sábado, 27 de junho de 2015

Sonho

                                     Lisboa


“(...) Serei todos ou ninguém.  Serei o outro
Quem sabe sem saber eu sou, o que fitou
Esse outro, minha vigília. E a julga,
Resignado e sorridente.”
Jorge Luis Borges - Sonho

Depois de dormir um sono errante,
Vaguear pelo inconsciente, correr o mundo,
Entrar por todos os cantos da memória.
Explorar o passado, o vivido, o insignificante,
Em todos os lados, ser personagem e autor,
Depois escrever tudo de forma mais absurda:
O nexo da noite está no acordar vivo.
Ver que o tempo mudou, o sonho é um trem,
Desloca ao passado, se perde, o túnel é o caminho,
Sem temer a censura, o outro lado é a viagem do autor,
O maquinista da noite não teme o fim,
Tem o controle da luz na escuridão,
Seus personagens, um vasto complexo de Outros,
Todos, sujeitos, uns, obra do autor a viver na onírica viagem, prova do recorte da vida que sonha,
O dia, mais cedo ou mais tarde, luz dos olhos,
Acenderá os filamentos da linguagem do noctívago.


   Autor desconhecido


“... e essa regressão precisa deixar pelo caminho toda nova aquisição ocorrida no percurso que vai das imagens mnemônicas até os pensamentos.”

(Freud – “O trabalho do sonho”, p. 244 ‒ Freud – Conferências introdutórias à piscanálise, Obras Completas, vol. 13 , Companhias das Letras, 2014.)

sábado, 20 de junho de 2015

O Existencialismo da Imagem Nua

 
      Jean-Paul Sartre, Simone de Beauvoir, Boris Vian e Michelle. Pari, 1952 – Fonte: Ny Times

                                                   Andres Kertesz



“O olhar do outro afeta o meu de um índice de cegueira. Mas a cegueira provoca a imaginação.”

José Gil

Eis a questão que me envolve às vezes na reflexão, se existe existencialista pós-moderno, depois, em outra linha do pensar, digo a mim com a convicção própria de um homem do século XXI, se é que existe mesmo, é o pós-moderno existencialista.
Se existisse ainda existencialista, certamente não seria pós-moderno, seria um herdeiro do marxismo, seria um saudoso homem diante de questões pós-cartesianas, dentro de um embate profundo sobre a objetivação do sujeito.
Só que isso passou. Se hoje se fala de existencialismo porque existe um resquício sartreano na linguagem que atravessou o século XX, e permanece no corpo de muito pós-moderno existencialista a extensão do tempo que se metamorfoseou, deixou de ter um único ideal.
Tenho o pensamento no pêndulo do tempo, nas ruas de Paris, assim como tenho o olhar na imagem da história e disso posso ter uma certeza ‒ não a verdade que alguns intelectuais procuram ‒, mas o prazer de ver essas contradições que habitam o homem deste século.
Esteticamente, na imagem das pequenas percepções vive um existencialista, talvez o que resta do pensamento sartreano no contemporâneo, no homem que bem ou mal, é o registro vivo de um tempo que se modifica incessantemente.
Esse homem que vive no pensamento está consciente de que o pós-moderno talvez não exista mais, a modernidade tratou de matar toda e qualquer alternativa para a recusa do sujeito que ela mesmo forjou, sua obra, hoje, está na agonia das incertezas. Não se deve culpar o homem por suas escolhas erradas em princípios morais, em conjecturas filosóficas, muito menos em ideias totalizantes. O homem é resultado dessas escolhas.
 A história jogou ao tempo um homem que hoje pode viver como um pós-moderno existencialista, até mesmo num esforço de força metodológica, um homem estético da modernidade tardia existencialista.

  


quinta-feira, 18 de junho de 2015

Jürgen Habermas – o pensador no século XXI



Hoje é o aniversário de Jürgen Habermas, nasceu em Düsseldorf ‒ Alemanha ‒ 18 de junho de 1929. Filósofo e Sociólogo, um dos grandes representantes da Teoria Crítica, soube como poucos atualizar o legado de Marx, de Adorno, Horkheimer e Marcuse. Atuante em questões de seu tempo, chegou neste século com sua obra em plena forma, atualíssimo. Conseguiu trazer temas tão importantes para as Ciências Humanas com uma renovação criativa, como por exemplo, a Teoria do Agir Comunicativo. O Mundo da Vida causou uma tempestade, o autor ganhou interlocutores críticos e, também, atraiu vorazes inimigos nessa esteira teórica que ele nos presenteou em livros. É isso que se quer de um pensador, a potencialidade da obra é, também, a luz que reflete e reflexiona, como pode ser a luz a ofuscar ideias pretensamente únicas e definitivas. Até hoje, Habermas, é um indicativo de que o pensamento crítico ainda vive. O pensador da emancipação, crítico dos exageros do cientificismo e da especialização do conhecimento. Um participante ativo da esfera pública política encontrou ao longo de sua trajetória grandes debatedores, críticos ferozes e nem isso o afastou do debate sobre temas que ainda são mais dos que atuais. Habermas, a meu ver, é um dos grandes, um dos últimos protagonistas do debate que procura ainda ver no homem uma saída para o presente. O futuro sem grandes pensadores está ameaçado?   
“Onde as teorias se encontram numa relação de complementaridade e de pressuposição recíproca, a coerência passa a ser o único critério de avaliação, só sendo verdadeiras ou falsas as proposições particulares que puderem ser inferidas das diferentes teorias.” (p. 720-721
Teoria do Agir Comunicativo: sobre a crítica da razão funcionalista, Vol. 2, Editora Wmf Martins Fontes, 2012) 

