quarta-feira, 11 de julho de 2007

O homem nômade ergométrico (parte 1)




"E como os anjos não podem conceber o tempo, a idéia que eles fazem da eternidade é diferente da dos homens terrenos; eles entendem por eternidade um estado infinito e não um tempo infinito."
Robert Musil


Michel Maffesoli retoma à superfície das coisas enlaçando o homem nômade com as novas formas de se mover sem precisar sair do lugar, e ao mesmo tempo estar em todos os lugares. Eis os aspectos que marcam e legitimam essa abordagem sociológica e filosófica que se apresenta no nomadismo do século XXI. Da ordem da representação para a ordem da apresentação é que o signo do presenteísmo aparece.
Quanto mais a humanidade caminha a passos largos, através da idéia de progresso, pelo rastro ordenado do racionalismo, mais esses ideais passam do plano possível e retornam à velha metafísica da modernidade. Aquilo que nunca se desfez em nome de uma razão, em nome de uma verdade última é o que se jogou na lata do lixo do Ocidente. Assim como se busca legitimar a verdade, também se tenta negar todo desvio advindo do cotidiano, do homem, do ludismo, do prazer individual para salvaguardar, em uma tentativa, religiosa e moralista, os pressuposto do homem arranjado para o futuro, pronto para ir além da razão sensível.
A supervalorização do ideal humano. A afirmação do sujeito eivado pela razão e por uma ética nos moldes de Kant. É aqui que o sociólogo e pensador da pós-modernidade e do cotidiano dá seu tiro certeiro. Sua crítica engajada e anárquica vê na sociologia compreensiva, na tradição de Simmel, um instrumental filosófico para discutir com a modernidade que sua tese sobre a pós-modernidade é mais uma verificação, a constatação de um novo tempo, do que um desejo, no qual seus críticos insistem, no desespero por estarem órfãos, em lhe atribuir o irracionalismo.
Surge o novo tipo de nomadismo, um tipo de homem que está em intenso retorno e partida de sua própria casa. Aparece em cena o homem nômade ergométrico. Um novo tipo de homem que vê no real nada mais do que ideal daquilo que não se pode e nem se conseguiu criar para gerações futuras: um futuro garantido e redentor. Estamos à deriva, em tribos, conectados, saindo ou não de nossas cavernas virtuais, mas estamos prontos para circular entre todos os cantos do Planeta. Estamos experimentando esteticamente o retorno ao gozo, e não mais a projeção ao futuro. Isso aproxima e afasta um tipo de homem-social, mas une e abraça um homem desprovido de um ideal apenas. Aproxima à socialidade entre a comunicação e os povos mais distantes e rejeitados dos homens. O ideal de homem está morto nas próprias armas da modernidade: sua crença cega na verdade.
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