domingo, 28 de setembro de 2008

Antes da Lua, entre Solo e o Homem no Escuro



“A comunicação é, deste modo, a superação da radical não-comunicabilidade da experiência vivida enquanto vivida.”
Paul Ricouer


Antes de tudo, antes de ler sua música preferida, sua canção que toca no fundo enquanto lê Baudelaire, antes mesmo de completar uma frase pensei na inverossimilhança da vida. A leitura que toma conta de nossas vidas pode ser crível, pode completar nosso sonho, na solidão de um lado ao outro sem tentarmos escapar definitivamente da vida, porque ela, ao mesmo tempo que salva, também nos joga no fundo dos desejos. Não penso na salvação através de um jogo de proposições pelo simples fato de que ele não nos tira do olhar a diferença como vemos o mundo. Ao entrar no cinismo de Solo, “A racionalidade absoluta significa a morte do imaginário e a asfixia do ser humano. Somos ricos porque somos pobres”, percorro a linguagem pela metáfora, “Existem muitas realidades. Não existe um único mundo. Existem muitos mundos, e todos seguem paralelos uns aos outros, mundos e antimundos, mundos e mundos-sombra, e cada mundo é sonhado ou imaginado ou escrito por alguém num outro mundo. Cada mundo é a criação de uma mente”. A linguagem de um e de outro se mescla entre o cinismo em potência, ao olhar romântico de um signo existencial. O cinismo é a pura poesia sem pele percorrendo o leitor enquanto a solidão do Outro é a perda dos significados que o existir encontra ao se deparar com o paradoxo da vida.

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

A ladra de sonhos



"O fato de contemplar tudo de maneira sempre idêntica reduz tudo à igualdade." Paul Nizan


Não use as minhas palavras para amar outro,
Não roube as receitas de cores de minha mesa para conspirar com os sonhos do além-mar.
A gramática fica mais pálida quando roubada do coração alheio.
Não pense que meus sonhos são os únicos e verdadeiros desta cidade.
A sentença pode parecer falsa, mas pouco importa a filosofia da linguagem:
Quero seguir seus olhos com o passo das palavras que proferes.
E mesmo assim se usar a linguagem na segunda pessoa do singular para é lembrar que uma sentença não pertence ao uso da linguagem com o propósito de dissolver os problemas de uma construção de vida confusa.
Tanto faz eu me despir do emprego das palavras, dos pronomes em correta consonância,
Se você ousa em roubar os sonhos que a insônia traz à palavra todos os dias que a encontro bebendo vinho num cálice de números impressos no fundo que determinam nossas vidas.
Será em vão!
A palavra não pertence aos que tratam de desvendá-las mas aos que se apoderam de suas possibilidades de encontrar a melhor forma para se continuar escrevendo.

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

As vísceras de “Um cão Andaluz”


"Uma lâmina que corta a sangue frio o fascinante olho de uma mulher jovem e bela será justamente o objeto de admiração insana de um rapaz que, observado por um gatinho deitado e tendo por acaso uma colher de café na mão, tem um desejo súbito de apanhar o olho com ela."
Georges Bataille sobre o "Um cão andaluz"