 Sobre a União Europeia
“A União se legitimou aos olhos dos cidadãos, sobretudo, por seus resultados, e não tanto pela satisfação de uma vontade civil política. Isso se explica não só pela história de surgimento, mas também pela constituição jurídica desse constructo peculiar.” (p. 117 ‒ Na esteira da tecnocracia, Editora Unesp, 2014)

segunda-feira, 15 de junho de 2015

Formas do livro



Os livros leem, os livros comem, os livros tomam forma,
Desde que o livro é livro, o livro nunca deixou de se mover,
O livro some, o livro morre, o livro errante, o livro erra,
O livro é fuga, o livro liberta, o livro queima, o livro sara.
Os livros não desistem, o livro é folha, o livro é tela,
O livro brilha, o livro é no escuro, o livro ouve, o livro é tátil,
O livro é reza, o livro é anarquia, o livro é corpo, o livro é sublime.
O livro é torto, é página, é linguagem, é música, o livro é nuvem.

sábado, 6 de junho de 2015

A nadadora







“Qual o sentido da vida? Isso era tudo ‒ uma pergunta simples: das que tendem a agrilhoar uma pessoa com o passar dos anos. A grande revelação nunca chegou.”
Virginia Woolf (Rumo ao Farol)


Teus braços avançam,
Tuas pernas no fluxo das águas
Tua boca respira no momento certo,
O encontro da existência com o dia,  
Amanhecer,
E lá está a nadar em águas turvas,
Nada é o fim, a cabeça em movimento,
A direção do corpo no vazio das águas.
O maiô Bordeaux em vinho de sonhos,
A juventude flutua na agitação dos sons,  
A pele úmida,
De lábios a sorver o sal.
Olhos devoram, abertura de pernas,
Move o movido do pensamento,
Nadante, serpenteia, imersa,
Nudez que singra o cloro da piscina.
O céu é tua pele aguada, o sorriso molha,
O corpo que marca e transparece,
Seca aos olhos do observador.

sexta-feira, 5 de junho de 2015

A música é um livro, o livro é um filme

        Jean-Pierre Léaud em “Os Incompreendidos” (Les Quatre Cents Coups) de François Truffaut

“Meu amor, acredite
Que se pode crescer assim pra nós
Uma flor sem limite
É somente por que eu trago a vida aqui na voz.”
Caetano Veloso (Minha voz, minha vida)


A música é a expressão mais afinada da linguagem num país que tem a tradição cultural em sua musicalidade como uma das marcas mais profundas. A geração que me marcou, não esquecendo toda a história da música, foi ao tempo, a geração que me fez romper com um certo tipo de passado. Um necessário fim chegou ao fim quando ouvi pele primeira vez alguns, uns, Caetano, Gil e Chico.

Quantas coisas se pode fazer na vida, nobre ou simples, as do cotidiano ou as da alta-cultura? A linguagem nos leva a todos os lados da vida, a música é o impulso mais cru, sua natureza vem do ventre, do berço, vem das casas, das ruas, dos amigos, dos amores. Só a música nos inspira mais que a leitura. Quem um dia já não saiu do livro para música, do filme para música como se as imagens fosse o clarão do mundo num roteiro para vida? No meu caso a tradição de ouvir música em uma eletrola RCA Victor, aquela do Nipper, o cachorrinho, foi o que me lapidou e me jogou ao mundo. De vez em quando sinto a nostalgia dos elepês que ouvia na minha casa.

Quando ouvi pela primeira um dos discos que mais me marcaram, “Caetano e Chico: juntos e ao vivo”, gravado em Salvador no Teatro Castro Alves, eu era apenas um guri no Alegrete. Demorei alguns anos para ter o disco em minhas mãos, até então a alternativa era ouvir no rádio, na JB do Rio de Janeiro, na El Mundo de Buenos Aires. Por onde eu andava, gostava de falar sobre música, imaginava que a música poderia ser uma ponte para me levar ao futuro, como se fosse um ônibus que partia na rodoviária, ia com as letras na cabeça, a pensar nas letras de Caetano é que me via de volta ao desejo de ler. A audição de discos do Caetano, do Gil, do Chico, do João Gilberto, na casa de um amigo, era como se eu já tivesse bem longe. Seguíamos até altas horas discorrendo sobre música, era pura fruição, deleite saber que era tão lindo poder ouvir canções maravilhosas e, ao mesmo tempo, poder ir para casa com as letras na cabeça. O sentido de ouvir, de todos poderem falar ao mesmo tempo, como se a linguagem fosse mais veloz que aquele momento, tudo mesclava, melodia, amor, revolução, contracultura, tradição, o novo do que era dito. E eu era único nisso tudo. Extasiado, eu voltava para casa, me perguntava em que daria tudo isso, onde eu iria parar... ”eu sou neguinha”, eu fui embora da cidade, levei meus sonhos, alguns discos, umas fitas cassetes até a capital.

Em Porto Alegre eu consegui me aprofundar mais e mais na tríade música-literatura-cinema. Aqui descobri o meu gosto, era mais um entre os jovens, mas dentro do refinamento do passado, do novo. Extrapolei, exorcizei os fantasmas dos anos de chumbo, fui aprendendo com a vida, me ferrei no amor, amei demais os amigos, me dei bem entre os amores, tudo isso sempre acompanhado de Caetano Veloso, de Gilberto Gil e Chico Buarque. Isso tudo recheado de Cartola, Nelson Cavaquinho e Tom Jobim. Não precisava mais nada para chegar vivo no século XXI. É o que penso de Caetano Veloso “os livros são objetos transcendentes/ mas podemos amá-los do amor táctil”. 
(Texto publicado no Correio do Povo - Caderno de Sábado - 30/05/2015)