quinta-feira, 26 de julho de 2007


A tristeza dos corações nas estações

“Após tanto pathos sexual, eis agora o neopatético da relação amorosa. Depois do libidinal e do pulsional, eis o neo-romantismo da paixão.” Jean Baudrillard, As Estratégias Fatais.
Foto de Baudrillard que acompanha o livro "O Anjo de Estuque".




A tristeza é assim, invade nossas vidas durante a madrugada, não pede licença e faz logo um estrago. Recorremos a todos os artifícios para enganá-la antes que o dia amanheça. A tristeza não tem sexo, embora sempre libidinosa afronta com suas propostas para irmos atrás do sensato ombro amigo.
A tristeza nos faz chorar, nos rouba o que temos de mais precioso, as lágrimas sinceras que teríamos para o próximo namoro, mas é assim a tristeza: vive pregando peças aos que ainda sonham e aos que já esqueceram de que a paixão era uma armadilha. A tristeza nada tem a ver com histórias assim, ela é uma fonte de renda para farmacêuticos, donos de bares, donos de livrarias, lojas de discos, mas nunca tem a ver com o fim dos namoros. Embora conheça gente que terminou sua história porque a vida andava triste demais e ao lado de seu amor a tristeza se estabeleceu como febre malsã. A tristeza levou a culpa. Os dois continuaram tristes em suas novas relações, foi o que fiquei sabendo mais tarde. Deus me livre desse tipo de namoro e desse tipo de pessoas.
A tristeza vira diarista, limpa a casa, apaga vestígios de uma história. Desfaz a cama, abre uma garrafa de vinho e não permite mais nenhuma lágrima. Ela também pode ser sensata nessas horas. Mas a tristeza não tem forma, não tem cheiro e não sente melancolia. Ela só existe quando não precisamos de pessoas tristes. Belo dia, ali em nossa porta, está ela encostada na parede, no corredor do prédio nos esperando para entrar, para sair, para ir ao cinema e mais ainda, nos jogando para a próxima paixão.
É isso, a tristeza não tem compaixão. Ela é inominável porque não tem lábios, não tem mãos e não tem um rosto em que se possa ver a reação dela quando estamos conversando e falando da vida, dos temores, dos sonhos. Ela não ouve, ela nos impulsiona para ação. Mudamos a face, o sorriso, o estado de humor, cortamos os cabelos, vamos à igreja, ao pai-de-santo e não desistimos porque a tristeza não nos dá trégua. Sabe por que? Ela é o contrário da entrega total dos pontos.
A tristeza, embora não tendo coração, sendo a voz desnaturada, sem coração, ela também serve para nos tirar do sossego melancólico dos dias que planejamos nos vingar de alguém. A tristeza é esperta porque não sente dor. Se tocarmos qualquer extremidade ― do imaginário corpo ―, se chegarmos perto dela demais poderemos compreender o quanto a tristeza é triste porque nunca alguém ousaria pensar além de procurá-la para chorar e sim para ser feliz um pouco.
A tristeza se meteu numa enrascada nesses anos todos. Falou, pensou em excesso e depois se deu conta que ficou madura demais e hoje só dá conselhos milenares, como se fosse uma bruxa, um guerreiro e só quer ir em frente, capturando corações sonhadores. Ela é sádica. Incapaz de chorar ao lado dos que amam ou daqueles que perderam um amigo e dos que andam perdidos no deserto da razão que a vida nos impôs esses anos todos.
A tristeza, meus amigos, ela deveras, não tem coração, não tem mão e braços longos para nos abraçar e nos salvar de qualquer coisa, penhasco ou ladeira abaixo. É por isso que só a encontramos quando estamos tristes e sozinhos.
Mas não se assustem. A tristeza não causa mais estrago do que o ódio, do que a insensatez, do olhar frio em sorriso dissimulado quando encontramos alguém que nos convida para preencher o tempo, porque exatamente essa pessoa é que morre de medo da tristeza. Não se assustem amigos, a tristeza tem raios infravermelhos e pode ler os olhos de quem se ocultam nos óculos escuros. Ela é nossa aliada de vez em quando. Mas nem cogite em viver por muito tempo com ela, porque não é do seu feitio viver ao lado das pessoas por longos anos. Depois que ela perceber que já estamos nos livrando da dor, ela pega suas coisas e se manda de nossas vidas.
Então, meus amigos, enfrentem a tristeza com a cara lavada, com vontade de acordar, mesmo que seja triste ter que levantar no meio da noite e chorar um pouco e fazer perguntas sem repostas. Breve você perceberá que a tristeza não diz adeus jamais. Ela é implacável até na despedida.

