sábado, 30 de julho de 2016

Velhice

               


Desrespeite meus cabelos brancos, 
eu não sinto nada por você.
Eu sinto a dor que sentes e não percebes.
Tu sentes a vida na dor que vivo.
Respeite a dor do Outro.
Eu sinto, tu sentes,
A luz que nos aquece
A luz que adormece.
Respeite o teu desejo,
Respire todos os poros,
O corpo envelhece.


quinta-feira, 28 de julho de 2016

A literatura dos especialistas

     Paris - Shakespeare and Company

  “Deus tem em jogo sua existência nessa morte livre que um homem resoluto se dá.”
Maurice Blanchot


Existe uma literatura na cabeça, melhor existem literaturas em cabeças pensantes, em cabeças mercantilistas, em cabeças afetadas, e o melhor, em cabeças utópicas. Utopia nos dias de hoje parece mais um livro obsoleto, um livro de pouco interesse de mercado. Quando bate a crise, o livro é o primeiro a cair no esquecimento. Esses dias uma pessoa me falou que a crise é de todos, mas poucos conseguem morrer nela, conscientes de suas ideias, de suas utopias. Fiquei com esse pensamento durante dias, do início ao fim da badalada Flip (em Paraty/RJ), a mesma que prestigia a cultura, que nomeia os melhores, que busca divulgar nossa produção.
Tantas coisas que já não consigo lembrar por falta de interesse em ter essas iniciativas como verdadeiras representantes de nossa cultura. Sei, a Flip, as bienais do Rio de Janeiro e de São Paulo perderam seu brilho. A mídia há muito cometeu o crime, o tiro certeiro no coração da literatura. Não contente com a obscuridade de suas críticas, ainda por cima resolveu ser o olho mágico para ver o novo. Essa imagem, pura poeira, legitimou o texto e o interesse de comprovar que a autoria matou a criação. O autor predestinado nasceu do que foi plantado por agentes deste interesse, de algo maior que legitimasse uma literatura.
Ou seja, primeiro era preciso fazer com que o aprendiz de escritor se tornasse um escritor a partir dos ensinamentos de especialistas. Aí, Ferrou!.
Todo mundo escreve. Todos silenciam em relação a isso quando o resultado é nulo. Neste crime não existe culpado, existe cúmplice. Não vou deslegitimar 30 anos de crime, melhor, não vou denunciar, não nasci para ser representante de um poder oculto. Constato: o que está morto, está agonizando no vazio de leitores e na falta de uma literatura menos credenciada por especialistas.
“A arte parece então o silêncio do mundo, o silêncio ou a neutralização do que há de usual e de atual no mundo, tal como a imagem é a ausência do objeto.”
Maurice Blanchot




segunda-feira, 11 de julho de 2016

Cotidiano



Assim, o olhar encontra naquilo que o torna possível o poder que o neutraliza...”
Maurice Blanchot


Imagem das palavras,
Na simetria os olhos,
Correr à tela. A lente,
milímetro fátuo escorre,
no muro poema pichado.
O caminhar do texto. A representação,
tempo suficiente para a cisão,
embate do corpo arranha.
O dizer extenso do pensamento,
O cérebro guarda, cria além do que vê.
  

domingo, 29 de maio de 2016

Compreensão e Interpretação

    Paul Nash-blue-house-on-the-shore-1930



“Não pretendo convencer ninguém, nem sequer ser convencido.”
Paul Valéry

(parte 2)
Interpretar um acontecimento passa pela forma de como compreender um pouco do mundo, diria a voz no cotidiano. E que toda “interpretação se funda na compreensão” daquilo que pensamos como algo parte de nós, do que está no lado externo, no cotidiano a percorrer a significância de que o que se é compreendido se é projetado à interpretação. Existe a abertura ao mundo a partir da compreensão, o ser está presente no que está pensado. As circunstâncias movem o que está em curso, “o mundo já compreendido se interpreta”[1].