Ainda quando pequeno via meu pai que gostava de comer os miúdos de gado, da ovelha, a cabeça e outras carnes. Minha mãe odiava isso tudo. Numa família sempre existe um olhar reparador, mais burguês, um sonho inatingível, um ideal que possa ver nos cortes apenas as partes nobres. Minha mãe era essa imagem. Sabia cuidar da vida. Em tempos de espírito “Farroupilha”, me lixo para isso tudo, porque como meu pai, aprendi a devorar as vísceras dos animais. Gosto da culinária campeira feita no Sul. Abomino a tradição tacanha inventada um dia por jovens burgueses de Porto Alegre, lá pela metado do século XX.
Volto à infância. Nasci ali, na educação mais simples de um caminhoneiro, de uma dona de casa, e sem ele saber, na sua descrença em relação à juventude que tinha perdido ainda cedo (nos anos 30 e 40 do século passado): os sonhos. Os filhos nasceram. Ele era um anarquista sem mesmo compreender o que isso significava. Nunca comentei com ele e nem com a minha mãe sobre o meu olhar em relação à família. Infelizmente. Mais tarde conheci os tipos de anarquismos existentes em leituras; o anarcosindicalimo, o individualismo, o cristão e todas as formas possíveis de ser o paradoxo de vida contra o estabelecido. Mas, o niilismo, esse era do meu pai, e inconscientemente ele viveu sua vida feliz entre os seus amores e trabalho. Sem saber também, diante dos horrores da vida que se impunha a toda uma família e principalmente ao seu último filho, Eu.
Depois, nos anos 80, eu conheci a literatura de verdade, a filosofia, o pensamento, o cinema. Um dos primeiro ciclos de filmes que assisti em Porto Alegre foi do Buñuel, “Um cão Andaluz”, “Tristana”, “O anjo exterminador” e todos os outros.
Agora recentemente num bar, na parte histórica de Montpellier, assisti “Um chien Andalou”, entre outros fragmentos de filmes, e de fundo, música e vinho. O pessoal que fumava, ficava num entra e sai do bar, todos felizes e tagarelas, para fumar na rua. A noite fria trouxe anotações minhas num bloco, e acabei por lembrar da infância. Hoje, ao terminar de ler Bataille, em sua ficção, ao escrever sobre seu pai, da miséria, da dor e das vísceras de uma vida sendo expostas ao mundo, me dei conta de quanto ainda tenho que olhar para dentro do olho do mundo, da alma para decifrar meu gosto pela vida.

segunda-feira, 8 de setembro de 2008

Da linguagem "extraviada"



Poderia ter começado com Deleuze mas prefiro Barthes pensando Bataille. A metáfora é moderna? Sim, mas ela está extraviada, esparramada no texto de Sandra. Sou parte da obra apenas como editor-leitor dessa escrileitura.
Os Cantos de Fouror é a cartografia da diferença, é o livro que parte da escrileitura ao ato de educar através da filosofia livre de ideais. Temos um texto contundente que na rebelião das idéias contraria a lógica formal do pensamento. Um livro em que toca fundo o corpus do texto, da carne. Um livro que nasce para disseminar os cantos em nome de um educar sem as regras de um bom pensamento. Aqui o leitor irá encontrar a diferença nos autores, na literatura vista, olhada de dentro do olho que de leituras inovadoras não propõem um único caminho para se ler e cantar o pensamento contemporâneo. O maldizer aqui é banido por suas escolhas em nome de pensadores malditos — o caminho é da diferença — do encontro das leituras no que diria Barthes “uma literatura a céu aberto” quando pensou em Bataille e nisso Sandra encontra o signo das escrileituras.

terça-feira, 2 de setembro de 2008

O Signo de Saturno da Infância


Imagem do "História(s) do Cinema" de Jean-Luc Godar




“Na realidade, demasiadas possibilidades. Como o temperamento saturnino é vagoroso, propenso à indecisão, às vezes precisamos abrir caminho de faca na mão. Às vezes, acabamos virando a faca contra nós mesmos.” Susan Sontag



Eu era muito pequeno. Eu e minha mãe viajávamos de avião do interior do nada, do Erechim, nos Anos 60 do século XX, para outro distante nada, Porto Alegre. Depois a última parada seria Alegrete. Numa tempestade ao chegar na capital como diz a mãe, “aquela água turva lá embaixo, da cidade não se via nada, só água”. Porto Alegre vinha de uma enchente e aconteceu uma instabilidade no vôo quando o avião se preparava para o pouso e fez com que eu me agarrasse ao pescoço materno. Medo. Ela perdeu uma corrente de ouro, provavelmente um símbolo religioso. Foi o tempo perdido, o religioso nessa viagem. Eu tinha quase dois anos de idade e tinha ido visitar meu tio que era funcionário da Varig em Erechim. O Rio Grande do Sul era cortado pela Varig.
Minha avó tinha morrido não fazia meses, a vovó Morena e, eu antes mesmo de saber da vida, já sabia conviver com a morte. A mãe diz que eu brincava ao redor da cama da Morena que agonizava, morria aos poucos. Morreu em casa. Nasci na Santa Casa, já quase não se nascia em casa. A vida sempre começou para mim enquanto a dos outros desapareciam dos meus olhos. Foi assim com meu tio, irmão de meu pai. Foi assim, ultimamente, meu pai neste século. Morreu. Nasci. Morri um pouco e nasci mais um tanto de nada para a eternidade do pensar de uma finitude prazerosa. Ser filósofo é a dádiva mais vagabunda e exuberante que existe. Nascemos e morremos no final de um filme, de um livro, de um acaso olhar sobre as águas turvas da cidade que não lembro mais. Minha vida foi em torno das águas turvas do Guaíba. Nasci quase na fronteira do Brasil com a Argentina. Não sou de lugar nenhum e mesmo quando sinto falta, sinto falta é de andar ao redor dos olhos da infância sem cidade. Sempre sonhei ser todas as cidades do mundo. Benjamin via em Paris a cidade que “ensinou-me a arte de me perder” e eu senti isso no silêncio da solidão que me levou até lá. Quando leio Susan Sontag me lembro da leveza dos sonhos, a escritura nasce quando ela escreve sobre Benjamin ou sobre Barthes. Choro no fim ao perceber seu imenso voltar às palavras.
A filosofia, a literatura nos ensinou a ter um câncer e depois, ler com prazer deve ter sido a imaginação mais fantástica para Sontag um dia. Todos, um dia, qualquer dia da existência, pensam na vida com saudades dos esquecimentos da infância.

