terça-feira, 26 de agosto de 2008

Acordar



“A estátua que se desterra e que se apresenta à admiração, nada espera, nada recebe, parece, antes, arrancada ao seu lugar. Mas o livro que se exuma, o manuscrito que sai do jarro para se expor à plena luz da leitura, não nasce de novo, por uma chance impressionante?” Maurice Blanchot


Quase todo mundo um dia acordou no meio da noite, de madrugada com a sensação de uma leitura, um livro, que essa leitura poderia estar ali, ao seu lado. Eu, de repente me vi conversando com esse sentimento, um misto de vigília com um acordar desgovernado ainda letárgico, em que a razão alcança o ponto suficiente apenas para lembrar que existem coisas a serem feita. Abro os olhos lentamente. Percebo a ausência absoluta de um corpo ao lado, vejo que ao lado, na sala, ainda tem uma música tocando. Não consigo lembrar-me de voz nenhuma nem cheiros humanos me fazem voltar deste acordar, entre a vigília e o estado de esquecimento diante do mundo, ou pelo menos, aquilo que a razão identifica como sendo mundo, cidade, casa, amor, noite e morte.
O sono desperta com Blanchot quando diz que um artista é “ignorar que já existe uma arte, ignorar que já existe um mundo”. Me sinto como o leitor de um livro, um leitor do meu acordar. Por isso corri à estante atrás do Blanchot, como se nada pudesse resolver esse enigma do se sentir lido por si mesmo, em estado de absoluto nevoeiro de idéias e ininteligibilidade das coisas.
Se o leitor está num profundo confronto contra o autor, porque sua compreensão que possa existir ao imaginário da obra é de um anonimato, de uma “afirmação violenta” que escapa do controle do autor. Uma obra em que os personagens não importam, uma obra em que os personagens são como esse meu sonho, em que o social não é nada mais que um esquecimento noturno, proporcionado pelo desapego ao cair no abandono dos pensamentos. Esses já sem as idéias, porque elas jazem com os sistemas filosóficos que um dia foram criadas das incertezas dos homens. O leitor venceu! A interpretação se sobrepôs aos fatos.

domingo, 24 de agosto de 2008

Homens sem qualidades



Um romance sem piedades. Ironia da perdição de um personagem que deixa de acreditar nos ideais da própria literatura.

“Alice vem dormir no meu apartamento. Nada lhe contei sobre o meu tortuoso caminho. Ela já me contou que fez amor com mulheres e gostou. Chega com um lindo buquê de rosas para enfeitar e perfumar a casa. Já me convenceu a ter um blog. Vou falar de mim. Sem pudor. Por que teria pudores? Sou um homem feliz com o que Deus tem me dado. Por exemplo, ela. Já temos um pequeno conflito sobre o conteúdo do blog: ela quer que eu faça literatura e não me prenda à estreiteza da verdade. Eu tento mostrar-lhe que filosoficamente a verdade é uma construção coletiva, um imaginário. Ela se irrita e garante que isso é conversa de mentiroso e de canalha. Acabamos sempre na cama”. (Solo, Record, 2008)



Um romance que não crê mais nas promessas da vida. O lúdico atravessa o tempo para encontrá-lo nas reminiscências.

“Talvez tenha começado quando Sonia morreu, não sei, o fim da vida conjugal, a solidão de tudo, a maldita solidão depois que perdi Sonia, e aí eu me arrebentei todo naquele carro alugado, destruí a perna, quase me matei nesse episódio, talvez isso também tenha ajudado: a indiferença, a sensação de que, depois de setenta e dois anos nesta Terra, que se importa que eu escreva sobre mim ou não? Nunca foi algo que eu me interessasse, nem mesmo quando eu era jovem, e sem dúvida nunca tive a menor ambição de escrever um livro.”
“Fugir para dentro de um filme não é como fugir para dentro de um livro. Os livros nos obrigam a lhes dar algo em troca, a exercitar a Inteligência e a imaginação, ao passo que podemos ver um filme — até gostar dele — num estado de passividade mecânica.” (Homem no Escuro, Companhia das Letras, 2008)

