quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

Chover no molhado

                                         
   
                                                                                         Umbrella figure in Street




“Por isso a vontade de trazer o ente amado de volta à vida; de minha parte, eu faria tudo o que fosse humanamente possível para satisfazer-lhes a vontade. Eu ressuscitaria a pessoa em palavras e, depois de impressas as páginas e de a história estar encerrada entre duas capas, essas pessoas teriam algo a que se apegar pelo resto da vida.” Paul Auster – Desvarios no Brooklyn




Entra ano e sai ano e a chuva continua molhada, ela não escolhe data, horário nem o lugar para cair. A chuva primeira de 2013 me pegou na madrugada, esperava o táxi na rua, noite de tempestade, a noite deserta, vento forte e estava como um pinto molhado, então, o melhor lugar para se abrigar é em frente ao Hospital de Clínicas de Porto Alegre, já que estava ali perto. Todos anos faço isso, claro, quando passo a virada de ano na casa de meus amigos, esse ano não foi a exceção, queria estar no Rio de Janeiro na praia de Copacabana mas estar perto dos melhores amigos é o prenúncio de um bom novo ano. A chuva veio, o frio me pegou de calças curtas, literalmente, ensopado na frente do hospital. Tranquilo e sem trema (coisas da famigerada nova ortografia da língua portuguesa), fui me abrigar no ponto de táxi do hospital. No ano passado a mesma coisa mas esse ano, além da chuva, observei mais gente no saguão do Clínicas, uma família inteira que passou a virada do ano lá, provavelmente com alguém da família doente, mas logo o homem que aparentava ter a minha idade, já nos cinquenta, me disse, – “é meu filho, ele está aqui, infelizmente, né”, sorriu. Da mesma forma, dei um sorriso triste e comentei com ele alguma coisa, algo desnecessário, um alento que mais parecia um abraço, um aperto de mãos. Ele riu me observando como já tivesse me visto em alguma vez na vida. Ao seu lado uma menina linda, uma garotinha de uns 12 anos, com lágrimas nos olhos, se lamentando, que não era justo isso estar acontecendo com seu irmão, foi o que ouvi. O homem e sua esposa, consolavam-a, diziam que tudo ficaria bem, que logo ele estaria em casa; havia mais um casal que fazia parte da família, os avós e mais duas senhoras, todos juntos. Todos nós, no saguão do Clínicas, na espera de um táxi, e a chuva mandando ver, vento e árvores luzindo e luzes noturnas de um novo ano,  enquanto isso, chegaram dois carros, eu era o primeiro da fila, eu prontamente cedi o meu a eles, disse que tudo bem, que esse ano estava até melhor, pois logo surgiram os táxis e que no ano passado eu fiquei quase duas horas na espera. Eu disse, e esse ano tem a bendita chuva, a chuva para nos dar a boa nova, que era um bom sinal ter me molhado, a menina sorriu, parou de chorar, me viu todo molhado, e pensou – ele deve ter razão.
Não sei se tenho razão, mas sei a dor interior de estar “hospedado” em um hospital, sei o quanto os outros sofrem junto com os que lá estão, em frente ao hospital, na espera de um táxi para retornarem as suas casas. Eles partiram. Fiquei a pensar, lembrei logo de um filme francês A guerra está declarada, de um casal de jovens que enfrentam isso com seu filho, ainda bebê, quando descobrem que ele está doente, começa aquela corrida à vida, a busca da cura em hospitais. Neste filme chorei, tal qual a menina por seu irmãozinho, depois passou. Sorri e pensei, nunca subestime o poder dos filmes.


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