sexta-feira, 5 de junho de 2015

A música é um livro, o livro é um filme

        Jean-Pierre Léaud em “Os Incompreendidos” (Les Quatre Cents Coups) de François Truffaut

“Meu amor, acredite
Que se pode crescer assim pra nós
Uma flor sem limite
É somente por que eu trago a vida aqui na voz.”
Caetano Veloso (Minha voz, minha vida)


A música é a expressão mais afinada da linguagem num país que tem a tradição cultural em sua musicalidade como uma das marcas mais profundas. A geração que me marcou, não esquecendo toda a história da música, foi ao tempo, a geração que me fez romper com um certo tipo de passado. Um necessário fim chegou ao fim quando ouvi pele primeira vez alguns, uns, Caetano, Gil e Chico.

Quantas coisas se pode fazer na vida, nobre ou simples, as do cotidiano ou as da alta-cultura? A linguagem nos leva a todos os lados da vida, a música é o impulso mais cru, sua natureza vem do ventre, do berço, vem das casas, das ruas, dos amigos, dos amores. Só a música nos inspira mais que a leitura. Quem um dia já não saiu do livro para música, do filme para música como se as imagens fosse o clarão do mundo num roteiro para vida? No meu caso a tradição de ouvir música em uma eletrola RCA Victor, aquela do Nipper, o cachorrinho, foi o que me lapidou e me jogou ao mundo. De vez em quando sinto a nostalgia dos elepês que ouvia na minha casa.

Quando ouvi pela primeira um dos discos que mais me marcaram, “Caetano e Chico: juntos e ao vivo”, gravado em Salvador no Teatro Castro Alves, eu era apenas um guri no Alegrete. Demorei alguns anos para ter o disco em minhas mãos, até então a alternativa era ouvir no rádio, na JB do Rio de Janeiro, na El Mundo de Buenos Aires. Por onde eu andava, gostava de falar sobre música, imaginava que a música poderia ser uma ponte para me levar ao futuro, como se fosse um ônibus que partia na rodoviária, ia com as letras na cabeça, a pensar nas letras de Caetano é que me via de volta ao desejo de ler. A audição de discos do Caetano, do Gil, do Chico, do João Gilberto, na casa de um amigo, era como se eu já tivesse bem longe. Seguíamos até altas horas discorrendo sobre música, era pura fruição, deleite saber que era tão lindo poder ouvir canções maravilhosas e, ao mesmo tempo, poder ir para casa com as letras na cabeça. O sentido de ouvir, de todos poderem falar ao mesmo tempo, como se a linguagem fosse mais veloz que aquele momento, tudo mesclava, melodia, amor, revolução, contracultura, tradição, o novo do que era dito. E eu era único nisso tudo. Extasiado, eu voltava para casa, me perguntava em que daria tudo isso, onde eu iria parar... ”eu sou neguinha”, eu fui embora da cidade, levei meus sonhos, alguns discos, umas fitas cassetes até a capital.

Em Porto Alegre eu consegui me aprofundar mais e mais na tríade música-literatura-cinema. Aqui descobri o meu gosto, era mais um entre os jovens, mas dentro do refinamento do passado, do novo. Extrapolei, exorcizei os fantasmas dos anos de chumbo, fui aprendendo com a vida, me ferrei no amor, amei demais os amigos, me dei bem entre os amores, tudo isso sempre acompanhado de Caetano Veloso, de Gilberto Gil e Chico Buarque. Isso tudo recheado de Cartola, Nelson Cavaquinho e Tom Jobim. Não precisava mais nada para chegar vivo no século XXI. É o que penso de Caetano Veloso “os livros são objetos transcendentes/ mas podemos amá-los do amor táctil”. 
(Texto publicado no Correio do Povo - Caderno de Sábado - 30/05/2015)
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