domingo, 26 de outubro de 2008

As imagens, um livro e uma vida




“Pessoas morrem porque estão com o coração partido. Acontece todo dia e vai continuar a acontecer, até o fim dos tempos.” Paul Auster



Poucos sabem compreender um texto, quando ele poderá transcender sua legítima razão de existir, quando o autor que um dia deu por encerrado sua história entregando-a ao seu editor na intenção de dar continuidade à vida de outros textos ou, simplesmente, de se sentir vazio por um breve ou longo período da vida. Não importa. O ato de se desfazer do texto é um ato mais difícil do que o princípio de concebê-lo.
Um pouco parecida é a vida que ele leva quando percebe que a linguagem e suas formas perdem o viço em cada texto acabado. A vida não tem a finitude de espaço — é atonal em sua melodia — mesmo quando é simples no tempo dos que pensam e amam a esmo e na longitude da criação com a fluência do transpirar final do último corte.
A morte passa perto, mas o texto seguirá intacto. Mesmo que existam os defensores dos ditames que legitimam as narrativas, os textos, as criações e as imagens como linguagem para construção de uma boa história não dizimarão o autor, que, antes disso, se desfará do texto sem olhar para os que julgam o tempo depois de existido.
Assim vive o autor, o criador, atrás de sua história, correndo na escuridão em busca do momento certo de olhar a imagem, de pensar a linguagem para depois perdê-la ao leitor. Nem todo leitor é um nome real como o “crítico”, ele pode ser uma nascente desconhecida para o tempo do texto que continuará existindo. Minha dica é “Homem no Escuro” de Paul Auster, ao fundo tocando David Bowie, “Little Bombardier”.

terça-feira, 21 de outubro de 2008

Vitor Hugo e os Miseráveis (em memória ao amigo Turuga)


Antológico cartaz do primeiro show no Zelig Bar, com a banda que o Turuga criou. (Turuga é o primeiro da esquerda, lá por volta dos anos 80 do século XX)

Essa foi uma letra que o Vitor Hugo Turuga fez e dedicou a mim.

Cinema Cego
de Vitor Hugo Turuga

Entrei pelo corredor escuro
desse cinema cego
fundi a trama com meu ego.
Me afoguei numa piscina de absinto.
Confessei quase tudo o que sinto.
Me transfigurei,
fui o bicho preferido de Brigitte.

Eu afundei na poltrona
eu amei loucamente uma dona.
Denise, Isabel, Camille…

Perambulando pelo Sena
revi mil vezes a mesma cena,
e a vida estava toda ali.
Eu lambi o capacho do desprezo,
bebi na taça do desejo.
Como num filme de Jean Luc
revelei meu melhor truque.
Vi Paris depois morri.

Eu afundei na poltrona
eu amei loucamente uma dona.
Denise, Isabel, Camille…

Suei de frio no deserto,
tiritei sem ninguém por perto.
Me perdi por Alphaville.
Esqueci duas ou três coisas que eu sei dela
Fui com ela ao Circo de Paris.
Como num filme de Jean Luc
revelei meu melhor truque.