Não estou aqui a pensar a interpretação na esteira lógica do uso da linguagem, mas não posso deixar de lado as tentativas da hermenêutica na contribuição de como a interpretação pode ser a via por onde os caminhos do olhar direciona-se em busca do compreendido. Poderia estar neste terreno seguro e verdadeiro, porém, demasiado superficial, para o curso das águas deste rio que deságua no espaço abstrato das intenções protagonizadas por interpretações no âmbito de fatos contemporâneos. Prefiro percorrer o caminho que passa pelo signo do interpretar que consegue compreender as linhas imaginárias do pensamento, e que nem tudo que é da linguagem dá conta do que é do pensamento, e que nem todo pensamento é o plano mais perfeito para se chegar ao entendimento sobre um acontecimento. Neste ponto, entre o que vem para ser entendido e o que passa para ser legitimado como objeto de análise, talvez, o que se pensa, o que pode dar alguma contribuição poderia compreender que suas verdades passam pelo crivo de uma instância comum, e que muitas vezes correspondem uma velha ordem da interpretação autoritária sobre o mundo.
A opção do pensador livre passa por mais de uma concepção de compreensão: ter a mão as possibilidades de compreender o que a conjuntura do ato interpretativo expõe e jamais esquecer que o mundo sem compreensão é como o ente num mundo sem escolhas.       
Para Heidegger o mundo compreendido se interpreta. No Brasil o mundo da política é o espaço em que as ações são comandadas por canalhas que deixaram de lado a compreensão do mundo para por em prática a imaginação insana de suas ideias que só servem para dualizar questões e temas que são partes de um universo conceitual. A clareza das ideias da política no Brasil é tão plana quanto às ideias de um fanático religioso, ou quando cai no terreno do entretenimento e de um mundo desportista manipulador. O fanatismo tem uma mesma raiz, este dualismo de exclusão e de adoração, que perpetua nas gerações seguintes. Mas o que seria do mundo sem essas veleidades, que para alguns é fonte de vida? A potência dessas linguagens está calcada no mundo perfeito dos mídias. Aqui, quase uma entidade, ou melhor, um quase lugar perfeito, é moldado aos porta-vozes da verdade que desprezam a diferença.




[1] HEIDEGGER, Martin. Ser e Tempo ‒ Parte 1. Petrópolis, RJ. Vozes, 1988.

Abertura



“O decisivo não é sair do círculo mas entrar no círculo de modo adequado.”
Martin Heidegger



O difícil acesso de compreender o Ser é o pormenor dos problemas, o contrário seria mais ininteligível ainda ‒ o Ser compreendido pela facilidade de interpretá-lo. A poética é a única saída viável para se entrar no círculo, o círculo vicioso que Heidegger evoca no Ser e o Tempo. A maneira mais filosófica de compreensão é entrar nesse terreno interpretativo para além conhecimento rigoroso. A poesia é concebida na interpretação hermenêutica que parte dos fragmentos para compreensão do todo.

sábado, 14 de maio de 2016

Nascimento do Poeta

                      Imagem: Sophie Calle



A mãe vem com a lanterna entre as pernas,
Depois virá o pai
Pensando que a obra é sua.
(2007)

quinta-feira, 12 de maio de 2016

Brevidade do sempre

      Antonio Paim - Madri 

“Ora, aqui não se trata apenas de confrontar ideias mas de as encarar e fazer viver, e só experimentando se pode saber do que são capazes.”
Maurice Merleau-Ponty

A vida é breve. É o tempo insuficiente para se dar o fim de todas as dúvidas. Li certa vez em um livro, do qual não me recordo o nome, que a brevidade da vida é que faz um ateu, que o mundo é vasto demais para se ter tempo de senti-lo, que se Deus existe se precisaria mais do que um século para conhecê-lo. Herético esse livro. No mínimo eu deveria suprimir todas as dúvidas filosóficas e existenciais que vem no andar dos dias, na velocidade do tempo.

Ando em busca do tempo que fale mais aos meus ouvidos, não do tagarela moralista a incomodar o lado mais puro, ou seja, crer no não crer é uma atribuição saudável ao Ser.
Pensando bem, não li em livro algum, foi um texto que comecei escrever ainda quando era um jovem estudante de filosofia. Na época queria ter a possibilidade de conhecer o mais longe possível sem abrir mão de brevidade do presente, sem ceder um segundo do presente vivido. Com o passar dos anos, dei-me conta que jamais chegaria ao nível de um sábio pensador, pois o presente estava colado ao corpo. Conseguia no máximo divagar em átimos de solidão que pudessem silenciar diante dos alaridos das pessoas, dos professores, dos amigos, da namorada, etc. A partir de um dia, não lembro mais, teve um dia sim, uma manhã em que acordei com a grande revelação. Pensei, disse em voz alta ‒ não vou mais tentar vencer a dúvida, vou viver a contingência na coexistência, me apropriei de Maurice Merleau-Ponty. Desde já, o “sempre” começou a fazer parte de meu vocabulário, até tive problemas com o “sempre”. Um professor disse-me certa vez que não devia escrever num texto acadêmico “sempre”. Refleti. Acatei momentaneamente o comentário. Depois retornei à expressão do “sempre”, penso, tento abraçar a linguagem, mas o formalismo nos mete medo criando regras. Muitas vezes as regras são descumpridas em nome da liberdade, da criação, das leituras que possamos ter do “sempre”. Nem o próprio professor acreditava no que estava a falar, pois quando se pensa o pensamento já se está no mundo da incerteza da existência do pensante.

