domingo, 26 de julho de 2026

Ranhuras da vida

“... acordou no cume de um sonho que se eleva no céu,
como no cume de uma onda.
E, subitamente, não se recordou de mais nada.”
Ricardo Guilherme Dicke 

Se não estou vendo o que estou sentindo, muito menos o que escrevo, se o mundo cegou na escrita, se tudo o que escrevemos não tem mais nenhum sentido, então, o que me diz? Oh, coração, sinto o pulsar, meus dedos enrijecidos do frio, desse inverno que tudo toma conta da criação, da leitura que não precisa mais ler, que tudo vem na mente, que nos iludimos com nossa falta de propósito em relação à existência, então, o que me diz?

Agora estou vendo meus dedos tocando um piano de letras imaginárias num painel feito da imaginação. Uma ranhura, um tipo de reentrância, uma fenda em que lá fica tudo: sujeiras, lindezas da existência, e um profundo abismo no cosmo. É a física, é entranhar no mundo viajado, imaginado em Odisseu.

Vou recortar meu tempo em oralidade, escrita, amor, desilusão, vida intensa, perda, vida e caos, depois trabalho, criação em desconstrução, som, leitura, doença, renascimento, profunda afinidade com a vida, natação, amor e longevidade dos sonhos.

Não li o que escrevi, apenas senti nas ranhuras.


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