quarta-feira, 28 de agosto de 2013

Os olhos da Gata



Teus olhos felinos jamais esconderam a solidão, os olhos farejaram o mundo. Os pés desceram as escadas da casa dos Prigents sem deixar rastro, os quatro pés do vento do esquecimento no armário do andar de cima será o segredo do casal. Nossos corações não esquecerão o fugidio agrado da Gata. A Gata mordia os cacos das rugas, andava de um lado a outro sem ser vista, a pele brilhava ao ter a Gata ao lado, só Anne percebia seu talento de fuga. Ela, a Gata jamais dava as horas aos homens, benzia as mãos de sua dona, a Gata atravessou o oceano, amou a casa dos verdadeiros amigos, marcou seu tempo nas roupas dos convivas. A Gata partiu para São Paulo no último suspiro de verão.

Yeux de Chat


Tes yeux félins n’ont jamais su cacher la solitude, tes yeux ont reniflé le monde. Tes pattes ont dévalé les escaliers de la maison des Prigent sans y laisser de trace, les quatre pattes du vent de l’oubli dans l’armoire de l’étage du dessus seront le secret du couple. Nos cœurs n’oublieront pas les tendresses fugaces du chat. Elle mordillait les fragments de rides, elle allait d’un endroit à l’autre en cachette. Ta peau brillait quand le chat était contre, seule Anne reconnaissait ses talents de fugueuse. Le chat n’accordait jamais ses faveurs aux hommes, elle bénissait les mains de sa maîtresse. Elle a traversé l’océan, elle a aimé le foyer des amis vrais, elle a laissé l’empreinte de son temps sur les vêtements des hôtes. Elle est partie pour São Paulo au soupir dernier de l’été.
(Transtradução: Ronan Prigent)


terça-feira, 20 de agosto de 2013

O comedor de rosas


“A verdade é que me coloco a uma distância de quinze a vinte anos à frente deste tempo.”
Thomas de Quincey


Rosa roseira, escravo dos espinhos, o homem tira o véu da cabeça, deixa à amostra sua identidade, não teme os olhos, nem o odor dos dias tristes.
Manhã de mate:
matinal noturno de olhos ensebados, guarda-ressaca.
Manhã de sol:
livro aberto, tela de música, uma linguagem dos sentimentos diria o Thomas de Quincey do futuro.
Impressão digital na fronte, mágoa de domingo,
rio que desce, corre o céu, prédio de janelas escancaradas, seios no parapeito, beleza diante da câmara, olhos negros,
riso lúdico, mãos nos cabelos, o teu corpo é uma flor do presente.


sábado, 17 de agosto de 2013

A arte da ficção segundo Henry James

                                Henry James e seu irmão filósofo William James

No livro “A arte da ficção”, traduzido por Daniel Piza, Editora Imaginário, o leitor encontrará Henry James em num ensaio maravilhoso apresentando a “Poética” dele, o que ele considera como romance. O ensaio nasceu em resposta a uma conferência proferida por Walter Besant, em 1844. Enquanto Besant exigia do romance um compromisso moral, H. James rebateu com a importância da criação livre, do valor estético contra qualquer imposição apriorística à arte.


Henry James – A arte da ficção

“A única razão para a existência de um romance é a de que ele tenta de fato representar a vida. Quando ele desdenha essa tentativa, a mesma tentativa que se vê na tela do pintor, terá chegado a uma situação muito estranha. Não se espera de uma pintura que seja tão humilde que possa ser esquecida; e a analogia entre a arte do pinto e a arte do romancista é, até onde posso ver, completa. Sua inspiração é a mesma, sua técnica (a despeito da qualidade diferente dos meios) é a mesma, elas podem explicar e sustentar uma à outra. Seu motivo é o mesmo, e a honra de uma é a honra de outra. Os maometanos pensam que a pintura é uma coisa profana, mas já se vai muito tempo desde que os cristãos pensavam assim, e portanto é mais estranho que na mente cristã traços (ainda que dissimulados) de suspeita contra uma arte irmã subsistam até hoje. A única maneira eficaz de apagá-los é enfatizar a analogia a que acabei de me referir – é insistir no fato de que, se a pintura é realidade, o romance é história....”(p.21-22)


sexta-feira, 16 de agosto de 2013

A inexistência de um só começo

    © Bebeto Alves

Todas as manhãs quando movo meu corpo ao movimento das águas imagino o instante do acordar ao tempo... a saudade mata, a nostalgia é a dor esquecida no tempo. Um esquecimento de sóis, de luas que não escondem nada, que transparece no fundo dos olhos. O final do dia é o revigorar dos pensamentos, um voltar ao tempo, a nostalgia se funde na saudade, e tudo se transforma, vira uma só coisa entre tantas: a Vida!



                  © Antonio Paim

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

Dobras do corpo

                                              René Magritte- The Key to the Fields. La Clef de champs, 1936

                                                      
“Uma coisa é abrigar o ‘obscuro’, uma outra é tropeçar no obscuro como um limite”.
Martin Heidegger (Heráclito)



Eu bem que pensei que pensar em ti seria um dos meus últimos pensamentos de inverno, que a temporada do frio já estaria chegando ao seu tempo de esgotamento. A totalidade das imagens é que consumiram meus olhos que não se cansam de olhá-la através do divã, das janelas, das portas que estão abertas, que ora cerradas escurecem meu caminho... Dos seios, das bundas, dos acordes e das sinfonias e gemidos, eu que fiquei a ver navios morrerem nas águas do Guaíba, nas pedras pude mijar descansado olhando o vento levar o inverno, pude vê-la atravessar a avenida na multidão, nos gritos de gozos, no silenciar dos dedos entre as coxas... Em tudo, eu vi tuas ancas marcando a palma de minha mão com tintas da palheta e das dobradiças da janela do quarto.