Passado os dias, escrevi que o legado da modernidade hiper-racional, que a fundação de um mundo que não consegue mais dar conta de seus pressupostos racionais sobre o mundo. Voltei ao professor, entreguei o texto, com alguns “sempre”, ele me olhou com uma expressão de quase um desde sempre e sentenciou: “maravilhoso, está pronto, precisa de pequenos reparos”.

Volto à brevidade das coisas. O ano do meu nascimento, 1961, morria o filósofo francês Maurice Merleau-Ponty, para muitos o filósofo do que sobrou dos grandes, que não serve para atar o sapato esquerdo de Hegel ou de um Kant. Mas minha simpatia a ele é de longa data, talvez o nome bonito de se pronunciar fez conhecê-lo um pouco mais. Leio até hoje com a frequência desorganizada de um “sempre” fora de ordem e um não seguir de regras definidas de estudo.



segunda-feira, 25 de abril de 2016

Silêncio

     Rouen - France

“...você se dissolve numa imagem do nada. Você come.”
Paul Auster


Como dar conta do silêncio sem acordá-lo do vazio em que está? Todo o recipiente do pensamento está no acontecimento único de estar tomado de uma quietude, de conteúdo, de imagens e cores. Todo o pensar é uma linguagem que escapa do controle, é um signo que diz; mostra o quão o vazio diz tudo sem mover o pensamento do silêncio. Por isso, o silêncio é a melhor maneira de estar sintonizado com o que está acontecendo dentro dos espaços. Do espaço imaginado. Entre as folhas de outono e o que restou do verão, entre chuvas e vozes, ouço o silêncio que transborda. 

domingo, 24 de abril de 2016

Mudança de ar

 

“...Um e Infindo,
destruído,
eu-truído.
Luz havia. Salvação.”
Paul Celan

Isto não é um poema. A poesia é para lembrar o tempo difícil que está para começar, o tempo em que o livro deixará de ser o livro que ilumina. O livro é que clareia ideias, que faz viajar os corações dos leitores a outros mundos. Estaremos em outro tempo? A escuridão das ideias me assusta, temo pelo fim do espaço em que tudo pode ser dito, lido e compreendido, em que o que valerá são os restos de pensamento. Quase nada! Apenas por ser lei. Lei da exclusão, é que terá legitimidade. O mundo é esse eterno queimar, esse esquecimento do que é estranho ao Outro, o que não faz parte do meu pensamento, para os inquisidores faz parte do mundo. Eu preciso de todos os pensamentos para poder escolher meu livro preferido, meu filme, a minha música. É preciso existir a distância para poder ver o que está por perto.


quinta-feira, 21 de abril de 2016

O segredo





“A um ele confia uma coisa e confia outra coisa a outro, certificando-se de que eles jamais irão comunicar-se entre si.”
Elias Canetti


Vivemos num mundo onde o segredo deixou de existir, em que tudo o que é pensado, antecipadamente, já é sabido. O segredo é o lugar em que o indivíduo se submete à verdade daquele que sabe calar. Nas ditaduras o segredo é a vitalidade dos que sabem mandar, e principalmente dos que temem por algo que foge do seu controle. As massas alardeiam, o poder consente o seu silêncio em fúria. O poder mata o Outro com seu segredo, a massa divulga e joga o corpo aos leões. Todo segredo pode ser para o Bem e para o Mal.

O calar dos que recebem ordens é fruto do bom entendimento entre o que sabe mandar e o que sabe seguir as regras de forma ordeira. Esse fantasma jamais deixou de existir. As ditaduras de Direita e de Esquerda são o espelho dos que entendem o calar. Canetti demonstrou que o mais profundo dos segredos “é o que se desenvolve no interior do corpo”. Por estas bandas o que mais se sente no ar é o palavrório dos que falam e falam, mas calam quando deveriam se manifestar. Todo homem que fala demais é certamente o que tem a informação em seu excesso. O certo era ter um pouco de desconfiança, mas todo que demais se cala, deveríamos suspeitar ainda mais. Canetti observou que o segredo dos que calam é a certeza de sua sábia dedicação e inteligência de guardar o segredo dos poderosos, do outro lado, os que falam demais, também, podem estar entregando o ouro aos silenciosos donos do Poder.

O segredo, aquele que detém o poder sob o seu comando, consegue municiar o presente, ele mesmo é o que mais sabe preservar o segredo. Ao mesmo tempo, que tem o controle sobre o segredo, ele não consegue na sua amplidão ter o controle dos segredos existentes no tecido social. O ato de dissimular é propriedade de poucos que sabem manter o sigilo do seu lado. Aliados do silêncio, seus propósitos nunca deixam que o seu segredo se iguale aos demais, pois ele, o que controla, sabe medir o quanto o segredo que detém é preponderante ao imaginário social. 
Imagem: Parque Güell - Barcelona