quinta-feira, 31 de julho de 2008

A imagem


História do Cinema (Godard)


A lei da imagem surrealista que foi formulada por Reverdy e depois retomada por Breton
..."quanto mais distantes as relações entre duas realidades, mais forte será a imagem."

Godard dirá:
"O perfume. Histórias de beleza, em suma. A beleza, a maquiagem no fundo, o cinema não faz parte da indústria da comunicação, nem do espetáculo, mas da indústria dos cosméticos, da indústria das máscaras. Mera sucursal da indústria da mentira."

Como escreveu Deleuze, que uma imagem-movimento não nos dá uma imagem-tempo, mas nos dá muito mais porque o tempo nos é dado na imagem-movimento que se subordina ao tempo. Todas as imagens em nossas mentes através das leituras, dos olhos através da escuridão que buscam os signos, "tal qual o passado é um antigo presente, e o futuro, um presente por vir"(Deleuze).

segunda-feira, 28 de julho de 2008

La tierra es un lenguaje calcinado (Octavio Paz)


Na mão da Imagem o cinema no meu olho

O cinema no olho de Godard

Existiram, existirão, diz Godard em “História do Cinema”, se o cinema já existia ou se existirá, por enquanto, ele, na voz do narrador não existe. A imagem já existia mas o cinema fez da imagem a melhor idéia, a de ver o objeto como de um desejo ou como idéia que vem na construção do cotidiano.
Depois o retorno à imagem escrita de Octavio Paz
"Hay púas invisibles, hay espinas
En los ojos.
En un muro rosado
Tres buitres ahítos"

domingo, 27 de julho de 2008

"A transparência é o que resta ao fim de tudo" Octavio Paz


Jean-Luc Godard - História do Cinema

Pulso, impulso,
Ondada de sílabas úmidas.
Sem dizer palavra
Escurece-me a fronte
Um pressentir de linguagem (Octavio Paz-Blanco)


Cada exemplar de sentido é um exemplar atrás de outro sentido, porém, o transamba de Caetano é exemplar transfigurando e sendo significado em sentido duplo. O que fica é o mesmo que transcreve e transcrito na vida dá sentido e samba. Anamnésia do samba que transfigura em transamba é o que poderemos pensar sobre o que poderá dar ou não dar: um romance dá um romance? Depois, o samba dá samba? Prefiro a simulação do pensar para se chegar onde o samba chega. Não mais puro. A impureza é o acontecimento único de quem pensa além. O ato de simular leva o pensar sobre a transfiguração, e disso não tenho dúvidas sobre o acontecimento poético, o que desceu aqui no Brasil, na Itália, na Rússia, em qualquer lugar do mundo.

terça-feira, 22 de julho de 2008

A metáfora da Tela


A Tela e o homem

"a migração do Olho rumo a outros objetos (e, por conseguinte, rumo a outros usos que não o de 'ver')" Roland Barthes em ensaio sobre Bataille.

domingo, 20 de julho de 2008

A imagem-tempo


David Bowie em O Homem que Caiu na Terra


Artaud dentro do cinema


“Assim como eu, não tinha esgotado a tempestade evocada por sua nudez.”
Geroges Bataille, História do Olho

Uma questão a ser perguntada, pelo menos cada vez que o filme entra mente adentro, olhos, bocas, é possível sua linguagem ir além das imagens?
Deleuze via o espaço confundindo as direções, eu vejo o corte da palavra em imagens e o despertar do objeto, sugerido e por que não com Barthes quando escreve sobre a História do Olho — “Como um objeto pode ter uma história?”
Passo de imagem à imagem aos livros e atravesso noites aos teus pés.

É a imagem-tempo que pede um regime original das imagens e dos signos, antes que de a tecnologia estragá-la ou, ao contrário, incitá-lo
(Gilles Deleuze em A imagem-tempo-Cinema 2).