História(s) do Cinema



Quarto 666 de Win Wenders

Jean Luc-Godard no filme do Win Wenders fala sobre a morte do cinema, sobre o imaginário do cineasta e o viajante.
"Meu mundo é o imaginário que é uma viagem entre o futuro e o passado, entre o destino e a origem. Como Win, sou um grande viajante." Godard
No seu documentário sobre história(s) do cinema Godard diz:
"Oh que maravilha poder ver o que não exergamos! Oh doce milagre dos nossos olhos cegos."
Em "Janelas da Alma" também vemos a imagem indo além do alcance dos olhos. Além do Mito da Caverna como sugere Saramago. A imagem foge dos ideais para o vazio inebriante do presente. O real não existe por culpa da imagens. O real são as imagens que fragmentam na alma e pouco importa se elas existem demais. Não há do que temer diante do Acontecimento que escapa entre os olhos que vêem diferentemente.

domingo, 17 de agosto de 2008

Barroco do Vazio























"Pois a escrupulosidade de nossa razão nos força a uma terrível inescrupulosidade de sentimento". Robert Musil (O Homem Sem Qualidades)


Existem textos, livros que existirão em mim. Depois de lidos acabo um dia retornando às páginas destes livros, seja porque o livro está na memória, porque ele faz parte das preocupações do momento, ou pelo simples fato de ser um livro, um daqueles que você leu e nunca mais conseguiu esquecer e marcou para sempre em você a palavra na memória. Um dos tantos que já li, do alemão Robert Musil, “O Homem sem Qualidades”, que retomei esses dias e lendo pelo meio, vi que era melhor reler de um todo e já estou envolvido novamente. Percebo o quanto tem de coisas que me marcaram e não conseguia saber de onde eu tinha pensado. De onde eu tirei esse pensamento? Quem me autorizou pensar assim sobre os homens, sobre as relações, sobre o mundo que nos deixa no buraco, entre quatro paredes, só para lembra do novo Auster, do novo “Solo”, do Juremir, o romance da derrisão, dos esquartejamentos da alma e da cultura?
Leio novamente Musil por causa deles, da melancolia. Deixo de ler Saramago exatamente por causa disso. Não vejo nada nele, nem melancolia nem “Years of Solitude” e só a crítica ao homem que se perde nas crenças. Eu amo a crença do outro, desde que fique longe dos meus livros.

quinta-feira, 14 de agosto de 2008

Diálogo sobre o fracasso e a guerra dos Outros



"A vida está cheia de mistérios desses. Há alguma coisa diante da qual toda a razão é impotente." Robert Musil


Não contente com mais uma leitura de o “O Homem sem Qualidades” de Musil, meu amigo Ferdinand Seznec, autor de um só romance, “L’Evasion n’aura pas lieu”, sem edição em português. Conversou comigo ontem por e-mail. Ele ainda reluta outras formas de comunicação pela rede, pelo simples fato de não ter paciência de ficar “visível aos outros”, como prefere dizer. Falamos de nossas vidas, de quando nos encontramos pela primeira vez, nos Anos 90 do século XX. O tema em torno do fracasso, diante de tudo que está acontecendo, ou seja, de nossas forças estarem se esgotando assim como se esgota o amor. “Sem ressentimentos”, diz ele "porque o amor tem a sua duração assim como a glória de um escritor, de um compositor e por vezes". "Muitos de nós acabamos morrendo na mais absoluta consciência do silêncio e sem reconhecimento." Ele estava triste por ter perdido um amigo no ataque russo à Geórgia, na província da Ossétia do Sul. O amigo dele morreu com estilhaços de uma bomba enquanto escrevia mais um romance.

