sábado, 5 de janeiro de 2013

A escrita e o nadar

                                                      (The Swimmer) de Lynne Ramsay




A escrita tem seus mistérios, a simplicidade da escrita está em sua relação com o corpo, a água, e os braços que edificam os caminhos mais imbricados da narrativa e a linguagem não surge de um modelo que se aprende em escolas mas da relação do ato de respirar, nadar em sincronia à imaginação de estar no caminho dos pensamentos e histórias, que necessitarão depois ganhar forma no momento de narrar o deslizar em águas desconhecidas.
O estilo está na braçada, na respiração em seu tempo certo, nos pés que se movem em sincronia com o movimento do corpo. O corpo, ao natural, acelera o ritmo impondo a força que vem dos pulmões, a respiração cuida de dar fôlego ao pensamento ao mesmo tempo que eleva todos os músculos no movimento da água, e braços em um sincronismo com a música atravessa as paredes e rios em direção ao oceano. Esse é o movimento da dança, do corpo na água transluzente que desliza nos lugares onde os pés não sentem o chão, mas podem encontrar o caminho em canais e correntezas do ato criativo para depois desaguar na vida.
O ritmo que a natação dá ao corpo é o buscar das palavras no silêncio úmido do pensamento: é a melhor maneira de respirar na sincronia da linguagem com o ato de se exercitar até a exaustão do corpo. É um cansar sem perder a respiração de vista, porque o estar na água faz com o que o corpo sinta o coração, o seu bater, e o que se sente é o murmulho das ideias no movimento dos braços em contato com a atonalidade da água em ritmos de palavras. O tempo de sessenta minutos ininterruptos na água, abre os pulmões, oxigena o cérebro e move as palavras até o outro lado margem da criação em puro ato de concentração e esquecimento. 


A escrita começa no corpo, é a música do corpo, e ainda que as palavras tenham significado, possam às vezes ter significado, é na música que os significados começam. Sentas-te à mesa para escrever fisicamente as palavras, mas na tua cabeça continuas a caminhar, sempre a caminhar, e o que ouves é o ritmo do teu coração, o batimento do teu coração. (Paul Auster - Diário de Inverno, 2012, Asa, Alfragide, Portugal, p. 175)

                              Crédito: Adam Pretty



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