segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Novos Rostos da Ficção Francesa. Uma Antologia


Capa de Letícia Lampert

A antologia é uma pequena amostra da nova ficção francesa. São 22 autores. O lançamento foi durante a Feira do Livro de Porto Alegre no Ano da França no Brasil. O projeto nasceu para difundir a nova produção literária de língua francesa. O interessante é que todos os autores ainda não foram traduzidos no Brasil, por isso o ineditismo da antologia que será distribuída gratuitamente no país. Com o apoio do Ministério da Cultura da França - CultureFrance o projeto se tornou realidade. Temos um belo livro, com biografias, fragmentos das obras e tudo bilíngue. Nouveaux Visages de la Fiction de France é o último trabalho da Sulina.

Morrer como Corbière-Lançamento na Feira do Livro



Do livro "Morrer como Corbière" de Emmanuel Tugny, lançamento hoje, 19h30 na Feira do Livro de Porto Alegre. "É uma luz escura que clareia o espaço, um guia, um anjo mau e bobo que desenha o tempo: anime-se tudo isso e o mundo fará rir um riso amarelo que mexe com a visão clara e diversa do trabalho da morte."

sábado, 7 de novembro de 2009

Raízes do Mal, o romance policial


Eduardo Miotto

Eu já tinha postado antes um fragmento do livro de Maurice Dantec. A capa evoluiu, melhorou. Essa é a que começará a circular pelas livrarias. Saiu o livro Raíze do Mal. Inaugura a col. Flores do Mal. O primeiro é um chute no estômago, uma bomba que é bom se ler tomando café, chá, cerveja, espumante, vinho ou melhor, uma leitura sem sem tomar nada. Ser sorvido pela narrativa do Dantec. Envolve, arrebata até chegar a última página. Um grande livro.
Segue mais um fragmento. Editora Sulina, tradução de Juremir Machado da Silva, 543 páginas, preço de capa, R$ 70,00. Quem mora em Porto Alegre poderá adquirir na Feira do Livro com desconto de 20%.


"Rodávamos pela nacional 9 na direção de Stresa. Seguíamos pela margem sudoeste. O sol pálido da manhã batia na superfície das águas irisadas pelo vento. A máquina reinava no seu box, entre mim e Svet, ligada às baterias fotovoltaicas e ao computador de bordo. A tela mostrava o turbilhão fractal costumeiro dos seus sonhos neurossimulados. Olhei para o cenário das montanhas e do lago de um azul tão intenso. Um espetáculo ainda mais fascinante se dava a ver. A luz dourada brincava com os cabelos de Svetlana e com as maçãs do seu rosto. Semiadormecida, ela mantinha a têmpora contra o vidro. Um traço infantil relaxava o arco dos seus lábios." (p.483)

domingo, 1 de novembro de 2009

Dor longitudinal


Imagem de História do Cinema




“Quer dizer que você também sabe mentir. Que bom. Ainda bem que você sabe mentir.”
Philip Roth



Será que você não consegue provar o tamanho do caminho da dor? Provar com dores nas mãos, no corpo inteiro o caminho por onde o tempo passou e deixou apenas a lembrança numa estrada esburacada como o céu sem fim, cheio de espaços, buracos em que nuvens existem para dissimular a imensidão da dor longitudinal da palavra. Dizer assim é fácil, quero ver estar dentro dessa dor, com dentes rangidos de tanto tilintar de frio, ou do corpo em chamas, a ferver, quando passar o dia todo ao sol, andando de um lugar a outro sem chegar ao fim, em uma estação de trem ou aeroporto. Sozinho. Novamente, será que você consegue expressar a dor diante da perda, a vida que desaparece no último olhar? Não.
Hoje é dia de você descansar sem pensar que a dor está rodando a sua casa. A criação não depende mais dos teus nobres dedos que digitam a dor no texto. A tela está em branco hoje, e você tem o tempo, a partir de agora, até completar 50 anos para escrever e pensar sobre o gosto que tudo isso poderá ter daqui uns anos. A dor não precisa do Ser para dar essa resposta, ela está aquém de uma pergunta filosófica, ela é uma chaga, uma ferida aberta que vive entre os que pensam e os que esqueceram de vez dessa faculdade maluca que é estar na nuvem das razões. Ao mesmo tempo carrega sua mochila de textos, de caracteres virtuais para depois descarregar páginas em branco com narrativas intermináveis e invenções de jogos de linguagens. Ainda assim nem tudo é inevitável, mesmo que necessário em suas perguntas, o tempo é alheio assim se você não fizer com o texto ganhe força junto com o pensar.
Tudo será oculto se o todo for mostrado de uma só vez. Não se consegue, porque essa parte imensa engana os olhos. Você não precisa de razões lógicas para obter respostas extraviadas. Engane os olhos, hoje, somente hoje, mas nada será real se o signo sangrar de vez, nada terá valor se for do início ao fim uma rigorosidade métrica textual. Tem que haver o desatino, uma força máxima de loucura, uma explosão de ideias para pôr o signo na rotação da força do pensamento. Um depende do outro. Nem só esse desejo de perguntar e de saber tentar esquecer a dor será notado no texto se não houver uma descontinuidade de palavras com a imagem. Depois uma retomada disso tudo, através do tempo para se ler com mais calma e espanto, de uma só vez para compreender a dor que as mãos sentem quando se deixa a vida de lado.
Depois, a imagem, repleta de sangue, essa sim, terá a dor expressa para na palavra. Ela será uma extensão da razão, um signo que não existirá por sim próprio, mas terá a ilusão de enganar os olhos de quem acredita na verdade vinda da imagem. Então, você tem agora, a letra guardada, a imagem dentro dela, as ideias sendo traduzidas, as mãos resistindo o tempo que for preciso para escrever e não solucionar nada que possa garantir o futuro. Daqui uns anos, quando você completar 50 anos, suas mãos não sentirão mais dores. Seu corpo será testemunha disso tudo.