Ferdinand (sobre o fracasso e as perspectivas de um novo livro sair na França)
Sei lá. De nada adiantaria. Eu, você não temos aura. A gente se vira, dribla e se mantém fazendo coisas que não deveríamos, para horror de quem tem aura, mas isso não significa que se possa ir mais longe. Eu já bati no teto.(risos). Daqui não passa. Se eu escrever mais 20 romances o resultado será o mesmo. Cada vez mais eu penso em escrever e guardar, pois o que me dá prazer é escrever, não publicar. É muito provável que seja ruim mesmo, pois, salvo sendo paranóico, não há razão para o mundo estar contra mim. Já até recebi um daqueles elogios tradicionais de uma mulher que leu um ensaio meu que saiu numa revista de filosofia e literatura. Segundo ela, agora sim ficou bom, não ficou como os anteriores, onde o personagem, "eu", ficava se queixando de não ser compreendido como escritor e passava o tempo se masturbando. Ser é ser percebido. Eu sou percebido, nos meus romances, dessa maneira. Deve ter algo errado, pois quando eu penso estar sendo radical e maldito caio na graça das velhinhas de 90 anos. Fazer o quê? Escrever para passar o tempo.

Homem Nômade:
Isso porque você fez aquele texto em cita o Franz Ferdinand e talvez a velhinha adora ouvir essa garotada. Não temos aura porque não pensamos no simples fato, de antes enriquecermos para depois comprarmos a própria glória (risos) Comprando todo mundo e zombando da ignorância. Eu ainda tenho "fé" de enriquecer (risos) depois escreverei um livro com um toque austeriano e a crueldade de Bataille, ou simplesmente, continuarei sonhando e achando que sou melhor que os outros. No fundo nunca soubemos vender o peixe. No final, bem no final, creio que alguém se dará bem...e você quem sabe tenha um livro no Brasil e resenhado na Veja e na Folha de São Paulo (risos). Eu me tornarei um empresário na arte do entretenimento imaginário e um reconhecido acadêmico alternativo e compraremos a fama. Depois jogaremos na lata do lixo para os outros olharem de como é fácil ter glória.

Ferdinand:
Adorei, está muito bom, especialmente o "nunca soubemos vender o peixe". É verdade. Nem saberemos. Somos bons, sim, muito bons, mas como não sabemos vender o peixe, somos vistos de outra forma. Eu também vou continuar sonhando em ser escritor, pois, por personalidade, não sou de deixar de fazer o que gosto, mas cada vez mais tenho consciência de não ser percebido como escritor. No fundo, escrever romances e jogar futebol são equivalentes para mim: um hobby dos domingos à tarde aqui em Paris. Faz sentido. Os leitores que se encantam com os escritores reconhecidos certamente me vêem em relação a eles da mesma forma como me vêem em relação a um jogador de futebol. Aí está: eu sou tão bom escritor quanto jogador de futebol (risos). Vou lá, estou atrasado. Estou indo para a Geórgia visitar a família desse amigo meu. Tenho que ver um jeito de entrar naquela terra. Abraço, Ferdinand.

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

O óraculo da auto-ajuda




Passei anos e anos acompanhando os filmes do Lynch e eis que ele se mostra como a mais absoluta interpretação de sua obra. É só conferir no "Em águas profundas", recentemente traduzido no Brasil pela Gryphus. (David Lynch)

"Cultive a felicidade e a intuição. Seus amigos se sentirão felizes ao seu lado. E as pessoas lhe darão dinheiro!"

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

Mar das imagens


Imagem "História do Cinema" de Godard

O sertão virou mar, mar de angústias para os mais miseráveis. E o mar ao virar sertão, o sertão de idéias de uma época que hoje só consegue a aridez e a lembrança desse tempo, porque não produz, lamenta com idéias de uma classe pensante. Pensamento oblíquo esse que além de vesgo quer ser filme sem conceitos e agora, além de tudo, anda atrás das imagens como um louco correndo pelo deserto adentro em busca de água. Mate a sede com esta escritura! É o que resta para os que não vivem o nascimento do suposto cinema. Idéias? Não, não creio. Patrocínio mesmo.