleuze e Maffesoli

O homem nômade ergométrico, já sem as restrições morais, talvez por ter lido demais literatura, ouvido demais música clássica e uma diversidade contemporânea de pop pós-rock, ele, este homem crê na diferença e como afirma Deleuze: para essa diferença não ser apenas a negatividade da vida teremos que observar a repetição como ziguezagueando o conceito para se mostrar fora do fixo.
O homem nômade na sua esteira é feminino/masculino. É parte quebrada da afirmação racional das categorias kantianas, portanto, todos os nômades não ficam fixo e se atrevem a nunca se apegar ao historicismo e crenças do Estado. Ele não gosta dos restauradores porque eles simplesmente restauram porcarias para os movimentos dos outros. A crença na Verdade é uma das coisas que o homem nômade combate no cotidiano, a outra; bem, ela passa ao lado da avenida em dia de desfile patriótico e cultura de sua santa cidade.

sábado, 15 de setembro de 2007

A Verdade não me seduz


Foto de Sophie Calle






A Verdade anda longe das possibilidades da Aventura e da Liberdade. Aventura pára em um ponto onde a linguagem possa ser alcançada e sem que depois nos arrependamos do que pensar nos possíveis estragos. A aventura das palavras e das frases, aquilo que Paul Ricoeur nos mostra, “ela faz surgir, no próprio cerne da semântica da palavra, uma incerteza, uma inquietação, um espaço de jogo, a favor do qual se torna de novo possível lançar uma ponte entre a semântica da frase e a semântica de palavra”. Uma interação entre a aventura e o que se escreve sobre o que se pensa e dizemos.
Retomo todos os dias, pelas manhãs preferencialmente, temas que considero pertinente à compreensão do cotidiano. Um deles é sobre o postulado da palavra Verdade nesta compreensão. Não há juízo nenhum que me faça a crer que a Ciências Humanas se vale dela para poder melhor chegar a conclusivas sem que o fim possa ser surpreendente. Mais uma vez, isso, escrito apenas em 1977 por Barthes, no livro “Leçon”, lá se vão anos, e o positivismo na cabeça dos acadêmicos ainda dá o nó necessário para no mínimo afastá-los de vez da compreensão do cotidiano de uma leitura mais livre das escrituras. Adeus ao pensamento único e salve a transdisciplinaridade!!!
A “literatura trabalha nos interstícios da ciência”, escreveu Barthes e mais: “A ciência é grosseira, a vida é sutil, e é para corrigir essa distância que a literatura nos importa”, e depois é ler Morin ou Deleuze, Lyotard para arejar numa manhã de sábado.

terça-feira, 11 de setembro de 2007

As imagens percebidas


Sophie Calle







Duas imagens agora em minha memória, a primeira do poema de Baudelaire “Car je sui ton bom ange” de eu ser teu anjo bom e a outra, Paul Celan “iça, onde moras, sua capital, a inocupável”.
Retomar esses signos como força de expressar uma manhã de sol, em que os anjos só aparecem em sonhos, a morte ronda e vigia os que dormem e depois, percorrer os lugares inocupáveis da cidade invisível.
Como se o telefone ao lado pudesse rever os escritos fenomenológicos de Merleau-Ponty quando diz que “o movimento de reflexão ultrapassaria a finalidade: transportar-nos-ia de um mundo fixo determinado a uma consciência sem falha, ainda que o objeto percebido seja animado por uma vida secreta e que a percepção como unidade se refaz sem parar.”
Percebo que não adianta usar o telefone ou simplesmente entrarmos na blogosfera para ter a compreensão da vida secreta de um anjo ou de uma cidade escondida.

domingo, 9 de setembro de 2007


Foto de Sophie Calle



Do Real ao Imaginário

“O que é dito não atormenta mais e por isso mesmo tranquiliza.”
Da Lógica da Dominação de Michel Maffesoli



É preciso se estar acordado para podermos sonhar no ínterim em que conhecemos as pessoas até o momento que o estranhamento toma seu lugar de origem, qual seja, o de nos defrontarmos com situações inusitadas e de imaginarmos dentro do mundo, do imaginário das pessoas até perdermos o horizonte do nosso mundo.
O que é sonhado é aprendido no momento que tomamos a forma de lembrar, de narrar, quando tomamos as rédeas deste sonho e conseguimos nos safar dos desfechos reais. Muitas vezes optamos por estar no ambiente catártico do sonho tomando forma e corpo de escritura. A Maquinaria de Linguagem é esse retorno ao onírico, ao imaginário dos amantes, do pensamento que não se priva de conhecer o Outro sem que possa acordar e prontamente levantar com os que ainda estão sonhando na realidade.

segunda-feira, 3 de setembro de 2007

Diário da China de Edgar Morin


Capa de Eduardo Miotto
Tradução de Edgard de Assis Carvalho



Texto inédito que sairá pela Editora Sulina de Edgar Morin. O livro se chama Diário da China. A primeira edição está sob os meus cuidados. Lançamento neste mês de setembro. Morin virá aos leitores com a primavera. Aí vai uma provinha.

