terça-feira, 10 de julho de 2007


Metáforas de cinza

“Ela não imagina que deixou uma esteira de poemas tristíssimos e um rastro de dor e lágrimas. Como nos boleros. Não sabe. E não vai saber nunca, porque não vou lhe dar esse gosto.”
Pedro Juan Gutiérrez
“Você me fez rir. Apenas isso, mais nada. Você abriu alguma coisa dentro de mim e depois disso se transformou no meu pretexto para continuar vivendo”.
Paul Auster

Uma dor pulverizadora é uma dor onde não se tem mais espaço para lágrimas. Onde não é mais possível dizer: ela usa batom vermelho, o carro tem a cor do escuro dos olhos e a lua não apareceu. Uma dor pulverizadora é a dor onde tudo vira cinza. Onde o sorriso no rosto ficou no tempo, atrás, quem sabe da lua que não saiu. Uma dor que vira cinza é um signo sem vida, é a perspectiva do nada no vazio do tempo. Uma dor assim nos transforma em uma simples caixinha onde guardam as cinzas.
Uma dor pulverizadora não esconde as lágrimas que se misturam à chuva de inverno que bate em minha janela. Toda dor se confunde com a doença, com o amor perdido e com a ilusão de ser mais uma cor brilhando na noite sem lua. Depois do amanhecer não lerei mais poemas em seus braços, mas a dor ali permanecerá. O instante em que as cinzas caem sob o chão frio é o instante de meu adeus.
Taciturno, não afagarei mais minha dor em seus braços endurecidos pela luta da vida, pelo tempo que teve que carregar os filhos nos braços. As viagens, as despedidas sumiram no tempo das cinzas e agora restou minha lágrima de criança inundando os olhos que insistem em fazer das cinzas o esquecimento de um tempo que não nunca foi nosso.
Uma dor incrustada na alma é mais que olhar todos os espelhos em torno dos olhos secos pelo sol do fim de tarde. Percebo em volta do corpo que ainda repousa em minha cama, com a maciez da pele, a bunda virada para mim, os braços dobrados sobre o rosto. O silêncio diante dos amantes é tão triste quanto o som que absorve os apelos de um soluçou sozinho na transa, “Se erguer os olhos vai ver um clarão. Acima de sua cabeça, a manhã iminente está clareando o céu: o que lhe sopra no rosto é o vento que move as folhas.” (Italo Calvino, Sob O Sol-Jaguar, p.89).
As vozes fundem-se no silêncio e no odor dos corpos que descansam. O primeiro que se levantar irá partir sem dizer adeus. Essa é a única palavra proibida na metáfora dos amantes que usam os “ais” no lugar dos “ois”. Nada mais é espanto de não ser ter sentido o que só pode existir na hora da partida. Há sempre um filme novo passando na cidade.
Postar um comentário