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

O elogios dos metralhas


Documentário sobre o Cartola
À memória do amigo Vitor Hugo Turuga



"Volto para casa exausto, cansado da face humana" Albert Camus


Não seja cruel com os garotos de pretos, com os críticos que silenciam. Seja algoz de uma vez por todas.
Reúna todo arsenal de pedras, de areia e dos ventos que sopram lá dos lados dos castelhanos, como se dizia na fronteira.
É uma questão de padrão de cultura mesmo. Um belo dia, um formador de opinião, um crítico legitimado pela academia, alguém importante diz: "Esse é o cara, olhem, prestem atenção, ele escreve diferente de todos. É o escritor do século XXI!!!!..."
Tudo é uma questão de ser bonito, ser alegre, um pouco entediado, bacana, egoísta sempre, mas um coração de esquerda. Gostar das coisas novas e ao mesmo tempo gostar de nada das coisas novas, apenas gostar do que os outros acham que todo mundo gosta. Nunca anarquizar como Artaud um dia fez e foi considerado louco, um perigo para o tecido social. Ser correto. Incorreto quando é conveniente e ser de esquerda sempre, a cultura é de esquerda, a cultura é de esquerda, nunca anárquica, porque aqui, e quase todo esse país, anarquismo é uma forma de socializar a arte, de levar para a rua e um belo dia mamar nas tetas do Estado. Conheço todos eles. Todos nós conhecemos. Então, ser de esquerda é o imperativo, esquerda racional com o poder. Que belo paradoxo para os filósofos dos plantões. Sei, quase ninguém tem mais bem claro o que venha a ser isso, ser de esquerda num país onde tudo é conveniente e desde que a fundação, que o projeto seja aprovado, que a vida seja legitimada pelos arautos que escrevem manifestos em nome dos que são considerados os “escolhidos”. Não és um escolhido. É a andragonia na cultura que vivemos sem saber bem mesmo o que vivemos, porque todo mundo é conservador, todo mundo tem medo daquilo que é o mesmo que a diferença causa no cotidiano, ou seja, ela se apresenta, mas as pessoas precisam dos que legitimam o que elas sentem, experimentam. Aí depois chegam nos dizendo da “doxa” da “episteme”, da puta que o pariu. Eles têm o gosto mais banal e tacanho que eu conheço. Como te falei, elas precisam sempre consagrar o consagrado. Quero ver consagrar o errado, o errado, o mesmo do diferente ou diferente no diferente. Quero ver esses putos, todos, todos, sendo comidos por suas ignorâncias e seus modelos modernos, e como esquecimento de tudo, eles serão lembrados pelos novos que irão perpetuar a cultura. Os que legitimam serão salvos. Nós somos de outra tribo, somos da derrisória gargalhada que olha a vida com desconfiança e lemos o que tem exatamente de diferente no novo e no velho. Nós, alguns poucos milhões espalhados pelo mundo, acho que não chegamos a fazer uma republiqueta de diferentes. Somos poucos e os melhores.

terça-feira, 14 de outubro de 2008

Enfim, um amor filme-livro


Evgen Bavcar (fotógrafo cego) "Há muitos cegos ao meu redor."

“O cinema não é língua, universal ou primitiva, nem mesmo linguagem”.
Gilles Deleuze


Tenho vivido entre a porta do teu olhar e ao do tempo que Godard ainda dizia alguma coisa. Contrariando Schopenhauer esse amor vai mais longe. Não vamos preserva a espécie para sermos felizes. Se dissesse alguma coisa que pudesse lembrar o amor que sinto por ti. Ah, quem sabe Godard em filme não se esqueceria dos próprios amores se não os tivesse tidos. Foi a coisa mais forte que aconteceu comigo. Ela largou tudo e for morar no sul da França. Foi o que eu fiquei sabendo pelo o porteiro do prédio onde morava.
Pego o telefone e ligo para o celular dela no meio da noite. Chama, alguém atende, não fala nada, digo – Alô, Vitória, Vitória, diz algo. Só quero dizer que ainda não a esqueci, que o meu amor por ti não tem mais fim. É uma insolação eterna. Depois que a camada de ozônio foi pro espaço, eu não me curo mais. Nem um respiro. Eu olho para o teto com um tédio danado, daqueles que a gente tem nos primeiros encontros. Aliás, o primeiro encontro é tão fáustico aos casais que de tão embaraçoso até pode nascer algo dali. Duvido dos encontros primeiros quando tem hora marcada, mas as despedidas com hora marcada são de uma estupidez maravilhosa. Fico todo esse tempo filosofando sobre os encontros, esqueço que a Vitória está ouvindo minha respiração. Penso na babaquice que fazemos para nos tornarmos alegres diante de um primeiro encontro. Ninguém pode errar. Neste momento ainda não vale o lado material, se o cara tem grana, se é isso ou aquilo, se ela tem ou não tem onde cair morta. É tudo um momento da avaliação que o espírito nos prepara para depois, mais tarde, mais uma babaquice, se diz, “ah, que coisa linda, tem química, vai rolar”...Lá,lá, lá..e o tempo passando e eu esqueço da Vitória, de que ela possa estar me ouvindo, ouvindo meus pensamentos.
Eu telefonando a essa hora da manhã, lá já é dia. Deixei meu tempo de lado e ouvi no fundo um suspiro. Será ela? Retomo a carga:
-Sei que está me ouvindo. Tem a mania de se proteger sem a fala. O silêncio incomoda aos que crêem em Deus. Eu estou quase virando cristão novamente. Fale algo, por favor. Porra! Onde é que ficaram minhas coisas, passei lá, no horário combinado e não tinha nenhum um recado, mas eu queria apenas meu par de tênis. Sabe, os livros e os CDs pode levar, dar de presente, não me interessam. Um livro, uma canção lembra mais alguém que um par de tênis. Afinal de contas, ninguém mais morre por um amor, por uma música que toca em filme. Mata-se por um par de tênis nesse país, e afinal de contas, os crimes passionais são os mais babacas possíveis. Sim, acredito em ti, ninguém é de ninguém, mas não precisava pegar pesado. Logo agora que eu estava me acostumando acumular pontos em maldade humana, em mesquinharia romântica e você me deixa por uma simples viagem. Ta certo, vamos combinar, me diz onde ficou o par tênis, as roupas e eu não ligo mais? Fico novamente absorto nos pensamentos.
Pensei. Os livros, como no filme do Truffaut, no Fahrenheit 451, de Ray Bradbury. Me vem a passagem em que os leitores que armazenam as obras na cabeça, “O melhor é guardar os na cabeça, onde ninguém pode vê-los ou suspeitar deles”. Eu também, tenho tudo na memória, como pedaços da história é que sou, mas o tênis e as roupas custam dinheiro. La plata. Meu egoísmo é como uma despedida e não como um livro ou filme que chega ao fim. Diz aí para esse espanhol veado que eu tenho tudo na memória. Me ferrei com essa. Bem que a minha mãe dizia, não dê carinho, amor e cultura para quem só pensa em se salvar do inferno, um dia ela irá te deixar sem roupa. Sei lá, nem era isso que minha dizia. Desliguei o telefone e voltei a dormir. Amanhã eu procuro o que não perdi em mim.

