quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Simone de Beauvoir e Jean Paul Sartre



Eles já estão no Rio, olhando Copacabana antes das festas.

domingo, 13 de dezembro de 2009

Claude Simon e Alain Robbe-Grillet



"Cada romancista, cada romance deve inventar a sua própria forma." (Alain Robbe-Grillet)

“A última parada do bonde ficava cerca de um quilômetro antes do terminal onde os trilhos desapareciam sob a areia da praia, num lugar onde à direita, no meio dessas árvores que crescem nos terrenos úmidos e de ramagem esbranquiçada, abria-se uma longa alameda calçada de pedra também ela quase recoberta pela areia no fim da qual se erguia não propriamente sobre uma saliência mas no alto do que outrora devia ter sido uma duna bastante alta uma construção cercada de pinheiros e de um estilo arquitetônico em moda durante o Segundo Império ou no começo da III República, ou seja imitação, em miniatura, de algum castelo do vale do Loire...”
(Claude Simon – O bonde. p. 67)


“O sentimento de naufrágio cresce ainda com esta parte do texto, em que se trata da longa temporada confusa em Santa Catarina e Rio Grande, na costa distante apenas trezentos ou quatrocentos quilômetros em voo livre (mas por caminhos montanhosos quase impraticáveis) das célebres cataratas que vêm interromper o rio Iguaçu, justo antes de sua confluência com o Paraná, isto é, na fronteira do Paraguai, onde eu acreditava que B, tinha, como tantos outros, achado refúgio, quando a situação em Porto Alegre — durante muito tempo tranquila sob a proteção de suas lagunas — tornou-se de repente inquietante.”
(Alain Robbe-Grillet, p. 72-73)

“Certo, o Novo Romance’ nunca foi uma escola, ainda menos uma teoria literária geral. Sua própria existência enquanto agrupamento de escritores foi, desde o começo contestada, com freqüência pelos mesmos que podem ser considerados como os protagonistas do movimento. Perguntem a Butor, a Pinget, a Duras, a Ollier, mesmo a Sarraute, se os seus livros fazem parte do Novo Romance. Nenhum o admitirá sem reticência, quase todos quererão de imediato precisar suas reservas, vários dentre eles (nem sempre os mesmos segundo as épocas) oporão a tal classificação violenta e totais denegações. Não posso dizer que isso tenha alguma vez me incomodado muito, minha amigável obstinação terá triunfado em relação à frieza prudente, sombria, egocêntrica deles.” (p. 81)

sábado, 12 de dezembro de 2009

Raízes do Mal, o romance



Fragmento do livro, p. 384
Estávamos pelo dia 20, acho, enfim, alguns dias antes do Natal, e eu havia aberto os olhos numa manhã cinza, depois de uma noite agitada em que menininhas eram “colhidas”, em lavouras cheias de espantalhos com cabeça de palhaços, por máquinas loucas e terrivelmente silenciosas, como se tudo se passasse no fundo de um mundo submarino, por exemplo, no fundo de um lago. Eu não havia perambulado pelas redes nessa noite, deixando para a máquina a tarefa de surpreender alguma conexão a uma “Porta 999”. Mesmo assim, amanheci esgotado.
Minha boca estava seca como uma velha esponja esquecida num mormaço. Joguei-me sobre a garrafa de Evian na mesinha-de-cabeceira.
O duplo híbrido me olhava da tela.
– Olá – acabei por dizer entre dois gluglus. Tudo bem?
– Melhor impossível, Dark. A minha noite foi muito boa.
– Ótimo. Assim, contrabalança a minha.
Fiquei em pé com muita dificuldade, forçando as articulações, maltratadas pela noite passada na plantação sangrenta. Caminhei lentamente para o chuveiro.
Já ia abrir as torneiras quando a voz da máquina me chegou através da cortina plástica.
– Inventariei todos os cortes significativos esta noite, Dark. Estamos no bom caminho. Na direção das raízes...
Não respondi e abri com um golpe seco o misturador de água. O jato quente dispersou os restos de pesadelo que atormentavam a minha consciência.
Quando saí do chuveiro, estava apenas recuperando a velocidade normal. Instalei-me na frente da máquina diante da janela que dava para as montanhas.
O céu estava baixo. As cores ganhavam um tom monocromático. Tudo parecia evocar o brilho de um tonel úmido.



Capa de Eduardo Miotto

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Pálida Folha





De repente o amor sorveu a vida.
Atrás dos dias, a noite corria louca,
Treslouca, pálida folha
escorreu dos cabelos um fio de vida.
Enquanto isso: chovia dia a dia após o outro amor
na noite fugidia.

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Nascedouro


Robert Doisneau

Antonio Paim diria — Barthes tem razão em afirmar que a força semiótica da literatura é jogar com os signos em vez de destruí-los, é poder colocá-los numa maquinaria de linguagem. Daí nasceu Maquinaria de Linguagem, nesse jogo de signos, nessa poesia que viaja em barcos perdidos, em estantes empoeiradas, em caligrafias esquecidas. Eu fui atento às vozes do Antonio Paim e Barthes.


terça-feira, 24 de novembro de 2009

Eu que ando nos labirintos


De Boris Pasmonkov

Ando apaixonado por Philip Roth, mas lendo o espanhol Antonio Muñoz Molina, “Vento da Lua”, varrendo meus dias rumo ao fim. Ouvindo música, mesclando trabalho, editando impressões na solidão de Chet Baker ao fundo.
E como diz Roth, “Eu é que lamento não poder devastar você”, e eu que não cruzo as esquinas para não me perder no labirinto, e eu que não piso no tabuleiro para confundir o preto com o branco, então, eu que continuo pensando na chuva que irá chegar. “Me moriré en París con aguacero” como sonhou Vallejo, e eu que mudo o assoalho velho da casa para não pisar nos teus rastros.

Ferdinand Louis Celine em “Viagem ao fim da noite”

“O mês de janeiro era um bom momento para uma iniciativa dessa ordem. Decidimos, porque era mais cômodo, que nos encontraríamos em Paris num domingo, que em seguida iríamos ao cinema juntos e que daríamos talvez primeiro uma passadinha na festa Batignolles para começar, se todavia não estivesse muito frio na rua.”

sábado, 21 de novembro de 2009

Outros diálogos


Tejo

Tímida Alegria
tenho vício à rima, e ao mal de não dizer. e o que perdôo me castiga ao fim da tarde. há cinco anos o silêncio de minha mãe. a casa já só sabe ser mui quieta. mas a vida espanca. amanhã o fim da tarde me espera noutro canto. no avesso do mundo que cala. lá onde revelia é desculpa de minuto para ir a outro ponto: minha secreta viuvez tão longe, severa sobriedade já não é. (Mariane Farias)


Ainda
Chegou como Madredeus agora vindo com "Ainda". Melódico. Um tempo que ainda não cansamos de perder e pensar. A literatura é assim, esses vícios melódicos, doídos no fim de tarde, no encontro do texto com tempo que a solidão se apresenta. Assim, bem assim, eu li o texto.


"O livro de caracteres figurados, não traçados por nós, é o nosso único livro" G. Deleuze em "Proust e os Signos