sexta-feira, 13 de julho de 2007

Metáforas da Pedra



“Por isso seu Decreto de Aço
Como dois Pólos nos fez sós
(Embora o Amor como um compasso
Circunde o mundo todo em nós),
A menos que o Céu oco caia,
A Terra perca o seu Império
E o Globo inteiro se contraia
Para nós dois em Planisfério.”

Andrew Marvell (1621-1678)
Transtradução de Augusto de Campos



Esse coração despedaçado mais parece uma couraça blasé sobre a pele morena. Onde morava o Ser agora mora o espectro digitalizado de um beijo frio. Nem mesmo as Bachianas te move dos lençóis dormidos. Ainda bem que hoje é sábado. A noite dos anos 80 é a mesma desse século. Só morre de tédio quem transforma o signo da vida em realidade. Sempre vivemos as possibilidades, acontece que nem sempre se pode contar com ela na solidão e que um coração se petrifica depois que perde o sangue congelado do último adeus.

quarta-feira, 11 de julho de 2007

O homem nômade ergométrico (parte 1)




"E como os anjos não podem conceber o tempo, a idéia que eles fazem da eternidade é diferente da dos homens terrenos; eles entendem por eternidade um estado infinito e não um tempo infinito."
Robert Musil


Michel Maffesoli retoma à superfície das coisas enlaçando o homem nômade com as novas formas de se mover sem precisar sair do lugar, e ao mesmo tempo estar em todos os lugares. Eis os aspectos que marcam e legitimam essa abordagem sociológica e filosófica que se apresenta no nomadismo do século XXI. Da ordem da representação para a ordem da apresentação é que o signo do presenteísmo aparece.
Quanto mais a humanidade caminha a passos largos, através da idéia de progresso, pelo rastro ordenado do racionalismo, mais esses ideais passam do plano possível e retornam à velha metafísica da modernidade. Aquilo que nunca se desfez em nome de uma razão, em nome de uma verdade última é o que se jogou na lata do lixo do Ocidente. Assim como se busca legitimar a verdade, também se tenta negar todo desvio advindo do cotidiano, do homem, do ludismo, do prazer individual para salvaguardar, em uma tentativa, religiosa e moralista, os pressuposto do homem arranjado para o futuro, pronto para ir além da razão sensível.
A supervalorização do ideal humano. A afirmação do sujeito eivado pela razão e por uma ética nos moldes de Kant. É aqui que o sociólogo e pensador da pós-modernidade e do cotidiano dá seu tiro certeiro. Sua crítica engajada e anárquica vê na sociologia compreensiva, na tradição de Simmel, um instrumental filosófico para discutir com a modernidade que sua tese sobre a pós-modernidade é mais uma verificação, a constatação de um novo tempo, do que um desejo, no qual seus críticos insistem, no desespero por estarem órfãos, em lhe atribuir o irracionalismo.
Surge o novo tipo de nomadismo, um tipo de homem que está em intenso retorno e partida de sua própria casa. Aparece em cena o homem nômade ergométrico. Um novo tipo de homem que vê no real nada mais do que ideal daquilo que não se pode e nem se conseguiu criar para gerações futuras: um futuro garantido e redentor. Estamos à deriva, em tribos, conectados, saindo ou não de nossas cavernas virtuais, mas estamos prontos para circular entre todos os cantos do Planeta. Estamos experimentando esteticamente o retorno ao gozo, e não mais a projeção ao futuro. Isso aproxima e afasta um tipo de homem-social, mas une e abraça um homem desprovido de um ideal apenas. Aproxima à socialidade entre a comunicação e os povos mais distantes e rejeitados dos homens. O ideal de homem está morto nas próprias armas da modernidade: sua crença cega na verdade.

