terça-feira, 20 de setembro de 2011

Revolução


                        
Alexander Deineka

Revolução

Na Terra-mãe, a língua é de todos
A cor dos olhos está na flâmula ao vento,
a vida no tempo é como árvore que envelhece.
A religião está no Estado como o Estado está nos ombros,
a nadadura e os braços encontram o outro lado rio.

Aqui ninguém me ouve, não leram meu manifesto,
aqui o andar é silencioso, ruidoso é o ufanismo.
O engano é o vapor digitalizado nos cérebros,
por isso, é isso, língua ensopada, carne crua, espeto torto
e um monte de vozes a entoar o que não existiu.
Saio de casa encontro uma bandeira,
um cavalo mais vivo que a vida
a levar a História.



domingo, 11 de setembro de 2011

As Twin Towers - Power Inferno

                                                    Jean Baudrillard 



     Nova York é a única cidade no mundo a retraçar assim, ao longo da sua história, com uma prodigiosa fidelidade, a forma atual do sistema com todas as suas peripécias. Deve-se, portanto, supor que o desabamento das torres – acontecimento ele próprio único na história das cidades modernas – prefigura a concretização dramática dessa forma de arquitetura e do sistema por ela encarnado. Como pura modelização informática, financeira, contábil, digital, eram o cérebro dele. Ao atacá-las, os terroristas atingiram, portanto, o centro nevrálgico do sistema. A violência do global também passa pela arquitetura, pelo horror de viver e de trabalhar nesses sarcófagos de vidro, aço e concreto. O pavor de morrer aí é inseparável do pavor de aí viver. Por isso a contestação dessa violência passa também pela destruição dessa arquitetura.
     Esses monstros arquitetônicos sempre suscitaram um fascínio ambíguo, uma forma contraditória de atração e de repulsão, e, portanto, em algum lugar, um desejo secreto de vê-las desaparecer. No caso das Twin acrescenta-se a isso tudo essa simetria perfeita e essa condição de gêmeas, com certeza uma qualidade estética, mas sobretudo um crime contra a forma, uma tautologia da forma, que provoca a tentação de quebrá-la. A própria destruição respeitou essa simetria: duplo impacto com alguns minutos de intervalo – suspense que leva a crer ainda que possa tratar-se de um acidente; mais uma vez é o segundo impacto que assina o ato terrorista.
Power Inferno, p.12-12
Editora Sulina, 2002
Capa: Vitor Hugo Turuga
Tradução: Juremir Machado da Silva

sábado, 10 de setembro de 2011

Réquiem para as Twin Towers




"É bastante logicamente que a ascensão da potência exacerba a vontade de destruí-la. Mas há mais: de alguma forma, ela é cúmplice da sua própria destruição. Essa denegação interna torna-se mais forte na medida em que o sistema se aproxima da perfeição e de ser Todo-Poderoso. Tudo aconteceu, portanto, através de uma espécie de cumplicidade imprevisível, como se o sistema inteiro, fragilizado internamente, entrasse no jogo da sua própria liquidação, logo no jogo do terrorismo. Disse-se: 'Deus não pode declarar guerra a si mesmo'. Sim, pode. O Ocidente, na posição de Deus, divinamente Todo-Poderoso e de legitimidade moral absoluta, torna-se suicida e declara guerra a si mesmo." 
Fragmento de Power Inferno de Jean Baudrillard


Capa de Vitor Hugo Turuga
Tradução de Juremir Machado da Silva
Editora Sulina, 2003.

O Editor de Romances

                             Foto de Jean Baudrillard - Normandie,1996


“Estou cada vez mais longe das imagens, como se elas não fossem mais palpáveis.” Suzana


Gostei de ouvir da boca de uma quase cega... Uma cega, de fato, Suzana não apalpa mais as imagens, mas ela tem o controle da linguagem, o signo é a perfeição da tristeza dos meus olhos. Não suporto me sentir sem a presença de Suzana, não me conformo com o som que passa, ela capta; com o sopro da minha voz, ela sente. Não vejo mais a felicidade dela diante do mar, sentir lá longe alguém morrer no fundo dos meus sonhos, lá está o que não se foi. ... Ela apalpa as coisas, terrivelmente concretas...

domingo, 4 de setembro de 2011

Octavio Paz - Escrito con tinta verde






La tinta verde crea jardines, selvas, prados,

follajes donde cantan las letras,
palabras que son árboles,
frases que son verdes constelaciones.

Deja que mis palabras, oh blanca, desciendan y te cubran
como una lluvia de hojas a un campo de nieve,
como la yedra a la estatua,
como la tinta a esta página.

Brazos, cintura, cuello, senos,
la frente pura como el mar,
la nuca de bosque en otoño,
los dientes que muerden una brizna de yerba.

Tu cuerpo se constela de signos verdes
como el cuerpo del árbol de renuevos.
No te importe tanta pequeña cicatriz luminosa:
mira al cielo y su verde tatuaje de estrellas.

Tristan und Isolde - Prelude