segunda-feira, 25 de maio de 2009

Machinery of Whitman – dans l'oeil de Corbière




A Maquinaria de Whitman:

“E que a mínima articulação da minha mão escarnece de toda a maquinaria,
E que a vaca ruminando com a cabeça baixa supera qualquer estátua,
E que um rato é milagre suficiente para fazer vacilar milhões de infiéis”.
(Walt Whitman em Canto de Mim Mesmo, Editora Assírio & Alvim, 1992, tradução de José Agostinho Baptista)

Na Linguagem de Emmanuel Tugny:

“Reflexos respingam em toda parte. No centro, o canal e o passeio, pequenos bíceps arredondados os plátanos, marcos apontando o céu nas paisagens de vidraça vítrea e a serra saltando em parcos montes. Trinta quilômetros que se prefeririam em linha reta e o mar na ponta já escuro com tocos e farpas cinzentos.
Fileiras de Hotéis da Praia e manufaturas de cigarro escuro ao longo do córrego de água entediante. Morlaix é, e principalmente, o frontão retesado de uma linha contínua de fachadas, observando a si mesma em franco mutismo.
A cidade está de costas, claro, ela resiste, recusa o convite; é infinita e propositalmente tranquila em seu infinitamente lunar rasgar do tempo.
As colinas flertam e o viaduto no meio as afasta, na verdade, impedindo os beijos.”
(Corbière le Crevant, Morrer como Corbière, Editora Sulina, 2009, Tradução de Luciano Loprete, no prelo)



Foto de Claudio Santana

sábado, 23 de maio de 2009

Edgar Morin no Campus Universitário de Viseu - Portugal


Foto de Álvaro Larangeira

No último dia 22 de maio Morin, segundo meu amigo Álvaro Larangeira, o pensador foi show de bola. Participou do colóquio Complexidade, Valores e Educação do Futuro. A iniciativa foi do Instituto Piaget. Morin acabou de lançar no Brasil o seu primeiro livro que foi publicado em 1946 na França, O Ano Zero da Alemanha. Confiram pela Editora Sulina e Livraria Cultura.

quinta-feira, 21 de maio de 2009

Uma música no fundo


Foto: Denise Souza

“Não há um parentesco próximo entre romance e música.
Mas existe uma música na estrutura dos meus livros.” Chico Buarque


Quantas coisas se pode fazer na vida, nobres ou simples, as do cotidiano ou as da alta cultura? A linguagem nos leva a todas elas. Ao tempo necessário. Enquanto se espera um voo, se abre um livro. O avião atrasa e as páginas naturalmente avançam conforme o interesse do leitor.

Se ouve uma música, se lê, se olha para os lados, mas a leitura é uma das nobres atividades em meio ao burburinho das escolhas. Se diz que a leitura flui quando existe a consonância entre os signos e o ritmo que proporciona o tom e a compreensão da obra. A forma está ali, neste caso com a musicalidade das palavras. O ritmo do texto me remete ao Chico Buarque.

A cada palavra, a cada construção das ideias, o pensamento chegando antes no Rio de Janeiro e como diz o Chico, “um assovio, um cantarolar que dita o ritmo”. Nem todo o leitor é um iconoclasta, ele lê e ouve com o coração. Eu leio e me afasto com o coração na mão, não em direção à história mas à forma que atravessa as páginas do livro.

As palavras me levam ao longe e meus olhos acompanham de longe até se juntar ao ritmo do Leite Derramado que escoa na viagem. Vi um escritor rindo das coisas, do tempo, relembrando um fragmento da vida no cenário mais brasileiro. O fim chega, o Brasil passa à margem dos meus olhos que observa a cidade lá embaixo.

Não me preocupo com a influência ou não de Machado de Assis. Deixo isso aos que veneram. Eu simplesmente leio. Fecho o livro, pego um táxi e passo pelas ruas onde o romance nasceu com a música.

sábado, 9 de maio de 2009

50 anos de Nouvelle Vague em Cannes




Esse ano o Festival de Cannes comemora 50 anos de Nouvelle Vague. Em 1959 Les Quatre Cents Coups (Os incompreendidos), François Truffaut levou o melhor diretor da competição. Fui assistir pela primeira vez nos anos 1980, em 1984-85 numa semana só de Truffaut e Godard no Cine Bristol de Porto Alegre, no bairro antológico, Bom Fim. Em 1959 quem levou a Palma de Ouro(Palme d’Or Unanimité), foi Orfeu Negro de Marcel Camus, inspirado no Orfeu da Conceição de Vinicius de Moraes e Tom Jobim. Esse eu assisti a primeira vez, também nos anos 1980, lembro que foi um dia depois do meu aniversário, 20 de outubro. Eu e o Vinicius somos de 19 de outubro, mas minha ida ao cinema não se deve apenas a isso, as semelhanças do Vinicius diplomata e poeta; eu, estudante de filosofia e história não eram os motivos. Uma garota pagou a entrada como presente de aniversário e porque eu a amava, porque o cinema era noss ponto de encontro, de partida e foi nosso fim um dia, porque era em 1987, lembro agora. Porque nem eu, nem ela olhamos mais para esse tempo juntos. O cinema continua em nossas vidas e esse ano completa 50 anos de Nouvelle Vague em Cannes.