terça-feira, 10 de julho de 2007


Metáforas de cinza

“Ela não imagina que deixou uma esteira de poemas tristíssimos e um rastro de dor e lágrimas. Como nos boleros. Não sabe. E não vai saber nunca, porque não vou lhe dar esse gosto.”
Pedro Juan Gutiérrez
“Você me fez rir. Apenas isso, mais nada. Você abriu alguma coisa dentro de mim e depois disso se transformou no meu pretexto para continuar vivendo”.
Paul Auster

Uma dor pulverizadora é uma dor onde não se tem mais espaço para lágrimas. Onde não é mais possível dizer: ela usa batom vermelho, o carro tem a cor do escuro dos olhos e a lua não apareceu. Uma dor pulverizadora é a dor onde tudo vira cinza. Onde o sorriso no rosto ficou no tempo, atrás, quem sabe da lua que não saiu. Uma dor que vira cinza é um signo sem vida, é a perspectiva do nada no vazio do tempo. Uma dor assim nos transforma em uma simples caixinha onde guardam as cinzas.
Uma dor pulverizadora não esconde as lágrimas que se misturam à chuva de inverno que bate em minha janela. Toda dor se confunde com a doença, com o amor perdido e com a ilusão de ser mais uma cor brilhando na noite sem lua. Depois do amanhecer não lerei mais poemas em seus braços, mas a dor ali permanecerá. O instante em que as cinzas caem sob o chão frio é o instante de meu adeus.
Taciturno, não afagarei mais minha dor em seus braços endurecidos pela luta da vida, pelo tempo que teve que carregar os filhos nos braços. As viagens, as despedidas sumiram no tempo das cinzas e agora restou minha lágrima de criança inundando os olhos que insistem em fazer das cinzas o esquecimento de um tempo que não nunca foi nosso.
Uma dor incrustada na alma é mais que olhar todos os espelhos em torno dos olhos secos pelo sol do fim de tarde. Percebo em volta do corpo que ainda repousa em minha cama, com a maciez da pele, a bunda virada para mim, os braços dobrados sobre o rosto. O silêncio diante dos amantes é tão triste quanto o som que absorve os apelos de um soluçou sozinho na transa, “Se erguer os olhos vai ver um clarão. Acima de sua cabeça, a manhã iminente está clareando o céu: o que lhe sopra no rosto é o vento que move as folhas.” (Italo Calvino, Sob O Sol-Jaguar, p.89).
As vozes fundem-se no silêncio e no odor dos corpos que descansam. O primeiro que se levantar irá partir sem dizer adeus. Essa é a única palavra proibida na metáfora dos amantes que usam os “ais” no lugar dos “ois”. Nada mais é espanto de não ser ter sentido o que só pode existir na hora da partida. Há sempre um filme novo passando na cidade.

quarta-feira, 4 de julho de 2007

A fenomenologia das imagens

“As sílabas recolhidas pelos lábios — belo silencioso círculo — ajudam a estrela rastejante em seu centro.”
Paul Celan

