quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Ironia Prometeica




Não quis me dar o teu cuzinho, não quis mais me amar, me trocou por outro, outra qualquer em nossas vidas, uma vida em tua minha casa, uma casa em nossa canção, uma história com fim em teu beijo, um amasso em que não esqueço na porta, uma escada que não acaba, e os olhos em teus cabelos que voltaram a ficar crespos, tua boca que voltou a me procurar, escondida na religiosidade disfarçada de desejo, minha única saída foi te exibir em praça pública, gritar todos os nomes do mundo para ver desfolhar o gozo das mordidas que te dei no carnaval de que não te encontrei.
Final:
Não pense que morar longe é uma dádiva de tua presença, é uma merda de livro sem melodia morar longe dos teus seios que envelhece com meu amor.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Entre Brésil et France, le livre



Entre Brésil et France, le livre

sábado, 22 de outubro de 2011

Compaixão



Vejo acácia em teus olhos, um brilho, um cheiro em meus dedos,
Tuas mãos tocam a vida, o coração passa ao lado,
Entrelaçam imagens entre teus olhos,
A voz mais alta que o tom das cores.
E os seios, ah, eles escondem os acordes atonais do teu português.
Morde sílabas, brilha os teus olhos, um acorde entre tuas pernas.
O fim sempre começa em música.

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Museu da Vida




Minha vida é uma vida de tudo,
é parte de outra vida que é minha.
E, portanto, toda a vida de outra minha vida
é forma de viver de mim,
a vida minha é parte da vida minha que escorre entre os dedos de minhas mãos.
E não há vida que morre,  
porque minha vida é a minha própria mão a musicar a vida.
Abrir a vida de minha vida é música.
Violoncelista Yo Yo Ma
a tocar meus olhos da vida de música. 

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Revolução


                        
Alexander Deineka

Revolução

Na Terra-mãe, a língua é de todos
A cor dos olhos está na flâmula ao vento,
a vida no tempo é como árvore que envelhece.
A religião está no Estado como o Estado está nos ombros,
a nadadura e os braços encontram o outro lado rio.

Aqui ninguém me ouve, não leram meu manifesto,
aqui o andar é silencioso, ruidoso é o ufanismo.
O engano é o vapor digitalizado nos cérebros,
por isso, é isso, língua ensopada, carne crua, espeto torto
e um monte de vozes a entoar o que não existiu.
Saio de casa encontro uma bandeira,
um cavalo mais vivo que a vida
a levar a História.



domingo, 11 de setembro de 2011

As Twin Towers - Power Inferno

                                                    Jean Baudrillard 



     Nova York é a única cidade no mundo a retraçar assim, ao longo da sua história, com uma prodigiosa fidelidade, a forma atual do sistema com todas as suas peripécias. Deve-se, portanto, supor que o desabamento das torres – acontecimento ele próprio único na história das cidades modernas – prefigura a concretização dramática dessa forma de arquitetura e do sistema por ela encarnado. Como pura modelização informática, financeira, contábil, digital, eram o cérebro dele. Ao atacá-las, os terroristas atingiram, portanto, o centro nevrálgico do sistema. A violência do global também passa pela arquitetura, pelo horror de viver e de trabalhar nesses sarcófagos de vidro, aço e concreto. O pavor de morrer aí é inseparável do pavor de aí viver. Por isso a contestação dessa violência passa também pela destruição dessa arquitetura.
     Esses monstros arquitetônicos sempre suscitaram um fascínio ambíguo, uma forma contraditória de atração e de repulsão, e, portanto, em algum lugar, um desejo secreto de vê-las desaparecer. No caso das Twin acrescenta-se a isso tudo essa simetria perfeita e essa condição de gêmeas, com certeza uma qualidade estética, mas sobretudo um crime contra a forma, uma tautologia da forma, que provoca a tentação de quebrá-la. A própria destruição respeitou essa simetria: duplo impacto com alguns minutos de intervalo – suspense que leva a crer ainda que possa tratar-se de um acidente; mais uma vez é o segundo impacto que assina o ato terrorista.
Power Inferno, p.12-12
Editora Sulina, 2002
Capa: Vitor Hugo Turuga
Tradução: Juremir Machado da Silva

