terça-feira, 22 de janeiro de 2013

DESAFORISMOS

                                                    Anthony Gerace


“Nada mais estúpido do que aprender decorando. Mas, se não se exercita a memória, ela se atrofia. Então, repisaram as primeiras fábulas de La Fontaine.”
(Flaubert, Bouvard e Pécuchet, p. 314, Estação Liberdade)

Nem tudo o que observo é o todo da minha imaginação.

A imaginação anda solta, presa ao dono ela sobrevive à moral, por isso o dono se desliga da imaginação.

A roupa que usas é a aparência mais exata dos teus sentimentos.

O que achas dos meus olhos? Sei, tu és o negativo do acobertamento, por isso andas a pensar que sou invisível.

A rua da minha infância é o retrato de minha alma adulta, a solidão vaga no tempo como a idade viaja à cidade.

O desafogo do enamorado só se realiza no momento em que ele percebe que não dá mais pé.

A melhor maneira de suprir a solidão é inventar um jeito de dormir com ela sem roncar.

Proteja sua amada, ela não tem culpa de que o lixo da cidade é uma questão de desamor pela vida.

A maior ofensa à língua é morder a própria caudal dos pensamentos e desconhecer a grandiosidade do acaso. (à Paul Valéry)








                                                     

domingo, 20 de janeiro de 2013

Livro de Paris

                              © Foto de Albert Chevojon. Paris alagada, transbordamento do Rio Sena, 1910.
                             


“O livro é sem autor porque se escreve a partir do desaparecimento falante do autor. Ele precisa do escritor, na medida em que este é ausência e lugar da ausência.”
Maurice Blanchot



É de cima que vejo seus mistérios, desligo-me dos dias, que me extravio em seus becos, que sigo seus cafés pelo cheiro no tempo, que retomo fôlego após tomar um vinho, e prossigo qual gato escuro, a me perder em sua história. Com olhos atentos, penetro em seus túneis, cato restos da vida como se estivesse a buscar o sentido das ruas no aroma das chaminés de seus prédios. Banho-me em sua chuva e passo a passo vou à nascente das estações em busca do próximo trem. Dia após dia, acordar aos teus olhos é poder viver a luz que vem da velocidade dos sonhos de tuas paredes vívidas e de tua opulência cimeira aos transeuntes.

“O livro é livro quando não remete a alguém que o tenha feito, tão puro de seu nome e livre de sua existência quanto do sentido próprio daquele que o lê.”
Maurice Blanchot



segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Les yeux de la Seine

                                          Imagem: Luc Besson, Angel-A
                                          Tradução: Emmanuel Tugny    

   “C'est dimanche au miroir,
Dans le rêve, on dort,
La bouche dit la vérité” Paul Celan



La création entière, tout l'élan de la vie verse en toi ,
Toute marche, chaque oeil,
chaque crachat te vise.
Tu es la source du bon et du triste,
Des barques cinglent en toi,
Mégots, tronçons des douleurs, morts invisíbles,
Et un bruit dans l'air qui inspire.
Tu es la couche unique des rêves,
De ceux qui aiment, de ceux qui, un jour,
Furent lynchés par la ville.
Tu es l'égide des deux plans de la vie,
En toi sont le bien et le mal.
Des rues qui passent en toi,
Flanent au-dessus ta couche 
Des gosses, le passé nazi, le pas du philosophe, la chute, le mur,
L' Absurde, l'arôme sorcier de tes hanches, de tes recettes.
Passent en toi les soleils et les lunes des siècles,

Les couleurs, la main du dandy, celle qui passe, longeant ton immensité.



domingo, 13 de janeiro de 2013

Os olhos no Sena

                                       


“No espelho é domingo,
no sonho se dorme,
a boca fala a verdade” Paul Celan

A Paul Celan e Walter Benjamin

Toda a criação, todo o ímpeto de vida deságua em ti,
Todo o caminhar, os olhos,
Os escarros te visam.
És a fonte do bem e da tristeza,
Singram em ti barcos,
Bagana de cigarros, toras de dor, mortes invisíveis,
E um inspirador som no ar.
És o berço único dos sonhos,
Dos que amam e dos que um dia
Foram linchados da cidade.
És o protetor dos dois lados da vida,
Abrigas o bem e o mal.
Das ruas que passam em ti,
Flanam por cima de teu leito
Crianças, o passado nazista, o andar dos filósofos, a queda, o muro,
O absurdo, o aroma feiticeiro de tuas ancas, de tuas cozinhas.
Passam em ti todos os sóis e luas dos séculos,
As cores, as mãos do dândi, uma passante à margem de tua imensidão.




“A cidade burguesa, Paris-Ville, bem distinta de Paris-Cité, cresceu na margem direita e sobre as pontes, que naquela época eram construídas por toda parte. Seu segmento mais influente era constituído pelos comerciantes – entre os quais liderava a corporação que comandava o comércio pelo rio. O mercado mais importante surgiu no lugar onde se cruzavam a rua por onde chegavam os peixes e a rua por onde os camponeses das várzeas vizinhas traziam verduras, junto à igreja de Saint-Eustache. Trata-se do mesmo lugar onde hoje se encontram os Les Halles, o mercado Central de Paris.” (Fritz Stahl, Paris Berlin, 1929, p.67) Fragmento extraído do livro Passagens do Walter Benjamin, p. 838, Editora UFMG e Imprensa Oficial, 2006.
Escrevi parte desta pequena ode ao Sena em um café nos Les Halles, próximo onde o Mercado Central de Paris existiu. Fevereiro de 2012, Paris, janeiro de 2013, Porto Alegre.

