sexta-feira, 26 de abril de 2013

A Força das Coisas - Simone de Beauvoir

   

Passagem maravilhosa de Simone de Beauvoir sobre a morte de Camus. Texto que instiga os leitores a conhecer um pouco mais desta grande escritora e do inigualável Albert Camus.

Simone de Beauvoir em “A força das coisas”, p. 212-213, Difusão Europeia do Livro, São Paulo, 1965. Tradução: Maria Jacintha



“Eu estava só em casa de Sartre, numa tarde de janeiro quando o telefone soou: ‘Camus morreu, agora mesmo, num desastre de automóvel’, disse-me Lanzmann*. Voltava do Sul, em companhia de um amigo, o carro fora de encontro a um plátano e ele morrera instantaneamente.Pousei o fone, um nó na garganta, os lábios trêmulos. ‘Não vou chorar, disse-me. Ele não era mais nada para mim.’ Fiquei de pé, junto à janela, olhando a noite descer sobre Saint-Germain-des-Prés, sem poder acalmar-me e sem poder, também, mergulhar em um verdadeiro desgosto. Sartre emocionou-se, também, e durante toda a noite, em companhia de Bost, falamos  sobre Camus. Antes de me deitar, tomei beladonal; eu não mais o usava, desde a cura de Sartre. Precisava dormir; não fechei o olho. Levantei-me e, vestida de qualquer maneira, fui andar dentro da noite. Não era o homem de cinquenta anos que eu lamentava; não era aquele justo sem justiça, severamente marcado, de arrogância sombria, que rasgara meu coração com o seu consentimento aos crimes da França; era o companheiro dos anos de esperança, cujo rosto franco tão bem sabia rir e sorrir; o jovem escritor ambicioso, apaixonado pela vida, seus prazeres e seus triunfos, pelo seu companheirismo, por seu amor e sua fidelidade. A morte ressuscitava-o; para ele, o tempo não existia mais: ontem não tinha mais verdade do que anteontem; Camus, tal como eu o amara, surgia da noite, ao mesmo tempo reencontrado e dolorosamente perdido. Sempre que um homem morre, com ele morre uma criança, um adolescente, um jovem: cada um de nós chora aquele que lhe foi mais caro. Caía uma chuva fina e fria. Na avenida Orléans, vagabundos, encolhidos e transidos, dormiam nas soleiras das portas. Tudo me dilacerava: essa miséria, essa desgraça, essa cidade, o mundo, e a vida, e a morte.” 
*Claude Lanzmann é jornalista, escritor e cineasta, nasceu em 1925.                    
                                            Photos by Henri Cartier-Bresson - Paris, 1946


Um comentário:

Marta Maronez Cigaran Chaves disse...

udo me dilacerava: essa miséria, essa desgraça, essa cidade, o mundo, e a vida, e a morte........ puxa perdi o fôlego.

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