sábado, 10 de setembro de 2011

Réquiem para as Twin Towers




"É bastante logicamente que a ascensão da potência exacerba a vontade de destruí-la. Mas há mais: de alguma forma, ela é cúmplice da sua própria destruição. Essa denegação interna torna-se mais forte na medida em que o sistema se aproxima da perfeição e de ser Todo-Poderoso. Tudo aconteceu, portanto, através de uma espécie de cumplicidade imprevisível, como se o sistema inteiro, fragilizado internamente, entrasse no jogo da sua própria liquidação, logo no jogo do terrorismo. Disse-se: 'Deus não pode declarar guerra a si mesmo'. Sim, pode. O Ocidente, na posição de Deus, divinamente Todo-Poderoso e de legitimidade moral absoluta, torna-se suicida e declara guerra a si mesmo." 
Fragmento de Power Inferno de Jean Baudrillard


Capa de Vitor Hugo Turuga
Tradução de Juremir Machado da Silva
Editora Sulina, 2003.

O Editor de Romances

                             Foto de Jean Baudrillard - Normandie,1996


“Estou cada vez mais longe das imagens, como se elas não fossem mais palpáveis.” Suzana


Gostei de ouvir da boca de uma quase cega... Uma cega, de fato, Suzana não apalpa mais as imagens, mas ela tem o controle da linguagem, o signo é a perfeição da tristeza dos meus olhos. Não suporto me sentir sem a presença de Suzana, não me conformo com o som que passa, ela capta; com o sopro da minha voz, ela sente. Não vejo mais a felicidade dela diante do mar, sentir lá longe alguém morrer no fundo dos meus sonhos, lá está o que não se foi. ... Ela apalpa as coisas, terrivelmente concretas...

domingo, 4 de setembro de 2011

Octavio Paz - Escrito con tinta verde






La tinta verde crea jardines, selvas, prados,

follajes donde cantan las letras,
palabras que son árboles,
frases que son verdes constelaciones.

Deja que mis palabras, oh blanca, desciendan y te cubran
como una lluvia de hojas a un campo de nieve,
como la yedra a la estatua,
como la tinta a esta página.

Brazos, cintura, cuello, senos,
la frente pura como el mar,
la nuca de bosque en otoño,
los dientes que muerden una brizna de yerba.

Tu cuerpo se constela de signos verdes
como el cuerpo del árbol de renuevos.
No te importe tanta pequeña cicatriz luminosa:
mira al cielo y su verde tatuaje de estrellas.

Tristan und Isolde - Prelude


terça-feira, 30 de agosto de 2011

O editor de romances - Noites - cap. 12

                                                     Carcavelos -Portugal

“Toda a amargura retardada da minha vida despe, aos meus olhos sem sensação, o traje de alegria natural de que usa nos acasos prolongados de todos os dias.”
Livro do Desassossego por Bernardo Soares– Fernando Pessoa
(Instituto Português do Livro, 1982)
 A noite sangra. Os cabelos ao chão se misturam ao vinho derramado. Suzana estava ferida. Ela chorava e dizia ter tropeçado em algo, e que de repente não viu mais nada, o piso era um abismo agradável de se deixar cair, um caudaloso e escuro oceano. O pior era não poder mais enxergar daqui no futuro, mas não poder sentir os objetos neste momento lhe deixou apavorada, não sentir a forma de todos os outros signos era inconcebível e de não poder fazer de uma estrada o lugar que a levaria ao farol. Esquecer de tudo era a solidão. Que gostaria de terminar seu livro, a linguagem não poderia abandoná-la, logo agora que tudo estava tão próximo do final. Portugal era um silêncio só naquele início de noite. O país tinha lá suas cegueiras, anos e anos que deu as costas ao mar e se virou para a Europa como se fosse um convidado de honra. Ninguém nos via, ninguém sabia da existência de Suzana, ela era como aquele povo, que vive ao lado do mar, que sonha em conhecer o desconhecido, que pelo menos o desconhecido lhe leva ao passado. Suzana queria o presente, essa a diferença. Um novo alento para vida, o povo precisava de alguém, mas dos olhos de Suzana é que não poderia nascer esse novo signo. Não agora que ela estava em condições de poder dar forma ao seu trabalho. Ela não é uma heroína. Depois, depois, uns dias após nossa partida, tudo bem, aí poderiam se valer do espírito dela, da beleza que por ali passou naquele lugarejo. Apenas os olhos da Suzana é que desconheciam a sua própria grandeza. (“Esqueço. Não vejo, sem pensar.” – F.P.)