“Um labirinto é um lugar onde as pessoas se perdem”
Walter Benjamin

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

História(s) do Cinema e o Editor de Romances



História(s)do Cinema de Jean-Luc Godard



“Beleza...jogo em si que o homem joga com seu próprio símbolo, pois é sua única chance de escapar, mesmo que simbolicamente, à sua angústia da solidão. Repetir do sempre auto-sugestão, a fuga na beleza. O jogo da fuga.” Jean-Luc Godard


Fiquei morto na cama até ao meio-dia. Não havia mais Lana para me fazer um pouco feliz. Olhando as paredes. Via com desprezo a foto dela ao lado do telefone. O que me deu ter pensado nela essa noite? Pensei em tomar uma xícara de café. Fui direto à cozinha. Tropecei em algo, olhei para baixo e eram uns cds esparramados ao chão. Pude ver o estrago causado por ela nessa casa, na cozinha, no meu corpo em fragmentos. As vísceras acesas como uma vela que queima silenciosa dentro da alma. O vidro de café vazio. Mais fios de cabelos sobre à mesa, e por onde ela passou ficou um pouco do desalinho desta história. Eu estava de volta ao apartamento depois de uma temporada na Espanha para divulgar meu livro. Aqui no Brasil eu era despachado até por bilhetinho e Lana partira assim como chegou, por mensagens.
Sentei em um canto da cozinha. Perplexo, com lágrimas nos olhos não conseguia tirar minhas mãos do vidro de café. Apertava com os dedos como se estivesse segurando as mãos na hora da despedida de um despenhadeiro. Era patético mas de uma irrealidade comovente para quem gosta do Gregory Peck quando salva Ava Gardner em “O Grande Pecador”. Lá eu estava em nesse jogo, no abismo do jogo, do penhasco olhando o fundo escuro da história.
Preso à idéia da compreensão de que tudo me afastava do ponto da cor perdida no teto mofo. Um vermelho lá no canto. Lembrei das “Anotações sobre as cores” do Wittgenstein. Aquele cara era um veado que quis pôr fim na filosofia e depois ficou nas cores. Pronto. Lá estava eu olhando para o teto. Onde teve um início era uma questão de ter existido o acontecimento. Minha vida. Se as palavras como diria Gadamer brotam da comunicação que o homem faz com do mundo, onde estaria minha compreensão naquele momento? A solidão tinha tomado conta de todo o ar. A cozinha estava ali, o cheiro de café, as lembranças de um cigarro queimando enquanto eu falava sobre as palavras ditas e silenciadas pelo tempo. Quem de nós dois pudera alcançar esse momento? Lana certamente voltaria para o seu nada, mas seu nada estaria repleto de vida. Enquanto o meu nada é repleto de nada de uma elegância assustadora que só serve para encher os bolsos do dono do boteco ou do psicanalista. O cigarro apagado e o batom vermelho sobre o cinzeiro.

“O desespero da arte e sua tentativa desesperada para criar o imperecível com coisas perecíveis, palavras, sons, pedras, cores para que o Espaço composto dure para sempre.” Jean-Luc Godard

continua