domingo, 11 de setembro de 2011

As Twin Towers - Power Inferno

                                                    Jean Baudrillard 



     Nova York é a única cidade no mundo a retraçar assim, ao longo da sua história, com uma prodigiosa fidelidade, a forma atual do sistema com todas as suas peripécias. Deve-se, portanto, supor que o desabamento das torres – acontecimento ele próprio único na história das cidades modernas – prefigura a concretização dramática dessa forma de arquitetura e do sistema por ela encarnado. Como pura modelização informática, financeira, contábil, digital, eram o cérebro dele. Ao atacá-las, os terroristas atingiram, portanto, o centro nevrálgico do sistema. A violência do global também passa pela arquitetura, pelo horror de viver e de trabalhar nesses sarcófagos de vidro, aço e concreto. O pavor de morrer aí é inseparável do pavor de aí viver. Por isso a contestação dessa violência passa também pela destruição dessa arquitetura.
     Esses monstros arquitetônicos sempre suscitaram um fascínio ambíguo, uma forma contraditória de atração e de repulsão, e, portanto, em algum lugar, um desejo secreto de vê-las desaparecer. No caso das Twin acrescenta-se a isso tudo essa simetria perfeita e essa condição de gêmeas, com certeza uma qualidade estética, mas sobretudo um crime contra a forma, uma tautologia da forma, que provoca a tentação de quebrá-la. A própria destruição respeitou essa simetria: duplo impacto com alguns minutos de intervalo – suspense que leva a crer ainda que possa tratar-se de um acidente; mais uma vez é o segundo impacto que assina o ato terrorista.
Power Inferno, p.12-12
Editora Sulina, 2002
Capa: Vitor Hugo Turuga
Tradução: Juremir Machado da Silva
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