sábado, 5 de janeiro de 2013

A escrita e o nadar

                                                      (The Swimmer) de Lynne Ramsay




A escrita tem seus mistérios, a simplicidade da escrita está em sua relação com o corpo, a água, e os braços que edificam os caminhos mais imbricados da narrativa e a linguagem não surge de um modelo que se aprende em escolas mas da relação do ato de respirar, nadar em sincronia à imaginação de estar no caminho dos pensamentos e histórias, que necessitarão depois ganhar forma no momento de narrar o deslizar em águas desconhecidas.
O estilo está na braçada, na respiração em seu tempo certo, nos pés que se movem em sincronia com o movimento do corpo. O corpo, ao natural, acelera o ritmo impondo a força que vem dos pulmões, a respiração cuida de dar fôlego ao pensamento ao mesmo tempo que eleva todos os músculos no movimento da água, e braços em um sincronismo com a música atravessa as paredes e rios em direção ao oceano. Esse é o movimento da dança, do corpo na água transluzente que desliza nos lugares onde os pés não sentem o chão, mas podem encontrar o caminho em canais e correntezas do ato criativo para depois desaguar na vida.
O ritmo que a natação dá ao corpo é o buscar das palavras no silêncio úmido do pensamento: é a melhor maneira de respirar na sincronia da linguagem com o ato de se exercitar até a exaustão do corpo. É um cansar sem perder a respiração de vista, porque o estar na água faz com o que o corpo sinta o coração, o seu bater, e o que se sente é o murmulho das ideias no movimento dos braços em contato com a atonalidade da água em ritmos de palavras. O tempo de sessenta minutos ininterruptos na água, abre os pulmões, oxigena o cérebro e move as palavras até o outro lado margem da criação em puro ato de concentração e esquecimento. 


A escrita começa no corpo, é a música do corpo, e ainda que as palavras tenham significado, possam às vezes ter significado, é na música que os significados começam. Sentas-te à mesa para escrever fisicamente as palavras, mas na tua cabeça continuas a caminhar, sempre a caminhar, e o que ouves é o ritmo do teu coração, o batimento do teu coração. (Paul Auster - Diário de Inverno, 2012, Asa, Alfragide, Portugal, p. 175)

                              Crédito: Adam Pretty



quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

Chover no molhado

                                         
   
                                                                                         Umbrella figure in Street




“Por isso a vontade de trazer o ente amado de volta à vida; de minha parte, eu faria tudo o que fosse humanamente possível para satisfazer-lhes a vontade. Eu ressuscitaria a pessoa em palavras e, depois de impressas as páginas e de a história estar encerrada entre duas capas, essas pessoas teriam algo a que se apegar pelo resto da vida.” Paul Auster – Desvarios no Brooklyn




Entra ano e sai ano e a chuva continua molhada, ela não escolhe data, horário nem o lugar para cair. A chuva primeira de 2013 me pegou na madrugada, esperava o táxi na rua, noite de tempestade, a noite deserta, vento forte e estava como um pinto molhado, então, o melhor lugar para se abrigar é em frente ao Hospital de Clínicas de Porto Alegre, já que estava ali perto. Todos anos faço isso, claro, quando passo a virada de ano na casa de meus amigos, esse ano não foi a exceção, queria estar no Rio de Janeiro na praia de Copacabana mas estar perto dos melhores amigos é o prenúncio de um bom novo ano. A chuva veio, o frio me pegou de calças curtas, literalmente, ensopado na frente do hospital. Tranquilo e sem trema (coisas da famigerada nova ortografia da língua portuguesa), fui me abrigar no ponto de táxi do hospital. No ano passado a mesma coisa mas esse ano, além da chuva, observei mais gente no saguão do Clínicas, uma família inteira que passou a virada do ano lá, provavelmente com alguém da família doente, mas logo o homem que aparentava ter a minha idade, já nos cinquenta, me disse, – “é meu filho, ele está aqui, infelizmente, né”, sorriu. Da mesma forma, dei um sorriso triste e comentei com ele alguma coisa, algo desnecessário, um alento que mais parecia um abraço, um aperto de mãos. Ele riu me observando como já tivesse me visto em alguma vez na vida. Ao seu lado uma menina linda, uma garotinha de uns 12 anos, com lágrimas nos olhos, se lamentando, que não era justo isso estar acontecendo com seu irmão, foi o que ouvi. O homem e sua esposa, consolavam-a, diziam que tudo ficaria bem, que logo ele estaria em casa; havia mais um casal que fazia parte da família, os avós e mais duas senhoras, todos juntos. Todos nós, no saguão do Clínicas, na espera de um táxi, e a chuva mandando ver, vento e árvores luzindo e luzes noturnas de um novo ano,  enquanto isso, chegaram dois carros, eu era o primeiro da fila, eu prontamente cedi o meu a eles, disse que tudo bem, que esse ano estava até melhor, pois logo surgiram os táxis e que no ano passado eu fiquei quase duas horas na espera. Eu disse, e esse ano tem a bendita chuva, a chuva para nos dar a boa nova, que era um bom sinal ter me molhado, a menina sorriu, parou de chorar, me viu todo molhado, e pensou – ele deve ter razão.
Não sei se tenho razão, mas sei a dor interior de estar “hospedado” em um hospital, sei o quanto os outros sofrem junto com os que lá estão, em frente ao hospital, na espera de um táxi para retornarem as suas casas. Eles partiram. Fiquei a pensar, lembrei logo de um filme francês A guerra está declarada, de um casal de jovens que enfrentam isso com seu filho, ainda bebê, quando descobrem que ele está doente, começa aquela corrida à vida, a busca da cura em hospitais. Neste filme chorei, tal qual a menina por seu irmãozinho, depois passou. Sorri e pensei, nunca subestime o poder dos filmes.