quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Poema sem filme


Cena de "O Amor" de Jean-Luc Godard

Chupe minha noite e o meu dia com fascínio,
Dobre a esquina e antes de parar,
corra para meus sonhos,
— 2010 nem começou!

Deixe a rua deserta,
antes de se refugiar em sua casa (Lá estarei sozinho)
Você estará feliz com a família.
A rua não passa por minha casa,
O cotidiano compreende as ruas desertas
mas detesta solidão que se tranca em quartos.

Chupe meus dedos,
o doce é mais doce se dormir
de olhos melados.
A noite entra e sai por ruas desertas,
percorre os sonhos até encontrar o travesseiro letárgico,
em gotas, drágeas, tanto faz, o cotidiano abandona os solitários que morrem de medo da vida.
E 2010 está em sua porta!

domingo, 27 de dezembro de 2009

Transmutação




A religiosidade dos homens é pífia,
Abre a boca e caí o mito,
Fecham as janelas, abre um sol.
Atrás dos dias sempre vem um antes,
O começo não ultrapassa o jogo,
A linguagem contraria Deus,
Ele, entre todos os séculos vividos,
Permanece invisível logo agora.
Ainda bem que Ele abandonou os seus seguidores,
Tinha gente demais no culto achando que o mundo se salvaria.



"Vivre sa vie" de Jean-Luc Godard (1962)

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

ana cristina cesar



Do livro "A teus pés"
La Fora
há um amor
que entra de férias.
Há um embaçamento
de minhas agulhas
nítidas diante
dessa boa bisca
de mulher.
Há um placar
visível em altas horas,
pela persiana deste hotel,
fatal, que diz: fiado,
só depois de amanhã
e olhe lá,
onde a minha lâmina
cortante,
sofrendo de súbita
cegueira noturna,
pendura a conta
e não corta mais,
suspendendo seu pêndulo
de Nietzsche ou Poe
por um nada que pisca
e tira folga e sai
afiado para a rua
como um ato falho
deixando as chaves
soltas
em cima do balcão.

domingo, 13 de dezembro de 2009

Claude Simon e Alain Robbe-Grillet



"Cada romancista, cada romance deve inventar a sua própria forma." (Alain Robbe-Grillet)

“A última parada do bonde ficava cerca de um quilômetro antes do terminal onde os trilhos desapareciam sob a areia da praia, num lugar onde à direita, no meio dessas árvores que crescem nos terrenos úmidos e de ramagem esbranquiçada, abria-se uma longa alameda calçada de pedra também ela quase recoberta pela areia no fim da qual se erguia não propriamente sobre uma saliência mas no alto do que outrora devia ter sido uma duna bastante alta uma construção cercada de pinheiros e de um estilo arquitetônico em moda durante o Segundo Império ou no começo da III República, ou seja imitação, em miniatura, de algum castelo do vale do Loire...”
(Claude Simon – O bonde. p. 67)


“O sentimento de naufrágio cresce ainda com esta parte do texto, em que se trata da longa temporada confusa em Santa Catarina e Rio Grande, na costa distante apenas trezentos ou quatrocentos quilômetros em voo livre (mas por caminhos montanhosos quase impraticáveis) das célebres cataratas que vêm interromper o rio Iguaçu, justo antes de sua confluência com o Paraná, isto é, na fronteira do Paraguai, onde eu acreditava que B, tinha, como tantos outros, achado refúgio, quando a situação em Porto Alegre — durante muito tempo tranquila sob a proteção de suas lagunas — tornou-se de repente inquietante.”
(Alain Robbe-Grillet, p. 72-73)

“Certo, o Novo Romance’ nunca foi uma escola, ainda menos uma teoria literária geral. Sua própria existência enquanto agrupamento de escritores foi, desde o começo contestada, com freqüência pelos mesmos que podem ser considerados como os protagonistas do movimento. Perguntem a Butor, a Pinget, a Duras, a Ollier, mesmo a Sarraute, se os seus livros fazem parte do Novo Romance. Nenhum o admitirá sem reticência, quase todos quererão de imediato precisar suas reservas, vários dentre eles (nem sempre os mesmos segundo as épocas) oporão a tal classificação violenta e totais denegações. Não posso dizer que isso tenha alguma vez me incomodado muito, minha amigável obstinação terá triunfado em relação à frieza prudente, sombria, egocêntrica deles.” (p. 81)

sábado, 12 de dezembro de 2009

Raízes do Mal, o romance



Fragmento do livro, p. 384
Estávamos pelo dia 20, acho, enfim, alguns dias antes do Natal, e eu havia aberto os olhos numa manhã cinza, depois de uma noite agitada em que menininhas eram “colhidas”, em lavouras cheias de espantalhos com cabeça de palhaços, por máquinas loucas e terrivelmente silenciosas, como se tudo se passasse no fundo de um mundo submarino, por exemplo, no fundo de um lago. Eu não havia perambulado pelas redes nessa noite, deixando para a máquina a tarefa de surpreender alguma conexão a uma “Porta 999”. Mesmo assim, amanheci esgotado.
Minha boca estava seca como uma velha esponja esquecida num mormaço. Joguei-me sobre a garrafa de Evian na mesinha-de-cabeceira.
O duplo híbrido me olhava da tela.
– Olá – acabei por dizer entre dois gluglus. Tudo bem?
– Melhor impossível, Dark. A minha noite foi muito boa.
– Ótimo. Assim, contrabalança a minha.
Fiquei em pé com muita dificuldade, forçando as articulações, maltratadas pela noite passada na plantação sangrenta. Caminhei lentamente para o chuveiro.
Já ia abrir as torneiras quando a voz da máquina me chegou através da cortina plástica.
– Inventariei todos os cortes significativos esta noite, Dark. Estamos no bom caminho. Na direção das raízes...
Não respondi e abri com um golpe seco o misturador de água. O jato quente dispersou os restos de pesadelo que atormentavam a minha consciência.
Quando saí do chuveiro, estava apenas recuperando a velocidade normal. Instalei-me na frente da máquina diante da janela que dava para as montanhas.
O céu estava baixo. As cores ganhavam um tom monocromático. Tudo parecia evocar o brilho de um tonel úmido.



Capa de Eduardo Miotto

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Pálida Folha





De repente o amor sorveu a vida.
Atrás dos dias, a noite corria louca,
Treslouca, pálida folha
escorreu dos cabelos um fio de vida.
Enquanto isso: chovia dia a dia após o outro amor
na noite fugidia.

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Nascedouro


Robert Doisneau

Antonio Paim diria — Barthes tem razão em afirmar que a força semiótica da literatura é jogar com os signos em vez de destruí-los, é poder colocá-los numa maquinaria de linguagem. Daí nasceu Maquinaria de Linguagem, nesse jogo de signos, nessa poesia que viaja em barcos perdidos, em estantes empoeiradas, em caligrafias esquecidas. Eu fui atento às vozes do Antonio Paim e Barthes.