terça-feira, 8 de julho de 2008

O louco que veio do céu






Luxo, libertinagem das idéias e panfletos soltos do teco-teco pela cidade. Sua cruzada é contra o movimento de moralização e ele construiu sua crítica com palavra mas não através da rede de computadores mas do alto, do texto impresso em serigrafia e parte em impressão digital e off-set. Comandado por um lunático qualquer que garimpou em blogs e textos que pudessem ter ali sua leitura contra a indignação dos moralistas. Não sobrou nada. Pau para todo o lado. De fragmentos a textos mais longos foram jogados mais de um milhão e duzentos mil papéis na madrugada, num raio que abrange boa parte da cidade, é o que constava num dos panfletos no seu manifesto contra todo o estado de coisas que motivou esse louco. A população de cara nomeou-o de “O louco que veio do céu”. Me parece que ele fugiu abandonando o avião em Belém Novo, sul da cidade, em um campo qualquer. Logo depois foi encontrado outro avião no rio Jacuí, submerso com seu bico de fora. As versões mudaram, e mais outro avião. Estão achando que foram 3 aviões. E ninguém viu o louco que veio do céu depois disso.
O cara deve estar rindo de todos nessa manhã. As rádios moralistas com seus porta-vozes de plantão teceram discursos inflamados pedindo a prisão do louco de Porto Alegre. As rádios fms mais moderninhas, uma com espírito de preservação da natureza vociferou contra o louco, a outra politicamente correta também e algumas vozes perdidas até que ensaiaram um coro unissonante de seus locutores e ouvintes por breves segundos mas foram abafados. Os bêbados comentaram nas ruas, os motoristas sóbrios e os embriagados, os tristes e os desolados moradores de prédios espalhados por todos os lados da cidade não ficaram sem um comentário.
O conteúdo era diverso, desde poemas, manifestos, fragmentos de livros, letras de músicas ao esculacho contra os que produzem e pensam a cultura e a história desta cidade e Estado. Crítica ao marasmo criativo que paira sobre o país, as tendências da moda, sobre os que governam as vidas e sobre as tecnologias que difundem e confinam as idéias livres para depois se tornarem perdidas na web. Uma das marcas do louco. Tudo um pouco esquizo, o fato de vir do céu a crítica e não da terra ou da internet e os textos serem de uma seleção de extremo bom gosto. Quem será essa pessoa. Homem ou mulher? Alguns panfletos eu catei, um com uma frase de Nietzsche, “Nenhum artista suporta o real” e depois acompanhava um texto veemente de pura provocação contra a ordem e à estética instaurada deste tempo de democracia responsável. Um radialista de uma grande emissora de rádio e grupo de comunicação do Estado, a mais ouvida (segundo suas pesquisas), a que fala de futebol e de política, dos dois times da cidade, gritou, esperneou contra o louco que veio do céu – “Essa pessoa merece ser presa, morta, que venha a pena de morte. Que venha a pena de morte!”
Ainda não se sabe o paradeiro dele, mas sabe-se que ele disse não usar droga nenhuma e só toma vinho de Mendonza, para piorar seu cartaz em relação à população. Vinho argentino. A cidade parou numa manhã de inverno com os textos que vieram do céu.
E o mais estranho dos panfletos era um texto do Deleuze:

"Mas o fato, o fato pictural vindo da mão, e a constituição do terceiro olho, um olho háptico, uma visão háptica do olho, a nova claridade. É como se a dualidade do táctil e do ótico fosse ultrapassada visualmente, rumo à função háptica surgida do diagrama."

Trata-se do final do livro "Francis Bacon: Lógica da Sensação" de Gilles Deleuze.

sábado, 5 de julho de 2008

Sábado


Um sábado em Montpellier


O acordar no sábado. Primeiro vem a cerração e depois o preparo do espírito para o dia de sol que romperá as nuvens em poucos momentos. Não é pelo instante e brevidade da vida que nos faz feliz mas a certeza da não se ter certeza dos amanheceres.
Usar a mesma camiseta dormida, colocar o velho abrigo e sentar na bergère para ler umas páginas dos “Ensaios sobre Heidegger e Outros” do Rorty. Tomar um café a recém passado. Ouvir uma sinfonia, um concerto para cello ou violino antes que o sol apareça. Depois ler os jornais na rede, responder e-mails, conversar com os amigos distantes e pensar na frase quando ontem à noite assistia “Os Palhaços” de Fellini que anotei no escuro da sala para ler hoje. Faço isso sempre quando assisto um bom filme na liberdade de ver e ler a linguagem que me fascina e perturba:
— O provincianismo é uma miséria que diz respeito a tudo e a todos, menos a ele mesmo.
Pensei nos modernos da minha cidade. Rio do que escrevo para depois desenvolver no meu mais novo projeto que está mais enrolado que o tempo, mas sei que a certeza se dará pela reflexão diária. O amanhecer se mostra com uma surpresa que não diz respeito à meteorologia e nem à crença e à cultura dos que pensam mais sobre a província como sendo universal do que eu.