Os sentimentos andam ao lado de nossa vontade. Nossos desejos não são alterações meteorológicas e sim psíquicas. São funções de nossas percepções e sonhos. Um cruzar de idéias que percorrem o tempo de nossa existência. Esse cruzar complexo, onde mora o único valor, o que pode nos manter vivos todas às manhãs quando acordamos. É o acordar do “trajeto antropológico” sob as imagens que circulam nosso Ser esse tempo todo. Sonoridade na dor, na despedida e nas chegadas das imagens. O encontro do vivido com o que buscamos mais adiante do olhar.
Meus sentimentos começaram antes do século XX findar. Bem antes, quando ainda sentia poder encontrar através das imagens todas as linguagens que fossem o expressar do cotidiano. O cotidiano lançou seus dados Mallarmaicos que impulsionaria as inspirações nos signos de hoje. Assim acordei pensando em Octavio Paz no seu Arco e a Lira, em que diz: “Não é a técnica que nega a imagem do mundo; é o desaparecimento da imagem que torna possível a técnica”.
As palavras tomam conta dos dias. As gerações, eu leio, incessantemente, me afasto a cada página lida. Fujo dos absolutos. Entrego-me incessantemente à diversidade da vida, da dor, das paixões.
As palavras são mais do que razões para se ter, pensar sobre os objetos e sobre as possibilidades da verdade. Muito mais, elas, agora, a linguagem, o signo me levou para o distante das utopias. Joga-me no deserto dos saberes, da desilusão e do fim de um tempo que se abre ao novo. De outros: do fim dos fins. Sempre a jogar, as palavras verdadeiramente à vida do fluxo e refluxo da dialógica dos acontecimentos.
Um olhar fenomenológico é posto acima disso, do que está dado, é um complexo religar as imagens do cotidiano. À deriva, ao sabor do presente e de todos os tempos, as imagens são verdadeiras como “as noites que fixam sob o teu olho”, escreveu Paul Celan.

segunda-feira, 2 de julho de 2007

L’Amour em Fuite




“Toda vida é um processo de demolição.”
Scott Fitzgerald



Nos encontramos pela última vez na saída de uma sala de cinema. Eu e Sofia tínhamos vivido um amor ainda quando jovens. Eu tinha 25 anos e Sofia tinha acabado de completar 22 anos. Olhei, diante do ombro de um cara com a namorada, Sofia e um sujeito. Talvez o seu namorado. Soube dias depois que se tratava de um cineasta em ascendência, e que tinha ido buscá-la em São Paulo. Até isso o cara fez a mais. Eu tinha ido ao inferno por todo amor que deixei o tempo sugar das minhas entranhas. Todo caso, ela me olhou de soslaio. Sorriu. Talvez pelos meus quase 40 anos, pelo meu jeito de idiota, sem nenhuma garota naquele momento. Sofia caminhou em direção ao café, eu a segui, e perguntei o mais óbvio e patético, - Como tu estás bem. Nem parece que o tempo se alojou em tua pele. O mesmo sorriso, o teu cabelo comprido, assim fica melhor do que a última vez que nos vimos. Ela responde – Antoine, a última vez que nos encontramos tu estavas irreconhecível e com olhar de quem fugia, de quem esperava alguma pessoa ao mesmo tempo. Acho que tu estavas muito bêbado. E como eu estava com o cabelo do mesmo jeito. Sei lá... Isso já faz dois anos, né? Chega de rodeios, o que pretendes? Já não chega... Nesse momento chega um sujeito mais velho que eu, porém bem vestido, e como um velho pergunta se está tudo bem. Eu dou um sorriso e saio em disparada. Vou à rua como a primeira vez que tinha encontrado Sofia. Sem sentir direito as pernas, caminho em direção a minha casa, o único lugar seguro em que posso ouvir Coltrane e Hartman. Torpe são os sujeitos que perguntam, diante de uma mulher, o que um outro está ali interpelando. Deu vontade de voltar e dizer algumas verdades. Mas não havia mais verdades a serem ditas. Tinha vivido um amor maiakovskiano, rilkeniano, e agora só restava o olhar vazio. Atordoado, ainda pensando no filme que tinha assistido e esbarrava na velha paixão. Fui diminuindo o passo, aos poucos comecei a pensar em Truffaut. No filme que assistimos juntos, Choramos juntos na possibilidade do amor dar certo. Talvez tenha dado certo, sim, ontem mesmo eu vi uma garota chorando na rua por ter brigado com o namorado. Parei. Olhei para ela e disse: -esse cara gosta de ti. Não importa que ele te deixe assim na noite, na realidade será dele a lágrima final.
Uma homenagem ao cineasta François Truffaut e ao filme «Amor em Fuga »
Jean-Pierre Léaud : Antoine Doinel
Claude Jade : Christine Doinel


Luis Gomes