domingo, 3 de maio de 2009

Morin no Prefácio que fez para o L'An Zéro de L'Allemagne


Foto de Ana Cláudia Rodrigues- Morin e o editor em 2008

A cada uma de minhas escapadas para Paris, contava minhas experiências e descobertas a meus amigos Robert Antelme, Dionys Mascolo e Marguerite Duras. Robert Antelme, que se safara miraculosamente da morte no campo de concentração de Dachau, havia decidido criar uma pequena editora e sugeriu que eu escrevesse um livro sobre a Alemanha a partir do que eu lhe contava. A princípio, para a narrativa de sua experiência no campo de concentração, ele havia escolhido o título “O Ano zero”, mas desistiu dele, substituindo-o por “A espécie humana”, deixando o Ano zero para meu livro.
Em Baden Baden, comecei a escrever nas horas vagas e também à noite entre os amigos. Eles conversavam e eu escrevia. A partir de minhas experiências, das permanências nas diversas zonas e dos boletins de informação americanos e britânicos, reuni inumeráveis notas que depois organizei, unindo ou separando-as por temas e, em seguida, elaborei os esboços dos capítulos. Talvez tenha retirado indevidamente deste livro os episódios pessoais como os encontros com Heidegger, a entrega à esposa do marechal von Paulus da primeira carta que ela recebera de Stalingrado, as visitas a Berchtesgaden, minhas idas a Berlim, minhas relações pessoais com antinazistas que se tornaram meus amigos e tantos outros acontecimentos que agora me vêm à memória.
O Ano zero da Alemanha foi o primeiro livro publicado após a liberação cujo conteúdo não era antialemão. Rejeitei a idéia de uma culpabilidade do povo alemão em favor da idéia da responsabilidade que o futuro Estado deveria assumir reparando os danos causados pelo nazismo.

Tradução de Edgard de Assis Carvalho e Mariza Perassi Bosco



sexta-feira, 1 de maio de 2009

O Ano Zero da Alemanha

"Minha cultura nutriu-se de minha vida e minha vida nutriu-se de minha cultura."
Edgar Morin



Capa de Eduardo Miotto

Sempre sonhei em editar esse livro, aliás, editar coisas perdidas, inéditas do Edgar Morin, como no caso do Diário da China. Agora, busquei nas bibliotecas da França um exemplar perdido, porque nem o Morin tinha mais. L'An Zéro de L'Allemagne, como escreveu Morin em Meus Demônios, "foi fruto de minhas experiências vividas e de minhas interrogações vitais da época". Gosto dos desafios, gosto desse gosto de ir na juventude de um grande pensador para mostrar que seu texto está aí. Para me deleitar com a edição, com os olhos dos leitores e dos que amam as ideias. Aqui vai uma provinha do prefácio que o Morin escreveu para essa nova e primeira edição na língua portuguesa.

Prefácio da Edição Brasileira

Após a grande “fraternidade” da Resistência, minha inserção na “vida normal” foi difícil. De adolescente no começo da guerra, transformara-me em adulto na época da libertação de Paris. De pequeno chefe da Resistência, passei a procurar emprego como civil. Comunista pouco ortodoxo para os comunistas e degaullista duvidoso para os seguidores de De Gaulle, não tive êxito como jornalista, pois as matérias que eu propunha aos jornais que me ofereciam trabalho acabavam sendo rejeitadas. Acreditei, então, realizar algo útil organizando uma exposição sobre os “crimes hitleristas”. Os funcionários de pequeno escalão que o governo francês me havia oferecido como colaboradores eram de uma mediocridade moral que me indignava. A exposição ainda não havia sido concluída quando fui salvo pelo acaso. Meu amigo Pierre Le Moigne, um herói do movimento ao qual eu pertencia, fez-me reencontrar outro herói, o comandante Durandal; seu verdadeiro nome era Chazeaux, havia dirigido o maqui do Franco Condado e usava seu pseudônimo1 com grande orgulho. Durandal buscava voluntários para o Estado Maior do primeiro exército que acabara de entrar na Alemanha com o objetivo inicial de cuidar dos prisioneiros de guerra e dos deportados e, em seguida, ocupar-se da gestão dos territórios ocupados.
Não hesitei. Haviam me oferecido a oportunidade não apenas de libertar-me de uma vida que se tornara medíocre, mas também de conhecer a Alemanha.
Mesmo nos tempos mais duros da Resistência, eu lutava não contra o povo alemão, mas contra o nazismo; isso sem mencionar o fato de que meu colaborador Jean Krazatz era um marinheiro de Hamburgo, combatente na guerra da Espanha. Além disso, tudo o que eu mais amava em matéria de cinema, poesia e filosofia vinha da Alemanha. Dois filmes de Georg W. Pabst (1885-1967), A Ópera dos Quatro Vinténs e A Tragédia da Mina, dois filmes de Fritz Lang (1890-1976), O Testamento do Doutor Mabuse e “M, o maldito” haviam marcado meu espírito adolescente, enquanto Brigitte Helm, a soberana Antinea no filme Atlântida, e Marlene Dietrich em O Anjo Azul haviam fascinado meu erotismo juvenil. A música romântica alemã de Beethoven a Richard Strauss, a poesia romântica alemã com Novalis e Holderlin, a filosofia alemã com Hegel, Marx, Nietzsche e Heidegger (que eu iria encontrar em Freiburg-en-Brisgau), tudo isso constituía o melhor de meus alimentos espirituais. Eu me perguntava, então, como a Alemanha, que dera origem ao que mais amo em música, poesia e filosofia, fora capaz de produzir a monstruosidade nazista? Sempre me lembrava das cenas filmadas de Hitler, nas quais, em estado de possessão quase histérica, com suas vociferações roucas, ele conduzia um povo inteiro a esse mesmo estado de possessão histérica.
Edgar Morin