domingo, 12 de outubro de 2008

Imaginário e Cotidiano


                                  De Jean-Luc Godard
Inumanidade  - As idéias claras são inumanas. Gide dizia esta noite (diante de mim): Valéry não é humano. Paul Valéry
Um belo dia, manhã, uma manhã cinza no dia de um homem, ele acorda. Os pensamentos são formados nas madrugadas, nos dias, no silêncio do sono. A sua formação não é uma enciclopédia, um compêndio, um quadro estático na parede sem cores nem relógios. O formato que se tem é que a vida é uma sucessão de acontecimentos, de teorias ao longo dos séculos.
Este homem atravessou parte do ocaso do século XX, vivendo intensamente as mudanças sofridas e impostas no Ocidente. O pensamento no mundo ocidental, uma parte viva do mundo, que está na Complexidade de Morin, já não serve mais como uma simples descrição de fenômenos, mas o é, também.
Nesse belo dia, o homem percebe que é o mesmo dessas alterações, que é parte de uma mesma coisa, de tudo no mundo. Não é a literatura; é a realidade esfacelando-se a partir do momento de cada manhã em que o homem coloca seus pés novamente no chão. As ideias sobrevivem, porque os homens as alimentam de novas roupas e novas informações, conforme as necessidades; os mesmos homens que as negaram tratarão de dar-lhes forma diante dos acontecimentos. É o contraditório também, é a ficção, é a pura linguagem de quem amanhece no limiar do tempo com o esquecimento.
As teorias sobrevivem porque os homens se espalham pela terra e, como diz Morin, o desconhecido não é apenas o mundo exterior e, sim, sobretudo, nós mesmos. As crenças nas verdades, na lógica ocidental, nos fatos e no Cotidiano da comunicação entre esse homem e todos pelo mundo afora e adentro, do Ocidente ao Oriente, da rua à casa, do real ao hiper-real, do conceito ao Imaginário, da linguagem à comunicação, e tudo na esfera do vivido, do jogo, permaneceu porque o visível passa do inteligível ao sensível e ao invisível. Apenas para lembrar Heidegger, que fala do “Ser” como a compreensão “indeterminada” e do mesmo modo “sumamente determinada”. Do homem que ao acordar personagem se dá conta de que ele compreende a palavra “imaginário” e com ela todas as derivações, as variações possíveis, ainda que essa compreensão pareça indeterminada.