30/8/1992
Antes da partida para a China

Antes da viagem, me dou conta de que ignoro quase tudo sobre a China, a mais antiga civilização do mundo. Em minha memória não retive quase nada das antigas leituras que fiz das obras de Granet e Grousset . Imobilizado por quinze dias pelos efeitos provocados por um lumbago, foi com grande prazer que li o romance À beira d’água. O que depreendi de sua leitura foi que eles, os chineses, são como nós e, ao mesmo tempo, diferente de nós. Eu que sempre reitero minha pretensão de possuir um espírito planetário, tinha apenas noções e informações esparsas sobre essa imensa região do planeta. Na época do maoísmo triunfante e repleto de glória, motivado por minha obsessão pelo problema comunista, passei a concentrar minha atenção sobre a China.

domingo, 2 de setembro de 2007


Foto de Jean Baudrillard- London, 1997



A desaparição do mito e a ilusão do cinema



Não há cadáver do real, e por isso mesmo o real não está morto: ele desapareceu.
Jean Baudrillard
O sonho de todo artista é transformar cada idéia em algo ao mesmo tempo cômico e dramático, verdadeiro e falso.
Fançois Truffaut


Jean Baudrillard retoma à superfície o imaginário do cinema no cenário em que a história deveria ser a protagonista. A literatura apresenta sua força partindo de um real lançado num tempo que transcende o histórico. Ray Bradbury narra o que o filme apresenta para além da crítica social que se poderia ter na história. A história acaba o momento que a imagem toma conta do que é contado.
Para Jean Baudrillard a história é o nosso referencial perdido e o cinema assumiu esse rastro de mito que encontrou sua construção na representação deixada no lugar do acontecimento que se esfacelou. Aquilo que nunca se desfez em nome de uma razão, em nome de uma verdade última é que se jogou na lata do lixo do Ocidente. Assim como se buscou legitimar uma verdade, também se tentou negar todo desvio advindo do cotidiano, do homem, do ludismo, do prazer individual para salvaguardar, numa tentativa, religiosa e moralista, os pressuposto de um homem arranjado para o futuro, pronto para sempre ir além da razão comum.
A história em seu congelamento, um belo dia invade o cinema, dirá Baudrillard. Para alguns em forma da transformação do tempo entre a narrativa e a imagem; para outros, uma barroquização do conteúdo, transformando o real na imagem mais clara daquilo que já não apenas representa mas apresenta o mito em sua extensão.
O excesso de acontecimento anulou a própria possibilidade de ação histórica e onde se via o uno passou a se ver o fragmento das partes sendo contada, narrada através do cinema, da literatura e da imagem que não apenas dá seu signo ao tempo, mas reinventa esse tempo. É o que nos mostra Baudrillard,

O grande acontecimento deste período, o grande traumatismo é esta agonia dos referenciais fortes, a agonia do real e do racional que abre as suas portas para uma era de simulação (Simulação e Simulacro, p. 60).

Esses referenciais perdidos encontram linguagens que no cinema terão seu punctum, como no conceito de Roland Barthes, e sua estetização é que de mais claro representará o signo desse tempo. O tempo em que os objetos se apresentam à clareza de um conteúdo que substituiu a realidade pela tentativa de ir sempre além do acontecimento.
O que narra, escreve na literatura a imagem transposta à tela e descrever o quanto o livro Fahrenheit 451 de Ray Bradbury consegue ser o signo da história em que já não há indícios de histórias. O que era representação se torna hiper-real no flagrante desaparecimento dos objetos que dão sentidos aos acontecimentos. O que se recupera já está perdido.
Truffaut capta todos os signos na narrativa literária. Transpõe uma linguagem que narra um acontecimento que será a desconstrução de uma época porque fala de uma distopia, de um tempo que reúne a idéia do tempo que se esfacela. A história toda é narrada nesse clima de um tempo que descreve uma sociedade fictícia e ao mesmo tempo, no transcorrer da narrativa inverte a imagem do real naquilo que supostamente poderia verdadeiro.