domingo, 2 de setembro de 2007


Foto de Jean Baudrillard- London, 1997



A desaparição do mito e a ilusão do cinema



Não há cadáver do real, e por isso mesmo o real não está morto: ele desapareceu.
Jean Baudrillard
O sonho de todo artista é transformar cada idéia em algo ao mesmo tempo cômico e dramático, verdadeiro e falso.
Fançois Truffaut


Jean Baudrillard retoma à superfície o imaginário do cinema no cenário em que a história deveria ser a protagonista. A literatura apresenta sua força partindo de um real lançado num tempo que transcende o histórico. Ray Bradbury narra o que o filme apresenta para além da crítica social que se poderia ter na história. A história acaba o momento que a imagem toma conta do que é contado.
Para Jean Baudrillard a história é o nosso referencial perdido e o cinema assumiu esse rastro de mito que encontrou sua construção na representação deixada no lugar do acontecimento que se esfacelou. Aquilo que nunca se desfez em nome de uma razão, em nome de uma verdade última é que se jogou na lata do lixo do Ocidente. Assim como se buscou legitimar uma verdade, também se tentou negar todo desvio advindo do cotidiano, do homem, do ludismo, do prazer individual para salvaguardar, numa tentativa, religiosa e moralista, os pressuposto de um homem arranjado para o futuro, pronto para sempre ir além da razão comum.
A história em seu congelamento, um belo dia invade o cinema, dirá Baudrillard. Para alguns em forma da transformação do tempo entre a narrativa e a imagem; para outros, uma barroquização do conteúdo, transformando o real na imagem mais clara daquilo que já não apenas representa mas apresenta o mito em sua extensão.
O excesso de acontecimento anulou a própria possibilidade de ação histórica e onde se via o uno passou a se ver o fragmento das partes sendo contada, narrada através do cinema, da literatura e da imagem que não apenas dá seu signo ao tempo, mas reinventa esse tempo. É o que nos mostra Baudrillard,

O grande acontecimento deste período, o grande traumatismo é esta agonia dos referenciais fortes, a agonia do real e do racional que abre as suas portas para uma era de simulação (Simulação e Simulacro, p. 60).

Esses referenciais perdidos encontram linguagens que no cinema terão seu punctum, como no conceito de Roland Barthes, e sua estetização é que de mais claro representará o signo desse tempo. O tempo em que os objetos se apresentam à clareza de um conteúdo que substituiu a realidade pela tentativa de ir sempre além do acontecimento.
O que narra, escreve na literatura a imagem transposta à tela e descrever o quanto o livro Fahrenheit 451 de Ray Bradbury consegue ser o signo da história em que já não há indícios de histórias. O que era representação se torna hiper-real no flagrante desaparecimento dos objetos que dão sentidos aos acontecimentos. O que se recupera já está perdido.
Truffaut capta todos os signos na narrativa literária. Transpõe uma linguagem que narra um acontecimento que será a desconstrução de uma época porque fala de uma distopia, de um tempo que reúne a idéia do tempo que se esfacela. A história toda é narrada nesse clima de um tempo que descreve uma sociedade fictícia e ao mesmo tempo, no transcorrer da narrativa inverte a imagem do real naquilo que supostamente poderia verdadeiro.
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