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Ler ao sol, Ler na Feira do Livro


Telhados de Paris


“...é o desconhecido que irrompe sobre nós. Cessamos de nos conhecer no futuro.”
Octavio Paz


Hoje começa a 55ª Feira do Livro de Porto Alegre. Esse é o Ano da França no Brasil. Eu como um editor francófono, um convicto e apaixonado pela literatura, o cinema e principalmente pelos filósofos e sociólogos que influenciaram em muito meu pensamento anárquico-poético e imagem em movimento, estão um pouco na feira. Lá estarão em livros que edito e por alguns cantos da praça em outras barracas, como se costuma chamar o estande. Está armado o palco dos livros. Eu me situo, percorrerei as alamedas da praça, até o cais do porto da cidade. Serei mais um leitor perdido entre os papéis que ainda embelezam os olhos que leem e buscam o prazer nos livros. O livro, para mim, como leitor e editor é paixão, o resto são construções para erguermos as instituições da vida, do saber etc.
Um negócio lucrativo que só dará certo se ainda existir leitores. Nem falo dos altos preços do livro, até porque sei a dificuldade que um editor tem para sonhar e publicar os livros que fazem parte dessa Paixão. Ler ao sol, na praça, algo que ainda fascina muitos que irão à Feira do Livro de Porto Alegre. Deveriam existir cadeiras ao longo do cais, com guarda-sóis para as pessoas lerem e ver a tarde se pôr.

Lembrando Nei Lisboa


"E uma paisagem tão comum
Telhados de Paris
Em casas velhas, mudas
Em blocos que o engano fez aqui
Mas tem no outono uma luz
Que acaricia essa dureza cor de giz
Que mora ao lado e mais parece outro país
Que me estranha mas não sabe se é feliz
E não entende quando eu grito."

domingo, 25 de outubro de 2009

Penetráveis no tempo




O que o tempo faz com os amores é a mesma coisa que faz com o tempo de um autor? A literatura, um pouco é assim, me surgiu essa ideia agora lendo e ouvindo música. Lembrei da frase trazida pelo Nelson Motta do Hélio Oiticica, “o que eu faço é música”. É a teia penetrável do texto, é a teia tanto do texto como do amor.
O movimento é que faz com que as coisas não fiquem datadas. Tal qual a literatura, a música, o amor poderá ter esse aspecto duradouro de vida. A vida do texto, depois de muitos anos, alguns que larguei de mão, não consigo sentir prazer mais, é assim mesmo com o amor ou amor é assim como tudo antes? Sim. Tudo antes tem o texto, a música, a geometria das formas dando tom ao amor no tempo. Então, retomo o tempo de um autor, o texto que não datou porque foi penetrável, um caminho para se entrar, se ler, sentir os lados, todos e a musicalidade dos passos, dos olhos nas páginas como a dança dos parangolés.


terça-feira, 20 de outubro de 2009

O fantasma em cena


Godard no filme de Win Wenders -Quarto 666



Philip Roth em "Fantasma sai de cena".

“Quando se realiza um experimento como esse depois de passar vinte ou trinta anos afastado da obra de um escritor, nunca se pode ter certeza do que se vai encontrar, a constatação de que um escritor outrora admirado agora parece datado ou a consciência do quanto se era ingênuo no passado. Mas por volta de meia-noite eu estava tão convencido quanto estivera nos anos 1950 de que o âmbito estreito da prosa de Lonoff, seus interesses limitados e a contenção inflexível que ele adotava, em vez de implodir as implicações dos contos e diminuir seu impacto, produziam as enigmáticas reverberações de um gongo, reverberações que deixavam o leitor admirado de como era possível tanta seriedade e tanto humor se combinarem num espaço tão pequeno, junto com um ceticismo tão radical. Era precisamente a limitação de meios que tornava cada historinha não uma leitura frustrante, e sim um feito mágico, como se uma narrativa folclórica, ou um conto de fadas, ou uma história de Mamãe Gansa, fosse interiormente iluminada pela inteligência de Pascal.”